domingo, 5 de novembro de 2017

As perdizes (Conto), de Humberto de Campos


As perdizes

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Chegado do interior de Minas, onde nasceu, vive, e não sabe se morrerá, o capitão Venâncio Pimentel, coletor em Poço Fundo, ficou deslumbrado com o Rio de janeiro. Com uma dezena de contos no bolso, provenientes da arrecadação semestral da coletoria, tomou o simpático sertanejo a deliberação de conhecer a cidade, guiando-se por si mesmo, dispensando, em tudo, o auxílio de estranhos. Teatros, cinemas, restaurantes, subúrbios, estabelecimentos públicos, tudo isso recebeu, de passagem, a visita da sua curiosidade.

Nada, porém, lhe causou tanta admiração, como a quantidade de mulheres desacompanhadas que encontrava na rua, principalmente nas proximidades do ponto dos bondes do Jardim Botânico, depois das nove horas da noite. Adivinhando-lhe a procedência, e farejando-lhe o dinheiro, essas criaturas infelizes acercavam-se do forasteiro, olhando-o de esguelha, sorrindo-lhe com brejeirice, num desafio maneiroso e calculado. Ele fixava então, a leviana, que tomava o bonde, e acompanhava-a até a Lapa, até o Catete, ou até a Glória, de onde voltava ao ponto de partida, para experimentar, de novo, quatro, cinco, seis, oito vezes, as mesmas sensações da conquista.

Uma destas noites, ia eu tomar o carro, às onze horas, em companhia do Sr. deputado Antônio Carlos, quando este descobriu, no ponto de costume, o capitão Venâncio, a quem me apresentou, contando-me, ao mesmo tempo, a fraqueza do seu velho correligionário e concidadão.

— Que gosto acha o senhor nessa extravagância, Sr. Pimentel? — perguntei eu, escandalizado, ao mineiro, acentuando as palavras com a tonalidade proposital da minha censura.

— Gosto? — atalhou o sertanejo. — Gosto, eu não acho nenhum. Eu acho é engraçado.

— Engraçado? — estranhei.

— Sim, senhor. Eu faço isso para me lembrar de Minas, das minhas caçadas no Poço Fundo. Cada mulherzinha dessas é mesmo que perdiz.

— Perdiz? — interveio o Dr. Antônio Carlos, admirado.

— Sim, senhor. Vossa senhoria nunca andou caçando perdiz?

E explicou, ajudando a palavra com a mímica:

— A gente vai, às vezes, pelo mato, pisando aqui, pisando ali, cauteloso com a espingarda calada, quando ouve, de repente, um barulho no chão, entre as folhas. Olha, e vê: é a perdiz que está no folhedo, imóvel, quieta, olhando p'ra gente. Sentindo-se descoberta, solta um voo baixo, rasteiro, junto do solo. A gente não atira: vai andando, vai seguindo, vai acompanhando a bicha, até que ela, afinal, chega no ninho.

— E quando a perdiz chega no ninho, que é que faz? — indaguei, curioso.

E o capitão, rindo:

— Que é que faz? Deita-se!

E saltou para o estribo de um bonde, espantando uma revoada...

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