sábado, 25 de novembro de 2017

El-Kazenadji (Conto), de Lima Barreto


El-Kazenadji
(Contos argelinos)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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O reinado de Abu-al-Dhudut foi curto, mas cheio de episódios interessantes que o cronista argelino Sidi-Mohammed-ben-Allah conta do modo mais ingênuo e, ao mesmo tempo, florido, capaz de fazer o delicioso encanto dos mais habituados à literatura árabe.

A tradução que vamos dando, além de resumida, fana muito o viço da luxuriante floração do original; mas, se tempo houver e editor, havemos de dar uma completa, respeitando o mais possível as palavras do autor argelino, assim como o seu rendilhado pensamento. Contemos.

Escolheu Abu-al-Dhudut, nos últimos dias de seu reinado, para ser o seu Kazenadji (ministro dos negócios internos do reino), um levantino de nome Sidi-Ercu-ben-Lanod, muito estimado pelas suas letras e sabido nelas como o mais douto ulemá.

Sidi-Ercu-ben-Lanod tinha vivido muito tempo em Marselha, como cônsul de Abu-al-Dhudut; e, fosse pela sua origem infiel, fosse pelo tempo que levou naquela cidade de França, o certo é que contraiu todos os vícios dos cristãos, especialmente dos francos. Feito Kazenadji, ganhando muitos presentes e dispondo do Tesouro do sultão, era de esperar que Sidi-Ercu-ben-Lanod aumentasse as mulheres do seu harém e vivesse sabiamente entre elas, como mandam o Profeta e os livros sagrados. Não tinha em grande conta os preceitos do Alcorão e, apesar dos conselhos de um dos seus sogros, Sidi-Glei-ben-Serio, continuou nos seus sacrílegos hábitos de passar as noites fora de sua casa, em visitas amaldiçoadas a certos lugares da feitoria francesa que ficava perto da capital de Al-Patak.

Não contente com ir ele a tão daninhos lugares, seduziu muitos bons muçulmanos a fazer o mesmo. Um destes era o kaïa, Pessh-ben-Hôa, que vem a ser entre nós o chefe da polícia militar. Não deixava este funcionário de, todas as noites, acompanhar Sidi-Ercu-ben-Lanod nas suas profanações às regras e preceitos do Profeta.

Ambos, chegados que eram à feitoria, logo se encaminhavam para uma grande casa de uma velha francesa, de nome Suzah-Hana, a que chamavam — Cidade das Flores; e entregavam-se a todos os pecados que a religião proíbe.

Deixavam-se arrastar pelo vício de beber licores espirituosos, coisa que mais depressa faz com que entreguemos as nossas almas aos espíritos malfazejos; e cercavam-se de mulheres infiéis, mediante alguns cequins de ouro, com as quais tinham propósitos mais próprios de se os ter com as verdadeiras esposas.

A religião do Profeta dá a tal respeito tão grande liberdade que não se podia acreditar que aqueles fiéis tivessem prazer em fazer semelhante coisa, fora da comunhão dos crentes.

Mas Sidi-Ercu-ben-Lanod tinha tomado tal gosto por aquele vinho dos francos que borbulha e ferve como os gases danados das entranhas da terra, que não havia meio de deixar de ir uma noite à casa da velha Suzah-Hana.

O kaïa (o chefe de polícia militar) também se havia habituado e não deixava de acompanhar o Kazenadji.

Certa noite, em que eles tinham bebido bem doze odres do tal vinho, estando, como de costume, na “Cidade das Flores”, Sidi-Ercu-ben-Lanod deu em altercar com o seu companheiro:

— Tua tropa não presta p’ra nada! Os franceses sim é que têm tropa. O kaïa, que era um chefe orgulhoso e patriota, ficou indignado com o despropósito do ministro e respondeu:

— Se tu queres ver, Sidi-Ercu-ben-Lanod, vou agora mesmo formá-la e cercar o palácio de Abu-al-Dhudut.

— Quero ver — disse o outro.

O kaïa, meio trôpego e balançando-se que nem uma fragata franca no porto de Argel, levantou-se, veio até à porta, chamou um spahi (soldado de cavalaria) e deu as suas ordens.

Os dois ficaram dormindo e a força do kaïa cercou o kashah (palácio do sultão), como lhe tinha sido ordenado.

Foi um espanto geral e as tropas do agha (ministro da Guerra) acudiram; houve combate, morrendo de parte a parte cerca de dois mil homens.

Sidi-Ercu-ben-Lanod e o kaïa, Sirdar-Pessh-ben-Hôa, despertaram na tarde seguinte e nunca a cidade pôde saber por que motivo as tropas do último tinham cercado o kashah e guarnecido as estradas que iam ter a ele.

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