domingo, 5 de novembro de 2017

A chácara (Conto), de Humberto de Campos


A chácara

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Nestes tempos, em que, embora com dinheiro no cofre, no Banco ou no bolso, não se encontra, no Rio, uma casa, mesmo de segunda ordem, para alugar ou adquirir, é de meter inveja a felicidade do Comendador Severiano Braga de Souza, com a sua chácara monumental, situada, como numa floresta, em pleno coração do bairro de Botafogo.

A propriedade do Comendador Severiano constitui, realmente, um dos orgulhos do Rio de janeiro. O prédio, que pertenceu ao saudoso visconde de Coroatá, e, mais tarde, à Baronesa de Itapiru, é, depois das reformas a que foi submetido, um verdadeiro palácio. O que, porém, valoriza, ainda mais, tudo aquilo, é o terreno beneficiado pela mão dos seus antigos proprietários, e conservado com um zelo religioso pelo opulentíssimo capitalista que atualmente o possui.

Informado da existência dessa preciosidade, eu próprio me fiz, um destes dias, convidado, e atirei-me a visitar o Comendador. E foi, para mim, um deslumbramento aquele conjunto de maravilhas, em que se casam, numa suave harmonia que embala os sentidos, a inteligência da Arte e a graça inocente da Natureza.

— Quer, então, ver esta sua casa?... — observou, satisfeito, o antigo presidente do Banco Popular Carioca.

E, tomando-me pelo braço, levou-me a percorrer, um a um, os pontos encantadores da chácara.

— Isto aqui, — observou-me, apontando-me um enorme viveiro em que pipilavam toda a sorte de passarinhos nacionais ou exóticos, — isto aqui é o meu encanto, de todas as manhãs. Temos aqui o melro, o corrupião, o rouxinol, o periquito, a cambachirra, o curió, enfim, duzentas ou trezentas aves diferentes.

E, como se eu não soubesse, explicou-me, com ênfase:

— É o aviário!

Mais alguns passos, e, ao fundo de uma gruta iluminada, onde peixinhos de mil espécies rabeavam, como joias vivas, em pequenos depósitos de água límpida, esclareceu-me, com a mesma erudição:

— É o aquário!

Examinados os recantos da caverna encantada, que me transportava, como num sonho, ao fundo maravilhoso do oceano, passamos adiante. Era uma espécie de clareira, de várzea chã, onde se estendia; cheirando e florindo, um tapete macio, úmido, multicor, de ervas aromáticas.

— É o herbário! — ensinou-me o Comendador.

Nesse momento, porém, chamaram a minha atenção umas latadas enormes, artisticamente dispostas, formando caminhos ensombrados. Endireitei os óculos para examinar melhor, e vi: tratava-se de uma admirável plantação de parreiras abertas em frutos, em que os cachos, amarelos, uns, roxos outros, pendiam, sumarentos, brilhantes e numerosos, como bolhas de ouro ou de vinho suspensas miraculosamente das folhas.

— Magnífico! — exclamei, deslumbrado.

O Comendador inflou a barriga, sorriu, desvanecido, e, estendendo o dedo no rumo do parreiral, explicou, com orgulho:

— É o "uvário"!

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