quinta-feira, 2 de novembro de 2017

A vela dos náufragos (Conto), de Virgílio Várzea


A vela dos náufragos

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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I 
A lestada amainara após seis dias de fúria tremenda, em que o pequeno arraial dos Ingleses jazera, agachado e transido, sob as bátegas diluviais e os espessos nevoeiros. A costa toda, desde a Lagoinha até a Ponta Grossa, estivera abandonada e deserta, sob a ação aterradora dos vagalhões revoltos, estourando, dia e noite, em cachões espumantes, que alagavam as praias, os baixios e os cômoros, turbilhonando ululantemente sobre os mais altos cabeços. Tudo ficara abandonado, parado ao Deus dará por aquela semana; nenhuma rede se arriscara no meio da tormenta; cessara de todo o trabalho. E a pobre e laboriosa população do lugar, condenada à inação, permanecera penosamente durante esses dias, que se arrastavam longos e cheios de miséria, tomada de tédio, encolhida, apinhada em casa, tremendo de frio em rodados braseiros em chamas.

Mas voltara o bom tempo. Uma madrugada de ouro, uma dessas maravilhosas madrugadas catarinenses no litoral atlântico, vinha resplandecendo feericamente. O céu, no alto, arqueava-se todo azul, do azul ideal e transparente de uma velha faiança holandesa. As praias límpidas e curvas, e os cordões sucessivos dos cômoros extensos, destacavam magnificamente à luz, numa alvura cegante de trigo. E a planura verde do mar, levemente ondulada, na estagnação de uma vasta calmaria, estendia-se para todos os lados, aqui e além mosqueada de altos relevos de ilhas encravadas em grandes anéis movediços da espuma. A costa inteira tinha de novo a alegria e o alvoroço das manhãs de bonança: pelos ranchos, reuniam-se já, numa ruidosa algazarra marítima, os pequenos grupos de roceiros e pescadores do sítio; canoas grandes de rede, carregadas e prontas, tomada a palamenta, aguardavam a faina, sobre grossos rolos de madeira; velas curvas em bojo cruzavam ao longe, num voo branco, como grandes asas ligeiras; e uma embarcação maior, um iate, que parecia o Andorinha, do Joaquim Patesca, bordejava a todo pano, em direção ao porto, na altura do Arvoredo.

Então, a Maria Virgínia, que esquadrinhava minuciosamente o mar desde muito cedo do alto do pequeno terreiro da casa, seguindo atentamente o navio, mal o viu aproximar-se, na atitude de dar fundo, começou a descer apressada a encosta até à venda do Lemos, a colher notícias do Espadarte, o brigue onde andava o marido, o Manuel Siqueira, e que arrancara para o Rio Grande na véspera da medonha tormenta. Estava abatida, emagrecida, desfeita, a pobre rapariga, que ainda há três anos era a primeira beleza dos Ingleses. Tinham-na posto nesse estado os dois filhos que criava, dois hercúleos fedelhos rosados, de um louro rembrandtesco, e os cuidados, os temores e as aflições daquela semana, em que a sua alma não tivera sossego, a se debater, à noite, em meio de pesadelos horríveis, em que, por vezes, flutuavam, como num quadro estranho de Doré, um casco de navio perdido e a imagem amada do marido, abandonada e náufraga, num desespero, sobre as ondas do mar em fúria. Percorrendo nervosamente o tortuoso atalho vermelho, que se torcia entre a verdura espessa, ela não tirava, um instante só, o olhar ansioso de sobre as vagas verdes onde, agora, um pequeno batelão a remos vogava a toda para terra: estugava o passo com esforço, para colher as notícias dos próprios marinheiros, falar-lhes, perguntar-lhes de onde vinham, e se tinham apanhado a tormenta. Mas o atalho deprimia-se aí até cair na estrada do rei, distante ainda muitas braças dos cômoros, e o batelão, já contra a costa, sumira-se-lhe da vista que, nesse instante, apenas alcançava uma esteira branca de espuma smorzando saudosamente para além...

No porto, um grupo de homens aglomerava-se já em torno da pequena embarcação, em que vinham dois tripulantes do iate e o contramestre Pedro, um rapaz dos Morretes, que lidava no mar de menino e era muito conhecido e estimado em toda aquela vizinhança. De pé, à popa do batelão, o grosso tórax possante atacado numa ampla camisa de flanela azul, com belo peito escarlate em forma de lira e ornado de bolso, o boné carregado sobre os olhos, gritou:

— Ó gente, cá estamos de novo! Tudo a salvamento... Felizmente, desta vez, ainda o mar rejeitou-nos!

De um pulo destro saltou, distribuindo aqui e ali apertos de mão, falando a um e outro, todo risonho, numa rude expansão de marítimo; e avistando o Lemos à porta da venda, rotundo e rubro na sua camisa de algodão grosso:

— Olá! Olha uma bela pinga da branca!

E rompeu, praia acima, a fortes passadas gigantes, que faziam cantar vivamente, sob as solas das botas, a alva areia escaldante.

A Maria Virgínia chegou à praia exausta, ofegante, as pernas trêmulas, quase a cair de fadiga. Quando entrou na venda, o contramestre Pedro, cercado de povo, a fisionomia animada, loquaz e gesticulante, perorava, com ardor, sobre o temporal.

— Havia muito tempo, dizia, não se sabia de tamanha borrasca ao sul. Nem na costa de Laguna, nem em Itajaí, nem na barra do Rio Grande... Fazia já vinte anos que ele se batia com o mar, em inúmeras latitudes, sob aguaceiros e trovoadas medonhas, mas jamais vira tanto vento e tamanhos vagalhões. Verdadeiras montanhas d'água, deslocando-se, esbarrando-se numa fúria dos demônios... Bordejava para fora, na Barra Velha, quando a lestada caiu. A princípio, aguentou-se com pouco panovela grande nos rizes e bujarrona, — a ver no que dava aquilo. Mas o iate era um cabrito — saltava, empinava-se, investia na vaga ameaçando ir a pique. Tentou uma arribada, porém a costa toda sumira-se: nevoeiros densos amortalhavam tudo, carregados de cinza. Então pôs-se à capa, e toca a rolar para aí... Seis dias e seis noites vogou perdido, aos tombos, no redemoinho das águas. Ninguém parava, ninguém dormia, numa faina incessante. Até que, naquela manhã, a borrasca amainara de todo e, sem saber como, por um acaso imprevisto, quase um milagre, avistou terra, por barlavento, à distância de milhas. Reconheceu logo o Arvoredo, os Ingleses, e puxara todo à bolina. E ali estava, graças a Deus, são e perfeito, com aquela casca de noz do Andorinha e toda a sua companhia...

Quando ele acabou, a Maria Virgínia, que ouvira tudo atentamente, imóvel e muito pálida, o coração palpitante, acercou-se, por entre os homens; e, saudando-o, numa voz doce e trêmula, cheia de emoção:

— Então, por aqui, depois de tantos trabalhos, hein? Que desgraças por esse mar! E que grande lestada, nem o temporal de Março de que falava a mãe! Nunca se vira uma coisa assim! Ali, no arraial, fora uma calamidade, parecia que era o fim do mundo! E como ele escapara, com tantos perigos, tantas aflições? Só por Deus, só por Nossa Senhora dos Navegantes!...

— É verdade, Marica, graças ao Pai do Céu, escapamos...

E, num gesto da sua mão hercúlea, descobriu-se, deixando ver a bela testa tisnada, toda aureolada de espessos caracóis castanhos.

Em seguida, ela contou-lhe, num grande abalo íntimo, em frases entrecortadas e soluçantes, os lindos olhos negros arrasados de pranto, que o que a levara até ali fora a profunda ânsia em que estava por “alguma nova” do Siqueira, que se fizera ao mar um dia antes de cair aquele “inferno de tempo”. De certo, andara rolando também, aos trambolhões, por esses mares de Deus... E quem sabe o que lhe teria sucedido sobre as ondas em sanha?... Desde que aquilo desabara, não parara um instante, inquieta, num desespero contínuo, passando os dias e as noites junto ao oratório, rezando. E não sabia porque, mas, “por dentro”, uma coisa lhe dizia que tinha havido um desastre, alguma desgraça, pois sentia como um “peso” terrível sobre o coração.

E desatou a chorar alto, perdidamente, batida de uma rajada de dor.

O Pedro, com a sua bondade de gigante, sensibilidade incomparável e santa de todos os marujos, cujas almas vivem perpetuamente carregadas de amor, de ternura, da nostalgia sem fim do oceano, ficara logo com os seus grandes olhos azuis mareados de lágrimas; e, atarantado, num enleio, numa perturbação, mal podia dizer meigamente:

— Que, infelizmente, não encontrara um só navio, uma única vela, durante a terrível viagem, mesmo porque era impossível distinguir coisa alguma em meio à cerração. Mas que não se amofinasse, não perdesse a esperança. O Siqueira era um marinheiro às direitas, conhecia o mar como as palmas das mãos. Depois, o Espadarte era navio de aguentar todo o tempo; aquilo era seguro como um rochedo; para ele não havia vagalhão. Certamente a lestada fora de tremer, mas não faltavam recursos para um bom mareante: havia a capa, havia o encalhe em um costão de remanso e, se nada disso se pudesse alcançar, era dar à popa e deixar-se levar sobre as águas, aos trancos... Não! Que ela não pensasse em desgraças! Era uma tolice! O Siqueira, àquela hora, talvez estivesse chegando ao Rio Grande...

Sob estas palavras, que lhe caíam docemente na alma, como um alívio, uma consolação, a Maria Virgínia foi pouco a pouco serenando; mas lembrando-se de repente de que os pequeninos, os filhos, tinham ficado sozinhos lá em cima com a mãe, coitada, que vivia paralítica, a um canto, quase sem se poder mover, despediu-se imediatamente:

— Ora, há de ser o que Deus quiser... E adeusinho, Pedro; até depois. Olha, aparece lá em casa. Assim que puderes, dá uma chegadinha ao morro. A mamãe há de gostar de te ver...

E saiu correndo, num movimento adorável dos quadris cheios, da cinta estreita e do lindo busto alto onde o seu pescoço bem feito e o moreno rosto escultural se erguiam deliciosamente em meio da luz radiante.

II 
Daí a quinze dias, pela manhã, espalhava-se por todo o arraial dos Ingleses a lutuosa notícia de que o Espadarte tinha ido a pique, uma madrugada, a vinte milhas do cabo de Santa Marta, tendo perecido nele o contramestre, o gajeiro grande e o capitão Siqueira. Soubera do caso o filho do Patesca, que viera da cidade onde estivera com os tripulantes que haviam escapado, e que decerto chegariam ali pela tarde, porque vinham por terra, de sítio em sítio, em procissão com a gávea, a tirar esmolas para uma promessa à Senhora dos Navegantes. Um deles, o Manuel Figueira, narrara-lhe, na véspera, como se dera o naufrágio.

O navio abrira água, um dia antes do sinistro, com dois mares de través, que o alagaram de popa, ao desfazer de uma capa. Mas, com as bombas a trabalhar incessantemente, aguentara ainda até à noite seguinte, em que a guarnição, já exausta, largou tudo por mão, e o brigue entrou a se sentir mal sobre as vagas. Os marinheiros começaram então a tratar da salvação, ensacando provisões, entrouxando a roupa, arranjando os objetos náuticos mais necessários — remos, velame, cabos — safando ao mesmo tempo as talhas do escaler pequeno e da lancha grande de carga, a fim de os poderem arriar ao primeiro sinal. E as horas corriam, sob o fragor clamoroso do mar e a negrura densa da noite insondável... De repente, um marinheiro, que descera ao rancho, deparou com o porão cheio d'água e, voltando, correra à ré, a dar parte ao contramestre que estava ao leme, enquanto o capitão, a um bordo, contra a balaustrada, com os olhos fisgados na noite e nas ondas, acenava, a espaços, com o braço gritando: orça! alivia! para evitar as montanhas de mar embatendo em assaltos gigantes... Nessa ocasião, já o navio ameaçava soçobrar, em horríveis balanços. Eles, imediatamente, lançaram o escaler e a lancha fora das amuradas, destacando o gajeiro grande para a popa, a prevenir o capitão de que tudo estava pronto a largar. Porém, nisso, um vagalhão terrível inopinadamente rebentou sobre o salto, avançando, carregando tudo num turbilhão formidando... Ouviram-se gritos... O brigue medonhamente enterrava-se, de alheta, erguendo a proa balouçante. Eles, alucinados, num estranho pavor no meio do tumulto infernal, cortaram logo as talhas, e, a toda força de remos, aguentaram para o largo, à distância... Quando o dia alvorou, já em calma, nada mais se avistou sobre o mar, além deles e do disco ermo e nostálgico do horizonte ao longe...

E a viva narração do marinheiro voava de boca em boca, eletricamente, despertando enternecimentos e lágrimas pelas casas, os engenhos e os ranchos, e adquirindo, a cada nova edição oral, cores e linhas estranhas.

À casa da Maria Vírgínia já haviam acudido os parentes, as amigas e toda a vizinhança — e as portas e as janelas cerradas, deixavam escapar desoladoramente, apesar do belo sol da manhã, um coro abafado e lúgubre de vozes soluçantes.

A pobre rapariga recebera o grande golpe aflitivo logo ao amanhecer, quando, como de costume, depois da tempestade, postada ao paredão do terreiro, esquadrinhava, com um longo olhar melancólico, a linha clara do horizonte. Levara-lhe a dolorosa comunicação uma comadre sua, a Josefa Dutra, que passara ainda escuro pela casa do Patesca, onde se detivera a tomar o “aparado” e a descansar da longa caminhada que trazia, desde o cantar do galo, lá do Rio Vermelho, onde estivera em busca de remédios para o marido, caído com as sezões, havia dois meses. Desde esse instante até aquela hora, a Maria Virgínia se debatia, em gritos, numa ânsia e num desalinho, na agitação do desespero, inconsolável, aturdida e perdida no fundo do seu infortúnio. Todos a rodeavam afetuosamente, procurando acalmá-la com palavras meigas e enternecidas, que envolviam uma imensa consolação de carinhos — palavras deliciosas, palavras santas, que são, na desgraça, como um vasto manto aconchegante de plumas e um suave, incomparável bálsamo bendito!...

A casa inteira parecia também envolta na rajada sinistra, em meio à desolação: de todos os lados, de todos os cantos, erguia-se, funerariamente, na desordem das coisas, como uma levada tumultuosa de sofrimentos, que se desprendia do choro inconsciente das criancinhas órfãs e do soluçar rouquejante da pobre avó paralítica. Até na cozinha as velhas pretas da casa faziam um coro vivo de pranto. E a imensa aflição deste lar humilde ecoava lutuosamente por aquelas cercanias onde, como em todos os sítios, a vida corre docemente enlaçada, na solidariedade fraternal de uma mesma família, compartilhando igualmente as alegrias e as privações.

Mas o dia encaminhava-se para a tarde e a luz desbotava lentamente num dourado esvaído. Pelos morros, distinguiam-se os grandes lençóis coloridos das rocas, onde predominavam intensamente o verde negro da mandioca e o louro seco dos milhos. E na serenidade do ar erguia-se, por vezes, um vago trêmulo amoroso de campesinas cantigas. Pela costa, canoas de rede, na faina intensa da pescaria, iam traçando incessantemente, sobre a lousa verde do mar em calma, longos hieróglifos de giz. Pequenas velas ao longe abriam melancolicamente o triângulo claro e vogador da sua asa alígera. E no horizonte além, a saudosa neblina de pérola das águas longínquas...

De repente, vozes frescas de rapazes estalaram lá embaixo, no caminho:

— Olha uma vela de navio! Olha uma vela de navio! E a gente do Espadarte... Aí vem!...

E logo a notícia de que os náufragos tinham chegado espalhou-se por todo o sítio dos Ingleses.

Efetivamente, na encruzilhada da praia, de onde partia um ramal de estrada branco e arenoso estendendo-se pelo litoral até à Ponta das Canas e a Cachoeiras, um grupo triste de homens descalços, em camisa, o boné sob o braço, as calças arregaçadas, apertadas na cinta escarlate dos marujos, avançava, conduzindo à mão, pelas carregadeiras, o pano grande de uma verga. Molhos de rosas e palmas, deitados decerto por mãos piedosas de roceiras trigueiras — mães, filhas, noivas e irmãs — na passagem pelos sítios, perfumavam, enfeitavam risonhamente aquela velha lona que fora outrora, no alto das mastreações, tão amada do sol e dos ventos do oceano.

O préstito caminhava cantando. Era uma dessas canções embaladas e monótonas, de uma cadência acre da onda em tormenta, implorativas, convulsas, ansiosas, de uma nostalgia sem termo. Cada estrofe dizia, primeiro, o rugir dos ventos, o espumar dos vagalhões em fúria, o despedaçar dos lenhos; depois, os gritos, as pragas duras, blasfemas, os fundos desesperos da marinhagem impotente, em luta brutal com os elementos. Mas o estribilho ritmado e frequente, tinha uma mansidão suplicante, o ansiar resignado de íntimos sofrimentos, a doçura suavíssima de uma prece plangente:

Senhora dos Navegantes,
Amparai-nos lá dos céus:
Que por todos os quadrantes
Acalmem-se os escarcéus.

De vez em quando, em frente às casas, a vela parava, e um marinheiro se destacava, abordando as janelas ou as portas, de barrete estendido, esmolando. E as moedas negras de cobre e os níqueis radiantes surgiam de toda a parte, caindo de mãos femininas e brancas, num rápido gesto espontâneo.

Uma aglomeração de rapazes e homens cercava logo a companhia, e os conhecidos e amigos a inquiriam candidamente, pedindo notícias, pormenores do sinistro.

As famílias dos náufragos que moravam distante, lá para a Lagoinha, desciam em direção à praia, num alvoroço: para abraçar os pais, os maridos e os filhos. Havia por isso, em todo o arraial, um movimento de romaria. E quando algum dos marinheiros avisava os seus entes queridos, o seu lar, o bem maior da sua vida, desprendia-se, por instantes, do lutuoso cortejo, e eram então abraços ardentes, choros de emoção e de alegria, nas porteiras, nos terreiros sob as ramagens verdes dos caminhos...

Mas logo a vela prosseguia, naquela peregrinação dolorosa.

Ao chegar à venda do Lemos, uma multidão de ajudantes, camaradas das redes e alguns tripulantes do Andorinha, que ainda permanecia no porto carregando — correram ao encontro dos náufragos, ruidosamente, num júbilo:

Ó Antônio! Ó Figueira! Ó Constâncio!... Então por aqui, depois de tantos perigos?... Ora sempre Deus era grande e tinha compaixão dos infelizes!

— É verdade, gente. Mas lá ficou o nosso capitão, lá ficaram o Samuel e o Justino, coitadinhos! Quem diria que tornaríamos sem eles! O que era a vida, o que era o destino!

E dos olhos de todos aqueles marítimos, raiados de sangue pela refração solar do oceano, nos tombadilhos, as lágrimas corriam, duas a duas, silenciosamente...

Lá em cima, no morro, a Maria Virgínia, a essa hora mais calma, mais resignada, naquela quase consolação de poder ver ao menos a vela do navio do marido, queria por força descer abaixo, ao caminho. Mas os parentes e as amigas protestavam, opunham-se:

— Que não! Que não! Pois se a vela ia passar por ali, porque tinha de ficar aquela noite na ermidinha da Senhora dos Navegantes! Não! Que tivesse paciência, esperasse um instante. Ela viria...

Com efeito, o pano do brigue ia ser depositado ali até outro dia. O Figueira já falara ao sacristão, e este apressara-se logo a subir à capelinha, cuja porta abria-se agora lá no alto da montanha, dominando as praias, as ilhas, todo o oceano, como nas manhãs claras de missa...

Mas o sol rolava já no horizonte, numa barra sulferina. A planura imensa das águas resplandecia a oeste, maravilhosamente, como um estranho tablado de pedrarias. Canoas ao longe corriam, com velas tintas a zarcão, sob a luz fugidia, evocando feericamente o esquisso luminoso de uma remota marinha fenícia, singrando, num poente vermelho, o cetim do mar de Tiro. E contra a costa arenosa e límpida fechada a um lado pelas rochas altas do Rapa, cobertas agora de uma fascuração sanguínea de mica, o cair lento e melancólico de uma poeira de nanquim, onde se distinguiam, numa eteral agonia, os primeiros lilases e lírios das ave-marias...

Então os náufragos apressaram-se e, arrumados à vela, de onde as rosas e palmas pendiam, já murchas e tristes, como sobre um pano de esquife, tomaram o tortuoso e empinado caminho que levava à ermida. E, de novo, repetidamente, o estribilho sonoro da canção marítima ecoou pelo ar, manso, súplice, pungentíssimo:

Senhora dos Navegantes,
Amparai-nos lá dos céus:
Que por todos os quadrantes
Acalmem-se os escarcéus.

Em frente ao terreiro da Maria Virgínia o préstito estacou. Uma aglomeração de pessoas tomava aí a estrada, numa altitude compungida. E logo, da casa toda aberta e em sombra, rompeu uma orquestração clamorosa de choros e gritos. Dentro, a pobre rapariga debatia-se, numa angústia sem nome, em meio aos braços das amigas, que a conduziam carinhosamente para uma das janelas, procurando impedi-la de sair ao caminho, dizendo-lhe docemente:

— Olha daqui! Olha daqui!

Porém ela, desatinada, convulsa, num nervosismo, retorquia-lhes:

— Não! Não! Deixem-me sair! E com a ideia sempre fixa no marido: — Quero ir beijar ao menos a vela que lhe escutou o último suspiro...

E, desprendendo-se de repente, atirou-se para a rua, como uma louca, por entre a multidão estarrecida.

Foi então uma cena comovente, tristíssima. Todos, em volta, tinham os olhos rasos d'água, as pessoas do povo como aqueles velhos marítimos.

E a Maria Virgínia, de joelhos, abraçada à vela, toda banhada em pranto e agitada por soluços que a sacudiam intermitentemente, beijava a velha lona náufraga, beijava-a, como numa ardente e extraordinária consagração divina. A sua voz, a espaços, debilmente vibrava: trêmula, entrecortada, aflitíssima, no meio do pesado silêncio do céu vespertino:

— Ai! que dor! Ai! que dor!... Virgem Santíssima!...

E como ela se delongava sonambulamente nessa genuflexão de martírio, o rosto desfigurado, muito branco, como quem vai cair numa síncope, os parentes acudiram, arrancando-a piedosamente dali.

A vela, sempre acompanhada de povo, pôs-se outra vez a caminho, embalada pelo ritmo sonoro da canção, cujo agro estribilho aumentava agora de dolência monótona. Nesse instante, o crepúsculo cerrara-se de todo, amortalhando os longes, as montanhas e as águas, com os seus grandes véus mortuários de cinza...

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