segunda-feira, 27 de novembro de 2017

À vista da denúncia (Conto), de Almachio Diniz


À vista da denúncia
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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O interior da envidraçada varanda, exornado com ipomeias e glicínias, em cacos, orquídeas e aruns nos recantos, não tinha senão a luz pálida, muito pálida, de um luar de inverno, coado preguiçosamente pelos vãos das grinaldas verdes.
Das quatro portas que abriam para o interior, apenas uma cometia a indiscrição de transportar para além, ao conhecimento da criadagem bisbilhoteira, os amuos graves de Clóvis e Amarília.
A denúncia, amarrotada e em frangalhos, estava sobre uma banca de ferro, destorcendo-se, como se nervos tivesse, dos amachucamentos grosseiros perpetrados pelas mãos violentas de Clóvis, que, distraindo-se um pouco com as fumaradas de um havana, ouvia, sem intervenções, as queixas de Amarília...
 —Como eu, tão ladina para outras, compreendendo tão bem o mal alheio, deixei-me cegar por tanto tempo?! Era um convite amável hoje, tinha sido um presente valioso ontem, era uma lembrança expressiva amanhã... E o meu filhinho servindo de passe para os maiores engodos!... Toda hora o telefone pedia Arturzinho. Lá se ia o inocente, coitadinho! E raramente voltava. Prendiam-no dias seguidos com a ama. Poderia eu desconfiar do embuste? há gênios capazes de todas as vilezas. O filho era o motivo da entrada do pai, os presentes eram as cinzas nos meus olhos, e os convites eram a perfídia da traiçoeira. Mas, agora, ou eu sucumbirei, ou estará tudo acabado. Ouve-me bem, Clóvis: nesta casa, enquanto eu viva for, Carlota jamais tornará, e se tu desceres à indignidade de voltar à casa dessa mulher, ouve bem! Serei eu quem irá buscar o tolo do esposo para te surpreendermos na sordidez. Sempre são os interessados nas causas os que por último se sentem logrados. Il n'y a qu'un mot pour dire les choses. Essa palavra não devo, porém, proferir sem macular os meus lábios, sem regozijar o meu enganoso marido, e sem elevar a perdida que me furta a tranquilidade, que me logra no dom legal da fidelidade esponsalícia. Um dia desconfiei. A ama de Arturzinho levava um pacote às escondidas, quando, para castigo, ele rolou ao chão, na hora da partida, quase aos meus pés... Perguntei à cúmplice que significava aquele embrulho... Foi o Sr. Clóvis quem tomou a palavra: “é um romance que mando, a pedido, para D. Carlota ler...” Ingenuamente me convenci. Pois seria possível que o meu marido trouxesse a beijar-me a mulher indigna que me atraiçoava? que expusesse o meu filho à infamação de ser posto junto à pérfida, em lugar de seu pai gozado?... Ó meu amado Jesus!... Tenho nojo de tudo isto!... Olho-me e vejo-me só. Roubada naquilo porque mais zelos e mais ciúmes alimento, eu que me tenho submetido maquinalmente à concepção de treze filhos, esgotando a minha juventude para parecer velha aos trinta e dois anos, assassinando a minha beleza, relaxando os meus tecidos, criando uma ruga nova em cada manhã em que me olho ao espelho!... para ser recompensada duramente com uma traição, uma tripla traição, em que se envolveram as minhas lealdades de esposa, de mãe e... de amiga. Sim, porque, desgraçadamente o digo, tolerei a concubina de Clóvis na intimidade cordial de amiga. Muitas vezes, por força dessa leviandade comum a todas as mulheres, terei dado causa de riso à maldita que me engazopava. Contava-lhe os meus esforços para trazer sempre o meu marido na obrigação pontual de possuir-me. Disse-lhe mesmo que, muitas vezes, o recebia com íntimas indisposições, para que rejeitado uma feita ele se não atrevesse a faltar-me outras, e nestas perseguir-me a dúvida de sua saciedade noutra fonte... Não sei onde estava escondido o sol de minha compreensão que agora recena a minha inteligência. E uma miséria moral essa em que se prostitui, com o cônjuge das outras, uma velha, desrespeitadora das cãs do esposo e da inocência de suas filhas. Havia de ser lá, naquela alcova cheia de seduções, que o meu companheiro se convertia em assassino da paz de minha alma. Aos olhos daquelas três criancinhas—mulheres fáceis, por herança, que desabrocham nos cômoros lamacentos da podridão materna—eles dois se encaminhavam do leito, quantas vezes Clóvis ouvindo a voz de meu filhinho chamando-o ardentemente com o nome de pai! Bendito o poeta que já disse estar ao lado de cada homem uma fera monstruosa: o instinto. E esse poeta foi o meu próprio esposo, acusando toda a humanidade com o seu próprio mal. Foi preciso que uma generosidade estranha me avisasse para que eu conhecesse essa nova militta babylonica, torpe, pântano no qual até a traída companheira do amante e o explorado amor de seu filhinho foram poderes lascivos. Ó injustiça divina! Por que não me despertaste, a mais tempo, do sono em que sonhei com a lealdade de um templo cristão e me achava desgarrada na nave de um templo de Buda?!... Foi hoje o assinalado dia de minha vitória. A carta chegou-me às mãos com as réstias violetas do sol posto. Li-a de um fôlego. O meu primeiro ímpeto, naturalmente, foi de indignação contra o denunciante. Mas, ali estavam os fatos verificáveis, possíveis, e terrorosos. A noite veio mais depressa aos meus olhos do que ao resto do mundo. A verdadeira noite é essa em que também a alma se recolhe na escuridão de uma dor apunhalante. O meu marido jantaria fora, num banquete íntimo, mas numa sociedade festiva. Resolvi chamá-lo prontamente às explicações de suas infidelidades. E fi-lo sem tardada, não o nego. À criada de Arturzinho, a esta cancerosa alma de mulher que tinha afetos meus por dar o seu leite à formação orgânica de meu filho, trouxe logo às contas. Não lhe disse a denúncia, não lhe proporcionei ensejo de contestar a sua ação, porque a interpelei segura do fato, inteiramente consciente do que fazia. E ela me confessou que levava e trazia romances imorais, que levava e trazia cartas e recados... O instante único! Ao depois, calma e friamente, sabendo que aguçava a minha dor, revolveu-me na alma o punhal de seu descaro, revelando-me a indignidade de ser o meu filho abraçado e beijado ardentemente, durante a ausência do pai, com o nome deste entre os lábios da corruptora... Nega, Clóvis, que não és o amante dessa barregã de padres, dessa imunda mulher que maculou o meu lar com a sua abjeta convivência...
— Nego, sim!
— Forte coragem! Jura que ontem não beijaste, quase aos olhos do público, no salão de visitas, os lábios roxos pelo cansaço da idade de Carlota.
— Juro-te.
— Leviano! Mente como quiseres. Mas, ouve: enquanto o meu corpo sentir as comoções do nojo pelo teu que se enlameou na companhia daquela devassa, enquanto as minhas narinas sentirem o perfume daquela carta nas tuas vestias, que é o perfume de uso na alcova de tua ervoeira, terei a coragem de repelir-te e de cerrar os meus lábios às menores palavras para as nossas relações. E se, porventura, desconfiar eu que foste buscar, como uma abelha sem sorte, o néctar que se esconde na corola daquela flor murcha e fanada, dentro desta casa, escuta bem Clóvis, haverá a incompatibilidade de nós dois... É tu entrares e eu sair, ou só ficarei se tu te fores para sempre. Sabes quanto sou caprichosa, o bastante para não me arrepender das resoluções tomadas. Negas, ainda, o teu erro? Serei fácil de perdoar-te com a verdade, tão fácil quanto não te tolerarei com a mentira... Nega a tua indignidade!
— Nego, sim!
— Quero convencer-me. A pé firme?
— Com toda lealdade.
— Pois bem! É escusado irmos adiante: sabes o que está contido naquele pacote?
— Ignoro.
— São os presentes com que me turvou a vista a tua amante. Quero devolvê-los.
— Mas, como?
— Não os guardarei mais comigo.
— Vais romper, então, com a família do Aurélio?
— Forçosamente.
— É de mau alvitre.
— Incomoda-te muito esse rompimento pelo que estou vendo. Deves acabar com uma amizade que me aborrece, e se te escusares a esse acabamento, confessas o interesse que terás em manter a verminação desse convívio imundo...
— Se encaras por este lado, rompe Amarília, devolve tudo do modo mais grosseiro.
— Devolverei, sim, não há que ver.
— Estás no teu direito.
— E espero a tua sanção.
— Já a tens.
— Não. Não a tenho ainda. A devolução não poderá ser feita sem uma carta.
— Pois escreve-a!
— Não! Também não! Serás tu...
— Eu?!...
— Ah!... Esquiva-te de escreveres a carta?...
— Amarília, pensa bem! Nós, os homens, ficaremos mal se nos envolvermos nessas rusgas de mulheres.
— Compreendo-te: romperei eu, e tu, às ocultas quiçá, com menores aparências, te dedicarás à continuação de teu adultério. Hás de ser quem escreverá a carta hoje mesmo, agora...
— Convencer-te-ás de minha inocência?
— De todo, não. Encaminhar-me-ei de convencer-me.
— Não haja dúvida. Dá-me papel e tinta. Escreverei num momento...
— E pensas que escreverás como quiseres?
— Não: como for conveniente.
— Não te concedo esse direito: vais escrever ao meu ditado.
— Quê?
— Nos termos que me espocarem arrevesadamente aos lábios...
— Mas...
— Na linguagem mais ferina que eu souber empregar contra uma inimiga...
— Amarília?!...
— Virulenta e grosseira...
— Faça-se a tua vontade.
— Escreves?
— Como quiseres.
— E a quem pensas vai ser dirigida a missiva daquele modo escrita?
— A Carlota!
— Não, Clóvis. Quero que se escreva ao marido dela, com o seu nome em todas as letras...
— É demais!
— Não retrocedas!
— Abusas de minha bondade...
— Enganas-te. Clóvis, ou tu escreves como eu te determino, ou...
— Absolutamente, não!
—...ou me retirarei hoje mesmo de tua companhia... A casa de meu pai terá sempre, para a filha digna, o agasalho mais confortável.
— Tua alma, tua...
— Sei bem! Queres o escândalo da separação para o renome do conquistador? Não te darei essa vantagem... Debaixo deste teto, tragarás, Clóvis, o amargo da tortura mais incondescendente, sofrerás a queimadura do inferno mais verdadeiro...
***
 Ao longe, um relógio temerário, arriscou o aviso tétrico da meia-noite, ao fim do qual, resolutamente, Amarília se retirou para o seu leito...

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