quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Fortunato (Conto), de Humberto de Campos


Fortunato

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Em luta permanente com a adversidade, Fortunato segurou, uma noite, entre as mãos, a cabeça da mulher, e confessou o seu propósito:

— A fome, como tu vês, bate-nos à porta. Sem pão e sem amigos, a vida, neste povoado, é-me, de todo, impossível. É preciso, pois, que eu me prive do teu carinho, e parta, sozinho, pelo mundo, em busca de terra menos ingrata. Tudo que possuímos dar-te-á, com certeza, para uns vinte ou trinta meses. Com o teu trabalho honesto, poderás dilatar a utilidade desses recursos, fazendo-os durar cinco anos. Se, dentro desse prazo, eu não tornar aos teus braços e ao teu amor, considera-te viúva, porque, decerto, eu morri.

Na manhã seguinte, após um esforço inaudito para libertar-se das cadeias de cristal e mármore que eram as lágrimas e os braços da esposa jovem, Fortunato punha às costas, preso ao seu cajado de caminhante, uma trouxa com a roupa indispensável, e desaparecia, limpando os olhos úmidos na manga da camisa grosseira, na curva da estrada por onde passara, há um ano, trazendo a noiva pela mão.

Errando de terra em terra, de fazenda em fazenda, eram-lhe companheiros, por toda a parte, o infortúnio impiedoso, a má sorte inclemente, os contratempos inevitáveis. Debalde se esforçava, infatigável, para juntar um pecúlio, amontoando algumas moedas com que levasse ao lar um pouco de felicidade e fartura. As suas tentativas mais tímidas, mais simples, mais modestas, eram, sempre, como uma árvore infeliz, cujas folhas fossem dispersadas, ainda tenras, por um sopro de tempestade.

Ao fim de quatro anos, porém, como por um milagre, tudo mudou. As moedas multiplicaram-se em seu bolso, acumulando-se, amontoando-se, como se a fortuna, arrependida de tanta avareza, se tivesse predisposto a compensar a usura anterior com um gesto de espantosa prodigalidade.

Meses depois, nas vésperas, quase, do prazo concedido à mulher, Fortunato encheu de moedas o seu grande surrão de couro, prendeu-o à cintura, e, velho, barbado, desfigurado pelos sofrimentos inomináveis, tomou, a pé, o caminho da terra natal. Ao cabo de quatro semanas, com os pés sangrando, viu, enfim, da curva da estrada por onde se fora cinco anos antes, a sua aldeia e o seu lar. Trôpego, magro, faminto, mas disposto, mesmo assim, a dar uma sensação de alegria à companheira querida, encaminhou-se, de manso, para a porta e bateu. Uma criança de quatro anos, linda e forte, em quem se repetiam os traços inolvidáveis da esposa, surgiu na sala pequenina, e chamou para dentro:

— Papai!

— Hein? — respondeu, do compartimento contíguo, uma voz masculina.

— Aqui está um homem — informou, alto, a pequenita.

Fortunato cambaleou numa síncope, encostando-se ao portal, para não cair. Antes, que o dono da casa aparecesse, entregou o saco de ouro à criança, retomou o seu bordão de peregrino, e partiu...

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