segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O sonho da noviça (Conto), de Alberto Braga


O sonho da noviça
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Quando Gertrudes chegou à portaria acompanhada da tia e do primo, no relógio da torre do convento bateram pausadamente cinco horas da tarde.
O mosteiro de Santa Clara ficava situado no respaldo de uma colina e emboscado em uma deveza de carvalhos. 
Era nos primeiros dias de novembro. O céu, toldado de nuvens, que corriam para o norte batidas de um vento áspero, estava de uma tristeza indefinível. Às vezes, uma nuvem mais densa, cor de chumbo e pesada, escurecia o firmamento, e uma chuva miudinha, como um borrifo, caia então obliquamente. Quando passava a chuva, um pé de vento forte e rasteiro levantava em redemoinho as folhas amarelecidas do outono, que alastravam o chão. 
A fábrica do convento era pobre, de frontaria humilde; e as paredes escuras e deterioradas pelo decurso dos anos acentuavam o conspecto melancólico e lúgubre da clausura. 
Em um nicho fronteiro à porta da entrada, aparecia a imagem de Santa Clara, vestida com o hábito de freira, os olhos extáticos levantados para o céu, suspendendo, com fervor ascético, nas mãos brancas, uma custodia doirada. Debaixo do hábito apareciam os pés da santa, quase nus, cruzados no peito pelos atilhos amarelos das alpargatas. 
Diante do nicho, uma lâmpada de ferro, pendente de um carritel, oscilava como um turíbulo; e a luz tênue da lamparina bruxuleava a espaços, ainda esmorecida na claridade poente do dia. 
Antes de entrar, esteve Gertrudes com a cabeça descaída sobre o ombro da tia, a chorar; depois, cingiu-a estremecidamente no derradeiro abraço, soluçando:
— Adeus, minha tia, adeus! 
Aproximou-se de Mateus, que assistia do lado, pálido e trêmulo, àquela separação, abriu os braços para o apertar, e disse-lhe com voz débil, fitando nele os olhos rasos de lágrimas: 
— Mateus!… 
E transpôs soluçante e oprimida o limiar do convento. 
*** 
A comunidade viera receber à entrada, segundo as praxes conventuais, a soluçante noviça. As freiras professas e as recolhidas estavam dispostas em duas filas, tendo à frente a madre-abadessa, já muito velha, arrimada a um báculo de prata lavrado. 
Aquela sala de recepção era úmida, espaçosa, fria e soturna. Entrava-lhe a luz tênue coada pelas rexas oxidadas de duas frestas, que davam para o claustro. Ao fundo, sobre um altar e no meio de duas jarras com palmas e flores artificiais, estava a imagem de um Cristo de metal amarelo, com os braços abertos cravados nos braços de uma cruz de jacarandá. No peito nu e descarnado do Cristo refletia-se, como uma chaga viva, a luz vermelha da lâmpada de latão suspensa do dossel. 
A escrivã passou o braço com protetiva ternura à cinta de Gertrudes, e encaminhou-a para diante da Abadessa, dizendo-lhe a meia-voz: 
— Beije a mão à nossa madre-abadessa, menina. 
Gertrudes baixou os lábios à mão trêmula da freira, e recebeu em uma postura humilde, com os olhos fechados, o abraço receptivo. Em seguida abraçou-a a escrivã; e depois, de abraço em abraço, foi Gertrudes passando todas as freiras e senhoras recolhidas até à derradeira. 
***
Abria para a cerca a janela estreita da cela de Gertrudes. 
Avistava-se ao longe, recortada no azul límpido do céu, a cumiada alvacenta e escalvada de uma serra. 
Mais abaixo, por entre a verdura da encosta, descia a estrada em largas curvas, como uma fita que se vinha desenrolando e alargando pelo monte. 
Ao meio-dia, quando o sol caia perpendicular, a diligência subia vagarosamente, levantando espessas nuvens de pó. Viam-se os almocreves, que vinham à cidade, trazendo pela arreata a recova dos machos. 
Em madrugadas serenas, ouvia-se até o chiar longínquo dos carros de bois pelos atalhos das aldeias, o telintar monótono das campainhas dos machos e o estalido seco do chicote da mala-posta. 
Um dia, logo que saiu do refeitório, enquanto as freiras se recolhiam às celas para dormir a sonata da sesta, dirigiu-se Gertrudes para a cerca.
Era uma hora da tarde. 
Na horta, as largas folhas das couves pendiam desmaiadas com o calor intenso da estiagem. Na ramaria verde do pomar rumorejava uma viração agradável. Em torno à folhagem escura das laranjeiras, na vibração da luz, agitava-se uma nuvem transparente de efêmeros
Por debaixo das latadas passeavam de braço dado algumas meninas recolhidas.
Gertrudes seguiu sozinha, cosida com o muro, por onde havia uma esteira de sombra. Ao fundo da cerca, encostado ao tronco de uma magnólia, que projetava no saibro seco e faiscante da rua uma larga sombra, havia um banco de pedra. 
Gertrudes sentou-se, tirou do bolso do avental um livro brochado, e abriu-o cuidadosamente, retirando com as pontas dos dedos, dentre as folhas marcadas, um grande amor-perfeito já mirrado e desbotado. 
Ao cabo de alguns minutos de concentrada leitura, ouviu pipilar em cima. 
Na extremidade de um ramo, que balouçava de leve, chilreava um passarinho, inclinado para baixo, entreabrindo assustado, com frêmitos, as azas. Gertrudes pousou o livro de banda, subiu ao banco, e, fincando-se na ponta dos pés, aprumou-se para espreitar. 
Entalado num esgalho e meio oculto na folhagem, havia um ninho fofo e tépido, do qual surdiam duas cabecinhas penujentas. Pousada no rebordo do ninho, estava uma toutinegra, ministrando o alimento aos filhos. 
Gertrudes estava encantada! Até suspendia a respiração, com receio de perturbar a tranquilidade do ninho! 
***
À noite, com a cabeça deitada sobre a brancura virginal do travesseiro, a noviça suspirava e sorria, acalentada num sonho de criança! 
Ora vejam!
Estava de pé, sobre o banco da cerca, espreitando o ninho da magnólia. Os passarinhos implumes abriam sôfregos o bico para receberem da mãe o alimento.
Gertrudes identificava-se tanto com o que via, que — em sonho — chegou a sentir o gozo inefável da mãe que administra o sustento aos filhos. As cabeças penujentas dos pássaros do ninho — que graça! — já lhe pareciam duas cabecinhas loiras de criança deitadas no mesmo berço!
E o pássaro que chilreava em cima, alcandorado no ramo superior, foi perdendo, pouco a pouco, a forma que tinha e — como a gente vê num quadro dissolvente — foi transformando a cabeça pequenina de ave em uma cabeça de homem, com cabelos anelados, os olhos pretos e vivos, o bigode farto, e um doce sorriso de pai…
E entreviu, então, Gertrudes, através de uma nuvem cor de rosa, em que o seu espírito se embalava, a imagem clara do primo Mateus, que a contemplava, a sorrir!…

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