domingo, 5 de novembro de 2017

A punição (Conto), de Humberto de Campos


A punição

Il est des femmes qu'on ne devrait jamais épouser soi-même. On devait les laisser épouser par ses amis.
Alfred Capus.

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Molemente estirado no leito revolto, com a farta cabeleira de ouro em desalinho sobre o travesseiro em que se achava impresso ainda, o sinal de outra cabeça, a linda Julieta Erst acompanha com os olhos os movimentos do Dr. Cardoso Simas, que abotoa a botina, tranquilamente, com o pé sobre uma cadeira. Olhando-o, assim, de costas, ela examina, desvanecida, a máscula formosura do amante jovem, cuja harmonia de espáduas se patenteia através da camisa de seda creme sob a cruz "grenat" do suspensório quando, de repente, a sua saudade lhe dita uma queixa:

— Vê, só, Eduardo, o que foi o resultado daquele arrufo em nossa vida! Se tu não tens brigado comigo, naquela tarde, nós nos teríamos casado, e, em vez deste amor cortado de sustos, de incertezas, de pecados, viveríamos, agora, um junto do outro, sem temores nem pesares!

O rapaz continua, de costas, abotoando as botinas e a moça insiste, aconchegando o lençol, com os olhos nele:

— Seria uma vida ideal; não achas?

— Talvez... — aventura o moço.

— Talvez por quê?

E ele, explicando-se, displicente:

— Por quê? Porque, se eu me tivesse casado contigo, estaria, agora, no escritório, enquanto que o Erst se acharia, talvez, aqui, na minha ausência, amarrando os sapatos!

E, sem olhar para trás, continua, em silêncio, abotoando a botina...

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