quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Rosália Romero sobe aos céus (Conto), de Salomão Rovedo


Rosália Romero sobe aos céus

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“Almazinha errante e brincalhona, para onde irás agora,
pálida, rígida, desnuda, sem os folguedos a que sempre estiveste habituada?”
(Adriano)

A última notícia que tive de Rosália Romero foi que morreu de cirrose. Aquilo me trouxe uma decepção meio grande porque refuguei os dois últimos convites que me fez para visitá-la. Agora ela era protestante e fazia questão de me ligar chamando para conhecer suas novas amigas. Sempre foi assim. Tinha uma facilidade imensa de fazer amizade com mulheres, para desfrutar o prazer de apresentá-las aos amigos. Amigos verdadeiros, os que – como eu – acompanharam-na por toda a vida. Por isso fiquei triste: faltou esse último contato, que ela tanto se empenhou em realizar. Espero que não tenha ficado decepcionada comigo. Aliás, espero que tenha se decepcionado mesmo, porque eu falhei miseravelmente. Miseravelmente falhei.

Isso não se faz a uma amiga como Rosália Romero. Era uma bela mulher, com seios enormes, que tiveram de ser operados algum tempo depois, quando os trinta anos já tinham passado. Depois de tirar o excesso, ficou toda orgulhosa, já sem complexo algum. Ao contrário, fazia questão de mostrar “os peitinhos de mocinha” que tinha adquirido após a cirurgia.

Existe uma discussão antiga sobre sexo e amizade. Uns dizem que não pode haver amizade com sexo. Outros dizem que o sexo acaba com qualquer relacionamento amigável. Mas alguns afirmam que sexo e amizade são não só compatíveis, como acham impossível existir um sem o outro. Já entre Rosália Romero e mim rolava tudo harmoniosamente.

Nossos primeiros contatos não foram exatamente por causa de sexo. Encontrei Rosália Romero com o namorado dela, num bar onde amigos se reuniam, depois do expediente, para ouvir música, conversar, tomar um uísque. O círculo de amizade crescia muito com essa fórmula, porque praticamente todos os dias nós nos encontrávamos, a partir das dezenove horas.

Fizemos amizade, eu, Rosália Romero e seu namorado, até que um dia ela estava sozinha. O caso terminou e eu estava ali para ouvir as primeiras queixas depois da separação. Nada que umas bebidinhas e a conversa fiada não diluísse rapidamente. Era outra particularidade daquelas reuniões. Todos os problemas eram esquecidos. A amizade era muito forte, calorosa, verdadeira terapia para problemas cotidianos. Um vinho, uma música, enfim, um encontro desejado – o quadro estava completo.

Com Rosália Romero, de princípio, não foi assim. Apenas ouvi, transmiti o calor necessário, as palavras certas. Ganhei a partir dali uma afeição profunda, uma amizade como nenhuma outra. No futuro, a nossa terapia era resolvida na cama, mas raramente, dependendo da disponibilidade de cada um – o que não era fácil. Nós dois andávamos, sempre como um par, eu principalmente, devido às pessoas que nos apresentávamos mutuamente. Tanto que, durante mais de trinta anos de amizade, só rolou sexo entre nós uma meia dúzia de vezes, coisa de se contar nos dedos...

Mesmo porque Rosália Romero vivia em constante movimento. Volta e meia me telefonava para comunicar o novo endereço, que inaugurava sempre com uma festa entre os amigos mais íntimos, que sempre eram muitos e acabavam por encher a casa.

Ali também era motivo para fazer novas amizades, para rever os velhos amigos, que só se encontravam por obra e graça de Rosália Romero. Entre uma mudança e outra os meses se passavam. Quando nos reencontrávamos, era outra festa particular: Rosália Romero estava de namorado novo, com amigas novas, o que me obrigava a comparecer sozinho. Indesculpável mesmo era chegar lá sem um buquê de flores, sem um bombom, sem um uísque.

Volta e meia, por força do destino, a turma ia-se esfacelando aos poucos, gente viajando, se mudando para outro estado, partindo sem avisar, casando. Mas sob a batuta de Rosália Romero, havia sempre um novo reencontro, sempre havia um elo de ligação entre o antigo e o novo – quando não havia ela se encarregava de provocar.

Era realmente uma pessoa com o dom de aglutinação terrível. Vivia, por isso, sempre cercada de muita gente. Às vezes, quando inventava de fazer-lhe alguma visita de surpresa, encontrava-a sozinha, ouvindo música, o copo de uísque à mão, o semblante um pouco amargo, que logo se dissipava com a minha presença.

Acho que uma das coisas que a amizade vale a pena é isso: a gente se sentir necessária, prestativa, estar presente na hora certa e incerta, demonstrar que é amigo com prazer, com gosto, de peito aberto. Nem todas as pessoas que Rosália Romero me apresentou chegaram a esse nível, mas pude tirar dali amigos proveitosos, cuja amizade – às vezes em curto espaço de tempo – sempre foi sólida.

Entre nós, porém, a coisa cresceu tanto, se universalizou de tal maneira que nos bastávamos um ao outro. Dava prazer ser amigo de Rosália Romero, dava prazer receber a amizade de Rosália Romero. Não é gostoso ser amigo de uma pessoa assim?


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Fonte:
Salomão Rovedo: Sonja Sonrisal. Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2016. (Imagem: Páginas pessoal do autor)

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