terça-feira, 3 de outubro de 2017

O Seringueiro (Conto), de Humberto de Campos


O Seringueiro

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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CAPÍTULO I

À semelhança de um inseto minúsculo e amedrontado que se refugiasse na base de um penedo, fugindo a inimigos invisíveis mas certos, a povoação de Graça, com a sua capela, e a sua dúzia de casas, repousa, há mais de um século, no sopé da Ibiapaba. Às três horas da tarde, quando o sertão imenso, para os lados da Meruoca, ainda fulgura iluminado, já está ela mergulhada no seu manto cinzento, preparando-se para o descanso da noite. É que o sol, descendo por trás da serra cortada a pique, projeta sobre aquela parte do sertão a sombra larga da montanha, como se Deus a quisesse esconder, antes das outras povoações cearenses, contra os incontáveis perigos da terra e do céu.

Foi nesse pequeno recanto sertanejo que o Joaquim Lucrécio, partindo das margens do Acaraú, onde era lavrador, se deteve em 1878. O seu objetivo, de quem fugia ao flagelo que tudo devastava, era alcançar a Serra Grande por uma das ladeiras de Leste. Ao chegar, porém, às proximidades da encosta, caiu a primeira chuva. O Jaibara encheu, arrastando na descida detritos de árvores e ossadas de animais. E como a esperança de fartura voltasse ao coração dos homens, o retirante recebeu um convite para o serviço e levantou, à margem do rio, a pequenina casa de palha para abrigo da mulher e dois filhos, o João e a Carolina, que a morte poupara no êxodo.

Foi aí, sob a proteção da serra enorme e verde, que os dois irmãos se criaram, apurando a coragem nas lições da natureza e na áspera vida de privações. Enquanto a velha mãe gemia, entrevada, sobre a esteira de carnaúba estendida no chão de barro batido, e o pai, tostado pela soalheira e curtido pela miséria, procurava trabalho nas fazendas vizinhas, ia a menina à cacimba, no leito seco do rio, com o pote à cabeça, buscar a água para os serviços domésticos, ao mesmo tempo que o irmão, mais velho que ela dois anos, cortava, em companhia de outros da sua idade, as folhas tenras das carnaubeiras para extração de cera e aproveitamento das palhas na confecção de chapéus.

Assim cresceu a Carolina. Assim cresceu o João.


CAPÍTULO II

Aquela vida de penúria, em que se sucediam, às vezes, os dias em que o sustento de cada pessoa se limitava a um punhado de farinha e a um pequeno pedaço de rapadura, não podia, porém, perdurar sem protesto. Carolina tornava-se moça. Morena e pálida, opilada pela alimentação deficiente, possuía, contudo, os traços finos, delicados, do mameluco originário, em que predominavam, no entanto, as características da raça branca. Andava pelos quinze anos e não parecia ter mais de treze. Apenas, traindo a idade, os seios se lhe avolumavam opulentos, como uma árvore tenra que concentra toda a seiva destinada ao tronco no esplendor e na glória dos frutos. Os cabelos, cor de mel, apertados em trança descuidada, punham-lhe à mostra a testa bem feita, desenhando-lhe, ao mesmo tempo, a correção da cabeça pequena. Os olhos negros, pareciam mais negros na esclerótica acentuada pela anemia e os dentes mais alvos através dos lábios descorados pela miséria. Não fosse o vestidinho sujo e roto, de riscado grosseiro, e dir-se-ia uma dessas antigas imagens da Virgem, que tivesse permanecido sepultada durante séculos e perdido, ao contato da terra, a alvura fresca do marfim. O irmão, planta agreste do mesmo terreno pobre, desenvolvia-se com a mesma lentidão. Lia-se-lhe, entretanto, nos olhos pequenos, de luz concentrada, não a mesma resignação, mas o desejo incontido de romper as cadeias que o prendiam à terra madrasta, e partir pelo mundo em busca de pão, de dinheiro e de felicidade.

E esse dia chegou. Tinha ele dezessete anos quando soube, no Graça, que se achava no Pacujá um paraoara, um cearense enriquecido no Amazonas, o qual estava contratando trabalhadores para o serviço de seringal. O primeiro pensamento do sertanejo foi correr à casa, pedir licença ao pai, e abraçar a irmã e a velha mãe entrevada. Refletiu, porém, rapidamente. Se fosse pedir o consentimento paterno certamente não o obteria. O velho sentia-se doente, acabado. E com a convicção da morte próxima, não admitiria, naturalmente, que faltasse à companheira, e à filha moça, o único arrimo com que elas poderiam contar. Seria melhor, pois, não tornar mais à casa, e partir sem o consolo, a dor e os riscos da despedida. No regresso, com o dinheiro economizado, redimiria, com a fartura no lar humilde, o pecado de ingratidão.

Partiu, assim, a pé, viajando à noite, para o Pacujá. Apresentou-se ao paraoara e foi aceito. Três dias depois chegava a Camocim, onde o esperava o navio. Dois dias rolou no convés da proa, sacudido pelo balanço do mar. No terceiro surgiu-lhe no fundo de um estuário coalhado de navios uma cidade enorme, com os seus trapiches de mil pernas avançando sobre a água e as suas torres espetando o céu baixo, como chaminés de navios imensos, formados desde o porto pelas casas de três andares. Era Belém, o Pará. Outro navio pequeno, um "gaiola", achava-se, porém, à espera dele e dos companheiros. Uma barcaça levou-os, amontoados, como gado humano, de um para outro. E a viagem, agora por um rio, continuou. Do segundo dia em diante o "gaiola" começou a parar de quinze em quinze minutos, ou de hora em hora, atracando a pontes ligeiras, em que embarcava bolas de borracha, e desembarcava sacas e caixas de mercadorias. Dia e noite a mesma faina. Até que, uma noite, por volta das duas horas, todo o pessoal vindo com o paraoara teve ordem para preparar-se, a fim de desembarcar. Um apito na curva do rio e, em breve, aparecia uma pequena luz no alto de um barranco, dominando uma frágil ponte de tábuas. Sombras imprecisas moviam-se na sombra.

— Salta, gente! gritou o agenciador.

Sessenta e dois homens tristes, macerados pela viagem e pelos sofrimentos na terra do berço, desembarcaram, trazendo à mão, à cabeça, ou ao ombro, o seu saco, a sua trouxa, o seu baú.

E João Lucrécio estava entre eles.


CAPÍTULO III

Oito anos decorreram, acumulando-se sobre esse dia ou, antes, sobre essa noite. Confiado a outro seringueiro, veterano na faina, para que o iniciasse na extração do antigo ouro negro, o rapazola do Graça sentiu, logo nos primeiros dias, o inominável suplício do arrependimento. As estradas de seringueira que lhe haviam sido destinadas ficavam em plena selva, longe dois dias do barracão. Para moradia, encontrara, já, a barraca de palha, com soalho de troncos de palmeira, rachados ao meio. Fora, ao lado da barraca, a pequena latada para a defumação da borracha, e que lhes servia, ao mesmo tempo, de cozinha. Próximo, rolava, o rio, para baixo, as suas águas escuras, deslizando entre duas paredes de vegetação compacta, de que se desgarravam caules de açaizeiros, como braços de condenados que, atravessando as grades de suas células, pedissem perdão ou socorro. E em torno à barraca humilde, sufocando-a, asfixiando-a, comprimindo-a, a mata imensa, ameaçadora, impenetrável, o tronco encostado ao tronco, a fronde presa à fronde, e os cipós amarrando tudo em um verde feixe compacto, no qual a estrada para o centro se abria pequena, estreita, insignificante como um buraco de rato na majestade de um muro.

Às três horas da manhã o companheiro levantava-se, empurrava a porta de esteira, empunhava o búzio, e um rugido de dor, de angústia, de saudade, cortava a solidão silenciosa. Outro búzio, ao longe, respondia, na mesma queixa resignada. E outro, ainda mais distante. Eram os galés daquele presídio, vasto como um mundo, que se comunicavam sem, às vezes, se conhecerem, dando a notícia de que ainda viviam. E o silêncio caía em seguida, sepultando, de novo, centenas de homens vivos.

Preparando o café, ingerido às pressas com farinha ou bolacha, tomava cada um o seu lampião de querosene, o facão, a machadinha, e penetrava a estrada de Seringueiras, abrindo no coração da selva espessa o olho vermelho do farol. Ao chegar a uma das árvores cuja posição determinava as oscilações da vereda ziguezagueante, — árvore mártir, sangrada mil vezes, durante anos seguidos, desde as raízes até a maior altura do tronco, seis ou oito metros acima do solo — o seringueiro subia os "mutás" ou giraus superpostos, indo lá em cima golpear a casca rugosa e o cerne generoso, que logo lhe respondiam jorrando o seu leite. Fixadas, sob os golpes, as tigelinhas de folha, o homem descia, e continuava, silencioso como um fantasma, o seu caminho.

Surpreendia-o nessa peregrinação a madrugada. Encontrava-o o sol, de que ele tinha notícia apenas pela claridade doce que se coava pela copa das árvores, cuja vastidão lhe impedia a vista do céu. Às onze horas, enfim, o seringueiro desembocava outra vez, pelo lado oposto da estrada, diante da barraca. Almoçava o feijão preparado na véspera. E reiniciava a romaria da madrugada, recolhendo num grande frasco de folha, no "boião", o leite recebido pelas tigelinhas, que ficavam junto às próprias árvores para o trabalho do dia seguinte. À tarde, chegava à barraca, defumava o leite, preparava a borracha. E posto ao fogão o feijão e o pedaço de carne seca ou de caça apanhada casualmente durante o dia, deitava-se, fatigado, na rede macia, suja, ouvindo a orquestra imensa, constituída por todas as vozes da natureza, que o insultavam, e o vaiavam, e o desafiavam, da sombra das folhas, da cavidade dos troncos, do cimo das árvores, da margem do rio — no coaxar dos sapos, no zumbir dos insetos, na reza do vento, no estalido dos galhos, no rugido das onças, acordadas para comer...


CAPÍTULO IV

Ao fim de oito anos de trabalho heroico e de economias desesperadas João Lucrécio solicitou a sua conta ao patrão. Tinha de saldo na casa nove contos de réis. Pediu uma ordem para lhe ser paga essa quantia no Pará, e embarcou no primeiro "gaiola". Viera menino, e voltava homem. Não era mais o mesmo, nem de figura, nem de alma. A natureza bárbara afeiçoara-o de novo, modelando-o à sua imagem. À tez queimada do caboclo do nordeste substituiu a amarelidão doentia, e opilada, dos que vivem na sombra. Um bigode alourado e grosseiro completava-lhe a fisionomia, que uma cicatriz aberta pela unha de uma onça encontrada certa manhã no seu caminho, modificara profundamente.

Ia, enfim, rever o seu Ceará, e, nele, o seu pai, a sua mãe, a sua irmã, aos quais nunca enviara a mais ligeira notícia. E perguntava a si mesmo:

— Viverão todos ainda?

Se alguém lhe pudesse responder, ter-lhe-ia dito que o seu sonho era vão. A mãe, a velha Rosminda, morrera pouco depois da sua partida, não de mágoa, porque em seu coração não havia mais lugar para o sofrimento, mas de miséria e de fome. O pai falecera mais tarde, vitimado pelo veneno de uma cobra, que o surpreendera na limpa de um roçado alheio. Não, porém, sem ter visto, na vida, a sua filha mais ou menos amparada, pois que a casara com o Vicente Monteiro, um rapaz das bandas do Cariré, que possuía, de seu, algumas cabeças de gado, a casa de taipa e um roçado de milho. Homem pobre, mas trabalhador e honrado.

Ao desembarcar em Camocim, João Lucrécio soube, logo, pelas pessoas que foram a bordo procurar serviço da estiva ou no desembarque de bagagens, que a seca lavrava, intensa, em todo o sertão. E se ninguém lhe desse a notícia, ele tê-la-ia adivinhado pelo movimento da pequena cidade marítima, arranchada sob as árvores da rua da frente, patenteando na fisionomia e na nudez toda a extensão do seu infortúnio. Intimamente, porém, rejubilou. A sua chegada, era, agora, oportuna, pois que levava, no dinheiro que lhe enchia o bolso, a saúde, a fortuna, a alegria. E imaginava, com volúpia íntima, o que seria o contentamento na casinha das margens secas do Jaibara, quando ali chegasse com as suas quatro malas pregueadas, e mostrasse à mãe entrevada, ao pai envelhecido, à irmã bonita, e ainda moça, os cortes de fazenda, as sandálias de couro, os brincos de plaqué, os lenços de cambraia vistosa, os trinta presentes, em suma, que lhes trazia. E ainda mais quando apalpassem o dinheiro, as cédulas de quinhentos, de duzentos e de cem mil réis, que eles, por lá, jamais tinham visto.

João Lucrécio desembarcou para um hotel, em frente, mesmo, ao trapiche a que atracara o vapor. Pela madrugada, tomava o trem, com passagem para a estação de Cariré. Às nove horas estava em Granja. Ao meio-dia em Sobral. E às três horas na pequena vila onde pretendia saltar, a fim de arranjar condução para o Graça. Ao verem sair do carro a sua bagagem rica, e a sua figura de paraoara feliz, os retirantes que se abrigavam nas vizinhanças da estação cercaram-no, pedindo-lhe uma esmola, a mão estendida. O choro de vinte vozes, em que misturava a das mulheres, a dos velhos e a das crianças, era como uma reza alta, que se avolumava a cada instante. O seringueiro deu alguns níqueis, e procurou sair dali, naquela mesma tarde.

— Quer me comprar um cavalo e dois burros, moço? — indagou um fazendeiro que pretendia desfazer-se do que possuía, antes que a seca lhe matasse o que ainda restava.

— Quanto quer?

Feito o preço, João Lucrécio adquiriu os três velhos animais. E como se lembrasse ainda dos caminhos, e preferisse, para efeito da surpresa, viajar sozinho, mandou por as malas sobre os muares, e montando no cavalo de sela, tocou-o sertão a dentro, e partiu.


CAPÍTULO V

O sertão estava, então, todo seco, sem a sombra de arvoredo ou vestígio d'água, entre o sopé da Ibiapaba e a linha da Estrada de Ferro. Na quietude da tarde, João Lucrécio sentia isso. Ao fundo, no horizonte, a serra azulava, como se corresse para ele, tão perto lhe parecia, na atmosfera sem vapores. De um lado e de outro do caminho, os mofumbos e marmeleiros agrestes estavam reduzidos a talos comburidos, como um tabocal após a passagem do fogo. A noite caía lenta, envolvendo tudo, como um sudário imenso, lançado sobre a terra pela piedade divina. O céu, estrelado e baixo, parecia a cúpula enorme da tenda suntuosa de um poderoso rei oriental. As estrelas luziam tanto, e pareciam tão próximas, que iluminavam a estrada. Uma coruja começou a gargalhar à pequena distância, no galho em cruz de uma árvore morta. João Lucrécio persignou-se, arrepiado. Lembrou-se que nunca fizera isso no Amazonas, porque, por lá, mesmo nas horas de medo, nunca se lembrara de Deus. O cavalo e os burros resfolegavam, sopravam forte, quebrando a serenidade da noite. Grilos ziniam, insistentes. E ele, vivo, marchava, a passo, como um fantasma, pela tristeza dos caminhos mortos.

Em certo momento divisou, porém, à margem da estrada, uma casa humilde, sem luz. Resolveu fazer alto ali, para continuar a viagem pela manhã. Aproximou-se tocando o cavalo na frente, puxando os muares pelo cabresto.

— Ó, de casa! — chamou.

A porta de madeira tosca abriu-se timidamente, e uma figura humana desenhou-se na meia escuridão.

— Boa noite! — saudou o paraoara.

— Deus lhe dê boa noite — respondeu uma voz de homem.

— Seria possível, amigo, eu passar a noite aqui, para seguir de madrugada?

— Se quiser, pode; mas, como o senhor sabe, por aqui não tem água nem pra bicho, nem pra gente.

— Isso é o menos — atalhou João Lucrécio, apeando-se. — Eu trago ração de milho e uma borracha com água. O que eu quero é só licença para ficar.

Meia hora depois, na salinha da casa pobre, ceava o paraoara o rancho comprado em Sobral: um pedaço de carne, farinha, um quilo de bolacha, uma lata de sardinha e uma garrafa de vinho. Ao lado dele, junto ao tamborete improvisado em mesa, o dono da casa um caboclo de musculatura forte, escaveirado, acompanhava-o na refeição, a que se associava a mulher, esquelética, em cujos olhos afundados nas órbitas luziam a dor e a fome. Em poucos instantes o pequeno farnel foi todo devorado. E como se sentissem, todos, por um momento, felizes, o seringueiro pôs-se a falar, com a indiscrição alegre da meia embriagues.

— O senhor não é mesmo daqui... — aventurou o dono da casa, atordoado também pelo vinho que aceitara dó hóspede, e que começava a atuar sobre a sua debilidade.

— Não, senhor — informou o paraoara — Eu sou do Rio Grande do Norte. Vim por aqui para passear... Fui pra Amazonas e fui feliz. Ganhei um dinheirinho, e agora vim ver isto por aqui... Quero ver se compro alguma fazenda barata, lá para o pé da serra...

E, jovial, por efeito do álcool, e, não menos, por vaidade, para escandalizar a miséria alheia:

— Dinheiro é que não falta!

E arrancou do bolso um forte maço de cédulas, capeado por duas de quinhentos mil réis, que passou às mãos trêmulas do sertanejo e da mulher, que as examinaram, piscando.

Em seguida, os donos da casa armaram, mesmo na sala humilde, a rede do hóspede. Desejaram-lhe boa noite, e recolheram-se, pensativos, para o fundo da cabana. Voava-lhes no cérebro o bando agoureiro dos pensamentos sinistros, que nenhum dos dois tinha coragem de confessar ao outro.


CAPÍTULO VI

Qual dos dois falou primeiro, não se poderia, talvez, descobrir. E ainda menos o que teria primeiro lembrado ao outro o insulto que constituía, perante Deus, a presença, ali, daquele estranho, tão despreocupado e tão rico, precisamente no dia em que eles, tendo perdido todos os haveres, representados pelo gado morto de sede e pelo roçado destruído na fogueira do sol inclemente, pretendiam abandonar, a pé, aquelas terras adustas, a fim de se unir em Sobral aos milhares de retirantes que viviam da caridade pública. A verdade é que, cerca de meia-noite, quando se não ouvia na cabana escura senão o roncar compassado do viajante e, lá fora, em torno à casa, o chocalho dos animais por ele trazidos, os dois, marido e mulher, penetraram, pé ante pé, na sala pequena. Um baque surdo, e fofo, um gemido abafado, um barulho de líquido em jorro, estremecimentos de um corpo que cessa de viver, e foi tudo. Minutos depois a enxada do antigo lavrador cavava, na escuridão da noite, atrás do curral vazio, uma cova estreita e rasa. E nela desaparecia, para sempre, com a rede em que adormecera, o paraoara feliz. Tiradas as peias dos animais, foram estes espantados para longe, a fim de afastar suspeitas, se estas surgissem. Acesa uma vela de carnaúba, contaram os dois, de mãos sôfregas, no interior da casa, o dinheiro encontrado nos bolsos do assassinado. Havia quatro contos e duzentos mil réis.

Vamos ver a bagagem, — convidou o marido, com tremores na voz, como quem começa a despertar de um sonho terrível.

Abertas as malas foi examinado, às pressas, o que nelas havia. Cortes de chita, espelhos, anéis, broches baratos, vidros de perfume, pentes, miudezas para presentes humildes. E latas de conservas, e doces. E roupas novas, algumas não vestidas ainda. De repente, no meio de tudo, um papel, uma conta, que talvez esclarecesse a identidade do morto.

— Lê tu, que sabes, — pediu o caboclo, passando a conta à mulher.

A sertaneja soletrou o primeiro nome. Soletrou o segundo, até o meio. Os lábios tremiam-lhe, como uma flor murcha acossada pelo vento. O papel caiu-lhe da mão, e a vela depois, apagando-se. E foi no escuro que ela, o estupor estampado na face, se atirou ao pescoço do companheiro.

— Vicente, meu marido da minh'alma! — exclamou.

E agarrada ao esposo, num grito de desespero, os olhos escancarados na treva:

— Era... meu irmão!...

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