sábado, 11 de novembro de 2017

Cefalgia (Conto), de Humberto de Campos


Cefalgia

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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A maior ambição de D. Tereza, desde que lhe morrera o marido, consistia em casar a sua filha única, a encantadora e risonha Edelmira, com o Zezinho, acadêmico de engenharia e filho único, também, do seu irmão Samuel. Criados juntos, quase como irmãos, os dois primos votavam-se uma estima sincera, profunda, inquebrantável, que o amor havia consolidado. E era este sonho máximo da sua vida que D. Tereza acabava de realizar, naquela dia, ao ver chegar à casa, de regresso da igreja, o cortejo nupcial, de que a Edelmirinha se apeava, com os olhos vermelhos de pranto feliz, entre punhados de flores que lhe atiravam, sorrindo, as suas amiguinhas da vizinhança.

Não querem. Entretanto, os deuses, que a felicidade seja duradoura, nem eterna. No céu azul de uma vida sem cuidados, há de passar, sempre, uma nuvem cinzenta, que interrompa a continuidade da ventura. E era nisso que pensava D. Tereza, após o jantar íntimo oferecido aos convidados, quando lhe foram dizer, na copa, que o Zezinho se estava sentindo indisposto.

— Que é, meu filho, que é que você tem? — correu a boa senhora, aflita, com a angústia estampada no rosto, a indagar do rapaz.

— Não é nada, mãezinha, não é nada; não se aflija! — pedia ele, pálido, ao lado da noiva.

O caso era, entretanto, de molde a originar preocupações. Sustentando a cabeça nas mãos, o moço não podia disfarçar mais a dor horrível que lhe estalava o crânio, modificando-lhe, pela violência, a serenidade da fisionomia.

— Meu Deus! que será isto! Que terão feito ao Zeca, minha Nossa Senhora?...

E, agoniada, a andar de um lado para outro da casa:

— Isso foi inveja! foi feitiçaria! foi mau olhado que puseram nele! Meu Deus, tende piedade de mim!...

Na sala, a desorientação não era menor. Cada pessoa presente recomendava um remédio, uma droga, um recurso caseiro.

— Dê um escalda-pés, D. Edelmira, — aconselhava uma senhora gorda, montanhosa, que se abanava, paciente, com um grande leque de plumas. — Dê um escalda-pés, que é um santo remédio!

— Um chá de erva-doce, Dona Tereza; faça um chá de erva-doce bem forte! — intervinha outra dama, professora pública, jubilada. — Isso é estômago, com certeza!

Iam as coisas por essa altura, quando o Dr. Álvaro Osório de Almeida, que havia sido padrinho do casamento, interveio, acalmando tudo:

— Isso não é nada; deixem-se de aflição, de barulho, de agonia. É uma enxaqueca sem importância, que se trata em uma hora. O essencial é o repouso.

E para D. Tereza:

— Dê-lhe uma cápsula de aspirina, e deixem-no descansar um pouco. Dentro de uma hora, estará bom. O que é indispensável, é que ele descanse, repouse, fique à vontade.

E dando, ele próprio, o exemplo, tomou o chapéu, despediu-se dos recém-casados, e retirou-se, sendo acompanhado, nisso, pelos outros convidados.

Esvaziada a sala, o noivo tomou a cápsula recomendada, e, despedindo-se da tia, recolheu-se, com a noiva, à alcova nupcial.

Meia hora depois, toda a casa entrava em sossego. O silêncio era absoluto. Criados, parentes, plantas e cristais, tudo adormecera, num grande sono de fadiga. No meio de tudo, entretanto, um coração aflito velava. Era D. Tereza. Como estaria o Zeca? Teria melhorado? Estaria, já, fora de perigo? E como se as coisas, em torno, não respondessem satisfatoriamente à sua consulta; levantou-se do leito, e, pé ante pé, encaminhou-se para o quarto dos noivos. Chegada à porta, aplicou, de leve, o ouvido à tábua e, com a voz doce, medrosa, maternal, chamou, para dentro:

— Zequinha?... Zequinha?... E, com doçura:

— A cabeça passou, meu filho?

O silêncio, no quarto, era completo, perfeito; absoluto. Ninguém respondeu. Com o seu coração de mãe, D. Tereza compreendeu tudo, e soltou um suspiro de alívio. O Zequinha estava bom. A cabeça, com certeza, havia passado...

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