sábado, 4 de novembro de 2017

A volta das velas (Conto), de Virgílio Várzea


A volta das velas
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Maio findara alegremente. E este primeiro dia de junho, na ilha catarinense, expirava numa deliciosa calma outonal, sem as cortinas de névoa cinzenta que fecham, às vezes, os longes e sem desolação do vento sul, retardado ainda entre as geleiras austrais. O céu, muito límpido e transparente no seu imenso zimbório cerúleo, que os bulcões negros de inverno viriam em breve toldar, ardia todo ao poente nos últimos dourados flamantes da agonia do sol. Embaixo, o mar se estendia numa placidez de lago, com recantos fulgurando em espelhações de luz mágica. Aqui e além, pelo golfo, pequenas ilhas graciosas e negros rochedos de cabos abriam rendados de bronze no tamis de ouro do ocaso.

A essa hora, uma revoada alvacenta de velas começava a rugir no horizonte, em direção ao porto, à maneira de um bando de gaivotas recolhendo ao seu pouso noturno nos anfractuosos cimos recortados da penedia da costa. Quadrangulares algumas, latinas na maior parte, essas asas leves das velas que o Homem dirige e anima, que andam a mercê dos ventos nos descampados do mar e que são mais preciosas decerto que as asas vivas dos pássaros — salpicavam de encantadora brancura o esmeraldino das águas que se encinzava pouco à pouco, e a linha melancólica e desolada de leste onde a incomparável e majestosa amplidão do oceano parece que não acaba jamais.

Eram essas velas as canoas e baleeiras de pesca que regressavam ao seu pequeno arraial, depois de uma semana de ausência.

Já em frente aos ranchos de palha se aglomeravam em grupos as famílias dos pescadores que, como de costume, vinham para ali esperá-los. Eram meninas galantíssimas, de saia curta e pés descalços, cabelos soltos e revoltos, límpidos olhos virginais, sorriso alegre sempre à boca rosada e fresca como a polpa de um fruto que se abre ao sol, docemente, em plena maturidade — todas girando, as mãos dadas, em rodas de ingênua folgança, sonoras de cantos álacres e de inefáveis risadas; eram moças adoráveis, de face cheia e oval, cútis veludosa e morena, iluminada castamente por olhares de uma expressão ideal; eram matronas de largos e fecundos quadris, de pé ou sentadas sobre a fofa areia clara, olhos pregados sobre as velas amadas aproximando-se pouco a pouco, todas a parolar vivamente, numa voz meio cantada ostentando cada qual gordos fedelhos ao colo, enquanto a outra parte da ninhada — os rapazinhos mais crescidos — divertia-se a correr e a saltar, numa algazarra festiva, pela batente do mar.

Ao fundo, na linha dos cômoros, alguns homens empontavam-se, em camisa e chapéu de palha à cabeça, olhando atentos às águas e apontando, de instante a instante, as veleiras velas claras. Do interior do arraial, pelas veredas e trilhas que vinham morrer entre as dunas, golfavam ainda para ali magotes de retardados. E à maneira que a luz desmaiava por trás dos montes de oeste, os cascos esguios das canoas e lanchas erguiam-se de sobre o mar, destacando-se uns dos outros pelos latinos voadores, as velas retangulares que avançavam lentamente para o crescente da praia.

A matinada festiva crescia então pelos ranchos onde as matronas robustas, reconhecendo agora as embarcações em que os maridos, irmãos e filhos andavam, as apontavam às crianças que corriam para ela num júbilo estardalhaçante e num berreiro geral. E exclamações de alegria vibravam por toda a praia, apregoando os expressivos nomes sonoros das pequenas quilhas ligeiras, colmadas de panos alvos:

A Andorinha, a Esperança, a Flor do Mar, a Rajada...

E dentro em pouco, em frente de cada rancho, uma embarcação abicava, carregada de peixe fresco ou de salga, e cercada para lago das palradoras mulheres e da inquieta criançada. As companhas saltavam — o patrão e quatro homens em geral — saudosas sempre da família e maltratadas, às vezes, pelos furores do mar: e eram abraços às esposas e repetidos beijos aos pimpolhos, que estas ausências frequentes tornavam sempre mais amados.

Então colhiam-se as linhas e anzóis, os rendados samburás das iscas, os catutos dos espinhéis, os remos, velas e mastro, e, em seguida, desembarcava-se a carga, que era o sustento e o dinheiro de todos até a próxima partida para o mar alto. Imediatamente os pescadores puxavam a canoa ou a lancha sobre grossos rolos de madeira e a fechavam no rancho, onde ela ficava ao abrigo das chuvas e das soalheiras bravas. Depois, todos juntos e felizes, em afetiva palestra ruidosa, cortada sempre de risadas, tornavam o caminho dos lares...

Mas a noite cerrara de todo, ocultando a praia e o mar — e apenas, num ou noutro rancho, algumas luzes rareadas desabrochavam, aqui e além, na treva, as suas grandes corolas vermelhas que tremiam ao vento, iluminando os ajuntamentos de gente, ao instante menos densos, cercando as últimas embarcações que chegavam.

No entanto, em recanto ermo e esquecido da costa, enquanto a maior parte das famílias dos pescadores rejubilavam tranquilas com a chegada dos seus, a Maria Rosa, coitada, sentada à porta do seu rancho, com um filhinho de seis meses ao colo, a velha mãe ao lado, sentia apreensões e tristezas apertarem-lhe o coração, porque a lancha do marido não aparecia ainda retardada, agora, com a noite, nos turbilhões do mar largo. Duas vezes mandara a pobre velha ao rancho do Manuel Cosme, que ficava ali perto e que ainda estava em faina, a saber se a companha de lá tinha visto a Borboleta e se este havia largado juntamente com a Andorinha, naquela mesma tarde. A mãe trouxera resposta favorável, dizendo-lhe que a demora do genro, do Pedro, segundo informara o próprio Cosme, era devido a ter ele aportado no Arvoredo, onde fora levar o peixe que lhe encomendara o mestre faroleiro, quando a Borboleta aí tocara na ida para o mar alto. E, por último, o Zé Clara, que era o “voga” da Andorinha, dissera:

— Ora a Maricas que sossegue, que o Pedro não pode tardar. Em rompendo a lua, a Borboleta está aí rente...

A essas palavras a Maria Rosa serenara um pouco e, com um olhar rebuscador e ansioso, procurava devassar a treva densa, esquadrinhando minuciosamente o porto. Mas em vão o fazia, porque nem uma sombra de vela se divisava agora nas águas. Alentavam-na, contudo, as luzes que ainda ardiam na praia e sobretudo a informação do Zé Clara, que vira o Pedro dirigir-se com a lancha para o Arvoredo quando toda a flotilha da pesca suspendera, recolhendo ao arraial.

Entretanto as horas voavam e pela curva da costa os farolins se apagavam uns após outros, à maneira que as embarcações eram puxadas. E agora só uma luz flamejava na praia — a do rancho do Cosme que, por fim, se extinguiu também.

Ao ver esse rancho fechar-se, a Maria Rosa desanimou de todo e rompeu a chorar, tomada subitamente da ideia terrível de que a lancha do marido não chegava por se ter virado, talvez, no costão do Arvoredo, nesse costão sinistro onde eram sem conta os naufrágios e onde as rochas em caos, que o formavam, estavam crivadas de cruzes, assinalando mortes como um cemitério. E, meio alucinada, parecia-lhe já estar a ouvir os gritos ansiosos do Pedro e dos camaradas, em luta com o maroiço gigante, abandonados de todo o socorro e amparo, na desolação infinita da noite e dos furores do mar. No desassossego da sua imensa angústia ergueu-se e, chamando pela mãe, que igualmente chorava a seu lado, apertando o filhinho nos braços, encaminhou-se loucamente para os cômoros, em direção à casa.

A meio caminho, porém, as duas mulheres sentiram como um vago ruído de remos, vindo do outro extremo da praia. Estacaram por instantes e, certificando-se de que era uma embarcação, lembraram-se da baleeira do Amaro, que ainda não havia chegado. Animadas por esse pensamento, para lá se jogaram a correr. Mas antes de chegarem ao ponto onde a embarcação aportara, esbarraram com o velho José Alexandre, patrão daquela baleeira, que se dirigia ao arraial em busca de um carro para a condução do peixe. A Maria Rosa, fazendo-o parar, inquiriu-o a tremer, os olhos empanados de lágrimas:

— Ó Lexandre, você não encontrou por aí a Borboleta? Até estas horas e nada de chegar! Nunca o Pedro se demorou tanto. Quem sabe não lhe sucedeu por aí alguma?... Você me diga o que houve, Lexandre. Por Nossa Senhora, me diga, que eu já não posso mais!...

O velho pescador parou muito admirado de encontrar a Maria Rosa assim apensionada e em pranto. E falando-lhe, retorquia com afeto, numa meiguice de avô:

— Qual alguma, nem pera alguma, rapariga! Pois tu não acabaste ainda com esses teus sustos! Mas que mulher és tu então? Ora louvado seja Deus! Sossega! E deixa-te dessas consumições que o Pedro não deve tardar, pois que o deixamos lá pela altura do Rapa. Olha, volta para o rancho que talvez já o encontres a arrumar a lancha...

Era tal a segurança destas palavras que a Maria Rosa para logo se tranquilizou e disse ao velho, em despedida:

— Então boa-noite, Lexandre. E Deus lhe pague, por este “peso” que me tirou cá do coração. Parece que foi obra da Mãe Santíssima este encontro, porque eu já ia como louca...

O velho, que levava grande pressa, recomeçou a marcha interrompida, murmurando apenas:

— Ora não há de quê, Maricas. É para isto que andamos neste triste mundo...

E o seu vulto se sumiu logo entre os cômoros, que faziam vagamente, no escuro, largas amontoações branquejantes.

A Maria Rosa, gritando para a mãe que a seguisse, o filho sempre apertado nos braços, retomou precipitamente o caminho do rancho.

Quando aí chegou, vinha atracando a Borboleta, tão carregada que encalhou a muitas braças da praia. À luz do seu farolim escarlate descobriu logo o marido, que patroava a embarcação, ereto e alto na popa. Com o cansaço da corrida e o prazer extraordinário de o ver assim de repente, a Maria Rosa quase teve um desmaio e, sem poder mais aguentar-se de pé, foi cair sentada junto à porta do rancho. Mas ergueu-se logo, reanimada. E como o Pedro ainda não tivesse dado com ela, ocupado agora com a companha em encher os balaios de peixe para aliviar a lancha e a puxar depois, desceu à batente do mar e gritou-lhe meigamente:

— Ó Pedro, olha que eu estou aqui com a mamãe e o pequenino. Que demora foi essa, Santo Deus! Eu já andava como uma louca, sem saber o que fazer. E o que já chorei por tua causa... Nem tu calculas! Se não fosse o velho Lexandre, nem sei mesmo o que seria de mim...

O Pedro, expedindo de bordo os primeiros homens, que iam depondo em terra os balaios carregados, respondeu-lhe alegremente:

— Ora que queres, Maricas! Tive de tocar no Arvoredo, e por isso atrasei a viagem. Depois o demônio do vento não ajudava nada... Até o Rapa foi um esfregar que não acabava mais. E só a poder de remos é que estamos aqui a estas horas, senão nem pela madrugada! Mas o pior já passou... Deixa puxar a Borboleta que isto está a acabar...

E, os pés fincados na bancada de ré, os ombros metidos à longa vara de empurrar, deu um impulso mais à embarcação, que enxurrou então até a batente da praia.

A faina viva da descarga começou logo e, arrumado todo o peixe no rancho, o Pedro saltou, entregando aos remadores a baldeação e a “puxada” da baleeira. Saudoso do lar, como estava, correu a abraçar a esposa e, num enternecimento paternal de marujo, tomou o filho nos braços e pôs-se a beijá-lo loucamente, em meio às duas mulheres, sorrindo agora numa indizível alegria. Depois, todos juntos, numa palração animada e num incomparável contentamento, entraram a caminhar praia acima, em direção à casa...

Àquela hora, para leste, na curva deserta do horizonte longínquo, aparecia o plenilúnio, cobrindo de uma luz cor de flor de laranjeira a cúpula imensa do Espaço. No arraial catarinense os lares adormeciam pouco e pouco, sob a dealbação mágica do alto. A vasta praia dos Ingleses branquejava idealmente, pela sua faixa de areias, onde o mar vinha bater em novelos espumantes de filigranas de prata.

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