domingo, 12 de novembro de 2017

In Extremis (Conto), de Artur Azevedo


In Extremis
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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O Major Brígido era viúvo e tinha uma filha de vinte anos, lindíssima, que fazia muita cabeça andar à roda; entretanto, o coração da rapariga, quando "falou" (assim se dizia antes), falou mal. Quero dizer que Gilberta — era este o seu nome — se enfeitiçou justamente pelo mais insignificante de quantos a requestavam — pelo Teobaldo Nogueira, sujeito que vivia, pode-se dizer, de expedientes, sem retida certa que lhe desse o direito de constituir família, mendigando aqui e acolá, no comércio, pequenas comissões, corretagens, e lambugens adventícias.
O Major Brígido, cheio de senso prático, vendo com maus olhos essa inclinação desacertada da filha, abriu-se com o seu melhor amigo, o Viegas que, apesar de ter uns dez anos menos que ele, era o seu consultor, o seu conselheiro, o oráculo reservado para as grandes emergências da vida.
— Deixe-a! opinou o Viegas. Se você a contraria, aquilo fica de pedra e cal! O melhor era fazer ver a Gilberta por meios indiretos, que a sua escolha poderia ser melhor... Não ataque de frente a questão!... Não bata com o pé... não invoque a sua autoridade de pai...
O Major Brígido aceitou o conselho, e, uma tarde, achando-se à janela com sua filha, viu passar na rua o Teobaldo Nogueira, que os cumprimentou.
O pai correspondeu com muita frieza, a filha com muita afabilidade. Pareceu ao major que o momento não podia ser mais propício para uma explicação; tratou de aproveitá-lo.
— Minha filha, disse ele, tenho notado que aquele homem passa amiudadas vezes por nossa casa, e não creio que seja pelos meus bonitos olhos...
Gilberta corou e sorriu.
— Não quero nem de leve contrariar as tuas inclinações, casar-te-ás com o homem, seja quem lar, que escolheres para marido. O teu coração pertence-te: dispõe dele à vontade. Entretanto, o meu dever de pai e amigo é abrir-te os olhos para não dares um passo de que mais tarde te arrependas amargamente. Não me parece que este homem te convenha, não tem posição social definida, não ganha bastante para tomar sabre os ombros quaisquer encargos de família, e — deixa que teu pai seja franco — não é lá muito bem visto no comércio... Não és uma criança nem uma tala, que te deixes levar pelos bigodes retorcidos nem pelas bonitas roupas de um homem! Não és rica, mas, bonita, inteligente, boa como és, não te faltarão pretendentes que te mereçam mais que o tal Teobaldo Nogueira.
Gilberta fez-se ainda mais rubra, mordeu os lábios e não disse palavra.
De nada valeram os conselhos paternos.
Daí por diante, redobrou o seu entusiasmo pelo moço, e, um mês depois, quando o pai se preparava para impingir-lhe novo sermão, ela atalhou-o declarando peremptoriamente que amava aquele homem, com todos os seus defeitos, com toda a sua pobreza e que jamais seria mulher de outro!
Consultado o oráculo Viegas, este aconselhou uma estação de águas que distraísse a moça. O Major Erigido sacrificou-se em pura perda.
Gilberta voltou de Lambari mais apaixonada que nunca.
Um belo dia, Teobaldo Nogueira apresentou-se ao pai e pediu-a em casamento depois de fazer uma exposição deslumbrante dos seus recursos. Havia meses em que ganhava para cima de três contos de réis. Já tinha posto alguma coisa de parte e contava mais dia menos dia, estabelecer-se definitivamente. Se fosse um especulador, um aventureiro mal intencionado, procuraria casamento vantajoso. Sabia que Gilberta era pobre, casava-se por amor.
O casamento ficou assentado.

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