10/23/2017

O retrato dos pais (Conto), de Alberto Braga


O retrato dos pais

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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A mala-posta, que seguia do Porto para Braga, passava, às 7 horas da manhã, defronte da Isabelinha — aldeola obscura, que fica emboscada em uma deveza cerrada de carvalheiras, entre Santiago da Cruz e a estrada de Barcelos.
Como era subida, os cavalos iam a passo, de rédeas bambas, com as cabeças pendentes, sacudindo com as caudas os moscardos teimosos, que lhes aferretoavam nos ilhais. Na imperial do tejadilho os passageiros cabeceavam com sono. O cocheiro, com o chapéu desabado caído para o sobrolho esquerdo, por causa do sol, e com as rédeas entaladas nos joelhos, petiscava lume da pederneira e acendia pachorrentamente no morrão um cigarro de Xabregas.
— Ainda não enxergo o manco — disse o condutor, com os olhos fitos num atalho, que vinha sair à estrada.
— Toque-lhe a buzina, homem — alvitrou do lado o cocheiro, com a voz rouca da aguardente — toque-lhe a buzina; que, se não aparecer, adeus! a culpa é deles.
O condutor limpou com a palma da mão o bocal da corneta, que levava ao tiracolo, aplicou-o aos beiços, inchou as bochechas de ar, e soprou de rijo, tirando um som roufenho, prolongado, com intermitências, que se ouvia de longe.
O manco, que estava encostado no cunhal do muro, à sombra de um castanheiro, saiu a meio da estrada.
Ao passar a mala-posta, o condutor atirou-lhe do alto com uma saca de brim, surrada, suja e fechada com uma vareta de ferro, em cuja extremidade pendia um aluquete triangular. O manco estendeu os braços para a suspender no ar. Assim que a aparou, sopesou-a duas vezes, com os braços esticados, e observou:
— Hoje pesa!
— Hoje há paquete — explicou sucintamente o condutor.
E, como a estrada principiava a descer em uma ladeira íngreme, volteou com força e à pressa a manivela do travão, e disse para o manco:
— Adeus.
A mala-posta seguiu a trote largo pelo meio da estrada, aos solavancos, levantando nuvens densas de poeira, com grande ruído das rodas, frêmito das vidraças e o tilintar constante dos guizos das coleiras.
O manco atirou para o ombro com a mala das cartas, fincou o braço côncavo da muleta no sovaco direito, e desandou pelo atalho fora, a coxear, para casa do Bento do correio.
Ao fundo do atalho, em continuação do muro tosco dos campos, ficava uma estacada já velha, combalida, esverdengada das chuvas da invernia a resguardar uma leira hortada de couves e cebolinho. Tinha dentro uma casita de telha vã com porta e postigo sem vidraça. Dirigiu-se o manco à cancela da paliçada, correu-lhe o ferrolho perro na armela, e gritou:
— Ó tia Ana! tia Ana!
Abriu-se a porta da casa, e apareceu no limiar uma velhinha trêmula, curvada para diante, com uma roca enfiada à cinta, a fiar estopa.
— Que é lá, manco? — perguntou ela, inclinando-se para fora, com a mão fincada na ombreira.
— Correio! — gritou o manco com um grande berro.
A velha fez-lhe com a mão sinal de que esperasse. Pousou dentro a roca e o fuso, e saiu à horta ajeitando com os dedos as farrepas brancas do cabelo, que lhe espreitavam por debaixo do lenço. O rapaz transpôs a cancela, foi ao encontro da tia Ana, e gritou-lhe com a boca muito aberta:
— Correio! ouviu?
A mulher fitou-o com os olhos espantados, e perguntou:
— Que é? Não ouço.
O manco sorriu-se resignado; colando então a boca ao ouvido da tia
Ana, repetiu com maior brado:
— Correio! correio! ouviu agora?
— Ah! — exclamou a velhinha, esfregando as mãos de júbilo radiante — ouvi, meu filho, ouvi: — é correio!
— É correio, é — confirmou ele com um aceno afirmativo.
E, pondo-lhe a mão no ombro, disse-lhe adeus até logo, correu de novo o ferrolho, e tomou à direita, pelo carreiro de um milharal, caminho do correio.
***
Não se imagina o que é a chegada do correio a uma aldeia qualquer do
Minho! Cartas dos filhos ausentes!
Que ansiedade em ver realizadas as esperanças e…
Deixemos estas considerações, e relatemos os fatos.
Daquela mesma porta, vinte anos antes, saíra uma vez a tia Ana, ainda forte, robusta e sadia, para acompanhar ao Porto o seu querido e único filho, que teimou em embarcar para o Brasil. O homem da tia Ana não se opôs.
— Deixa-o lá, mulher — dizia-lhe ele — se o rapaz tem inclinação, em Deus o ajudando, melhor amanhará a vida por lá do que por cá. Ele sabe ler, ele sabe escrever, ele sabe contas, está mesmo a calhar.
— Ai! meu rico filho — soluçava a pobre mãe, a chorar, com o rosto escondido no avental.
— Não chores, mulher. Partir, tinha ele de partir, mais hoje, mais amanhã. Eu que o mandei ao mestre, não foi para ficar na lavoura. Assim com'assim tanto monta estar o rapaz em uma loja no Porto, como no Brasil. Vem a dar na mesma.
Estas e outras razões do marido venceram as saudades da mãe.
Foi preciso vender dois grilhões e um par de arrecadas, venderam-se; foi preciso vender também uns novilhos, que se engordavam para embarque, venderam-se na feira de Vila-Nova; e apuradas sete moedas e meia, impôs-se o rapaz para o Brasil. No Porto, a tia Ana tomou passagem para o filho, à proa, na galera Constância, da casa dos Penas; mercou-lhe uma caixa de pinho nova; vestiu-o com dois fatos baratos num algibebe da Ponte-Nova; escolheu-lhe um par de chinelas nas sapateiras das Carmelitas; guardou-lhe e ajeitou-lhe tudo na arca, e pôs-lhe a um canto, com a maior devoção, o registro do Bom Jesus do Monte.
Pobre mulher! Liquidou as parcas economias, que representavam privações e sacrifícios, afadigou-se de trabalho, ralou-se de saudades, chorou muito; e, quando viu de terra a galera Constância seguir lentamente rio abaixo, com as velas enfunadas pelo nordeste e a proa inclinada à barra, caiu de joelhos e de bruços no cais de Massarelos, com as mãos trêmulas atadas na cabeça, a soluçar aflitivamente pelo filho da sua alma, que lhe acenava com o lenço, debruçado na amurada do navio, a chorar!
***
Chegou a primeira carta a Isabelinha decorridos três meses da partida do rapaz. Foi um alegrão que os pais tiveram! A carta era escrita em papel paquete, muito fino, pautado; e até como os portos do Brasil estavam suspeitos de febre amarela, vinha o papel todo golpeado. Foi lida a carta pelo Bento do correio, foi lida pelo boticário, foi lida pelo Sr. cura, antes de ser delida pelo calor do seio da mãe, que a guardava junto do coração, como relíquia; e, de cada vez que ela ouvia as palavras do filho, era um chorar copioso, que retalhava o coração. O Brasileiro da Granja, que induzira o rapaz a embarcar, esse sorria-se, e consolava-a deste modo:
— Deixe lá, tia Ana! Ali é que um home se faz gente. Está aqui, está um Brasilero como a mim. Lhe garanto, tia Ana, que o rapaz se tiver tento na bóia, hem? arranja patacaria gorda, e, em pouco tempo, atiça baixela em casa.
Nenhumas destas consoladoras esperanças, nem até a de atiçar baixela em casa, leriam as saudades daquele coração atribulado da tia Ana.
— Ora! — opunha ela com a voz nasal e soluçante de quem suspende as lágrimas para falar. — Em um homem tendo saúde e a graça de Nosso Senhor, em toda a parte do mundo é Brasil! Riquezas são o demônio.
— Não diga patacoadas, mulher — contestava o Brasileiro azedo e carrancudo — não diga patacoadas.
Depois, passados mais anos, à proporção que as saudades da aldeia se desvaneciam no ânimo do rapaz, as cartas iam rareando.
De quatro em quatro meses escrevia para a terra, dizendo que o trabalho lhe roubava o tempo de o fazer amiudadas vezes. Que não tivessem cuidado, que ia bem de saúde e que esperava ser feliz em poucos anos.
A tia Ana, quando não tinha carta no correio, ia da Isabelinha a Braga, a pé, entrava no Carmo, ajoelhava à beira da campa do milagroso Frei Joãozinho da Neiva; e, com as mãos postas em súplica junto da boca, implorava com ansioso fervor pela saúde e prosperidade do filho ausente. Ao passar pela caixa das esmolas, à entrada da igreja, lançava algum dinheiro no gasofilácio. Pedia a Nossa Senhora da Conceição dos Congregados pelo filho do seu coração. Entrava em Santa Cruz, ajoelhava em frente do altar do Senhor dos Passos, e rezava uma estação e um rosário com as faces de rojos; subia a beijar os pés da sagrada imagem; e benzendo-se três vezes com a corda d'esparto puído e lustrosa, que cingia a túnica do Senhor, retirava-se às recuadas, rezando a meia-voz, até sair do templo!
***
Seis meses antes do manco anunciar à tia Ana que tinha chegado o correio, recebeu ela uma carta do filho, dando-lhe parte de que ia casar com menina rica, de nascimento — dizia ele — prendada. Queria o retrato dos pais, e enviava-lhes dez moedas para as despesas necessárias.
Quando isto constou na Isabelinha, houve geral regozijo.
— Eu não lhe dizia, tia Ana — lembrava-lhe uma vizinha. — Se eu logo vi!
Aquele seu Joaquim nunca me enganou. Eu futurei aquilo!
— Pois isso bastava uma pessoa olhar para ele — acudia outra, aleitando um filhinho gordo, que tinha no regaço — Aquele olho dele, lembra-se, tia Josefa?
— Pois não alembra? O rapaz era fino, que nem um alho! Se aquele não se arranjava por lá, então — boa te vai! — não sei o que há de ser de outros que foram depois. Olhe vocemecê, tia Ana, aquele filho da moleira, o zerolho; aquilo é um morcão, que não serve para nada.
A tia Ana, sem atentar no confronto, que lhe realçava as qualidades do filho, ria e chorava simultaneamente. E não se sabia dizer se aquelas lágrimas serenas iluminavam o sorriso, se o sorriso mais entristecia as lágrimas!
Dois dias depois da recepção da carta, resolveram-se, ela e o marido, a ir a Braga para tirarem o retrato. Vestiram-se com a melhor roupa domingueira, que servia para a romaria do Espírito Santo, no Bom Jesus do Monte. Ela ia toda sécia de saia escura de serguilha, com tomado e muitas pregas miúdas no cós, colete de chita amarela salpicada de florinhas verdes, camisa branca de linho com mangas enfunadas e abotoadas no pulso, meias finas, e soquinhas de pano azul com ponteiras de verniz.
Atou na cabeça um lenço branco de cambraia bordado, lançou aos ombros o capotilho novo de baeta escarlate debruado de fita larga de veludo preto com as pontas caídas à frente, até à cintura, e tomou na mão enrugada e seca um lenço engomado de franja e entremeios de renda.
O marido enfiou as melhores calças de pano, avincadas, com abertura embaixo a apolainarem o tamanco, colete de fostão amarelo com duas ordens de botões de vidro, niza azul de abas curtas, gola alta, botões amarelos, as mangas justas de canhão até à raiz dos dedos, e colarinho muito engomado e teso apontado ao lobo das orelhas.
Pôs na cabeça chapéu de feltro de copa afunilada, e sobraçou o guarda sol de paninho escarlate com espigão de metal lustroso e um cabo de osso representando um punho, toscamente esculpido nos torneiros da Bainharia do Porto.
Atravessaram assim o Arco da cidade em Braga; e seguiram pelo meio da rua do Souto, um ao lado do outro, radiantes, em busca do retratista.
Adiante da galeria do paço episcopal, deparou-se-lhes pendurado na ombreira de uma porta um quadro grande de caixilho doirado com muitas fotografias em exibição.
Perguntaram na loja de panos, que havia ao lado, onde se tiravam os retratos; e, devidamente encaminhados, subiram ao segundo andar, onde ficava o atelier.
O fotografo retratou-os em grupo, um junto do outro, ambos de pé, o marido com a mão direita espalmada assente sobre a espádua descaída da mulher.
Ficaram com as cabeças muito levantadas, os olhos arregalados e espantadiços, os beiços franzidos, os membros hirtos e constrangidos, em uma atitude lôrpa, grotesca e ridícula!
***
Logo que o manco partiu, a tia Ana seguiu-lhe no encalço para procurar carta do filho.
No dia em que chegava a mala do Brasil, iam as mulheres da Isabelinha pedir ao Thomé boticário, que deixasse ir o filho ao correio para lhes ler as cartas.
Se não havia fregueses a aviar, o pai mandava-o, e o Andrezinho partia alegre, porque gostava da brincadeira.
Era lindo ver aquele quadro!
O rapaz sentava-se no espigão de um muro baixo, à sombra de um sobreiro. Em volta dele, mulheres e homens apinhados, com as bocas abertas, escutavam-no com religioso silêncio.
O filho do boticário ia lendo uma por uma, muito vagarosamente, as cartas que lhe entregavam.
Não havia segredos para ninguém.
Como o rapaz lia de alto e bom som ouviam todos as cartas uns dos outros, como se fossem uma só família. E alguma notícia triste ou notícia alegre era igualmente sentida e comentada por todo o auditório.
A tia Ana, como já lhe custava a andar, chegava no fim de todas.
Cediam-lhe logo passagem.
— Deixai, que eu tenho tempo — dizia ela, com a carta do filho apertada na mão.
Por fim, chegou-lhe a sua vez.
O filho acusava a recepção dos retratos, mas dizia que não tinha gostado. A tia Ana entristeceu.
A carta prosseguia no mesmo assunto e terminava assim:
“Vão vocemecês a casa do meu correspondente, os Srs. Nogueira & Sá, da Rua das Flores, e perguntem pelo meu amigo e sócio Joaquim da Silva Ferreira, que lhes dará as instruções precisas”.
O André, depois de ler, explicava sempre:
— Percebeu, tia Ana? Quer que vocemecê e o seu homem vão ao Porto, à Rua das Flores, a casa dos Srs. (e recorria à carta), dos Srs… Nogueira & Sá, e lá procurem o senhor…, o senhor… (recorria de novo ao papel) Joaquim Ferreira da Silva, que, pelos modos, vem a ser o sócio do seu José. Percebeu?
— Percebi, percebi.
— Pois é o que tem a fazer; e adeusinho, até outra vez.
O rapaz restituiu a carta; e, como não havia mais ninguém por ali, saltou do muro, e voltou para a botica.
***
Na loja de ferragens da firma comercial Nogueira & Sá, estavam, havia cerca de uma hora, a tia Ana da Isabelinha e o marido à espera do sócio do filho, que os mandara esperar ali.
Era meio-dia, quando o Brasileiro entrou.
O patrão Nogueira apresentou-os ao recém-chegado. A tia Ana e o homem levantaram-se humildes, com os braços caídos, conturbados de acanhamento.
— Então são vocemecês os pais do meu sócio, hein?
— Saiba vossa senhoria que sim — responderam ambos em coro.
— Pois por muitos anos, e bons — disse-lhes o Brasileiro.
Tirou da algibeira do colete branco um relógio de ouro, viu as horas, e voltando-se para o Nogueira:
— São horas. Tem lá cima tudo preparado, hein?
— Está tudo pronto — respondeu o ferragista.
O Silva voltou-se para os lavradores, e disse-lhes:
— Subam lá cima com este senhor, que eu espero-os aqui. Não si demorem, hein?
A tia Ana seguida do homem subiram a uma sala do primeiro andar. Sobre um canapé de palhinha estava estendido um casaco preto, um par de calças, um par de botas e um chapéu alto de seda. Ao lado havia um vestido de seda preta com folhos, um xale de caxemira, uns sapatos de duraque, um chapéu de veludo carmesim com flores amarelas e plumas brancas.
Entrou na sala uma criada velha das manas do Nogueira, tomou nos braços o vestido de seda, o chapéu, o xale e os sapatos, e pediu à tia Ana que a seguisse ao gabinete próximo.
O caixeiro da loja ficou só com o lavrador. Disse-lhe que mudasse o fato d'aldeão que trajava e o substituísse por aquele que via ali.
— Mas… opôs timidamente o pobre do homem.
— Eu ajudo-o, eu ajudo-o. Ande depressa.
E, à pressa, atabalhoadamente, tirou-lhe a niza, o colete amarelo e as calças de saragoça.
Quando o homem se sentou em uma cadeira para enfiar o cano das botas, caiam-lhe da testa bagas de suor copioso.
Estava aflito, quase apoplético, com o laço da gravata a apertar-lhe a garganta, como a corda de um enforcado.
Aquele casaco pesava-lhe nos ombros como uma armadura de aço de D. João
II.
Abriu-se a porta do gabinete e apareceu a tia Ana vestida de senhora. Oh! Os pés estorciam-se-lhes nos sapatos, o chapéu caia-lhe para a nuca! A criada vinha atrás, a passo, como aia que segue uma rainha; e, lançando um olhar e sorriso maliciosos ao caixeiro, dizia:
— Hein? Estão que nem dois fidalgos!
Marido e mulher empalideceram e tremeram quando se viram naqueles trajes. Despertou-lhes na consciência o sentimento do ridículo.
Entreolharam-se mudos, contrafeitos, e desceram ambos, com muito custo, amparados ao corrimão, os degraus da escada até à loja.
E a criada e o caixeiro, que os viam do patamar, abafavam com a mão na boca as gargalhadas da troça.
— Ai o diacho da velha — exclamava a criada a rir — que me parece mesmo um entrudo!
***
Entraram ambos na fotografia Fritz, da rua do Almada.
O sócio do filho explicou ao retratista como desejava o grupo.
Passaram ao atelier, muito desconfiados, a olharem-se de soslaio.
O homem bofava, a suar constantemente.
Foram colocados no foco, um ao pé do outro, com uma mesa de permeio, e por detrás com um reposteiro azul, que caia em amplas dobras sobre o tapete. Quando o fotografo assestou sobre eles a lente da máquina, retirou de repente a cabeça de sob o pano de veludo preto que o cobria, e observou espantado:
— Então vocemecês estão a chorar?!
Enxugaram os olhos à pressa, e colocaram-se na mesma posição.
À segunda tentativa, porém, as lágrimas e os soluços irromperam violentos; e o homem da tia Ana, afastando-se da mesa, dirigiu-se ao sócio do filho, e expôs-lhe, a chorar:
— Como assim, meu senhor, nós não tiramos o retrato. E, enxugando as lágrimas ao canhão do casaco, continuou:
— Nada; escreva vossa senhoria ao meu José, e diga-lhe que não senhor, que… não pode ser!… Se ele não quer mostrar à senhora o retrato que lhe mandamos, é o mesmo, que diga… que já não tem pai, nem mãe!
Aqui foi um soluçar aflitivo e um abanar convulsivo de cabeça, que deixou estarrecido o Brasileiro.
A tia Ana concordava com o marido:
— Diga-lhe, meu senhor, que nós — dizia ela com voz trêmula — que… morremos, sim que já morremos… ambos!
***
Na tarde desse mesmo dia, quando os últimos raios do sol poente purpurisavam a cumiada das montanhas, e pelos respaldos dos outeiros vinham descendo as sombras esfumadas do crepúsculo, voltavam ambos para a Isabelinha.
Sentavam-se repetidas vezes na orla do caminho, a fingir que a distância os fatigava! Permaneciam silenciosos durante alguns minutos, um ao lado do outro, com os olhos esmorecidos e roxos de chorar.
Mas o homem, quando via rebentar as lágrimas nos olhos da mulher, fazia-se forte, continha a comoção, e dizia-lhe baixo, a sorrir contrafeito, acotovelando-a de esguelha:
— Então, ó Ana! Ai! que já não tenho companheira para as romarias!
E era triste ver então aqueles dois velhos seguirem para a sua aldeia, a pé, cabisbaixos, a suspirarem de quando em quando, com o coração retalhado pela mais cruel das decepções!

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