quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Pobre menino! (Conto), de Visconde de Taunay


Pobre menino!

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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I 

Em dia fresco e de chuva miúda, viajava eu na estrada de ferro Central.

Vinha de São Paulo para o Rio de janeiro em trem que parecia, contra inveterados hábitos, dever chegar à hora regulamentar.

A locomotiva como que se aprazia a devorar o espaço – na frase consagrada – por tempo tão grato que dispensava calor, poeira e grandes atrasos, e o jornadear, calculado por tabela oficial de paradas certas, inflexíveis, sempre as mesmas, era relativamente agradável.

Na estação do Cruzeiro, onde desde largos anos – ia dizendo séculos – imperam o porte dominados, a alentada bengala, a enérgica gesticulação e as barbas medievais e enchumaçadas do major Novaes, entrou uma família, regressando de Caxambu.

Pai, mãe, bastante moços, esta ainda vistosa, bonita, um filho de 12 para 13 anos, visivelmente doente, duas criadas, uma branca, outra preta, e um molecote, vestido de pagem, muitas malinhas de mão, xales, cobertores, travesseiros, garrafas de leite e águas minerais, embrulhos com restos, sem dúvida, da matalotagem, comida à descida da serra.

Tudo aquilo às carreiras se arrumou nos bancos vazios ao lado e ao redor de mim.

Afinal, apitou a máquina e partiu o barulhento comboio.

Cansado de ler, esgotados os jornais de São Paulo, parcos de novidades, e um tanto aborrecido com um romance de Charles Merouvel comprado no Garraux, que não me interessava, nem merecia interesse, pus-me a observar os recém-chegados.

No rosto de todos, a inquietação, concentrada no menino que, apenas sentado, pedira para se deitar.

— Sinto-me tão fraco! Exclamou dolente. Não tenho mais forças!...

E com muita solicitude, criadas e molecote, auxiliando apressados os amos e obedecendo-lhes às indicações, arranjaram os meios de dar melhor cômodo ao doentinho, cujos pés iam além do banco e se contraiam de cada vez que passavam os empregados do trem.

Sim, doente, muito doente até. E tão simpático, tão meigo, uma expressão de tanta doçura na fisionomia, nos olhos bem rasgados, pestanudos, negros, cintilantes, mais do que há vida normal, uns olhos de sofrimento e febre!... Os lábios como que reviam sangue, de tão rubros; em compensação, as orelhas, muito grandes, desgraciosamente apartadas, da cabeça, umas orelhas desmarcadas, como as do malogrado Napoleão IV, mostravam-se brancas, diáfanas, num grão de deplorável e significativo descoramento.

Impressionaram-me logo de princípio os modos e as observações do menino.

A cada momento, sorria para os pais com imensa ternura, repassada de melancolia, ainda que nessa contínua e comovedora carícia transparecesse a vontade de lhes incutir coragem e esperanças.

— Apesar de tudo, disse todo superexcitado, estou mais valente do que homem. Assim mesmo não posso ainda estar olhando pela janela. Que pena! Tinha tanto que ver! Apenas ficar bom havemos de viajar a valer, não é? Levarei os meus cadernos de estudos e lucrarei muito. Não deve haver melhor modo de aprender do que viajar. O livro vai sempre aberto diante dos olhos... E eu, que fazia outra ideia da Mantiqueira... mais sombria, mais cheia de buracões e pedras. Tão catita, que ela é!...

E buscando outra posição, gemeu surdamente.

— Sentes muita febre, boi? Perguntou a mãe com angústia.

— Muita, não... já disse à mamãe, menos do que ontem; assim mesmo tenho cá dentro em fogo!... Mas que bonita a serra desde o túnel até ao Perequê!...

— Talvez a frialdade da água te tivesse feito mal, observou o pai; dois copos cheios...

— Que mal, papai? Nunca bebi com tanto gosto, nunca! Eram uns copinhos... parecia que aquela água devia curar-me afinal...

E como que em subdelírio:

— Que bonita a descida! Como o céu estava puro! Eu quisera poder, como um passarinho, atirar-me de cabeça para baixo, voando, voando, por cima de todas aquelas montanhas e dobras e matarias! E o sol como brilhava, com um calor tão bom, de saúde; não como calor de febre! Lorena, não é, papai? Já embaixo, na várzea, uns pontinhos brancos. Quanto é boa a vida, a vida... a gente sentir-se valente, robusto... sem necessidade de tanto remédio amargo!

— Vamos pôr-lhe o termômetro? Propôs a mãe para o marido com uma lágrima a cair-lhe da pálpebra.

Recalcitrou um pouco o pobrezinho.

— Não, mamãe; sempre esta maçada! Ficar parado um tempão... e para que, afinal? Esta febre não quer me deixar... bem feliz se puder ir vivendo com ela... me acostumando aos poucos.

Resinou-se, porém, com gracioso amuo e quedou se imóvel e silencioso, com o bracinho esquerdo bem encostado ao peito.

E os olhos negros, pestanudos, cintilantes, giravam de um lado para outro, enquanto a ponta da língua em contínuo vaivém, molhava os lábios ressequidos e gretados pelo ardor da terrível consumpção.

Cruzaram-se os seus olhares com os meus e tiveram como que um sorriso de simpatia e cordialidade, com uma pontinha de vexame por estar assim doente, aniquilado, naquela inferioridade da moléstia triunfadora, invicta.

Embora um tanto casmurro na viagem e nada propenso a entabular relações com adventícios companheiros de caminho, não me contive e, inclinando-me para o lado em que estava a mãe, perguntei-lhe, abaixando a voz:

— Desde muito enfermo este interessante menino?

Respondeu-me e senhora com verdadeiro açodamento de quem acha uma válvula de expansão a constante e incompressível sobressalto.

—Muito não... uns quarenta dias. Nem o senhor imagina como boi era forte e são... dormia como um chumbinho... bom apetite sempre, ávido de movimento... Boi não parava... travesso como um cabritinho, muito bonzinho porém, sempre...

E boi isto e boi aquilo. Chamava-o assim desde criancinha. A madrinha, muito dada a leituras inglesas, lhe pusera essa apelido familiar...

— De que não gosto nada, interrompeu o menino com engraçada seriedade. Eu me chamo Alberto.

Mas a mãe continuava:

— Haviam feito, no mês anterior, um passeio fatal à chácara de uns amigos para os lados do Jardim Botânico, ele se agitara demais com os camaradas numas correrias sem fim, se resfriara...

— Brincaram perto de uma vala aberta de pouco, explicou o pai...

— À noite, perturbação de digestão, e desde aí uma febre tenaz, rebelde, que nada pudera atalhar. Tomara já quinino... um desproposito!... um horror!... Depois continuas mudança, Gávea, Engenho Novo, Cascadura, Barbacena, Caxambu, tudo sem resultado...

— Não há tal, contraditou o pequeno, já estive pior... E não desanimarmos. Olhem, façam tudo para não me deixarem morrer... Tenho tanto que aprender e estudar!... Que atraso este tempo todo em pura perda! Como o Cardoso e o Souza devem ter-se adiantado nas aulas!... Quando é que hei de pegá-los agora?...

Não pensava em outra coisa, ia-me dizendo a mãe, enquanto as lágrimas, como que já por hábito, lhe corriam a fio. Tão boa criança, tão estimada de todos, estudioso... tanto estímulo! Uma ambição insaciável de saber... Muitas vezes se levantara ela da cama para apagar-lhe a vela e fazê-lo deitar-se... Ardendo em febre, pedia os livros, queria seguir as lições, ouvir os professores... Nunca se vira coisa igual... Tirara já bonitos prêmios... livros muito dourados, com gravuras...

— Já mamãe está falando de mim, interrompeu Alberto com ligeiro tom de repreensão. Este senhor há de desculpar... é de toda a mãe. Não sou melhor do que tantos outros...

E o seu rosto ensombreceu-se.

— Pelo contrário, valem mais do que eu, muito mais...

— Porque, meu amiguinho? Perguntei comovido.

—Oh! Eles têm saúde; eu nunca mais hei de tê-la, ainda que escape desta... Também, de agora em diante saberei arredar-me sempre de valas abertas... Verdade é que me diverti tanto!

E recomeçava o subdelírio:

Cada qual nascera com a sua sorte. O Carlinhos, que caíra dentro do fosso e se molhara dos pés à cabeça não tivera nada... e ele!... Quanto se rira, que boas gargalhadas dera, vendo o companheiro atolado... Saíra sujo de lama, que era uma miséria... E a borboleta azul que estavam perseguindo fugira, fugira; subindo muito alto... E as azas tinham-se aberto largas, imensas, como um manto... tomando dali o pouco o céu todo, de ponta a ponta... Também, que lembrança, querermos pegar o céu... o céu!

Aí, fazendo um esforço sobre si, perguntou impaciente:

— Papai, não é tempo de tirar o termômetro? Está me incomodando. Além da febre e sede... esta caceteação!...

Era tempo.

— Quantos graus? Indagou a mãe com dolorosa sofreguidão.

— 38º e 8, respondeu o pai. Hoje, bem melhor do que ontem, pois a esta hora Alberto tinha 39 e 2.

Via-se porém, que encobrira a verdade, pois destoavam as aquietadoras palavras com o ar de desalento que simultaneamente se lhe estampava no rosto. Ao guardar o termômetro no estojo de metal, fez-me imperceptível sinal.

Levantei-me e fingi que ia refrescar o rosto no cubículo ao lado, poeirento e sujo toilete do vagão.

Daí a pouco, chegava o homem.

— 39 e 8, foram as suas primeiras palavras, pontuadas de terror.

E, acabrunhado, pôs-me a contar o caso, banal, diário, tão comum, mas sempre pungitivo da sua imensa desgraça. Esse menino, a alegria da sua vida, a vida da sua mulher, ricos eles, sem mais objetivo algum na existência. Agora, aquela febre invencível, que zombara de tudo e lhes estava matando a adorada criança, debaixo dos olhos, dia por dia. Mudem de ares, era o incessante conselho dos médicos; o recurso único que lhes restava. E não faziam outra coisa; de um lado para outro, semanas inteiras. Para onde mais ir? E os terrores em lugares distantes, ermos, sem recursos, sem para quem apelar, quando vinham acessos de estupenda violência!...

Ao tomar então nos braços o filho, parecia que o tirava de um braseiro... queimava... Como poderia por mais tempo resistir organismo tão delicado?... Que cruel expiação era essa? E expiação por quê? Afinal, nem ele, nem a mulher tinham culpas ou crimes a pagar? Porque os esmagava, tão dura, a mão de Deus? De que o acusava a justiça eterna? Confessava ter sido sempre bastante orgulhoso dos haveres herdados e sobretudo daquele filho tão perfeito... Mas quem o fizera assim? Não fora a própria natureza? Casara-se por amor com uma moça pobre, rejeitando propostas de enlaces ricos. Nunca se arrependera, porém... haviam, até pouco, sido tão venturosos! Parecia que a felicidade era um crime. A vida devia ser triste, agoniada, passada em lágrimas e travada de amargos desgostos...

E ao dizer tudo isso, apesar de violento esforço, tinha as pálpebras molhadas. Via-se que aquele homem sofria cruelmente, sobretudo na altivez inata, ao ter que abrir o peito, por irresistível impulso, a um desconhecido que arvorava, na conturbação da sua dor, em amigo e amigo íntimo.

Pouco se importara, a princípio, com a tal febre, não pelas afirmações, sempre tranquilizadoras, dos muitos médicos consultados, a mestrança, portanto, graças a Deus, podia pagá-los generosamente; mas afigurava-se-lhe impossível, fora de toda a ordem, lei e justiça, que a vida do seu Alberto pudesse perigar. Nem de leve lhe passara isso pela mente... nunca!...

Um menino destinado a tanta coisa! Havia de ser, por força, homem excepcional, conquistar as mais altas posições no Brasil, dando prestigio à enorme fortuna que lhe era destinada... Herdeiro universal do avô riquíssimo, com duas tias solteironas, de que era o ai— Jesus, ambas com muitas posses, quem podia contar com futuro mais brilhante?... Eles, os pais, tinham de renda mensal nada menos de cinco contos e gastavam-na com regra e prudência, fazendo às vezes apertadas economias, para que o Alberto na sua carreira política jamais se preocupasse com o dinheiro, encontrando-o sempre à mão... Tudo isso, tudo seria debalde? Arredava do espírito à possibilidade de irremediável desastre... mas...

E a custo lhe saíam as palavras... mas a morte a nada atende... a nada! É inexorável!

Prorrompendo então em soluçoso pranto, agarrou-se a mim, convulsivamente.

— Ah! meu filho, Alberto! Quanto é castigada a minha soberba! Está perdido... perdido!... E por quanto tempo, por quantos dias ainda o hei de possuir?

Sacudi-o com certa energia:

— Silêncio! Sua senhora pode ouvi-lo! Olhe, lave o rosto; esconda os sinais da sua comoção. Naturalmente exagerava o perigo...

O desconsolado pai abanou a cabeça; mas obedeceu-me opresso e alquebrado.


II

Quando voltamos aos nossos bancos, parecia Alberto presa de agitado sono. Pelo menos, tinha as pálpebras caídas, como que prostradas por vontade alheia ao organismo.

 Via-se que febre intensa lhe trabalhava nas veias – faces escarlates, beiços rubros, estremecimentos repetidos por todo o corpo, fulgurantes. Relâmpagos de frio – assim nos dissera-lhe ziguezaguevam pela espinha dorsal, contraindo-lhe, de cada vez, os bracinhos magros, descarnados.

— Água, água, murmurou a custo, depois de algum tempo e abrindo com sofreguidão os lábios secos, ávidos.

O molecote, Apresentou-lhe rápido um copinho de leite, cortado com água mineral.

Mió, nhonhô? Perguntou baixinho com expressão de tocante e inquieto interesse, miósinho.

 Com um gesto de dedo, respondeu não o pobre do menino.

Em extática e inexcedível desolação, o contemplava a mãe, achegando os cobertores, quando um movimento mais impacientado e vivo do doente os atirava ao chão, naquelas crudelíssimas alternativas de algidez e de inaturável calor.

— Apenas chegarmos ao Rio — disse ela para o marido, que, sorumbático, olhava pela janela a fugitiva paisagem – devemos logo embarcar, fazer uma longa viagem de mar, talvez até à Europa...

Entreabriu Alberto os olhos e, em tom de ligeira malícia, objetou:

— Ora, a malvada embarcará conosco... Está dentro de mim; não me largará mais...

E o trem corria, corria! Entre Mendes e Rodeio, engolfou-se no túnel grande, acordando barulhos ensurdecedores, de fantásticos ferros a se chocarem, sopros gigantescos, estalos enormes e sufocadora fumaça.

— Mamãe... mamãe! Chamou o menino com indizível angústia.

E ela, inclinando-se toda sobre o malsinado, como que a defendê-lo de misterioso inimigo, a chorar, o acalentava, qual criancinha de berço.

Ia então desembocando em ofuscadora claridade a locomotiva, triunfante e a apitar estridente e galhofeira.

— Como é boa a luz, como é boa! Exclamou Alberto erguendo nervosamente a cabeça e com ar de verdadeira exultação. Pensei que ia morrer. A morte deve ser assim; um túnel, do qual a gente não sai mais nunca, comprido, comprido e tão escuro, Santo Deus!... E onde a boa mamãe para animar o filhinho... só, abandonado!...

Não sei por que, julguei dever intervir, como que desvendar consoladora clareira às negras ideias daquele menino tão combalido e ameaçado.

— Não, Alberto, repliquei com involuntária gravidade e imposição, na morte há Também muita luz, muita esperança, muito céu, o verdadeiro céu, sempre azul e grandioso... Na morte, mil alegrias e gozos esperam a alma, como a vida não as pode dar... O túnel acaba logo... começa depois sem demora a realidade, eterna, cheia de encantos e esplendores... Ilimitada é a bondade do imenso Criador!

 E estaquei, vexado do que acabara de expender na vivacidade espontânea daquela espécie de preleção tão descabida.

Mostrara Alberto certa surpresa ao ouvir essas palavras, e, encarando-me muito sério, respondeu com resinado desalento.

— Pode ser, pode bem ser... mas eu não quero ainda morrer!...

E retraiu-se ao Silêncio. De vez em quando tiritava, encolhendo-se todo e a bater os queixos. Buscava, porém, cauteloso, dominar manifestações que impressionassem mais os pais, atentos ao menor sintoma de agravação, tão atentos quanto impotentes e vencidos; pobres, pobres pais!

Passada a estação de Belém, já noite escura, observou a mãe, para dizer qualquer coisa, que o trem não parava mais senão no Rio, no campo da Aclamação.

Contrariou-a Alberto com inesperada alacridade e, nos olhos subitamente acesos, pareceu ter singular prazer em assentar incontestável verdade:

— Não, senhora; para ainda em Cascadura.

E como suscitasse dúvida o que afirmava, eu mesmo opinando contra ele, mostrou bastante resolução e jovialidade em sustentar a sua asseveração.

— Você não se lembra, José, que o trem de São Paulo costuma parar em Cascadura? Perguntou para o molecote, levantando-se a meio.

— Iô, nhonhô? Respondeu o pajenzinho todo assarapantado, iô, não... ué!

E tal a figura atrapalhada do negrinho pela obrigação de interpor juízo no debate, que não pudemos, todos nós, deixar de sorrir.

— Que tolinho! Exclamou Alberto.

E deu uma risadinha gostosa. Depois caiu novamente em comatoso abatimento.

E, à luz vacilante, cheia de vaivéns, quase sinistra das fumosas lâmpadas, o íamos observando, cada qual entregue a penosas meditações que se concentravam, em doloroso acordo, num ponto único.

Identificado, como se fosse velho amigo, ou, mais ainda, parente chegado dessa gente, que eu nem de longe conhecia, cujo nome ignorava e nem sequer procurava saber, sofria com eles numa contensão dura, cruciante, numa afinidade afetiva de maior intensidade e violência.

Que viagem interminável! Que hora aquela! Tudo tão sombrio em torno de nós! Cessara a chuva; mas as trevas úmidas, gotejantes, se condensavam carrancudas, caliginosas, como que palpáveis. E a cada estação eram apitos e assobios de perfurarem os ouvidos, ou então clamores angustiosos e um bater de sino melancólico, lúgubre, a dobrar finados.

— Ainda por cima este agouro, murmurou uma das criadas num como muxoxo.

Em Cascadura parou, com efeito, o expresso, e um trem de subúrbios com ele cruzou num estrondear ensurdecedor de fragorosos gritos, uivos e sibilos, como que a anunciarem pavoroso e irremediável desastre, choques horríveis, encontro medonho.

Boi, boi, clamou a mãe simulando certo júbilo, você é que tinha razão! Olha...

— Nhonhô, nhonhô, avisou por seu turno o molecote achegando-se e puxando de leve o doentinho por um braço, tá hi Cascadura.

Conservou-se Alberto inerte, indiferente, suspirou apenas com mais força.

— O túnel... o túnel... Depois vem luz e céu... Bem me disse o homem...

— Não será bom ver o termômetro? Propôs a mãe com respiração cortada, ofegante.

— Não, mamãe, pelo amor de Deus, pode ainda implorar o pequeno.

Já aí entráramos na zona dos subúrbios e os lampiões de gás, cada vez mais chegados, indicavam a proximidade da capital. As estações todas iluminadas, cheias de burburinho e animação populares. Numa delas tocava uma banda de música saltitante peça e o contraste desses alegres compassos mais me apertou o coração.

Revoltava-se, contudo, o meu egoísmo. Que necessidade essa de me associar a todo aquele drama íntimo, que me trazia tão consternado enquanto me abalava o sistema nervoso? Por que não mudava de lugar, não procurava outro qualquer vagão? Afinal, não era aquilo tão comezinho? Não assistira a tantos episódios de agonia e morte? Mais uma criança que desaparecia no baratro insondável... para dar razão às estatísticas. Que importância no desenrolar geral da existência? Gota d’água pura e cristalina a cair no abismo... Não era, mesmo por isto, um afortunado da sorte? Saía da vida sem as misérias e desilusões que a vão assaltando... limpo de toda a poeira e lama...

Procurava distrair o espírito; mas aí se me prenderam as vistas insistentes, teimosas, hipnotizadas aos olhos então largamente abertos de Alberto, não mais desassossegados e em tresvario, mas num movimento lento de oscilação, como que destacados das órbitas a se mexerem um tanto ao acaso. De quando em quando parecia que se sumiam, caídos, sem mais apoio, dentro do crânio vazio, oco. E me diziam, assim mesmo, tanta coisa, me falavam de tantos mistérios, me interpelavam com tamanha ansiedade!...

Interrogavam súplices, meigos, quem, em boa hora, lhe dera do mundo de além ideia outra, que não de simples terror e aniquilamento para sempre, naquele instante tão próximo da suprema partida.

Sim, deveras, lá, fora daqui, também sóis, também flores, esperanças, carinhos? Também o aconchego doce, protetor de entes bons, superiores, compassivos? Palavra?! Podia confiar? Não o quisera enganar... A levá-lo dali a pouco, longe, longe, pela imensidade na desconhecida viagem, o regaço de algum anjo, faria vezes da estremecida mãe? Para que, porém, deixá-la? Para que despedaçar o coração daqueles fulminados pais? Amavam-no tanto, tanto!

Quem incutira, porém, a esse homem desconhecido o poder de saber quanto se passava da outra banda da vida? Talvez fosse um desses anjos destinados a carregá-lo, não era?... Ah! o disfarce mostrava-se bem claro! Por que, porém, não se deixava enternecer? Não via a pungente dor dos que o cercavam? Pedisse a Deus misericórdia... consentisse-lhe o viver... A ninguém, nunca fizera mal algum... Prometia tudo... não por ele, mas pelos pais... Passaria os anos a estudar, a dispensar o bem, o amor, a pagar a dívida solene de interminável gratidão! Senta quieto, refletido, honesto, caridoso, a sacrificar-se pelos outros, por todos... amigo dos humildes, dos mendigos e desgraçados!... Mas tivesse pressa... do contrário não o acharia mais na terra... Bem sentia a morte... sim, a morte...

Passou mais um trem de subúrbios com assustador estampido:

Ouvisse, ouvisse!... Aí vinha ela... Que medo!... E já estava como que sozinho... via-se na cova estreita com um mundo de terra por cima do seu corpinho tão batido pela moléstia!

— Não, não! Havia de ter coragem... dominava o seu terror, embora bem justo, bem natural!... Criança, saberia morrer como homem... Poderia estar chorando nos braços de pai e mãe, mas para quê? Para torturá-los mais? Quem sabe se não haviam de morrer também ali! Viessem, viessem para cobrirem de flores o cantinho que eternamente o acolheria no cemitério, alvo, consolador com tantos cruzes e anjinho de mármore a rezarem.

Debalde buscava eu fugir à obsessão. Duas vezes me levantei; mas irresistivelmente voltava a conversar com aqueles olhos, cada vez mais resinados, penetrantes e de dolorosa eloquência, cheios de surpresas, desconsolos e revoltas, com energia sopitados...

 É preciso, é preciso; que fazer?

Bem quisera estar pensando, como menino, em coisas fúteis e risonhas e da sua idade, mas tinha por força que cuidar no que há de mais sério e triste, na morte... morte!

E já as pupilas negras, virando de vez em quando, se escondiam sob as arcadas orbiculares, buscando ver além, para dentro do pobre organismo combalido... E já se fixava, no bater lento das pálpebras pesadas, plúmbeas, impenetrável, o branco das escleróticas, como alvacento pano caído de cena finda, acabada...

E os bicos de gás iluminavam de fora, intermitentemente, o vagão, como que em fantasmagórica visita, dando repentina luz a todos os recantos ou deixando-o de súbito em completa escuridão...

Íamos chegando, e no rostozinho de Alberto se desdobrava o palor dos últimos instantes. Desbotava-se a rubidez das faces incendidas e afilava-se, a mais e mais, o nariz correto, aquilino.

Já a luz elétrica chegava até nós.

E o trem estacou com o baque de definitiva parada, salteado pelos carregadores em grita: “Malas, malas! Bagagens! Nº 20, nº 53!”

— Leve ao ombro o seu filho, disse eu para o pai, ele está...

E a palavra “expirando” ficou-me atravessada na garganta.

Parado, imóvel, os vi partir, a todos. O pai, na frente, com o sagrado fardo, a mãe, trôpega, fora de si, no braço das criadas em soluços, atrás o molecote com cobertores e xales...

 E no vagão vazio, como que continuei a fitar aqueles olhos ardentes, indagadores, tão suaves no ingente desespero, na dúvida do problema eterno...


Poor boi, alas! 

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