sábado, 18 de novembro de 2017

A Morgada de Romariz (Conto), de Camilo Castelo Branco


A Morgada de Romariz
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Vi esta morgada, há três anos, em Braga, no Teatro de São Geraldo. Estava em cena Santo Antônio, o taumaturgo. A comoção era geral. Tanto a morgada como o seu marido, o Comendador Francisco José Alvarães, choravam, às vezes; e, outras vezes, riam-se.

Era uma senhora de espavento, avermelhada, com as frescuras untuosas e joviais dos quarenta anos sadios, seios altos e atlantes, pulsos roliços e averdugados pela compressão das pulseiras cravejadas de esmeraldas e rubis.

Riu-se a morgada quando aquele Santo Antônio do século XIII recitou às raparigas uma poesia madrigalesca de Brás Martins — bom homem que esteve quase a regenerar o teatro nacional como ele deve ser. A poesia rezava assim nesta prosa inocente:

Mimosa nasce a flor e vive ainda,
Se arrancada não foi logo ao nascer; 
Assim a virgem nasce e vive pura, 
Se o vício não trabalha pra perder 

Et etecetera, com a mesma unção e música.

A morgada sorrira-se para o marido; e ele, para lhe provar que também percebera o chiste, formou um tubo com os beiços carregados de chalaças mudas e disse com aticismo velhaco:

— Versalhada...

Ora, a morgada de Romariz, lágrimando com inteligência na prosa da oratória, assim que algum personagem pegava de rimar, ria-se. Persuadira-se de que a missão dos versos era como a das cócegas. A natureza dera-lhe ao espírito aquele feitio.

Remirei-a de esconso por sobre a espádua do esposo.

Ela bocejava nos entreatos, até mostrar as campainhas; ele tosquenejava, e às vezes, espreguiçando-se, grunhia:

— Estou maçado.

— Pudera... — obtemperava a esposa —, a comédia bonita e... mas não há nada como estar a gente na sua cama, Zezinha!

E dava tons lúbricos ao diminutivo.

— Quem me lá dera... — respondia Alvarães, deslocando as botas e dando folga e frescor aos pés no aprazível túnel dos canos. — O polimento estorcega-me os calos... — queixava-se com azedume. — Comédias... Ora adeus! Patranhas... 

— Modos de vida, homem...

E abriam juntos as bocas espasmódicas.

— Ao menos se eu viesse ceado... — dizia ele.

— Fizesses como eu...

— Não me cabia cá... — E batia com os dedos dobrados no alto ventre como se faz às melancias suspeitas.

— Já agora, hemos de ver a cena da glória, que é o mais bonito... — opinava a esposa.

Neste comenos, visitou-os um o meu conhecido de Famalicão. Ao erguer do pano, saiu de lá e entrou no meu camarote. Foi ele quem me disse o nome das duas pessoas, acrescentando:

— Ali, onde a vê, tem romance; dá matéria para dois temos...

— Picarescos? Não me servem... Eu quero filosofia: os meus leitores querem filosofia, percebe o senhor?

— É o que ela tem mais que dar.

— Ora essa!... O senhor sabe que ela tem isso? Queira apresentar-me...

— Deus me defenda... Eu disse à morgada que você era romancista...

— E ela que disse?

— Riu-se.

— Riu-se?! É boa!... E o marido...

— O marido disse: “Arreda!”

***

Vejamos a filosofia que eles têm.

Melhor que uma estirada narrativa, desfigurada talvez pela imaginação do informador, li um processo que o sujeito me emprestou. Correra o pleito entre panes que litigavam em matéria de casamento. Figurava uma donzela depositada judicialmente. O pai da nubente impugna e alega que o pretendente a sua filha é um birbante de vilíssima relé. O noivo, contrariando, expõe que o pai da sua futura é de origem tão canalha que, apesar de ser fidalgo da casa real, é filho de um salteador de estradas, como é público e notório, dizia o noivo; e acrescentava “que não havia ainda vinte anos que o seu contendor exercitara ofício de fogueteiro em Vila Nova de Famalicão”. Neste conflito, a depositada trancara o pleito vergonhoso aceitando outro marido que o pai lhe inculcou. A menina questionada era aquela morgada de Romariz e o marido o Comendador Alvarães.

Quanto a filosofia, este acontecimento pareceu-me assaz chocho; eu pelo menos não fita encontrei, por mais que virasse do carnaz os personagens do processo. Louvei” procedimento da jovem injuriada na pessoa do seu progenitor; mas o fermento da tal filosofia não me dava para levedar massa de cinquenta páginas. Abri mão do assunto e larguei-o às imaginações florentíssimas da minha pátria. Porém, transcorridos dois anos, num livro impresso por 1815, li uns nomes que tinha visto nos autos escandalosos.  Examinei de novo o processo e trasladei certas passagens que, alinhavadas a outras do referido livro, deram esta novela, em que, por felicidade do leitor e a minha, não há filosofia nenhuma, que eu saiba.

***

Quando Vila Nova de Famalicão era um burgo de cem vizinhos com um juiz pedâneo, saiu dali para a corte, em 1744, um rapaz de quinze anos, que começara com o seu pai o ofício de pedreiro. Assinava-se Antônio da Costa Araújo, escrevia limpamente e era esperto. Chamara-o a Lisboa um tio, mercador de panos, estabelecido na Rua dos Escudeiros, que até ao terremoto de 1755 ocupava parte do terreno hoje compreendido na Rua Augusta. Matias da Costa Araújo, irmão do pedreiro, engraçou tanto com o sobrinho que, apesar dos poucos meios, mandou-o às aulas dos Jesuítas no Pátio de Santo Antão, a fim de habilitar para o clérigo, contra a propensão mercantil do rapaz. Matias tinha sido infeliz no comércio e dizia que era mau modo de vida aquele em que a prosperidade se desavinha da honra.

No 1º de novembro de 1755, o constrangido destino do estudante transtornou-lho a catástrofe em que o seu tio pereceu debaixo da abóbada da Igreja de São Julião, onde assistia às missas dos fiéis defuntos. Os seus medianos haveres armazenados devorou-lhos todos o incêndio. Ficou portanto em desamparo grande o estudante, e tratou de amanhar a sua vida, deixando arder sem saudade a gramática latina do padre Álvares com os cartapácios correlativos.

Nicolau Jorge, mercador abastado, vizinho e amigo do defunto Matias, condoído do sobrinho, chamou-o, ouviu-o discorrer a respeito da espécie de mercadoria em que mais seguro negócio deveria tentar-se na crise do terremoto e, aplaudindo-o, emprestou-lhe duzentas moedas de ouro. Leiloavam-se então, nas ruas e praças, fazendas avariadas por água e fogo. Antônio da Costa Araújo arrematou por preço ínfimo fardos equivalentes ao seu avultado capital, pagando-os no mesmo ato com grande espanto do desembargador Torciles, presidente das arrematações. Estabeleceu-se Costa Araújo no Campo de Sant'Ana e ganhou, no primeiro ano, com estas fazendas avariadas, doze mil cruzados. Volvidos seis anos, era um dos mercadores mais opulentos da cone; morava no primeiro quarteirão da Rua Augusta, à esquerda, indo do Rossio, e era geralmente conhecido pela alcunha de Joia. Tinha camarote efetivo na ópera, banqueteava personagens de alta condição, recebia nos seus armazéns a mais luzida sociedade de Lisboa com fidalga cortesia: chamava “joias” às damas, e daí lhe pegou a ele a alcunha desmaliciosa. Confluía ao seu balcão a flor da cidade, porque ninguém o excedia na fina escolha dos atavios, no primor do gosto e em probidade de contratos.”Ali vinham”, diz o coronel Francisco de Figueiredo, “comprar-se os enxovais para os grandes casamentos, o vestuário para todas as grandes funções, de que houve muitas, entrando neste número os casamentos dos nossos soberanos, nascimentos de príncipes, os dias de anos de toda a real família e os três dias das funções da inauguração da estátua equestre do Sr. Rei D. José, o 1º, de tão gloriosa memória.”

Costa Araújo não compelia os devedores a pagarem-lhe judicialmente; que o infortúnio dos que não podiam gozar a honra e o prazer da pontualidade fazia-lhe dó. Quis o marquês de Pombal nobilitá-lo como fizera a outros comerciantes, mais para abater a fidalguia histórica do que para levantar a burguesia industriosa. O Joia nunca pediu nem aceitou distinções. Foi toda a vida mercador, sempre ao balcão, ou encostado à ombreira da porta, como hoje o não fazia um caixeiro com a cabeça cheia de socialismo e óleo de amêndoas doces.

À volta dos sessenta anos, Antônio da Costa Araújo enfermou de paralisia. Era solteiro. Chamou para a sua companhia um irmão que tinha na terra natal, pedreiro como o seu pai e que nunca deixara de trabalhar, posto que o irmão rico lhe desse boa mesada, sem todavia lhe aconselhar ofício menos grosseiro, por entender que são muitos os pedreiros felizes e pouquíssimos os grandes do mundo que a inveja dos pequenos não perturbe.

O paralítico fez testamento, em que repartiu o seu capital por diversos amigos, e deixou ao seu irmão Bento da Costa três mil peças de 7$500 réis.

Falecido o Joia, apareceu em Famalicão Bento pedreiro, envergando um tabardo velho de briche, que exibia com visagens consternadas, dizendo que não herdara outra coisa do irmão, o qual tudo gastara e morrera pobre. O pedreiro, supondo que o acreditavam, era boçal à proporção de avarento; faltava-lhe a velhaca finura que hoje em dia ilustra os Minhotos. Verdade é que não havia ainda gazetas que assoalhassem as verbas testamentárias; mas a notícia da herança de Bento chegara a Famalicão primeiro do que ele. Cinquenta e seis mil cruzados e tanto! Quem poderia herdar secretamente riqueza tamanha num tempo em que bazofiava por Lisboa um argentário a quem chamavam o Trezentos Mil Cruzados porque ele, vindo do Brasil, manifestara aquela colossal e quase fabulosa quantia! Cem contos de réis, hoje em dia, é quase uma vergonha possuí-los; a quem não fingir que tem essa soma quadruplicada é um homem que, se souber governar-se com muito prumo, poderá talvez dispensar-se de ser recolhido para um asilo de mendicidade.

O pedreiro era viúvo, vivia só e tinha um filho soldado de artilharia do regimento do Porto, aquartelado em Valença. Quando a notícia chegou ao quartel, o rapaz, insano de alegria, desertou, confiado na herança. Entupiram-no, porém, o espanto e a consternação quando encontrou o pai à orla da estrada a brocar uma penedia por conta de um lavrador. Recobrado do assombro, perguntou-lhe se não herdara três mil peças de ouro. O velho pôs os olhos espavoridos no céu, abanou a cabeça como os personagens da Ilíada, desfechou contra o filho um esgar desabrido e bradou:

— Três mil peças?! Três mil diabos que te levem a ti e mais a quem levantou essa aleivosia! O que eu herdei foi um reguingote de saragoça já no fio. Se o queres, vai buscá-lo, que ele lá está pendurado num gancho... Com que então, Joaquim, vinhas ao cheiro das peças?

— Vinha pedir-lhe, Sr. Pai — respondeu o rapaz com tristeza e respeito —, que me livre de soldado, porque já não posso com o serviço. Estou doente e preciso de mudar de vida.

— Trabalha, faz como eu, que também não posso, e estou aqui a furar este calhau.

Quiseste ser soldado... lá te avém.

— Senhor Pai, olhe que eu saí da praça sem licença... sou desertor...

— Não me digas isso segunda vez, que te rejeito esta broca à cabeça!

— Faz-me vossemecê uma esmola — replicou serenamente Joaquim — que eu antes quero a morte que as chibatadas... Sabe que mais, Sr. Pai? — prosseguiu o desertor limpando o suor e as lágrimas —, ou vossemecê me livra, ou eu vou juntar-me à quadrilha que anda na Terra Negra.

— Capaz disso és tu, alma do diabo! Sai-me da vista dos olhos, que eu já te não enxergo, ladrão!

E, arrojando a broca e o maço de ferro pelo respaldo do penedo, sentou-se com os cotovelos fincados nas pernas e pensou alguns segundos com a cara tapada pelas mãos esfoliadas e negras de terra.

O filho esperava, indeciso entre o ódio e a compaixão. Pensava que o pai herdara as três mil peças e o deixava optar entre a chibata e a malta de ladrões, Joaquim sentia-se tremer de raiva; se, porém, a herança era uma invenção, o ar aflito do velho sujo, roto e quebrado de trabalho compungia-o.

Nesta vacilação, ergueu o pedreiro o rosto menos descomposto e disse:

— Vai para casa, que eu vou daqui falar com o teu padrinho... Aí tens a chave; procura as peças, e leva-as, que eu dou-tas...

Esta zombeteira liberalidade incutiu logo em Francisco dúvidas da herança. Entrou em casa e examinou toda aquela antiga e conhecida pobreza. Na lareira, entre cinzas, a panela de barro desbeiçada e duas tigelas na trempe; o escabelo corroído de caruncho e a espaços espumado de gorduras lustrosas; o catre de bancos e a enxerga rota e arrepiada de palhiço; a candeia de ferro enganchada na parede; por baixo, pingada de sal, uma banca de pau-santo com pés torneados, mas com as roscas esborcinadas e gavetas de pinho em bruto com puxadores de corda. Sobre a miséria dos trastes, o lixo, a sordícia que o filho do pedreiro nunca assim vira, porque a sua mãe ainda vivia, quando ele assentou praça. Aos pés da cama havia uma rima de cascabulho, grabatos de lenha, ferramentas quebradas, rodilhas e cacos, numa forquilha de quatro esgalhos pregada na trave mestra pendia, coberto da fuligem da lareira, o albornoz poido que o irmão do Joia dizia ter herdado.

O desertor sentou-se na arca de pinho, contemplou aquela indigência e pensou consigo:

— Acho que me mentiram... O meu pai não herdou nada... Dantes ainda nesta casa havia uns lençóis lavados e pão à farta, quando recebíamos todos os meses a moeda que o tio tios dava... E agora que há de ser de mim?... Estou perdido!...

Neste comenos, assomou ao limiar da porta um vizinho, que vira entrar o soldado.

— Estás por aqui, Joaquim Faísca?! — perguntou o Luís Meirinho.

Convém saber que o filho de Bento ganhara alcunha de Faísca desde que mostrou, aos dezoito anos, extraordinária destreza em ferir lume no fósforo dos ossos dos adversários. O outro chamava-se o Meirinho, porque o tinha sido do corregedor de Barcelos, e na opinião pública passara de quadrilheiro da justiça a capitão da quadrilha que infestava a Terra Negra. Continuava o ofício, diziam alguns, ganhando na carreira três postos de acesso.

— Vieste com licença? — perguntou o Luís Meirinho.

— Não, senhor. Pedia-a, e não ma deram — respondeu Joaquim, com o propósito de se acolher ao valimento do vizinho, se o pai lhe não acudisse. — Eu estou doente do peito e não posso com esta vida de soldado. Ouvi lá dizer que o meu pai estava muito rico com a herança do meu tio. Desertei, pensando que ele me livraria com dinheiro; mas agora mesmo o topei no Vinhal a quebrar pedra e ele me disse que herdara um albornoz velho que ali está.

— E tu acreditaste? — atalhou o outro velhacamente.

— À vista da miséria em que eu encontro esta casa...

— Pois fica sabendo que o teu pai herdou três mil peças. Sabes quanto fazem três mil peças?... Cinquenta e seis mil e tantos cruzados. Sabe toda a gente da vila que o teu pai está riquíssimo. Posso mostrar-te a cópia do testamento. O teu pai é um miserável, é a vergonha dos homens! Mata-se à fome, come duas tigelas de caldo por dia e diz mal do irmão porque lhe deixou um albornoz coçado, quanto toda a gente sabe que o deixou rico...

— E o dinheiro? — acudiu Joaquim circunvagando os olhos pelos cantos da casa e lareira.

— Dizem uns que o deixara em Lisboa a render e outros querem que ele o tenha enterrado aí nesse chiqueiro; mas a minha opinião é que o teu pai, se trouxe o dinheiro, não o tem em casa. Meteu-o debaixo de alguma fraga aí da serra por onde ele anda sempre a quebrar pedra.

— E que hei de eu fazer, se ele me não livrar? — perguntou Joaquim.

— Eu sei lá, rapaz! Se o teu livramento depende do dinheiro do teu pai, não quisera eu estar-te na pele! Levas as chibatadas da lei tão certo como eu quisera valer-te e não posso. Conheço-te desde rapazito, e nunca me há de esquecer que vai agora em dez anos, na romaria das Cruzes de Barcelos, me acudiste num aperto e quebraste três cabeças, enquanto eu quebrei duas. Olha, Faísca, se te vires em apuros, procura-me; livrar-te de desertor, isso não posso eu; mas das chibatadas e da farda eu te livrarei...

— Como?

— Isso são contos largos... Aí vem teu pai ao fundo da rua. Vou-me embora, que não posso encarar aquele sórdido avarento! Se eu soubesse que ele tinha o dinheiro no bucho, tirava-lho pelas goelas e dava-to, rapaz!

***

O pedreiro ainda vira o vizinho a safar-se da sua testada.

— Que fazia aqui o Luís Meirinho? — perguntou ele carranqueando.

— Nada; conversávamos...

— Eu cá à minha porta não quero conversas com ladrões, ouviste?

— Ladrões!... O Luís não me consta... que...

— Passa tu na Terra Negra com dinheiro de modo que ele to bispe, e lá verás quem é o Meirinho. Há de haver três anos que deixou o ofício, que rendia pouco; e, desde que não tem ofício, comprou casa, tem cavalgadura, trata-se à regalona, come carne do açougue e bebe do da companhia. E eu, que trabalho há bons quarenta anos, custa-me a amanhar para uns feijões e bebo água da fonte.

— O Sr. Pai assim o quer... — atalhou Joaquim entre receoso e risonho.

— Perca o amor às peças...

— E tu a dar-lhe!... — respondeu iracundo o pedreiro. — Já te disse que as procures!...

Não herdei nada! não herdei nada! — E berrava convulsionado freneticamente, sacudindo os braços.

— Não grite assim, que não faz míngua barregar! — atalhou o filho. — A gente está conversando... às boas... Hein?

No aspeto do Faísca ressumbravam sentimentos pouco filiais. A ironia franzia-lhe os cantos dos beiços, ao mesmo tempo que a ira lhe avincava a testa. No ar com que se sentara na arca, dobrando o corpo e bamboando as pernas em gingações de tarimba, denotava quebra de respeito e disposição a questionar faceiramente com o velho.

— Com que então... — prosseguiu Joaquim. — Vossemecê não herdou três mil peças?

— Não! — bradou o pai. — Não! com mil diabos (Deus me perdoe), não!

— E se eu lhe mostrar a cópia do testamento... — respondeu Joaquim esbugalhando os olhos, abrindo a boca e pondo fora a língua em todo o seu comprimento. — Que me diz vossemecê, Sr. Pai? se eu lhe mostrasse a cópia do...

— Tu acho que vieste cá para dar cabo de mim! — interrompeu Bento, desentalando-se da sua aflição por aquela estúpida réplica. — Amaldiçoado sejas tu!... — E, com os dentes cerrados e as mãos na cabeça, ia e vinha da lareira para a porta, considerando-se o mais desgraçado homem que Deus criara.

— Senhor Pai! — continuou mansamente o filho —, isto não vai a matar. Tome fôlego e escute o seu Joaquim. Lembre-se que não tem outro filho a quem deixar os seus cinquenta e seis mil cruzados...

— Olha o diabo! — regougava o velho.

— O que eu lhe peço pouco monta. Livre-me de soldado e dê-me alguma coisa para eu casar com a Rosa de São Martinho. O pai dela decerto ma dá, se eu levar mil cruzados. Vou ser lavrador, terei saúde e alegria, e nunca mais lhe peço nada, Sr. Pai.

Joaquim, desde que proferira o nome de Rosa de São Martinho, mudara de tom e gestos. Os olhos imploravam e a voz tinha as modulações do respeito. O seu amor de dez anos, golpeado de saudades, quebrara-lhe os pulsos. Se o pai naquele instante abrisse no rosto uma ténue claridade de esperança, Joaquim acabaria a súplica de joelhos.

— Mil cruzados! — resmoneava o pedreiro. — Onde queres tu que eu os vá roubar?

Esta interrogação varreu do rosto do Faísca os sinais da boa reação.

— Eu não quero que os vá roubar, valha-me Deus! — respondeu Joaquim.

— Mas, a falar verdade, quem tem três mil peças do seu também pode ser ladrão da felicidade de um filho que ainda lhe não custou seis vinténs desde que pode trabalhar... Olhe, Sr. Pai, repare bem no que vou dizer-lhe... Eu para a praça não torno. Sou desertor.

— Venho de casa do teu padrinho — acudiu o pai menos torvo —; o Sr. Coronel Lobo da Igreja dá-te uma carta para o comandante, e diz que tudo se há de arranjar.

— Não torno para o quartel, já lhe disse. Estou doente, preciso mudar de vida.

— Que te leve a breca... Não quero saber de contos. Lá te avém. Dinheiro não tenho; sé se queres que eu venda a casa e me vá depois pedir um eido nos palheiros dos lavradores à beira dos cães.

— Está bom — concluiu Joaquim erguendo-se e espreguiçando-se —, vou ouvir a opinião do Luís Meirinho, que, de um modo ou doutro, prometeu livrar-me da farda e da chibata...

— Vais falar com o Meirinho para isso, ó alma perdida?

— Pois então! Aquele é amigo do seu amigo e se me for necessário dinheiro...

— Ensina-te a roubá-lo...

— E ele que sabe onde o há... — respondeu Joaquim bocejando e fazendo três sinais da cruz na boca escancarada.

— Eu te deito a minha maldição — bradou o velho com solenidade bastante para a cena final de um ato, porém insuficiente para abalar o 32 da 7ª companhia do regimento de artilharia do Porto.

O Faísca sorriu e murmurou:

— Vossemecê parece que tem mais maldições que pintos... Pois cá vou com a sua maldição e depois... veremos se ela nos empece a ambos.

Bento, ao pular-lhe o coração em saltos de ruim presságio, ainda deu três passos para chamar o filho e avençar-se com ele mediante quantia necessária ao livramento; mas a imagem de um pote de ferro cheio de peças bateu-lhe rija no peito.

Quedou-se como empedrado a olhar para a soleira da janela de peitoril, cujas portadas quatro travessas de castanho esfumado imobilizavam.

***

Poucos dias depois, o juiz-de-fora de Barcelos incumbia ao ordinário do julgado de Vermoim a prisão do desertor Joaquim da Costa Araújo, de alcunha o Faísca. A gente mais grada de Famalicão, convencida da riqueza do avarento sem entranhas, advogou a favor do infeliz rapaz, rodeando o pedreiro com rogos e até com insultos e ameaças. O pedreiro, assustado, foi ter-se com o seu compadre, o coronel Lobo da Igreja Velha; e, bem aconselhado pelo fidalgo, cujo credor era, deu o dinheiro necessário para abafar o processo militar, comprar a baixa e substituir a praça no regimento.

Em seguida, quando se viu esbulhado das economias que amealhara antes de herdar as três mil peças, entrou-se de tamanha paixão, espicaçaram-no tantas saudades do seu dinheiro, que morreria abafado se não desafogasse no ódio ao filho. As vinte e quatro moedas de ouro que lhe custara a liberdade de Joaquim representavam fomes e sedes, desconfortos de frio em noites de Inverno, muitos suores em dias de Estio nó trabalho da serra a horas de sesta. E lembrava-se com bastante remorso que a sua mulher padecera sem cirurgião e morrera sem botica e fora indigentemente enterrada, tudo isto assim desgraçado e infame, porque ele não quisera bolir naquelas vinte e quatro moedas.

No entanto, Joaquim, bem que muito grato ao pai, não se mostrou tão penhorado que prescindisse de julgar obrigado a dar-lhe modo de vida. O velho mostrou-lhe um ferro de monte, um pico, um camartelo, e disse-lhe:

— Se queres modo de vida, segue o meu. Anda daí brocar uma fraga, e saberás quanto me custaram a ganhar as minhas vinte e quatro... — E, ficando entalado, esfregava os olhos debruados de roxo com o encodeado canhão da jaqueta.

O filho não se compadecia daquelas lágrimas; antes se sentia bravejar de condição com remoques e até com ódio à avareza do pai. Mau foi convencer-se Joaquim da herança e supor que o velho podia morrer sem testamento nem declaração do esconderijo do tesouro.

Debalde lhe espiava os movimentos, os olhares, as caminhadas no monte, a fim de farejar a lota das mil peças. Bento de Araújo ia frequentemente quebrar esteios de pedra nos penhascais de Vermoim e vendia-os aos lavradores para especar parreiras. As desconfianças do filho seguiam o velho entre fraguedos, chamados o Castelo; e o pai, que se julgou espreitado, alegrava-se secretamente e não se mostrava ofendido.

Entretanto, continuara Joaquim a sua velha afeição a Rosa de São Martinho; e, confiando que a fama da riqueza do pedreiro seria bastante a que o abastado lavrador, esperançado na herança, lhe cedesse a filha, pediu-a afoitamente; mas o pai da Rosa tinha mediana confiança em sapatos de defunto e disse que só daria a sua filha se o noivo trouxesse mil cruzados em dinheiro ou terras. O novo namorado abriu de novo o seu peito ao pai, que parecia apertar os cordões da bolsa à medida que o coração do rapaz se abria. Joaquim, bem aconselhado pelo seu amor, socorreu-se do padrinho, o coronel da Igreja Velha, pedindo-lhe que movesse o velho a dotá-lo.

Era o fidalgo a única pessoa que exercia influência em Bento de Araújo, e tamanha que pudera arrancar-lhe alguns mil cruzados a juros, sob juramento de não dizer a alguém que lhos devia. Mandou-o chamar e aconselhou-o a que desse dote a Joaquim. Avultou-lhe as funestas consequências da sua teimosia em querer passar por pobre quando toda a gente estava convencida do contrário; pintou-lhe os perigos em que ele punha o filho sem ofício que o salvasse da camaradagem de vadios suspeitos com que patuscava nas tabernas da Lagoncinha e outros lugares infamados. Afinal, como o velho insistisse desaforadamente em dizer que não tinha senão o dinheiro que o seu compadre lhe devia, o coronel rendeu-o com esta honrada deliberação:

— Pois bem: tudo se arranja, querendo Deus e tu. Devo-te três mil cruzados; não tos posso pagar, enquanto algum dos meus filhos não trouxer esposa com dote; mas irei tirar quatrocentos mil-réis a juro nalguma confraria, e esse dinheiro vais tu dá-lo ao teu filho para casar com a rapariga, que é de boa gente, e há de ter dobrado ou mais do que ele tem.

As últimas palavras de Bento, nesta pendência, definem cabalmente a sua natureza. Quando o compadre lhe disse:

— Tu virás de hoje a oito dias receber os quatrocentos mil-réis para os dares ao teu Joaquim no ato da escritura do casamento —Bento acudiu impetuosamente:

— Eu não quero ver o meu dinheiro! Arranje a vossa senhoria cá isso de modo que eu não veja o meu dinheiro!...

Ele sabia que, no ato da contagem dos mil cruzados, seria capaz de agarrar a saca e fugir com ela do escritório do tabelião.

Assim mesmo, o pedreiro, se tinha muitas maldades de avarento, possuía também algumas belas qualidades de pai; e uma, digna de bastante memória, é que, tendo ele em casa arsênico para matar os ratos, não o administrou ao filho.

***

Joaquim de Araújo entrara na vida por má porta. Oito anos de caserna bastariam a degenerar-lhe as boas qualidades: mas, com certeza, o Faísca já tinha ganho esta alcunha à custa de turbulências, quanto assentou praça, e não se regenerara, como é de supor, no ofício de soldado.

A sua nova posição de lavrador não lhe quadrava: a pesada rabiça do arado dava-lhe engulhos no estômago, quando a sacudia do rego aberto para romper outro; o cabo da enxada empolava-lhe as mãos; de sáfaras não sabia nada; ignorava todo o tráfego da lavoura; e, em vez de aprender, como queriam a mulher e o sogro, ia bandarrear por feiras, quatro vezes por semana, na sua égua rabona, de pau de choupa debaixo da perna, mão direita à cinta, chapéu braguês na nuca e besta travada que não havia outra daquela andadura.

As impertinências do sogro respondia que não precisava de labutar sujamente na terra, porque o seu pai tinha o melhor de cinquenta mil cruzados em peças; e aos queixumes da mulher amante e ciosa voltava as costas enfastiado. O lavrador de São Martinho, a fim de se desfazer do genro, repartiu a casa por três filhos, ressalvou uma pequena reserva, deu em terras o dote estipulado a Rosa e mandou-os viver onde quisessem.

A libertinagem do Faísca foi até onde os dois mil e tantos cruzados da mulher chegaram; e naquele tempo, quem os desbaratasse em seis anos alcançava reputação dos que no nossos dias derivam à miséria sobre ondas de ouro. Antes de conhecer as primeiras necessidades, Rosa morreu na flor da idade, deixando um filho de seis anos entregue ao avô, porque o marido havia muitos meses que demorava pela Galiza, amaltado com jogadores de esquineta, os seus antigos camaradas, uns com baixa, outros desertores.

O filho de Rosa breve tempo viveu da caridade do avô, que faleceu pouco depois. Quando Joaquim de Araújo voltou a São Martinho por saber que estava viúvo, encontrou o menino de sete anos esfarrapado, sem amparo de parentes, a esmolar o pão e o agasalho dos vizinhos, porque o seu pai não tinha casa própria e todo o patrimônio da sua mãe estava vendido. Quem recolhera o rapazinho era um fogueteiro, o mais remoto e desprezado parente da sua mãe.  O pequeno ajudava-o a afeiçoar as canas e encher os canudos para os foguetes com bastante jeito e disposição para o ofício. Perguntara-lhe o pai porque não fora procurar o avô a Famalicão. O fogueteiro respondeu que lá fora com ele quando a mãe morreu, mas que o avô dissera que estava também muito pobre, e apenas lhe dera estopa para umas calças e um chapéu de Braga mais rapado que a escudela de um cão. Lembrou-se Joaquim do padrinho; mas a morte cortara-lhe esse recurso. Foi ter-se com o filho sucessor na casa, a ver se quereria protegê-lo como o seu pai. O fidalgo da Igreja recebeu-o com furiosas declamações contra o Bento pedreiro, a quem chamava ladrão porque lhe pedia dois mil cruzados e juros que o pai lhe ficara devendo.

Neste tempo, o irmão do honrado Joia já não podia trabalhar. Passava os dias sentado ao sol no degrau da porta e dava alguns chorados vinténs por semana para uma vizinha que lhe levava as couves e a broa.

Nesta situação o achou o filho, quando voltou da Corunha, trajando à castelhana, mas delatando na jaqueta safada e suja a miséria que o trazia à porta do pai. Pediu-lhe dinheiro com suplicante brandura, com muitos atos de arrependimento e promessas de reformação de costumes.

— Se puderes reformar os teus costumes, fazes bem; eu é que não posso desfazer-me em dinheiro — dizia o velho. — Tudo o que eu tinha estava na mão do teu padrinho; ele morreu, e o ladrão do filho não me paga.

— O que o padrinho lhe devia — disse Joaquim — são dois mil cruzados; mas vossemecê herdou cinquenta e tantos...

— Não sei o que herdei — replicou o pedreiro —; tudo o que tinha dei-o a guardar ao coronel, Deus lhe fale na alma, e tudo lá ficou.

— O meu padrinho não era capaz de roubar, Sr. Pai! Vossemecê está metendo a sua alma nas mãos do Diabo! Há de morrer para aí como um mendigo e o seu dinheiro há de ajudá-lo a cair nas profundas do Inferno...

No calor da discussão figurou-se ao velho que o filho seria capaz de praticar alguma violência. Teve medo — o medo que devia ser-lhe uma agonia fulminante, se o gozo de sentir-se rico não prevalecesse às angústias de recear-se em perigo na presença do filho. Abriu com as mãos trêmulas a arca, tirou um pé de meia, atado pelo calcanhar com uma guita, deu-o ao filho e disse-lhe com a voz cortada de soluços:

— É tudo quanto tenho. Recebi ontem esses vinte cruzados novos dos esteios que vendi. Se queres dar-me metade, dá; se não queres, leva tudo.

Joaquim ficou alguns minutos a olhar para o pai com piedoso aspeto; e, depois de pensar na repartição dos pintos, ouvindo filialmente a consciência e a razão, deliberou... não repartir nada. Saiu com mais duas maldições tácitas, e foi relatar o caso ao Luís Meirinho.

Neste tempo, o antigo aguazil do corregedor de Barcelos andava muito acautelado das justiças da comarca. A sua reputação de salteador de estradas estava feita; mas as provas que legalizassem a captura eram insuficientes. Os latrocínios de encruzilhada amiudavam-se na Terra Negra, na Lagoncinha e nas serras distantes do Ladário e da Labruja. Algumas casas afamadas de dinheirosas eram assaltadas por quadrilhas que venciam pelo número a resistência; e, quando esses roubos estrondeavam, Luís Meirinho e outros sujeitos da sua familiaridade nunca estavam em Famalicão ou nas aldeias circunvizinhas. Era sabido que as maltas se reuniam num grupo de cabanas numa cafurna de pinheiros chamados os Ribeirais, não longe da vetusta igreja dos templários de Santiago de Antas. Ainda hoje estão em pé, mas ninguém as habita, essas choupanas execradas pela tradição de serem aí enterrados os ladrões que voltavam mortalmente feridos dos seus assaltos.

Como quer que fosse, a maledicência não caluniava Luís Meirinho, nem ele por modéstia escondeu do Faísca a superior categoria de capitão de ladrões a que o promovera a voz pública.

Joaquim ouviu estas confidências íntimas sem pavor nem sequer estranheza. A esquineta era-lhe bastante iniciação para ser admitido aos mistérios da Terra Negra. O Meirinho encareceu-lhe as vantagens e desfez nos perigos do ofício. Principiando pelo argumento mais insinuante a favor dos ladrões, ofereceu-lhe, de uma grande saca, dinheiro que ele afiançava ter adquirido sem escândalo nem efusão de sangue. Umas das suas regras de bem viver era (dizia ele ao Faísca) matar somente um última necessidade: talvez a “justa defesa” que a lei indulta. Rômulo, o salteador que fundou Roma, não exibia ideias mais benignas.

A granjeada de um bravo para a jolda foi fácil. O Faísca, numa das próximas noites, foi apresentado na estalagem da Lagoncinha aos seus irmãos de armas e achou-se em melhor sociedade do que ele previra. Condecoravam a cáfila alguns sujeitos que pareciam andar naquela vida aventurosa por amor das impressões rijas: eram artistas, como hoje diríamos. Filhos segundos de casas honradas e coutadas desde os reis da primeira dinastia, recrutas foragidos, desertores, jornaleiros, indivíduos barbaçudos vindos de longes terras, facinorosos escapulidos das cadeias ou dos degredos, gentes várias, como se vê, mas todos alegres, chalaceadores, benquistos nas aldeias por onde residiam temporariamente, liberais nas tabernas com conhecidos e desconhecidos, armados até aos dentes e, segundo a excelente máxima do capitão, matando somente em última necessidade. A malta, por espírito de imitação, chamava-se Companhia do Olho Vivo. Florescera outra, com igual denominação, na corte, capitaneada por José Nicós Lisboa Corte Real. Quarenta anos antes tinham sido enforcados os mais graduados da companhia, salvante o capitão, porque era protegido do infante O. Antônio, tio de el-rei D. José I. Um dos mais novos dessa horda de ladrões, que teve um período de esplendor, fugindo à perseguição, ainda funcionou na malta do Minho, à qual legou o saudoso nome da outra.

A “Companhia do Olho Vivo” não prosperou no ano em que o filho de Bento de Araújo se alistou. O terror afastara os passageiros dinheirosos do trânsito por serras infamadas e os proprietários das povoações sertanejas mudaram para as vilas e cidades as suas residências.

No programa de Luís Meirinho estava desde há muito inscrito Bento de Araújo; mas, como ainda há pessoas de bem, ao capitão repugnava-lhe propor em conselho que se planeasse o expediente mais plausível na exumação das três mil peças do pai do Faísca. Os sécios mantinham entre si estes decoros, o que não sucede em todas as companhias com estatutos legalizados.

Entretanto, como a necessidade apertava, e à notícia do Faísca chegara a má nova de que o seu pai, acariciado por uns sobrinhos de Gondifelos, tratava de se passar para a companhia deles, o capitão, forte de razões aconselhadas pela prudência e aplaudidas por Joaquim, pôs em discussão a matéria, quanto ao modo de obrigar o pedreiro a confessar a lura do tesouro. O Faísca tirou a salvo, porém, que o tinham de dispensar de assistir ao assalto porque, enfim, o homem... sempre era o seu pai, e o sangue gritava. Ninguém se riu na assembleia da sentimentalidade daquele filho: é que as ideias grandes e fundas abalam toda a casta de alma. Foi apoiado calorosamente Joaquim e até abraçado por um sócio de Felgueiras, processado por parricida.

***

Naquele tempo, Famalicão, às nove horas de uma noite de novembro, negrejava silenciosa e rodeada de pinheirais e carvalheiras. Aqueles palacetes brasonados com os seus titulares campeiam hoje onde então rebalsavam extensos nateiros de lama, a espaços habitados por cabaneiros. A quadrilha de Luís Meirinho podia manobrar sem temor e desassombradamente no centro da vila como nas Rodas do Marão.

Em uma dessas noites, o chefe, com uma dúzia de escolhidos, entrou na Congosta de Enxiras, onde morava Bento de Araújo. Ele, com mais dois, acercaram-se da porta; os outros postaram-se de atalaia nas extremidades da viela.

O pedreiro estava ainda sentado à lareira. Desde que lhe disseram que o filho pernoitava às vezes em casa do Meirinho, velava até ser dia claro. O receio de ser assaltado era tamanho que já três vezes, em noites tempestuosas, gritara à del-rei. Os vizinhos, à primeira, acudiram vozeando das janelas com invulnerável intrepidez, e viram dessa feita que um porco vadio, atraído talvez pelo cheiro de pocilga, forçava contra a porta de Bento. Depois, ainda que ele gritasse, ninguém se mexia, atribuindo a porco as agressões incômodas ao avarento.

Foi o que aconteceu naquela noite de novembro. O pedreiro sentiu o abeirar-se gente da sua porta e reparou do raspar de ferro entre a ombreira e o batente. Gritou; mas parecia já gritar com os colmilhos apertados. A língua da fechadura estalou, e a porta foi diante de dois possantes ombros tão rapidamente que os homens, como duas catapultas, entraram de roldão e só pararam filando-se à garganta do velho empedrado. Por entre eles, e à luz do canhoto que flamejava, o pedreiro viu lampejar o aço de uma navalha e ouviu, através dos lenços com que os hóspedes cobriam as caras, uma voz disfarçada:

— Se grita, você morre aqui já. Se quer viver, entregue as três mil peças que herdou, e ande depressa. Não nos conte lérias, nem faça lamúrias. É decidir: o dinheiro ou a vida.

Bento erguera as mãos suplicantes e pedira, soluçante, que o não matassem.

— Onde estão as três mil peças! — perguntou o Meirinho.

As três mil peças?! — gaguejou o velho como tolamente espantado de que lhe perguntassem por três mil peças não tendo ele do seu três moedas de seis vinténs.

— Mate-se este diabo! — acrescentou o Meirinho — e vamos levantar o soalho — Eu não tenho aqui o dinheiro, os meus senhores... — acudiu o pedreiro desfeito em lágrimas.

— Então, onde o tem você?

— Enterrei-o debaixo de uma fraga...

— Perto daqui? Avie-se.

— Não, senhor, muito perto não é. São três quartos de légua... em Vermoim.

— Bem — concluiu o capitão. — Salte para diante de nós e venha desenterrar o dinheiro. Mexa-se!

O homem sentiu certos alívios nesta mudança de situação, como se expor a vida, salvando o dinheiro, lhe fosse uma considerável melhoria de fortuna.

A malta, precedida do velho, embrenhou-se nos matos, atravessou o outeiro que toca nas faldas da serra de Vermoim e por São Cosme do Vale trepou ao espinhaço de penhascos que lá chamam o Castelo.

— Você não vá aflito — dizia-lhe o Meirinho —, porque há de ter o seu quinhão com que pode viver regaladamente. O necessário não se lhe tira; nós o que queremos é o que lhe sobre. Somos honrados ou não, o seu velhote?

E dava-lhe palmadas nos ombros.

— Sim, senhor — dizia o Bento, e recolhia-se a pensar na situação perigosa em que se via e no modo da esconjurar.

— Ande depressinha — tornava o chefe empurrando-o brandamente.

— Será bom ajudá-lo com alguns pontapés — alvitrava outro, receando que a manha lhes viesse tolher a empresa.

Chegados ao cabeço da serra, espigado de rochas, disse o Meirinho:

— Cá estamos. Onde é a fraga?

— Não enxergo bem... Só quando for dia é que eu conheço o sítio — respondeu Bento.

— Temo-las arranjadas... — disse o Meirinho com um sorriso agoureiro de más coisas. — Ó Freiamunde, petisca lume e faz aí um archote de codessos para este tio ver onde está o arame.

— Parece-me que o melhor seria iluminá-lo com a luz da pólvora... — observou Freiamunde, bebendo alguns tragos de aguardente de uma cabaça que trazia a tiracolo.

— Quer lá, capitão? Se lhe parece, dou dois goles ao velho como se faz aos perus...

— Tio Bento — insistiu Luís Meirinho —, você acha a pedra ou não acha? O dinheiro ficará enterrado; mas você também fica de papo para o ar à espera que o enterrem. Veja lá no que ficamos; lembre-se que está tratando com homens de palavra.

No entanto, um da companhia petiscara fogo e comunicara o lume da mecha à manada de fetos secos apanhados debaixo de uma rocha que figurava um dólmen.

— Aí tem luz que farte — disse Luís. — Veja lã agora qual é a pedra, Tio Bento.

— Parece-me que é aquela... — respondeu ele a tiritar, já convencido de que estava chegado às últimas.

— Parece-lhe ou é? — instou raivoso o Meirinho. — Ande. Mostre lá o sítio. Ó Zé Landim, se for preciso desenterrar o morto, serve-te da tua faca. Patrão, estamos às suas ordens, diga lá onde quer que se cave; a cova há de fazer-se ou para sair o dinheiro ou para entrar você.

Bento caixa sobre os joelhos como ferido de súbita apoplexia e começou a gaguejar uns sons ininteligíveis.

— Este alma de dez diabos que está a mastigar? — disse Freiamunde.

Neste momento, o pai de Joaquim caiu de borco, batendo com a face na pedra; e, quando dois homens o levantaram de repelão e o viram à luz dos fetos, estava morto.

Este incidente nem levemente impressionou aqueles homens fortes. Ninguém fez a mínima reflexão acerca do lance em teatro tão lúgubre. Os mais preocupados bebiam aguardente a frouxo, dizendo que o homem morrera de frio. Nem uma ideia filosófica, nem sequer um dito elegíaco! Luís Meirinho discorreu brevemente sobre a certeza de que o morto os tirara de casa para os desviar do lugar onde tinha o dinheiro. Decidiu que se aproveitasse o restante da noite indo a casa revolver a terra quanto se pudesse; e, no caso de lá não aparecer o dinheiro, viriam na seguinte noite escavar debaixo da rocha, no Castelo.

Assim se fez. Bento de Araújo ficou deitado de costas sobre uma moita de codessos, com os braços hirtos e abertos em cruz, os punhos cerrados e os olhos envidraçados de lágrimas. Ao alvorecer do dia, uma nuvem pardacenta, que ondulava pela costa da serra, rasgou-se em saraivada glacial, que lhe batia no rosto e saltava pelo peito nu e descarnado. Chovera e nevara depois, durante muitos dias. Nenhum pastor subira com o rebanho àquelas cumeadas, sempre escondidas na negridão da névoa e perigosas, se o lobo uiva faminto.

Quando o tempo estiou, quem denunciara o cadáver já disforme no rosto fora uma revoada de corvos que crocitavam pairando sobre os restos do seu banquete disputado às feras.

***

Contava-se assim o caso em Famalicão:

Que o Bento de Araújo, receando os ladrões os seus vizinhos, desenterrara as suas riquezas que tinha debaixo da lareira e, indo escondê-las nos montados de Vermoim, numa noite de grande inverneira, morrera tolhido pelo frio e traspassado da neve. Fundavam-se os desta versão em que a pedra da lareira estava deslocada e no seu lugar uma cova funda; e debaixo dos bancos da cama outra escavação, e no entulho uns cacos de panela, onde com certeza estava porção do tesouro, e a outra porção debaixo da lareira.

Outro boato:

Que a malta da Terra Negra assaltara o pedreiro, roubara-o, matara-o e levara o cadáver ao castelo de Vermoim. Não se dava a razão deste saimento a três quartos de légua; mas também não era necessária a lógica para explicar tal coisa.

A versão, porém, mais popular e que tinha o sufrágio das pessoas mais razoáveis era que Joaquim assassinara o pai na serra, quando o velho voltava do seu trabalho de brocar pedra; e, depois, deixando-o morto, viera a casa desenterrar o dinheiro. Em confirmação do boato, alegava-se o fato de ele ter aparecido em Famalicão a procurar o pai e a indagar dos vizinhos se tinham dado conta do arrombamento da casa — isto no dia em que o pai já estava morto.

A voz pública forçou a autoridade a prender o Faísca; mas, na noite seguinte à da prisão, algumas dúzias de homens armados arrombaram a cadeia de Famalicão e tiraram de ferros o inocente.

Esta fuga completou a ruína de Joaquim de Araújo. Acreditou-se geralmente no roubo e no parricídio. As aldeias do julgado de Vermoim, com Famalicão à frente, deram montaria à quadrilha da Terra Negra, com o reforço militar de Guimarães e Braga. A malta dispersou, mortos alguns dos mais audazes; e os dispersos engrossaram, na Póvoa de Lanhoso, a celebrada quadrilha que tem a sua história num livro dignamente esquecido.

O filho de Bento pedreiro morreu em 1809 no Carvalho de Este, defendendo a Pátria da invasão francesa comandada por Soult. Bateu-se com o heroísmo do suicida, ao cabo de dezoito anos de salteador, arrostado a todos os perigos, mas fugindo a que o filassem vivo, porque tinha grande horror à forca. Afinal, inscreveram-no entre os valorosos defensores da nossa autonomia, e o seu cadáver foi mais acatado que o do general Bernardim Freire, assassinado por outros patriotas da laia do Faísca.

***

Hão de lembrar-se que Joaquim de Araújo tinha um filho, que aprendera em São Martinho do Vale o ofício de fogueteiro com o parente da sua mãe.

Aos vinte e seis anos, quando o seu pai acabou, estava ele ainda na companhia do velho benfeitor e mestre, ganhando alegremente o seu pão. Falecido o parente, alguém lhe disse que ele tinha em Vila Nova de Famalicão a casa, boa ou má, do seu avô, que ninguém lhe podia disputar.

Facilmente se habilitou herdeiro de Bento de Araújo e tomou posse do casebre, desabitado desde 1790. Às vezes, os mendigos, nas noites quentes, levantavam a aldraba, que era um cavaco de castanho, e albergavam-se no sobrado podre, contando os casos horrendos que ali passaram — o parricídio e o roubo. As covas estavam ainda abertas e o desentulho em montículos de redor.

Silvestre de São Martinho, o filho do Faísca, não usava dos paternos apelidos: do pai aproveitara somente a casa, transigindo com a honra o necessário sem prejuízo o seu.

Apossado da casa, deu-lhe um jeito para poder habitá-la e pendurou meia dúzia de foguetes e bombas reais à porta. Era habilidoso, principalmente para as bonecas de pólvora. Gabava-se de haver inventado o barbeiro a amolar navalhas na roda e levara à perfeição da indecência a velha que despedia contra a cara combustível do barbeiro um repuxo de chispas pela pane posterior, tudo com uma graça portuguesa que era um estourar de riso o arraial!

Corria-lhe bem a vida e já tinha casado com uma rapariga dura e trabalhadeira, quando o descuido de um aprendiz, na ausência dos patrões, deixou pegar o lume num feixe de bombas. Houve explosão, que sacudiu em estilhas o teto da casa e abrasou todas as madeiras. Quando Silvestre voltou com a mulher da romagem da Santa Eufêmia, nas terras da Maia, encontrou quatro paredes denegridas e o interior da casa a fumegar, cheio da brilhante claridade da Lua. O aprendiz, carbonizado, estava já na cova.

Tiveram compaixão do pobre fogueteiro os Vila-Novenses. Diziam-lhe que construísse uma cabana com as esmolas que lhe iam tirar pela freguesia; mas que a fizesse noutra pane, porque naquela casa, onde um filho matara o seu pai para o roubar, pesava a maldição de Deus. Um vizinho comprava-lhe o terreno da casa amaldiçoada para acrescentar à sua; mas deixava-lhe a pedra, que era boa para o fogueteiro edificar noutra parte. Silvestre aceitou, convencido de que o sangue do seu avô funestara para sempre aquele teatro do grande crime.

Recebido o terreno de esmola, principiou Silvestre a demolir as paredes da casa queimada. Fazia ele este serviço, com ajuda da mulher, enquanto o carreteiro ia carreando a pedra.

Às três da tarde de um sábado o carreteiro, consoante o costume, despegara do serviço; mas Silvestre e a mulher continuaram a desfazer o último lance de parede que lhe restava, com o fim de na próxima segunda-feira acabarem o trabalho da demolição. Observara o fogueteiro que este lado da parede quadrilátera era mais grosso um palmo que os outros que formavam o recinto, reentrando para o interior o excedente da grossura. Estava coberta de pasta de barro e caleada como as outras. Divisava-se ainda no barro gretado o risco traçado pelo atrito de qualquer como que se encostara à cal ainda fresca.

Por esta raspadura, conjeturou Silvestre que ali devia estar o banco da cama do avô, até porque ouvira dizer que parte do tesouro estivera enterrado debaixo da cama; e ele, quando tomara posse da casa, ainda vira a cova aberta, dois palmos distante daquela parede.

— A pedra aqui é mais larga — disse o fogueteiro à mulher.

— Agora é! — emendou ela. — O que a faz parecer mais larga é a camada de barro; senão, olha.

E começou a picar ao longo da parede com a extremidade aguda da alavanca, e o barro, esboroando-se e desacamando a pedaços, deixava descobrir a superfície da pedra, que não era mais grossa que a outra.

— Dizes bem, é isso — aprovou o marido. — Vamos apeando a parede por esse lado, que o barro, ele se despegará.

E, dizendo, pegou noutra alavanca e começou a derribar as capas da parede, enquanto a mulher, para não estar com as mãos debaixo dos braços, ia descaliçar a camada barrenta. Quando atirava rijamente com a ponta da alavanca à parede, notou que o ferro batera e se cravara em pau.

— Aqui há madeira — disse ela.

— E alguma cascaria que tinha mão no barro — explicou Silvestre.

A mulher repetiu os golpes em diversos pontos na circunferência de dois palmos e tirou sempre o mesmo som.

— Parece que bate em vão... — notou ela.

— O quê?! — acudiu o marido, descendo do andaime em que trabalhava.

— Bate em vão! Que dizes tu?!

— É o que te eu digo... Olha... Ouves?

— Ó mulher! — exclamou ele, cravando-lhe os olhos cheios de palpites que a língua não ousava formular.

E como nesse comenos passasse gente, e parasse a olhar para as ruínas, o fogueteiro fez um trejeito à mulher, que ela entendeu, calando-se.

— Ajunta a ferramenta, Maria, e vamos embora, que já mal se enxerga — disse ele.

— Lá vai a casa do Bento pedreiro, Deus lhe fale na alma! — disse o mais ancião dos curiosos.

— Que dinheirão aqui esteve neste pardieiro! Cinquenta e seis mil cruzados! Era o homem mais rico da vila e o seu termo, e tanta necessidade passava aquele alma do diabo, Deus lhe perdoe, para afinal o dinheiro ser repartido pela quadrilha do Luís Meirinho, que também o levou berzabum com duas balas que lhe meteram na barriga ali à ponte de Santiago!

— São fadários, Tio Simeão!... — disse Silvestre.

— Você podia a esta hora estar rico como um porco, se tivesse outra casta de pai... — disse o velho.

— Assim é; mas não o quis Deus. Desgraças...

— Ora faça você de conta que tinha achado aí o dinheirame do seu avô!

— Ainda venho a tempo!...

— Pois sim; mas faça de conta que o topava! Você que fazia, ó Sor Silvestre?

— Eu sei cá, Tio Simeão!

— Foguetes é que você não fazia mais! aposto dobrado contra singelo!

— Não falemos nisso... Foguetes é que eu hei de fazer toda a minha vida, e Deus me dê saúde para os fazer.

— Amém; mas você, se se pilhava com as três mil peças, metia a vila toda num chinelo e pintava aí o diabo a quatro!

— Está enganado! não pintava nada... Comprava uns benzinhos, e havia de trabalhar neles, como trabalho nos foguetes.

— Vem daí, homem — disse Maria, já aborrecida das impertinentes perguntas do Simeão, que, encostado à sachola, parecia jubilar nas pachorrentas hipóteses e nas delícias de coçar uma perna com a outra alternadamente.

Simeão foi o seu caminho com os outros; e o fogueteiro e a mulher seguiram para casa; mas, assim que as portas e janelas se fecharam na rua, aí estavam eles outra vez sobre o cascalho, raspando com ferramentas pouco ruidosas a parede no espaço em que o som do vácuo respondia ao toque do ferro.

No termo de curta fadiga tinham descoberto uma superfície lisa de madeira, envasada na parede como a portada de um postigo. Facilmente desencaixilharam a tábua do envasamento de pedra, porque não tinha dobradiças nem outra firmeza além da que lhe dava a espessa camada de barro. Silvestre introduziu a mão e topou um corpo frio.

— Que achas? — perguntou Maria ofegante com as mãos postas.

— É um panela de ferro... — balbuciou ele. — O mulher!... tem mão em mim, que não sei o que me dá pela cabeça!...

— Nossa Senhora! — exclamou ela — a nossa Senhora!...

E, em vez de ter mão no homem, meteu ambos os braços até achar a panela, enquanto Silvestre abria e fechava a boca em trejeitos de tão estúpida felicidade que só a suprema desgraça os poderá fazer iguais.

Nisto, a rija mocetona arrancava da lura o peso enorme de ouro; e, caindo de cócoras com o pote no regaço, exclamou sufocada:

— Ai Jesus! que eu morro de alegria!...

Silvestre apertava o ventre com as mãos. Esta postura não é ridícula nem inverossímil para os que sabem que os intestinos quase nunca são estranhos às comoções grandes.

Aos primeiros assomos da seguinte aurora, a parede estava arrasada. Os vizinhos ouviram o ruído da assolação e pensaram que a derrubara um pegão de vento.

Mas, na semana seguinte, a obra da casa nova parara. O fogueteiro dizia aos seus benfeitores que ia mudar de terra e talvez mudar de vida.

***

Por esse tempo, um fidalgo da corte de D. João VI mandou vender as suas vastas propriedades na província do Minho. Nos arrabaldes de Barcelos demorava a principal das quintas que tinha sido paço senhorial. Chamava-se a Honra de Romariz e já fora dote de D. Genebra Trocosende, no século XII, casada com D. Fafes Romargues, filho de D. Egas, que gerara D. Fuas, e tão copiosa e compridamente se geraram uns dos outros que afinal degeneraram na pessoa do fidalgo que mandou vender a casa solarenga, para cruzar ricamente uma dançarina sobre os leões rompentes do seu escudo.

Chamava-se Silvestre de São Martinho o comprador, que contara na mesa do tabelião de Barcelos vinte e cinco mil cruzados em peças de 7$500 réis. Quantos casais e leiras o filho de Joaquim Faísca pôde comprar à volta da Honra de Romariz incorporou-os no cinto de muralha que foi alargando a termos de arredondar a mais vasta e formosa vivenda do coração do Minho.

Em 1826, quando Silvestre já desesperava da fecundidade da esposa, em anos bastante serôdios, deu-lhe ela uma menina que se chamou Felizarda. Aos oito anos, a rapariga, filha única e conhecida pela morgadinha de Romariz, já bastante espigada e gorda, levava folgada infância. Aos dezoito anos, compuseram-se-lhe as feições com proeminências grandes, mas esbeltas. A fertilidade do peito dizia com a curva tumecente das espáduas. Felizarda tinha uns arquejos de cansaço que lhe alinhavam o carmim do bom sangue.

Um bacharel formado, que aspirava de longe os olores desta flor de girassol, queixando-se da demora que ela pusera em chegar para uma festividade de igreja, fez-lhe o seguinte improviso, depois de trabalhar três dias a rima:

Eu, que sou fogo, não tardo, 
ela, que é gelo, é que tarda.
Se eu, que amo, feliz ardo, 
FELIZARDA feliz arda.

Ela deu pulos a rir como se tivesse a crítica de Mad. Girardin.

Por esse tempo, 1846, Silvestre de São Maninho estava muito rico, mas muitíssimo aborrecido na diluente ociosidade de tantos anos. Às vezes mandava comprar pólvora bombardeira, furava canudos, apertava-os com guita alcatroada e fazia foguetes para se distrair. Felizarda, bastante entretida com a arte, pedia à mãe que lhe ensinasse a fazer valverdes e bichinhas de rabear.

A Sra. D. Maria, excelente matrona e mãe, não se enfastiava, como o esposo, porque mourejava sempre na casa e na quinta, fiava ou dobava nas noites grandes com as criadas à lareira e envergonhava os servos calaceiros batendo as meadas no lavadouro, ou padejando as broas na cozinha.

Mas o marido, que, tirante as diversões pirotécnicas, não fazia nada, andava dispéptico e clorótico, quando teve de optar entre fogueteiro e político.

Era no tempo da Patuleia. Silvestre manifestara-se progressista nas belicosas eleições de 1845, em Barcelos, e sentiu-se invadido pela paixão sociológica por causa do canibalismo dos fuzilamentos de Alvarães. No ano seguinte, influiu no movimento de Maio e manteve-se nas ideias avançadas até outubro, em que os agentes da junta do Porto lhe embargaram, no Largo da Aguardente, duas carruagens que iam à praia da Foz buscar a mulher e a filha. Neste conflito, oscilou politicamente entre os irmãos Passos, que amamentavam a República nos seios dessorados da liberdade caquética, e o padre Casimiro José Vieira, o Defensor das Cinco Chagas, que proclamava D. Miguel I no Bom Jesus do Monte.

Aliciaram-no ao seu partido alguns sectários da realeza absoluta, que viam desde a ponte de Barcelos a política europeia e traçavam com as bengalas no Campo das Cruzes as evoluções militares e triunfais dos exércitos russos. Silvestre não subia nestas compreensões tão alto como os seus foguetes de três respostas, mas entendia que, tendo as coisas de dar volta, não lhe seria mau adotar o partido vencedor. Ofereceu dinheiro ao Dr. Cândido de Anelhe e ao advogado Francisco Jerônimo para se enviará à Lua.

À sua generosidade respondeu magnanimamente a assembleia realista condecorando-o com a comenda de São Miguel da Ala. Ele já era Rosa Cruz, graduado na hoje extinta viela da Neta, por José Passos. Abriu-se um pleito de liberalismo entre Silvestre e a cabeça visível de el-rei absoluto. Boa porção das peças intactas do defuntíssimo Joia passaram para o cinturão do aventureiro escocês Macdonnell, e depois para os bornais dos soldados de caçadores que o espingardearam em Sabroso. Ó fados do dinheiro! Que estremeções não daria na cova o cadáver do Bento pedreiro, se os corvos e os lobos o não tivessem comido na serra!

Extintas as fações políticas, Silvestre, por insinuações da mulher, entrou a desconfiar que era tolo e que o Sr. D. Miguel não o conhecia. Retirou-se da política, cheio de desenganos e ridículo. Os funcionários administrativos e judiciais de Barcelos zombavam dele e, no Periódico dos Pobres, um Amigo da verdade escreveu que o Silvestre de Romariz, no auge da sua dor, fabricava foguetes de lágrimas. Alusão perfurante que ele soletrou na folha.

A respeito de soletrar, a morgada recebia cartas de um amanuense da Câmara de Barcelos; mas só abriu sete que juntara quando uma costureira lhas leu. Felizarda criara-se sem letras e vivia, a respeito de literatura, como as raparigas gregas antes de Cadmo, filho de Agenor, introduzir na Grécia o alfabeto fenício; mas, em compensação, tinha muita flor nativa e fresca de acres aromas naquele aflante seio e folgava de ouvir trovas de chula e desafios de cantares em que às vezes a frase estava pedindo a intervenção da polícia.

Direi do amanuense da Câmara Municipal de Barcelos:

Era um sujeito que perlustrara as regiões da ciência por toda a extensão do Manual Enciclopédico do Sr. Emílio Aquiles de Monteverde. Era autor de charadas impressas. Só a Felizarda. Tinha este rapaz, José Hipólito de nome, imensa fé na brisa, no paul, na justiça e no arcanjo da poesia de 1840. Os duendes das suas visões noturnas nas margens do Cávado sangravam-no. Era melancólico e magro como um galgo doente. A sua paixão grande, não falando na falta de dinheiro, era Felizarda. Ganhava três tostões na escrivaninha da Câmara e devoravam-no aspirações a ter cavalo e carrinho. Entretanto, andava pelas casas a recitar a poesia de Paimeirim:

Que poeta que não era 
Da linda Inês o cantor;

ou, da lua de Londres, o 

É noite; o astro saudoso 
Rompe a custo o plúmbeo céu, etc.

E chorava quando os versos coavam fúnebres.

Felizarda não parecia talhada (sem calemburgo) para este homem; ele, porém, talhara-se para ela. Far-se-ia boi, como Júpiter, para arrebatá-la, bem que os seus instintos voláteis o levassem para cisne, se Felizarda tivesse, além dos próprios, os instintos um tanto bestiais de Leda.

Escreveu-lhe sete missivas profusas e tristes como os sete pecados mortais. A costureira que as leu debulhava-se em lágrimas e decorava períodos para responder às cartas de um furriel do 13 de infantaria. Felizarda ouvia aquelas coisas com a atenção de uma rã que emerge à flor do lago os olhos espantadiços e escuta um rouxinol. Como as prosas levavam recheio de quadras, assim que a morgada dava tento da rima, espirrava um frouxo de riso, tal qual como no lirismo de Santo Antônio, no Teatro de São Geraldo. Tinha aquele aleijão! Era — quem sabe? — a preexistência desta enorme gargalhada que hoje atabafa os golfos da poesia subjetiva.

A costureira interpretou-a e respondeu, vestindo a ideia de Felizarda com palavras inocentes, mas facinorosas em ortografia. O amanuense amava-a deveras: leu a carta, em que era chamado Bem da menina com V; e, dando os pêsames ao seu Monteverde, fez votos de educar Felizarda nas quatro panes da gramática, se um dia conjugasse o verbo amar, que só é verdadeiramente regular quando o matrimônio o defeca.

Trocaram-se cartas assíduas. Felizarda começava a ser um pouco séria, pouseira e sensaborona. Amava. Entre a psique e a outra abriram-se as válvulas de comunicação. Tinha morbidezas de Ofélia e indigestões por falta de exercido. Não saia do mirante que olhava para o caminho do carro. José Hipólito passava por ali aos sábados de tarde; e, se a solidão era absoluta, perguntava-lhe como passou. E Julieta, debruçada sobre o varandim do miradouro, com a face rubra e o seio ondulante, dizia-lhe que passou bem.

Nas cartas, falou-lhe em matrimônio, o amanuense. Ela respondeu que sim. José Hipólito, esporeado pelo amor, abalançou-se à interpresa de que os amigos o dissuadiam. Pediu-a ao pai, e arrependeu-se. Silvestre perguntou-lhe quem era e quanto tinha. Ouvida a resposta, disse gesticulando um esgar de desprezo:

— Ora adeus... O senhor, se não é tolo, parece-o.

Despediu-o apontando-lhe para a porta. Depois chamou a filha e perguntou:

— Que diabo é isto? Onde conheceste o pelintra que te veio pedir para mulher?

Ela contou ingenuamente o caso, mostrou as cartas, confessou quem lhas lia, quem lhes respondia, e concluiu:

— Assim como assim, já agora quero casar com ele.

O pai expediu berros cortados de interjeições brutas. A filha fugiu, a soluçar, e não apareceu ao jantar nem à ceia.

E a mãe, a mulher laboriosa que nunca pensara nas soberbias implacáveis da riqueza, dizia ao marido:

— Se ela gosta do rapaz, deixa-a casar... Bem me pregava o meu pai que não casasse contigo porque tu eras filho de quem eras. E daí? Casei e nunca me arrependi.

— Queres dizer na tua que dê a minha filha com oitenta mil cruzados para um troca-tintas que não tem casa, nem leira, nem...

— Tem-na ela, homem. A riqueza chega para os dois. Trata de saber se ele é bom rapaz; e, se for, deixa-a casar, que tem vinte anos.

***

José Hipólito criara protetores esperançados no bom êxito da tentativa. Os inimigos políticos de Silvestre de Romariz coadjuvaram-no a tirá-la judicialmente.

O juiz prestou-se a interrogar a morgada, visto que ela não podia requerer pelo seu pulso. Supridas legalmente as formalidades, Felizarda foi depositada em Barcelos, no seio da família Alvarães.

Trava-se então a luta nos tribunais. O pretensor, mal dirigido pelo seu advogado, responde com retaliações pungentíssimas a insultos que o argentário lhe dirige ao seu nascimento obscuro e à sua pobreza. A pugna passara a ser um assanhado pugilato dos dois causídicos.

Um dos membros da família Alvarães era jovem, chamava-se José Francisco e estudava o 5º ano de Latim a ver se aprendia o necessário para cônego da colegiada barcelense. Tinha quatro reprovações conscienciosas em Braga; mas ao 5º ano já distinguia o verbo do complemento objetivo e traduzia com poucos erros a Ladainha.

A família Alvarães era antiga e abastada; contava muitos frades bernardos na prosápia e um governador numa praça da Ásia, donde trouxera navios de especiarias que formaram o casco da riqueza. A casa tinha pedras de armas e uma liteira brasonada que antigamente ia a Alcobaça buscar os frades a rusticar nas pescarias do Cávado e a encher as roscas da caluga, balofas pela inércia do claustro.

José Francisco, o estudante, era sanguíneo, nédio, com as maçãs do rosto vermelhas e os olhos enfronhados nas pálpebras sonolentas. Felizarda, a noiva depositada, pareceu-lhe bem, ao passo que o amanuense da Câmara lhe era um antipático bandalho, desde que em plena praça o enxovalhara perguntando-lhe, no 3º ano de Latim, o acusativo de Asinus. Opusera-se José Francisco à recepção da morgada para haver de casar com José Hipólito, filho do Manuel Colchoeiro; mas força maior obrigara os Alvarães a protegerem o amanuense.

Às vezes, o futuro cônego pasmava-se a contemplar Felizarda e sentia em si as suaves dores da natureza em pano do primeiro amor. Se ela, a morgada, olhava para ele a fito, produzia-lhe no rosto o efeito do Sol que aponta em dia de calma — avermelhava-o até aos glóbulos das orelhas; e José coçava-se a disfarçar, ou esbofeteava as moscas que lhe passeavam sobre a epiderme oleosa e faziam titilações incômodas nas fossas nasais.

A morgada achava-o bonito e dizia às irmãs que era pena fazerem-no padre. José, quando soube isto, criou umas esperanças que o tresnoitavam e tinha as sentimentalidades doloridas de Jocelin e de um ou outro clérigo de Barcelos que deixava vingar-se a natureza.

Procurava José Francisco Alvarães modos de conversar com Silvestre de Romariz e contava-lhe o que a filha dizia a respeito do Hipólito. Levava à depositada cartas do pai e lia-lhas às escondidas da família. O amanuense suspeitara-o e tratava de remover o depósito, alegando subornos que a lei não facultava.

Ora, naquelas confidentes leituras, estabelecera-se intimidade bastante entre a morgada e o intérprete das lástimas do seu pai, de uma vez que Felizarda enxugava as lágrimas, ouvindo ler o adeus que o pai enfermo lhe enviava, José Francisco, transportado num rapto inconsciente de entusiasmo, pegou-lhe na mão e disse com terníssima meiguice:

— Não case contra vontade do seu pai... Tenha pena dele, que está tão acabadinho.

A morgada pôs-se a torcer e a destorcer o seu lenço branco e a lamber uma lágrima que lhe pruía no beiço superior; mas não respondeu.

Alvarães foi contar isto ao velho. Silvestre pegou no processo que o seu advogado lhe enviara e disse-lhe:

— Faça-me o Sr. Josezinho o favor de levar estes autos e ler a minha filha o que o tal patife, que quer ser o seu marido, aqui diz do seu pai: leia-lhe isto, e veja o que ela diz.

O leitor já sabe, por eu lho haver dito nas primeiras páginas deste livrinho, que o indiscreto amanuense consentira que se escrevesse que o pai de Silvestre fora salteador de estradas e que o pai de Felizarda exercitara o baixo mister de fogueteiro em Famalicão.

Tudo isto era expendido na tréplica de José Hipólito com grande lardo de zombarias e sarcasmos em estilo picaresco. A morgada ouviu ler as injúrias entoadas com veemência por José Francisco, que as declamou como se estivesse traduzindo um período de Eutrópio.

Concluída a leitura, Felizarda, antes que o leitor a interrogasse com os olhos, exclamou:

— Quero ir para a casa do meu pai, e há de ser já. O Josezinho vai comigo. Mande dizer ao meu pai que me mande a burra.

José foi dar parte à família da súbita resolução da morgada; o depositário foi dar pane ao juiz, e o juiz respondeu que a lei não podia empecer à vontade da depositada. Quando estas altercações chegaram à notícia de José Hipólito, a filha de Silvestre ia já caminho de casa, acompanhada pelo estudante e pelas irmãs.

O pai e a mãe receberam-na nos braços, ofegantes de júbilo, a pedir-lhes perdão da sua doidice. Silvestre abraçava José Francisco Alvarães chamando-lhe o salvador da sua filha e da sua honra. A santa mãe de Felizarda olhava para o estudante com os olhos cheios de riso e dizia:

— Não queira ser padre, Sr. Josezinho... Olhe que o meu homem já disse que, se a vossa senhoria quisesse a nossa rapariga, que lha dava, e eu também.

José olhou estupefato para o velho; Silvestre entendeu o espanto e disse-lhe:

— Não olhe para mim, que eu não sou o que caso; olhe para a minha filha e veja o que ela diz. Felizarda, queres casar com o Sr. José Francisco?

— Se o pai quiser... também eu. — E escondeu o rosto no seio da mãe com umas visagens que pareciam de entremez mas que eram da maior naturalidade.

As irmãs de José Francisco rodearam-na e beijaram-na sofregamente, enquanto o noivo, iluminado por aquele improviso e inesperado lampejo de felicidade, achou no coração estas frases que balbuciou, abeirando-se da morgada:

— Se a menina casasse com o outro, eu acho que morria de paixão, e mais nunca lho disse.

***

CONCLUSÃO

Quando os vi em Braga, no Teatro de São Geraldo, estavam casados havia já vinte e cinco anos. Na casa de Romariz, durante essa temporada, apenas pesaram dias funestos quando se fecharam as sepulturas de Silvestre e a sua mulher.

José Francisco Alvarães era um modelo raro de continência conjugal. Em Portugal só se conhecem dois exemplares: el-rei D. Afonso IV e ele. As diversões da vida, convencionalmente chamadas prazeres, não perturbaram a sua monotonia de Romariz. D. Felizarda apenas conhecia na arte dramática o Santo Antônio, de Brás Martins, e a “Degolação dos Inocentes”, por onde entrou na vida infame de Herodes. As noites de dezembro aligeiravam-se em Romariz a dormir. Ceavam e digeriam serenamente. Ao pé de um bom estômago coexistiu sempre uma boa alma. Acordavam alegres para continuar as funções animais. Viviam para crédito da fisiologia: eram duas pessoas que se adoravam e faziam reciprocamente o seu quilo num só órgão. Tinham um coração, um fígado e um pâncreas para os dois. Nesta vida vegetal havia ternuras cupidíneas, como as das cilindras e acácias florescentes; e, quando extravasavam da órbita fisiológica, jogavam a bisca de três; mas ordinariamente entretinham-se mais com o burro.

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