sexta-feira, 10 de novembro de 2017

As "Gaffeuses" (Conto), de Humberto de Campos


As "Gaffeuses"

26 de agostPesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Um dos encantos da alta sociedade carioca são as senhoras que cultivam, nos salões e na intimidade, os deliciosos cogumelos da "gafe". Educadas, finas, inteligentes, essas figuras da "elite" constituem, geralmente, legítimos ornamentos da família brasileira; há, porém, no Inferno uma classe de demônios irreverentes que se divertem zombando das mulheres lindas, e o resultado são esses deliciosos delíquios do espírito, e o desgosto que se apossa, depois, das pobres vítimas dessa maliciosa brincadeira diabólica.

À frente desse exército de "gafeuses" marcha, com as "gafes" que tem cometido na terra, a jovem senhora Cardoso Nunes, esposa do Dr. Abelardo Nunes, conhecido corretor e capitalista. Formosa e gentil; D. Clotilde é incapaz de uma perfídia, de uma insinuação malévola, de uma perversidade punidora. As amigas estimam-na profundamente e só não fazem o mesmo as inimigas, porque D. Clotilde, com franqueza, não as tem. A sua simplicidade destrói todas as prevenções, e de modo tal que os seus íntimos lhe perdoam as "gafes", mesmo quando se trata de casos duvidosos, como o de anteontem.

A roda de convidados era enorme e seleta, no grande terraço dando para o mar, predominando, nela, o número de figuras femininas. Palestrava-se vivamente sobre o nervosismo de certas senhoras, algumas das quais nutrem uma aversão às baratas, às rãs, aos grilos e a outros pequenos seres repugnantes.

— Eu tenho horror é ao caramujo! — informava Me. Costa Meireles, com a papada a repousar, como a do Chaby, sobre o peito volumoso. — Quando eu vejo um caramujo, fico toda arrepiada!

E, fechando as mãos muito redondas, muito gordas, fez estremecer, toda, dos pés à cabeça, a formidável montanha de toucinho.

— Pois, eu não, — atalhou Mlle. Pinheiro César; — o que me horroriza é o percevejo. Quem me quiser ouvir gritar, é por um percevejo no meu caminho!

Foi por essa altura que D. Romualda Brito, a ilustre senhora tão conhecida pelas suas leviandades galantes, interveio, informando:

— Pois, eu, não tenho medo de nada disso. Nenhum desses bichinhos me faz, como a vocês, qualquer mal aos nervos.

E contou:

— Imaginem que, outro dia, eu estava em pé na sala de espera do cinema de Copacabana, quando senti, de repente, uma coisa subindo pela minha perna!

— Meu Deus! — gemeu Madame Cunha Andrade, mostrando o braço arrepiado. — Olhem como eu estou!

E a outra continuou:

— Sem me mover, eu compreendi que era um rato!

— Que horror! — gritaram as outras senhoras.

— Quieta estava, quieta fiquei. O rato subiu, primeiro, para meu sapato. Depois, passou à meia. E assim, subiu-me, aos poucos, pela perna!

As senhoras, em silêncio, mostravam-se horrorizadas com o acontecido. E foi no meio dessa impressão, que D. Clotilde interveio, muito séria:

— O rato subiu, mesmo, pela perna da senhora?

— Subiu, menina!

E D. Clotilde, logo, com a maior ingenuidade do mundo:

— Mas desceu, depois; não desceu?

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