sábado, 25 de novembro de 2017

Conservou o fez (Conto), de Lima Barreto


Conservou o fez
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Não se pode deixar de admirar suficientemente o modo por que o eminente sirdar Ben-Zuff Kalogheras vai conseguindo de modo eficaz e rápido a eficiência do nosso Exército.

Em começo, ele estudou a disposição das forças nacionais, segundo cartas mineralógicas e geológicas.

Sua excelência, o sirdar, em chefe, é, como se sabe, muito bom engenheiro de minas.

Em seguida, continuou nas suas inovações militares e tratou da indumentária, não só dos soldados e oficiais, como da dele.

Da primeira parte, sempre os sirdar-ministros tiveram o cuidado de tratar como dos primeiros atos dos seus ministérios, por isso que julgaram sempre que, mudando o hábito, faziam mudar o monge; da segunda, entretanto, eles nunca julgaram coisa imprescindível, mesmo quando eram oficiais.

Ben-Zuff Kalogheras, porém, achou necessário experimentar modelos em sua própria pessoa.

Primeiramente, pôs à prova um uniforme de viajante inglês em visita às pirâmides: um chapéu de cortiça e um fichu azul. Feito isto, montou num camelo.

Parece coisa imprópria; mas, a muitos, pareceu o contrário.

Não contente com isto e, também, porque lhe disseram que o tal fichu era para evitar as oftalmias, produzidas pelo revérbero da luz do sol nas areias do deserto, tratou de arranjar um outro mais adequado ao Rio de Janeiro.

Encomendou a um adelo um vestuário de cowboy ou, antes, de vaqueiro mexicano, pelo qual mandou fazer um novo, de excelente brim cáqui.

Completo o indumento, pôs o vestuário, perneiras, um par de grandes esporas de rosetas, um chapéu cômico cheio de guizos; e foi embarcar as tropas que partiam para uma expedição. Até aí não parou a fúria do seu amor à novidade de uniformização ministerial.

Reparando que o traje de rigor, para conferenciar com o quediva-presidente, não era bastante distinto ou original, apareceu-lhe em conferência de calças brancas, sem colete, camisa à mostra e paletó de alpaca.

O quediva formalizou-se e mastigou censuras.

Por fim, disse o soberano:

Sirdar!

— Alteza!

— É nesse traje que os seus amanuenses se apresentam perante vossa excelência, em serviço?

— Não, Alteza. Por quê?

— Por quê? Porque julguei lhe tivessem ensinado essa moda de vestuário, para falar aos superiores.

Ele, o sirdar, encafifou, voltou a usar sobrecasaca com fez vermelho, que ele deixava na antessala, quando ia ao despacho. Assim, sem merecer censuras, conservava a sua originalidade... militar.

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