segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Uma história verdadeira (Conto), de Maria Amália Vaz de Carvalho


Uma história verdadeira

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Ele tinha uma fisionomia incaracterística, apagada e tristíssima.

Não se podia saber a idade que tinha, nem mesmo se tinha idade. Tanto podia ter trinta ou quarenta como setenta anos. Curvado pela idade ou pelos desgostos? Encanecido por que os anos tinham corrido sobre a sua cabeça, ou por que lhe tinham pesado duplamente sobre os ombros débeis?

Quem o podia dizer?

Era uma organização acanhada e raquítica, podia mesmo chamar-se incompleta.

Para ele com certeza que a adolescência não tivera as suas madrugadas azuis tão gorjeadas e tão festivas, nem a virilidade tivera a fanfarra estridente dos seus clarins, a florescência escarlate e voluptuosa.

Ele tinha sempre vivido debaixo de uma estranha pressão dolorosa.

Dependera de todos, primeiro porque era fraco e inerme, depois porque fora pobre, dependente, sem aquela áspera dignidade que os atritos da vida tornam mais rude e que é a armadura moral que salvaguardara o homem nos duros combates sociais.

Nasceu numa casa opulenta que lhe não pertencia, cresceu no meio de um luxo de que os seus pais eram parasitas voluntários e de que ele era… um parasita inconsciente.

Começara por ter medo de tudo e de todos; um medo que não raciocinava, que não sabia, que não indagava mesmo a sua própria origem.

Nasceu assustadiço, como certos animais silvestres, e toda a vida conservou a mesma expressão inquieta e medrosa da lebre perseguida.

Em primeiro lugar tinha medo do seu pai; um homem alto, espadaúdo, pletórico, de voz grossa e modos brutais, que comia como um abade, que bebia como um lansquenete, que praguejava como um carreiro, e que se vingava nos poucos seres que tinha debaixo do seu domínio, das complacências servis que era obrigado a mostrar aos que o mantinham naquela farta ociosidade de comensal que só goza e não paga.

Depois tinha medo da sua tia; a dona da casa, a senhora, a suserana perante a qual todos se curvavam submissos.

E no entanto ela era bonita, delgada, flexível, muito branca.

A figura ideal para um pintor inglês.

Mas que culpa tinha ele, se os olhos dessa graciosa e delicada senhora lhe pareciam frios e metálicos, com umas cintilações azuladas como as do aço fino? Se as suas mãos esguias e brancas se lhe afiguravam duas tenazes que podiam apertá-lo, apertá-lo até o torcerem todo, até o esfacelarem e fazerem dele, do seu pequeno corpo tão fraquinho, uma grotesca massa informe, que o mundo inteiro pisasse, onde o mundo inteiro cuspisse!

Seria alucinação daquele cérebro enfermo e condenado aos pensamentos doentios?

Quem o sabe dizer?

O caso é que o sentia, e que nunca pudera esquivar-se a essa preocupação intensa e dilacerante!

Um destes dois seres que dominaram de estranho terror a sua infância, maltratavam-no nas explosões brutais do seu temperamento de touro bravo.

O outro — a senhora — muito altiva, muito fria, muito desdenhosa, nem sequer lhe falava.

Olhava-o às vezes como se olha para um animal repugnante, para um sapo, ou para uma carocha, e passava adiante, imperturbável e olímpica.

Havia, porém, um outro ser, dos que mais em contato estavam com ele, que não o maltratava, nem o desprezava com a glacial frieza do seu desdém.

E contudo era desse que ele tinha ainda mais medo.

Era o seu tio; uma figura original, uma fisionomia de titã que por um engano qualquer da natureza não pôde conseguir passar de ser anão.

O seu tio!... Como esta individualidade extraordinariamente acentuada, como este rosto irônico, irregular, convulsionado, dominou para sempre o destino obscuro da infeliz criança que eu conheci já em velho!

O seu tio não o perseguia nem lhe manifestava uma repugnância muda, pelo contrário.

Chamava-o continuamente para o pé de si, ensinava-lhe, quando estava só, palavras, esgares, visagens grotescas que lhe fazia repetir à frente de gente, num coro de gargalhadas ásperas e hostis como gumes de espadas!

Vestia-o de um modo. Desusado e extravagante, vestia-o de marujo, de escocês, com as suas pequenas pernas magras, trigueiras, ossudas, numa nudez friorenta que lhe doía, e o fazia tiritar; vestia-o de tirolês, o que lhe dava um aspecto cômico, que arrebentava com riso a criadagem.

Às vezes nos seus dias de melhor humor saía com ele, que tinha apenas sete anos de idade, de casaca, chapéu-alto, e berloques na cadeia do relógio.

Havia tempos em que não podia passar sem a sua companhia; a criança era a única distração do anão...

As carícias desse homem singular, de olhar faiscante, de cabeladura revolta e elétrica, de voz sonora e rica de inflexões estranhas, doíam, porém, ao pequeno muito mais do que os desprezos ou os maus tratos dos outros.

Ao pé destes sentia-se perseguido, ao pé daquele sentia-se humilhado.

Um dia o marquês — o tio do pequeno Tadeu era marquês,— achou cômico mandar introduzir a criança no cofre que havia junto ao fogão do gabinete de trabalho, destinado a guardar a lenha ou o carvão que se consumia.

De minuto em minuto abria-se a tampa e saía a cara vermelha e congestionada do pequeno, uma cara de animal assustado, o que divertia extraordinariamente as visitas.

Outra vez, numa ceia alegre em que havia rios de champanhe e risos cristalinos de mulheres, Tadeu com um fato de meia preta a cobri-lo todo e dois castiçais nas pequenas mãos, servia de centro agachado numa posição grotesca no meio da mesa.

Saiu dali com uma febre que o teve um mês entre a morte e a vida, delirante, sem conhecer ninguém, com a mãe debulhada em lágrimas à cabeceira.

Mas Tadeu não gostava da sua mãe.

Era uma criatura tão débil como ele, pálida como uma defunta, inerme, estúpida e sem vontade.

As lobas defendem os seus filhos, a mãe de Tadeu não o sabia defender!

Entregava-o às cóleras descompostas do pai; aos desprezos gélidos da tia; aos caprichos monstruosamente cômicos do marquês; às apupadas brutais das aias e dos lacaios; aos risos das visitas; ao pasmo desprezador das outras crianças, que iam àquela casa opulenta e ruidosa acompanhadas pelos pais, vestidas de veludo, com plumas nos seus lindos chapéus, o ar grave de meninos bem-criados, e que não tinham licença de brincar com aquele pequeno histrião, feio, ridículo, doente, com gesto de epilético, com fatos de palhaço e com soluços de mártir.

***

Um dia, porém, fez-se na vida atormentada e tempestuosa do pequeno Tadeu uma claridade de luar, uma claridade opalizada e doce.

Houve tréguas nos seus vários martírios, e a sua mãe, numa bela manhã de primavera em que os pássaros cantavam ao desafio nas grandes árvores do jardim, levou-o pela mão, pé ante pé, a um quarto forrado de cetim cor-de-rosa, um quarto digno de servir de habitação à fada mais linda que uma fantasia de poeta oriental tivesse imaginado.

Naquele quarto havia um ninho todo branco feito de rendas, de fitas de cetim, de penugem de pássaros, e nesse ninho dormia uma criancinha que parecia uma rosa.

— É tua prima; murmurou baixinho a mãe de Tadeu, enquanto este, mudo, surpreso, extasiado, fitava os seus olhos vítreos, onde o júbilo acendia ama luz desusada, nos grandes olhos luminosos e pasmados do bebê que acordara.

Oh! Como Tadeu adorava aquela criança! Como na sua vida houve de repente um ficto, uma esperança, uma luz!

Sua tia, uma vez em que a bebê chorava muito nos braços da ama, dissera a Tadeu com uma voz menos glacial do que o costume:

— Tadeu, brinca com a prima para ver se ela se cala.

E ele fizera calar a rabugenta pequerrucha.

Desde esse dia soube-se que a menina tinha o insólito capricho de adorar Tadeu, de rir quando ele estava de joelhos dobrado sobre o seu berço, de chorar quando alguém o levava dali para fora.

A ama tomou o costume de o chamar e de o fazer estar horas e horas a entreter a menina.

Ao princípio ele fazia-lhe caretas e momices, como as que usava fazer para divertir seu tio; depois, sem bem perceber porque, adotou outro sistema inteiramente oposto.

Percebeu que a pequenina não queria um bobo, como esse espírito embotado e pervertido que o vitimara com os seus caprichos. O que a bebê queria, na ingenuidade adorável do seu despotismo infantil, era um companheiro dos seus brinquedos, um sócio, um escravo que a adorasse.

Tadeu era tudo para ela: queria-o perto da grande tina em que tomava o seu banho de manhã; queria-o junto da pequena mesa onde a ama lhe dava as sopinhas; queria-o no berço ao adormecer; queria-o no jardim, à sombra das árvores, sobre a área finíssima, onde se rolava, vestida de rendas brancas, a rir como uma perdida.

Chamaram-lhe Margarida.

Margarida quer dizer perola, e Tadeu, que vira muitas vezes a sua tia vestida de baile, achava um nome muito bem-posto àquela criança branca, transparente, loura, idealmente graciosa.

Oh! Tadeu ainda andava muita vez vestido de marujo, de granadeiro, de tirolês e de alferes, ainda o introduziam no cofre da lenha, ainda o faziam fumar um charuto depois de jantar, cheio de ânsias, de náuseas, de gritos abafados de angústia!... Mas que importava!

Logo que podia escapava-se para o quarto da fada, para o estojo cor-de-rosa da sua perola, da sua Margarida, e então eram risadas sem fim, eram corridas delirantes por sobre o tapete, era um papaguear de duas aves felizes.


Margarida com a idade ia-se fazendo despótica.

Pudera!

Ou ela não fosse mulher, e estremecida pelo seu humilde escravo!

Mas era assim mesmo que ele a queria.

Quando as mãozinhas polpudas e brancas de Margarida lhe batiam, Tadeu sentia-se feliz como um rei.

Quando ela o obrigava a agachar-se no chão para lhe servir de jumento, o rapazinho tinha tentações de rinchar de prazer, fazendo o passo bem ao vivo.

Porque no fim de contas, apesar de todas as suas adoráveis crueldades, Margarida gostava dele.

A presença de Tadeu iluminava de risos o seu rosto oval coroado de cabelos louros anelados, o seu rosto a um tempo angélico e gaiato!

Margarida não o achava feio, nem tolo, nem ridículo, nem doente.

Não desprezava a fraqueza dos seus braços, nem a pobreza absoluta da sua imaginação.

Pelo contrário! Admirava-o!

Sim; ela dera-lhe essa sensação poderosa e extraordinária, a sensação dos que se veem admirados com ingênua confiança.

Margarida pedia-lhe coisas enormes, com uma serenidade inefável de crente!

Pedira-lhe um ninho de melros, e o que é mais! Conseguira que ele tão medroso, tão débil, tão assustado, trepasse pelos braços nodosos de uma grande árvore e lho fosse buscar lá cima.

Que triunfo este dela, ao ver satisfeito o seu capricho! Mas que triunfo maior ainda o dele ao compreender, que alcançara essa coisa prodigiosa, que nem nos sonhos mais arrojados das suas noites de febre ele ousara até ali conceber!

Um dia Margarida, em frente daquele rasgo assombroso de valentia que colocara Tadeu ao lado dos maiores heróis, pusera se grave, meditativa, e apontando com serena majestade para a lua que se refletia num tanque do jardim, pedira a lua ao seu amigo Tadeu!
Está claro que ele lha não pode dar, mas gostou daquilo!

Percebeu que o julgavam capaz de coisas grandes, de levar a cabo empresas impossíveis, e esta ideia que alguém tinha da sua força, fê-lo crescer aos seus próprios olhos.

O marquês conhecendo que o pequeno deixara de ser o seu joguete, simplesmente para ser o joguete da sua filha e herdeira, aplaudiu-se de lhe haver dado aquela educação especial, e proibiu que o distraíssem, fosse sob que pretexto fosse, das suas novas funções.

Margarida era ainda muito pequenina para entreter os pais.

Ele precisava das excitações da política, das lutas do parlamento, dos sorrisos falsos ou verdadeiros, caros ou baratos das formosas mulheres, do jogo, da ambição, do amor, da violência corrosiva de todas as pequenas e grandes paixões!

Ela precisava do luxo, das joias que cintilam, das sedas que se quebram em ondulações brilhantes, do coro das adulações mentidas, de todas as efêmeras alegrias que só o mundo lhe podia dar.

Para ambos, Margarida seria um remorso, se a não vissem tão feliz, tão roliça, tão alegre, com chispas de travessura maliciosa no olhar, sempre acompanhada do seu pequeno amigo, submisso e fiel como um cão.

Deixaram-nos, pois, crescer e viver juntos sob o olhar das aias, sempre um pouco hostil para Tadeu e por isso tanto mais insuspeito.

Foi o verdadeiro paraíso que este conheceu na terra, foi a sua idade de ouro.

Há seres que nunca nem por um instante só conheceram a completa ventura.

São de todos os mais desgraçados.

Tadeu mais tarde podia ao menos recordar-se!

E ele sabia apreciar tão bem aquelas alegrias que em manhã abençoada tinham caído sobre a sua pobre cabeça!...

Um dia Margarida travessa e caprichosa como era, desatendendo todas as advertências de Tadeu, deixara-se cair dentro do tanque do jardim.

O pequeno não sabia nadar.

Que importa!

Sem premeditação, sem raciocínio, obedecendo a um instinto de dedicação inteiramente canina, deitou-se na água atrás dela.

As criadas, acudindo, tiraram do tanque as duas crianças abraçadas.

Imagine-se o que iria em casa!

Tadeu, castigado severamente, não quis condenar a sua amiguinha, para se salvar a si.

Foi ela que, soberba, graciosa, com a sua majestade de pequena rainha, disse aos pais:

— Não batam nele. Ele pediu-me que não fosse. Eu é que quis ir.

Acharam-na adorável; encheram-na de carícias e de gulodices, mas ninguém pensou na ação tão simples e tão heroica do pequeno Tadeu, a quem tinham posto a alcunha de medroso.

***

Foi assim que Margarida fez nove anos.

Era linda e indômita.

Tinha um corpo airoso, flexível e forte.

Ninguém oprimira nunca aquela altiva natureza aristocrática.

Daí a sua isenção, a liberdade dos seus movimentos, o fulgor radioso dos seus grandes olhos azuis, onde um observador veria talvez as cintilações metálicas que davam tamanha dureza ao olhar da sua mãe.

Margarida tinha uma vontade de ferro, e uns nervos de mulher caprichosa.

Quando a professora alemã que os seus pais mandaram buscar, quis sujeitar o seu espírito a uma certa disciplina, Margarida revoltou-se num ímpeto de insubordinação selvática.

Tivera criadas que a serviam, um escravo que tremia à frente dela, e pais que transigiam com todos os seus pequenos desejos de criança.

Dera-se bem naquele meio, não queria outro, não o aceitava, nem curvaria a sua cabecinha ereta e firme com uma auréola de anéis de ouro a cercá-la, a nenhum domínio que não fosse o da sua vontade.

Um dia Tadeu ouviu falar vagamente numa viagem que os seus tios iam fazer ao estrangeiro, e viu começar os preparativos para ela.

Ficou no céu.

Viveria só na grande casa com Margarida e o rancho dos criados.

Seriam livres.

Ela teria um balouço no jardim, uma rede brasileira no quiosque, e um barquinho no lago.

Eram os seus três sonhos ainda irrealizados.

Tadeu dirigiria todos os trabalhos.

Diria aos operários que tinha dezesseis anos, e que era sobrinho do marquês.

Os operários tinham de respeitá-lo.

Eles não tinham precisão nenhuma de se rir do seu corpo enfezado e raquítico.

Não é preciso ser-se atlético para se ser respeitado pelos homens a quem se paga.

Tadeu havia de arranjar algum meio de lhes pagar.

Andava então doente, esquisito, com uma excitação nervosa que o torturava.

O seu afeto por Margarida tivera uma recrudescência violenta e dolorosa.

Tinha vagos pressentimentos que o faziam chorar.

Parecera-lhe que a sua tia, uma vez, ao encontrá-lo num corredor, olhara para ele com uma aguda ironia malévola.

— Não sabes, Tadeu? Gritou Margarida entrando como um raio de sol no quarto onde costumava brincar com o primo. Não sabes? — E atirou-lhe negligentemente aos pés com um feixe de flores e de folhas verdes que estivera colhendo na quinta. — Também eu vou com o papá e a mamã. Vamos a Paris... Muito longe... Muito longe... Estive à escuta… percebi umas coisas mas não percebi outras. Falaram num convento… no Sacré Coeur... Sabes o que é?...

Tadeu sabia.

Não disse nada, mas no outro dia não pôde levantar-se da cama.

Tinha dores em todo o corpo e um grande cansaço, como de quem deu uma larga caminhada.

Gemia baixinho abrasado em febre, e quando pediu muito humildemente, com medo de recusa, para ver Margarida, disseram-lhe que a doença dele podia pegar-se e que as meninas não iam ao quarto dos homens.

Pois isto é um homem? Pensava Tadeu desolado.

Margarida de endoidecida com a mudança, com o movimento, com a expectativa de uma existência desconhecida e nova, esqueceu-se completamente do enfermo.

Partiu sem pedir sequer para lhe dizer adeus!...

Quando Tadeu ao cabo de um mês de doença saiu do quarto com o rosto macilento, abatido, cansado, como o de um velho, com a espinha dobrada e as magras pernas vacilantes, pediu para ir ao quarto onde brincava com a sua pérola, e agachou-se a um cantinho a chorar com uns uivos dolorosos, com uns uivos caninos que faziam mal.

Sentia-se para sempre só...

***

O marquês tinha ido sozinho para França. Fora, ao que se dizia, buscar a filha ao Sacré-Coeur.

A educação de Margarida devia estar completa. Fora-se embora com nove anos de idade, e já se tinham passado sete depois que ela partira.

Sete anos! Que longo período!

A casa dos marqueses era pouco mais ou menos a mesma coisa.

Tadeu perdera a sua mãe, mas aquela figura apagada, melancólica, de uma debilidade de valetudinária, pouca falta tinha feito no palácio iluminado e radioso.

O marquês aconselhado por alguma pessoa de juízo e de caridade tinha consentido a que logo depois da partida de Margarida seu sobrinho entrasse para um colégio.

Também já lhe não servia para nada.

Com o seu corpo magro e desengonçado, um corpo de funâmbulo, um corpo de grotesco, tinha melancolias quixotescas que incomodavam quem o via.

Os criados deram por mais de uma vez com o rapazola a chorar de bruços num recanto do jardim, chamado o canteiro de Margarida.

Era um pequeno espaço semeado de flores, onde principalmente abundavam os malmequeres brancos que tinham o poético nome da filha do marquês.

Havia ali uma grande árvore, um castanheiro copado cuja rama folhuda abrigava os longos pensamentos dolorosos de Tadeu.

Não se podia consolar!

Era ali naquele sítio fresco, esmaltado de flores, exalando um cheiro agreste e sadio, que ele se deixava ficar horas e horas esquecido de todos, numa espécie de letargo bestial, o letargo de um animal ferido.

E desfiava na memória todo o seu passado, toda a vida que vivera, abandonado, desprezado, perseguido de chufas ou de maus tratos, de caprichos humilhantes, ou de observações glacialmente desdenhosas.

Só ela nunca o ferira! Só ela fora no seu viver de cão apedrejado um consolo dulcíssimo! Uma nesga do céu que se entreabrira!

Só ela nunca se tinha rido à custa dele, e fora ele — o misero, o abandonado, o enfermo — que tivera o primeiro sorriso daquela boquinha de rosas, o primeiro beijo daqueles lábios frescos e úmidos de leite!

Era feio, era raquítico, era estúpido e desastrado.

Todos o conheciam, todos o repetiam em alto e bom som para que ele o não ignorasse, mas dia amava-o; ela não o dizia, não o pensava, não o tinha notado sequer!

Para dia era forte, e grande, e poderoso!

A ele é que Margarida confiara sempre os seus desejos, os seus sonhos, os seus afetos de criança mimosa.

Ralhava-lhe às vezes, batia-lhe, quando aspirava ao impossível que Tadeu lhe não podia dar, mas as crianças ricas têm horas de tédio só comparáveis às horas sinistras de um imperador romano, e Tadeu compreendia isso tanto, que antes queria as cóleras, do que os desalentos rápidos e violentíssimos da sua perola.

Tudo que houvera bom na sua vida lhe tinha vindo dela.

Dos outros — nada!

E ele odiava todos os outros, só para poder adorá-la com um culto exclusivo de negro pelo seu fetiche.

Não perguntava por notícias; para quê?

Tinha a certeza íntima de que lhas não dariam completas nem verdadeiras.

Antes não queria saber nada, do que banalizar a sua idolatria, revelando-a aos seus inimigos.

Ela também lhe não escrevera, o que o não surpreendera nada...

Estava tão costumado a ser uma coisa inútil e desprezada, que nunca lhe viera à ideia a possibilidade sequer de possuir uma carta dela.

No entanto ia adoecendo, definhando, parecia uma sombra.

Um médico que o viu torceu o nariz, e deu claramente a entender que aquilo nunca chegaria a ser um homem.

Foi então que se lembraram de o mandar para um colégio, em primeiro lugar para não terem o desgosto de o ver a cada passo, em segundo lugar para o distraírem da ideia fixa que o estava consumindo.

No primeiro dia em que Tadeu fez a sua entrada no colégio houve uma tal galhofa, um gáudio tão extraordinário entre a rapaziada, que os professores para manterem a ordem tiveram de empregar severos castigos.

Não havia meio de o ver sem rir.

Tinha um tic nervoso a um canto da boca, tinha os olhos de vidro embaciado, tinha as pernas muito magras e muito cambadas, e um modo de falar tímido, acanhado, medroso que era de fazer morrer de riso os rapazes.

Os próprios mestres tinham de fazer esforço para se não rirem quando o viam.

Na hora do recreio tomou-se a vítima, o bode expiatório do colégio.

Um dia, porém, a brincadeira atingiu tais proporções que degenerou em perversa brutalidade.

Tadeu caiu no chão extenuado a lançar jorros de sangue pelo nariz.

Do grupo estupefato e arrependido dos colegiais destacou-se então um, o mais velho, o mais valente o que nunca entrava naquelas farsadas brutais, e disse com voz decidida:

— Tomo esse pobre diabo debaixo da minha proteção. O primeiro que lhe tocar tem os ossos num feixe.

Ninguém se atreveu a responder uma palavra.

Henrique de Souza era temido e respeitado.

Nas aulas era o primeiro; nas brincadeiras era o mais forte; na luta era o mais destemido.

Órfão de pai, era sustentado no colégio pelo trabalho insano da mãe e da irmã mais velha que se tinham feito costureiras para o poderem educar.

Henrique fizera-se homem antes de tempo.

O seu pensamento fixo era poder pagar a dívida sagrada que contraíra com as duas heroicas e dedicadas mulheres.

Quando Tadeu despertou do desmaio em que a fraqueza o mergulhara, fixou os, seus tristes olhos esgazeados e humildes na fisionomia meiga e viril de Henrique.

Compreendeu que tinha achada um amigo e caiu-lhe nos braços a soluçar.

***

Tadeu conservara-se cinco anos no colégio, e saíra de lá um pouco mais forte e um pouco menos desgraçado.

Henrique, que há três anos tinha completado a sua educação, e que agora cursava a escola de medicina, nunca deixara de o ir visitar de tempos a tempos, levando-o muitas vezes por ocasião das férias a passar o dia em casa da sua mãe.

O jovem estudante de medicina dava lições de francês e inglês nas horas vagas, para aumentar os minguados recursos da família e como um tio que morrera lhe tivesse deixado uma pequena pensão, viviam agora todos três mais desafogadamente.

Ocupavam uma casa pequenina mas muito bonita e quase nova; tinham um quintal com três galinhas, um casal de pombos e um canteirinho semeado de flores.

O trabalho da casa era a mãe de Henrique quem o fazia; a irmã costurava e bordava para fora, o irmão vivia de estudar e de esperar.

Muito unidos, muito resignados; em certos momentos mesmo, muito alegres, de uma alegria serena e doce, a alegria dos corações honrados que confiam na providência de Deus!

Henrique era formoso sem dar por isso. O único modo possível de um homem ser formoso.

Joaninha, a irmã, que já fizera vinte e sete anos, era uma doce e casta fisionomia de virgem que tem padecido muito.

Nos seus grandes olhos melancólicos havia a tranquila doçura dos que repousam depois de uma luta esmagadora.

Tinha a certeza de que havia na terra alegrias que nunca seriam dela, e no entretanto não se revoltara; pusera noutro ponto mais alto a sua mira.

Descobrira a sua individualidade, vivia da vida e das esperanças do seu irmão.

Neste interior recolhido e casto, Tadeu sentiu pela primeira vez acordar a consciência.

Sofria muito ali pelas comparações dolorosas que fazia, mas compreendeu que nesse mesmo sofrimento havia um progresso do seu espírito e afeiçoou-se às torturas que ele lhe dava.

O trabalho era a lei daquela casa, e Tadeu não sabia trabalhar.

Ali concebia-se a vida de um modo elevado e justo, a dignidade do homem estava identificada com a sua independência, e Tadeu não passava de um parasita.

Aprendeu na convivência de Henrique e da sua mãe e irmã muito mais do que aprendera em todos os anos da sua desconsolada existência.

Determinou ter uma ocupação, um ofício, exercer um trabalho qualquer, mas bem depressa adquiriu a desoladora certeza de que a sua fraqueza física o tornava incapaz de qualquer esforço aturado e violento.

Com vinte e três anos conseguira tão-somente, por fim de porfiada luta, ser uma espécie de caixeiro de guarda-livros do seu tio.

Aprendeu a fazer bem contas, e tornou-se útil naquela desordenada administração de uma casa colossal.

Isto não era decerto coisa que satisfizesse as ambições de outro qualquer, mas para ele isto já era uma grande, uma sublime conquista.

Ganhava o pão que comia.

Era um escriturário humilde, mas tinha direito a dizer que não dependia de ninguém.

***

No dia em que Tadeu soube que Margarida ia chegar, a sensação que fez vibrar todo o seu ser, foi violenta demais para que possa ser descrita.

Acudiram-lhe em tropel, desordenadamente, numa confusão louca, todas as lembranças do passado, todas as queridas visões daqueles nove anos de êxtase que ele vivera.

Estava tudo intacto num cantinho luminoso da sua alma, onde ele não entrava com medo de fazer fugir as avezinhas azuis que eram as suas saudades.

Margarida! Bebé! A sua alegria! A loura cabecinha encaracolada, os olhos cor de azul, límpidos, transparentes, cristalinos, como um céu de primavera! Os pequeninos braços gordos e nédios! A boquinha risonha! A voz musical, uma voz de cotovia acordando os ecos da alvorada!

Todo aquele conjunto de graças ia ser dele outra vez.

Com que delícia sôfrega ele não beijaria os pezinhos da sua fada pequenina e loura!

Como lhe contaria tudo que tinha passado longe dela!

As saudades sem consolo, as lágrimas que chorara, as humilhações que sofrera no meio daqueles perversos de faces rosadas e imberbes, que se tinham constituído em algozes da sua fraqueza e do seu desamparo!

Oh! Amá-la-ia tanto e tanto, que ela havia de dar-lhe por força um bocadinho de afeto, e esse bocadinho só bastaria a torna-lo mais feliz do que um rei.

Margarida!

E ao repetir baixinho com um calafrio de prazer este nome querido, via saltar num raio de sol uma figurinha esbelta, graciosa, de fato muito curto e muito simples, um vestido branco, um cinto azul, um bibe de cercadura bordada, onde as amoras colhidas por ele tinham posto uma mancha vermelha, com os espessos cabelos louros em anéis soltos, e uma risada a vibrar ainda em torno dela como um rosário de pérolas que se desfiasse dentro de um cofre de cristal.

Henrique julgou que ele endoidecia, e Joaninha com a sua voz velada, onde havia uns toques de doçura maternal, dizia-lhe:

— Mas olhe que ela é uma senhora! Já não pode ser a mesma. Não tenha uma esperança que vai converter-se-lhe em martírio!

— A minha Margarida, repetia ele alheado, meio louco! A minha filhinha adorada! Nunca tive uma alegria que dela me não viesse! Todos me tratavam mal, só ela gostava de mim e me queria sempre ao seu lado. Hás de vê-la, meu Henrique, verás se há no mundo uma criança mais linda, mais mimosa, é uma fada, é uma pérola, é a minha única amiga neste mundo!

***

No dia seguinte à hora em que uma brilhante festa de família, uma espécie de baile muito íntimo, reunia nas salas do marquês todos os parentes, aliados e amigos que vinham solenizar a chegada da sua filha e herdeira, Tadeu na pequenina sala de jantar de Henrique, dobrado sobre o peitoril da janela numa postura de desolação e de abandono, soluçava baixinho, ao pé de Joaninha, que tentava em vão consolá-lo.

Estava de casaca, coitadinho; Joana não seria capaz de rir do desgraçado, mas como a casaca lhe ficava mal!

Tinha-se vestido para assistir ao jantar.

Antes do jantar não conseguira ver Margarida.

— A Sra. D. Margarida vinha muito cansada, estava no seu quarto. Dormia. Não havia maneira de a acordar.

Eis as secas respostas que as criadas,— aquelas perversas — tinham dado às súplicas frenéticas do pobre Tadeu.

Enquanto a ir ao encontro dela como tanto sonhara, não tinha podido.

O seu tio, agora que lhe descobrira algum préstimo — muito secundário, é verdade, mas um préstimo em todo o caso — abusava dele horrorosamente.

Tinha-o tornado uma máquina de fazer contas, contas de somar, de repartir, de multiplicar, o inferno!

Não pudera ir, mas esperava vê-la logo que ela chegasse, vê-la só, poder beijar-lhe as mãos, a testa, os cabelos, os pés! Vesti-la toda de beijos como dantes!

E depois sabia que também ela havia de ter saudades! Que também se havia de lembrar muito do seu amigo, do seu Tadeu, do seu cão fiel!

Estava impaciente, estava no ar. Mas quando teve a certeza de que só a veria na sala, foi vestir-se logo, envergou uma casaca do seu pai que este mandara arranjar para ele, uma casaca muito larga, já fora da moda, de pano azulado.

Que lhe importava! Ia vê-la!

Vê-la era o céu.

Vinha-lhe à lembrança aquele ninho de melros que apanhara um dia — sabe Deus com que trabalho — para lhe dar, e o dia em que ela lhe pedira a lua com um gravidade tão cômica, apontando para o tanque, e o balouço que ambos tinham projetado fazer, e as histórias que ele lhe contava debaixo do castanheiro à tarde, enquanto a música do piano suspirava ao longe, e havia no ar uns rumores indefinidos de que ela lhe perguntava a explicação.

— São os passarinhos que andam a arranjar-se para se deitarem a dormir dentro dos seus ninhos — costumava dizer Tadeu.

E ela ria-se virando a cabeça muito esperta para a cúpula do castanheiro, a ver se descobria como se faz a toillete noturna dos passarinhos.

Entrara, por fim, na sala.

Havia grupos aqui e ali. Graves políticos que discutiam, financeiros de abdômen volumoso, matronas severas, rapazes elegantes, e no meio de tudo um bando de raparigas alegres, garridas, a chilrearem, a rirem e a cochicharem entre si, contentes da nova companheira que lhes chegava de longe, mas muito mais contentes ainda daquela atmosfera festiva e perfumada que as envolvia.

No meio desse grupo encantador é que ela estava de pé.

Um corpo deliciosamente modelado, de uma graça franzina e toda moderna.

Tinha um vestido de foulard muito justo, muito elegante, e no meio dos rolos do seu crespo cabelo louro aninhava-se uma rosa vermelha, uma rosa cor de sangue.

Os olhos azuis, altivos e desdenhosamente fixos lembravam... Os olhos metálicos da sua mãe.

Pois era aquela a sua Margarida?!

Era.

Não lhe restava a menor dúvida. Apesar de todas as diferenças tinha-a conhecido logo.

A sua límpida testa de criança um pouco curta, indício de obstinação e de capricho; a sua boca pequenina, até alguma coisa dos seus gestos antigos, tudo trouxe ao coração de Tadeu uma lufada de saudades irresistível.

Correu para ela como doido, atravessou pelo meio de toda aquela gente, sem a menor timidez, sem o menor receio, sem notar sequer o espanto que a sua cômica aparição tinha excitado.

As raparigas que faziam um círculo em torno de Margarida separaram-se numa súbita explosão de risadinhas, e ela, olhando muito fixa para Tadeu, exclamou rindo, rindo sem poder mais:

— Ih! Credo, primo Tadeu, que casaca!... Que figura!... Pelo amor de Deus vá já tirar essa casaca e venha depois!

E ria, ria sem disfarce, enquanto ele com os braços quebrados, o rosto estúpido, a fisionomia espavorida, sentia dentro da sua pobre alma sem consolo esfacelar-se, desfazer-se, diluir-se em lágrimas de fel a última esperança da sua vida!

***

Três dias depois, Margarida, que se esquecera completamente daquele insignificante episódio em que Tadeu figurara, encontrou-o por acaso na Baixa, onde andava fazendo compras com a sua mãe, ao lado de Henrique, que para o distrair tinha ultimamente fingido precisar absolutamente da sua companhia.

Margarida saía de uma loja e ia a saltar ligeira, elegante com a sua graça parisiense para dentro do coupé delicioso que, de propósito para a filha, o marquês tinha encomendado meses antes à casa Binder, e que dois finos cavalos ingleses esplendidamente ajaezados faziam voar pelas ruas da nossa pacata Lisboa.

A vista de Tadeu despertou-lhe umas poucas de ideias que ainda não lhe tinham ocorrido.

Lembrou se, por exemplo, de que não o vira mais, desde o instante em que ele se apresentara à frente dela com uns transportes ridículos e uma toilete horrorosa, na sala povoada pelas suas novas amigas, tão irônicas, tão cruelmente maliciosas...

Por que não tornara ela a vê-lo? Tinha-lhe esquecido perguntar por ele, fora muito ingrata...

E sem raciocinar aquele impulso estranho, parou, esperou numa atitude de coquetterie irresistível que os dois amigos se aproximassem, visto que ambos caminhavam na direção em que ela estava, e estendendo a Tadeu a sua mão esguia e fina, a sua mão de loura, enluvada de pelica cor de bronze, disse com uma expressão de finura e malícia intraduzível:

— Então seu ingrato! Não me tem querido aparecer! Por onde tem andado?

E ficou a olhar para ele, como quem espera alguma coisa, interrogadora, fascinante, sempre aristocrática.

A marquesa, que já estava dentro do trem, murmurou levemente enfastiada:

— Então, Margarida, ficamos aqui?...

E Tadeu corando, balbuciando, resmoneava confusamente uma banal desculpa.

Margarida saltou por fim o estribo que o criado conservava desdobrado, envolvendo num olhar magnético dos seus cintilantes olhos azuis, a bela e viril figura de Henrique de Sousa, que presenciara mudo aquela cena inexplicável.

***

Uma noite em São Carlos estreitava-se uma celebridade lírica na Norma, que então estava muito na voga.

Henrique vivamente instado pela mãe e pela irmã e também um pouco pelo seu próprio desejo, determinou ir ouvir a ópera adorável, que é uma verdadeira perola musical.

Havia tempos que ele andava nervoso e inquieto.

Não sabia bem o que tinha mas sentia-se mal.

Tinha impaciências nervosas que nunca tinha conhecido no seu organismo equilibrado e harmônico.

Surpreendia-se às vezes doentiamente, a fazer planos impossíveis antes de adormecer; a imaginar quanto seria bom ser muito rico, viver na alta-roda, naquela esfera aristocrática e distinta em que se não trabalha, em que se falia de um modo especial e característico, com termos escolhidos, com inflexões muito mais suaves, com uns certos desdéns que dantes lhe pareciam ridículos e que lhe estavam agora parecendo superiormente requintados. Ter um palacete com alguns salões apainelados em cuja escadaria de mármore povoada de estátuas e de plantas raras, se aprumassem espadanados lacaios de farda; ter equipagens luxuosas, ter uma mulher loura, franzina, de testa curta, de olhos piscos, com um sorriso felino, quase cruel nos lábios vermelhos, e um corpo flexível, delicado, mignon de estatueta de biscuit... Uma mulher que se chamasse Margarida.

Neste ponto do seu pensamento, Henrique suspendia-se como que sentindo a estranha impressão de quem vai caminhando por uma estrada lisa e de aparências tranquilizadoras, e encontra de repente, debaixo dos pés, quando menos o espera um réptil desconhecido.

Margarida! Que tinha ele com Margarida?!

Lembrava-se que a desprezara e amaldiçoara no dia em que vira chegar a sua casa, pálido, desfeito, com uma casaca grotesca e uns olhos inchados e vermelhos de chorar, o seu pobre amigo Tadeu, que na véspera o tinha deixado tão louco de alegria e tão triunfante de felicidade!

Margarida!

Vira-a depois loura, elegante, com o seu desdenhoso olhar de míope, subir com ligeireza fidalga o estribo de uma carruagem, descobrindo os finos bordados das suas saias, o pequeno pé primorosamente calçado, todo um poema de misteriosas elegâncias.

Nunca mais a vira, nunca mais desejara vê-la!

Para quê?

Ela lá tão em cima, ele cá em baixo lidando, tressuando, lutando para alcançar... O que talvez não tivesse nunca!

Um nome, uma posição, o pão da sua mãe e da sua irmã, sem amarguras e sem pequenas privações humilhantes!

Naquela noite em São Carlos a música sentimental e enervante de Bellini, o contato de todo aquele mundo ocioso e rico ainda o tornava mais nervoso e excitado. Estava quase arrependido de ter vindo.

Nisto sentiu que lhe batiam no ombro e uma voz aflautada, uma voz tremelicante, com inflexões muito alegres, disse-lhe ao ouvido:

— Anda cá acima, pediram-me para te vir buscar, para te apresentar; gostam muito de ti! Não imaginas como és estimado pela minha querida Margarida, desde que soube que tens sido o meu único amigo, o meu auxílio na vida, aquele a quem mais devo depois dela.

E Tadeu, porque era ele, arrastava pelos corredores das frisas Henrique surpreendido, contrariado, com uma estranha sensação de desconforto a comprimir-lhe fortemente o peito.

***

Na frisa, radiante da mocidade, de fina distinção, com todos os requintes da moda a fazer realçar a sua beleza moderna, frágil, quebradiça, alguma coisa amaneirada estava Margarida.

A marquesa ao lado dela conversava com um velho diplomata.

A entrada dos dois a mãe teve um comprimento um pouco seco, a filha um sorriso de graça adorável, de garridice inata mas irresistível.

— Quis vê-lo porque soube que tem sido muito bom para Tadeu, excelente mesmo. Ele contou-me tudo.

Pobre rapaz! Poor dear boy! E sorriu-se outra vez com um aspecto bondoso e protetor que a transfigurou por instantes.

— Eu tinha-me esquecido, o Tadeu é que se lembrava de tudo. Fez-me reviver a minha infância. Sempre é bom. Agora já estou tão velha que acho imensa graça a estas recordações do passado.

E graciosa, maternal, afastando toda e qualquer ideia que não traduzisse uma solicitude encantadora para o seu companheiro da infância, Margarida foi o que seria a noiva idealizada pelo austero coração de Henrique.

E dali em diante o amigo de Tadeu deixava-se arrastar de oito em oito dias até o palacete dos marqueses.

Era ali otimamente recebido.

Margarida, adorada pelos pais, dava a lei em casa. Sabiam-na voluntariosa, cheia de caprichos e de fantasias, tinham medo de irritá-la resistindo-lhe...

Depois, Henrique com as suas maneiras de gentleman, com a gravidade desafetada do seu porte, com os generosos ardores da sua rica organização, revelava-se o que era: um homem de futuro, um homem que havia de ter nome mais tarde.

O marquês, cínico como a vida o tornara, era juiz excelente neste assunto.

Conhecia um homem depois de duas horas de conversação.

As próprias severidades do rapaz, amolecidas agora ao contato da perturbadora formosura de Margarida, agradavam ao marquês como uma coisa nova, picante, inteiramente imprevista para ele.

Tadeu nadava num júbilo celeste.

Era muito bem tratado; Margarida tinha com ele umas garridices angélicas que às vezes o deixavam pálido e sufocado, encostado a uma árvore ou a um banco do jardim para não cair no meio do chão desfeito em lágrimas.

Tadeu tinha agora de vez em quando um ódio selvagem à sua mesquinha e enfezada personalidade.

Se ele não fosse como era... Se fosse alto, esbelto, forte... Pode ser... Tem-se visto tanta coisa...

E também ficava absorto, idiota, seguindo com um olhar esgazeado umas visões que o iam enlouquecendo.

Ela no entanto vinha alegre, radiosa, cheia de vida, com o seu vestido de foulard cor de carne a desenhar-lhe as formas flexíveis, com uma rosa nos seus cabelos louros, dava-lhe o braço, e arrastava-o enlevado e estúpido pelas alamedas do jardim.

— Conta-me lá o que tu fazias quando eu cá não estava! Conta-me em que pensavas. Estavas muito triste? Quando é que viste pela primeira vez o teu amigo Henrique? Que lhe dizias tu de mim? E ele?... Ele que ideia fazia desta endiabrada pessoa que tu lhe descreveste tanta vez com a tua fantasia de poeta — porque tu quando se trata de mim és poeta, meu pobre Tadeu! — Anda, falia, conta-me o que vocês faziam, gosto tanto de te ouvir!

E toda dobrada sobre o ombro dele, meiga, elétrica, fascinadora, com meneios de serpente, levava horas passeando pelo braço de Tadeu.

***

Um ano depois desta época, Margarida declarava terminantemente aos pais que voltava para França, que ia morrer freira no convento onde vivera educanda, se eles a não casassem com Henrique.

E dizia-lhes estas palavras numa tal violência de gritos e de soluços, tão magra, tão empalidecida naquela lacta íntima de doze longos meses, que o marquês encolheu os ombros com a suprema indiferença que fazia dele um viveur, e que a marquesa animada pela placidez do marido ao encarar esta questão magna, declarou à filha, hoje seus únicos amores, que ia fazer tudo para lhe dar o noivo da sua alma, o escolhido pela sua ardente paixão juvenil.

Teve medo de ver a filha definhar-lhe e morrer-lhe nos braços. Via-a tão abatida, tão triste, tão enfastiada da vida, que a ideia de perdê-la sobrelevou a todos os seus escrúpulos de rica e de fidalga.

Margarida autorizada pelos pais pôde dizer a Henrique, que o amava!

Quanto amor! Que entusiasmo febril neste sublime impudor da criança opulenta, formosa, aristocrática, disputada por dezenas de noivos tão ricos e tão nobres como ela, que vem espontaneamente oferecer a sua mão e a sua vida inteira ao obscuro plebeu que passa confundido no meio das multidões desconhecidas!

E esse impudor, ninguém mais fidalga e altivamente do que Margarida o soube ter.

Sabia-se adorada, estremecida, sabia que um riso dela bastaria para as alegrias e para as torturas de uma semana passada por Henrique na labutação da sua mesquinha existência; mas sabia também que ele era tão grande, tão forte, tão orgulhoso e digno que podia morrer, mas que morreria calado, sem que uma palavra revelasse o seu martírio!

— Tadeu, meu querido Tadeu, meu amiguinho, tenho sido muito má, não tenho querido contar-te nada com medo de que lhe dissesses a ele alguma coisa. Eu queria ser a primeira a dizer-lho, queria gozar do seu sorriso, do seu olhar de anjo, de mártir beatificado, do seu olhar que me enlouqueceu para sempre... Agora digo-te, já não tenho motivo nenhum para to esconder.

Vou casar-me, vou ser dele, só dele... Levar-te-ei conosco... Olha que foi ele que mo pediu... Vê como ele é bom. Eu a falar a verdade estava tão doida que nem me lembrei de semelhante coisa; mas ele falou logo em ti, foi a sua primeira vontade! Adoro-te visto que ele é teu amigo. Hás de aborrecer-me às vezes, meu pobre Tadeu, porque nunca entendes a tempo quando deves ir-te embora, mas eu hei de educar-te. Verás! Viveremos todos três. Nunca mais te hei de tratar mal! Nunca mais me hei de rir da tua casaca. E, a propósito, tu ainda a tens, aquela malfadada casaca? Não me faças rir no dia do meu casamento, pelo amor de Deus manda fazer uma nova para esse dia. Não tenhas medo de gastar. Eu tenho muito. Sou rica, muito rica, somos todos três muito ricos.

E doida, anelante, no delírio da criança que venceu a sua primeira teima, na dilatação ampla de uma alma que conquistou o seu desejo supremo, Margarida expandia nestas palavras difusas incoerentes, sem nexo, toda a felicidade que era hoje dela e que julgava eterna.

Tadeu escutava com o olhar morto e vidrado de um sonâmbulo.

Depois emudecido por uma dor aguda que lhe rasgava as carnes de todo o seu corpo como um punhal de muitas lâminas, saiu do quarto cambaleando como um ébrio.

No dia do casamento de Henrique houve dois seres que na humilde tristeza de uma pobre casa, choravam unidos todas as lágrimas da sua alma.

A um desses seres pungia-o uma angústia dilacerante demais para que a palavra humana a pudesse traduzir.

A outro sobressaltava-o um pressentimento horrível, como que um dobrar de finados que lhe ecoava lá dentro, e ao qual não podia fechar os ouvidos.

Esses dois seres esquecidos, voluntariamente afastados das pompas principescas daquele dia, das festas daquela solenidade esplêndida eram Tadeu e a irmã de Henrique.

***

De feito há já cinco anos que viviam juntos numa casa espaçosa e lindíssima de Buenos-Aires.

Henrique pedira com tão meigas e sentidas palavras a Tadeu para que ele os não deixasse, que depois da viagem de rigor feita pelos noivos à Suíça e à Itália o bom cão fiel foi viver junto deles.

As investigações da ciência, o estudo paciente dos homens e das coisas, altas aspirações inspiradas pelo marquês a uma gloriosa carreira política, absorviam Henrique, enquanto que Tadeu mais amadurecido agora pela experiência da vida, administrava a casa, tomava contas aos feitores e criados, punha em ordem os pagamentos, recebia os rendimentos, pagava aos fornecedores, era por assim dizer o mordomo-mor da opulenta fortuna da sua companheira de infância.

Margarida continuava a ser o enlevo e o mimo de quantos viviam junto dela.

De uma organização delicada, nervosa e vibrátil, com um aspecto infantil, que infundia uma vaga e doce ideia de proteção; boa, desta bondade superficial e egoísta, que consiste em não gostar de ver ninguém triste ao pé de si, todos os seus caprichos se convertiam noutras tantas graças, todas as suas exigências se impunham com a tirania adorável de uma súplica!

O marido tinha por Margarida aquela paixão deletéria e quase covarde, que ela lhe inspirara logo no primeiro dia.

Não sabia resistir senão a muito custo, a um olhar daqueles olhos úmidos e radiantes, a um sorriso daqueles lábios vermelhos, a um gesto daquelas mãos finas, esguias, pálidas, da suave palidez dos lírios.

Não era bem amor, era uma fascinação, uma embriaguez, uma destas doenças que exercem no cérebro a sua ação paralisadora.

Margarida que nenhuma força superior tentava dominar, dera expansão completa a todos os caprichos da sua colorida e quente fantasia.

Adorava o luxo, as coisas de arte, a música, as flores raras, frequentava muito o alto mundo onde era requestadíssima, vivia na perpétua idolatria de si própria, que a pouco e pouco a inutilizava para os graves deveres da vida.

Tadeu no meio da sua cega e embrutecedora adoração obedecia-lhe como um escravo. Só ele sabia as despesas colossais, as extravagâncias principescas daquela pequenina pessoa, ativa, graciosa, fantasista como um poeta oriental.

Mas economizava ridiculamente em todas as verbas, para que ela, a rainha, a perola, a Margarita dos seus sonhos de outro tempo não franzisse um minuto a sua testa curta, a sua testa de teimosa, na contrariedade de um desejo insaciado.

E ela estava tão habituada à submissão e à humildade daquele pária, que o tratava como um traste, um objeto seu, com o qual não tinha de mostrar o mínimo constrangimento, a mínima atenção afetuosa.

— Tadeu, quero isto! Tadeu, quero aquilo! Tadeu, vi hoje na loja de F. um adereço de um conto de réis. Se o não mandar buscar até amanhã vendem-no. Eu quero-o. Não me deixes ficar sem ele. Fazias-me chorar!

Não lhe pedia a lua como em outro tempo, mas quantas vezes lhe pedia coisas quase tão inacessíveis como a lua!

Margarida tinha dois filhos. Um menino e uma menina. Dois querubins.

Mais meigos do que a mãe nunca fora, mais dóceis, mais tranquilos, tendo no olhar a serenidade melancólica do olhar do seu pai!

Tadeu envelhecido, de uma velhice precoce que assombrava os que o tinham conhecido na infância, tinha por essas duas crianças um louco amor de avô.

Aqueles quatro seres eram a sua vida.

Fundia-os a todos na mesma adoração apaixonada e tímida.

Vivia deles e para eles.

Henrique era o seu respeito. Margarida o ídolo do seu passado, os dois querubins louros, a única esperança suave do seu futuro.

Sacrificar-se, esquecer-se, abnegar de si, eis o modo obscuro e sublime pelo qual ele sabia querer!

Mas os dois pequeninos que não eram turbulentos nem cruéis, tinham nas suas carícias inconscientes o bálsamo poderoso, o bálsamo divino para as chagas ocultas daquele coração que a vida ulcerara tanto e tanto.

***

Desde algum tempo que Tadeu andava inquieto.

Com o seu faro finíssimo de rafeiro fiel pressentia no ar um perigo desconhecido, alguma coisa de misterioso e de sinistro, que ouvia rugir ao longe como no fundo de uma voragem.

Na aparência todos viviam tranquilos:

Henrique sempre bom, sério, pensativo, de uma indulgência de forte, de uma doçura de herói.

Margarida sempre buliçosa, inquieta, cheia de desejos infantis, de caprichos, de alegrias ruidosas ou de melancolias súbitas que às vezes no silêncio da sala fofa e discreta pareciam a Tadeu um grito de alarme na monotonia do deserto.

As criancinhas... Sempre os seus mais doces amores, aqueles de que nunca lhe proviera uma amargura.

Quando Tadeu pensava que podia uma fatalidade qualquer separá-lo dos seus dois anjos, desatava a chorar como um perdido na solidão do seu quarto.

***

Ele estava sentado ao pé da mesa. Primeiro estivera fazendo contas, as despesas da casa, agora pendia-lhe a cabeça embevecido num vago pensamento.

Sem saber explicar porquê, naquele dia lembravam-lhe tantas coisas do seu passado!...

Sentia dentro de si uns vagos assomos de revolta, lembrando-se das humilhações que padecera, dos tratos com que lhe tinham enfraquecido o corpo e atrofiado a inteligência. Depois... Na sua vida, até ali obscura e dolorosa, surgia de repente envolta nas rendas brancas do seu berço uma visão deliciosa, uma pequena fada, a sua amiguinha, a sua Margarida!...

Como fora feliz com ela e por amor dela...

Contudo... Pensando bem... Para essa felicidade quimérica fora ele quem fornecera todos os elementos. Ela nunca vira no pobre Tadeu senão um instrumento dos seus caprichos, um escravo das suas vontades...

Em todas as delícias com que dourara a sua vida não havia uma só que fosse nascida da vontade de ser-lhe boa, útil, consoladora!...

— E verdade, murmurava o pobre doido, é verdade! Ela nunca teve coração!

E suspendeu se como que aterrado daquela blasfêmia.

Neste momento Margarida entrava pelo quarto de Tadeu, pálida como um cadáver, com os grandes olhos dilatados numa expressão de indescritível pavor.

Agarrou-se-lhe ao braço e disse lhe baixo, numa voz estrangulada e rouca:

— Henrique chegou da quinta. Eu não o esperava. Contava que ele viesse amanhã. No meu gabinete há uma pessoa que deve sair sem que o meu marido a veja. Ouves? Estou perdida... Estava perdida mas lembrei-me de ti… Salva-me...

— Não me digas nem uma palavra — prosseguiu vendo que ele ia falar. — Uma demora de segundos perde-me sem remissão.

E saiu com o seu passo miudinho, o seu passo chique, aprendido de passagem nos boulevards de Paris.

Tadeu saiu do quarto, e quando voltou a entrar ali, acompanhava-o um rapaz muito pálido, de bigode louro, cabelo cuidadosamente frisado e toilette irrepreensível.

Não trocaram uma palavra. Tadeu apontou-lhe para uma cadeira, fechou a porta do quarto à chave e sentou-se junto da janela, que dava sobre o jardim.

Era em plena primavera. Pela janela aberta entrava um perfume vago e sutil, um perfume de rosas, de madressilva e de baunilha em flor.

Ouvia-se o rir e o chilrear das duas crianças, e entre as ramarias entrelaçadas dos grandes arbustos exóticos, Tadeu viu passar com os seus meneios serpentinos, o seu vestido branco, a sua cabeladura douro, a figura esbelta de Margarida pendida ao braço do esposo com quem falava baixinho.

Foi a última visão que teve dela.

Uma visão de perfídia felina e de felina formosura.

***

— Deixe-se estar quieto. Não vê que não pode sair deste quarto senão à noite? Pronunciou a voz enrouquecida de Tadeu.

E sem dar mais atenção ao seu odioso hóspede, pôs-se a arranjar papéis, uma trouxa de roupa, algumas velhas relíquias, os retratos dos seus dois pequeninos, dos seus netos como ele lhes chamavas.

Depois despregou da parede as duas fotografias de Henrique e de Margarida. A dele beijou-a, e guardou-a com as dos pequeninos. A dela... Aproximou-a de uma vela que acendera e deixou-a arder até que ficaram só cinzas. Estava medonhamente lívido.

Era noite: sentiu o rumor conhecido da hora de jantar, esperou que o criado viesse chamá-lo e respondeu-lhe:

— Diga aos senhores que jantem. Eu hoje estou convidado fora, não os posso acompanhar.

Olhou para o homem que ali estava na mudez estúpida dos malvados, que são ridículos, e disse-lhe:

— Venha daí.

Saíram juntos.

Tadeu nunca mais voltou; não pôde.

Pediu a esmola de um agasalho à irmã de Henrique, e achou meio de fazer num escritório cópias que lhe rendem três tostões diários!

Disso come e disso se veste.

Fingiu-se ofendido com Henrique por uma dúvida mesquinha de contas, que este nunca chegou a perceber.

Aceitou o papel degradante do ingrato que morde a mão que o socorreu.

Ninguém pôde nunca arrancar-lhe nem uma palavra do seu segredo.

Tem 35 anos e dão-lhe setenta.

As poucas pessoas que o veem ou o desprezam por ser absolutamente insignificante ou têm por ele a comiseração que inspira um idiota.

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