sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Manhã na roça (Conto), de Virgílio Várzea


Manhã na roça
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Pleno inverno.

Aqui e além, galos acordam cantando à aproximação do dia. Uma tênue mancha de claridade argêntea recorta em laca a linha ondulada das colinas verdes. Pouco a pouco, uma poeira de ocre transparente, que se esbate para o alto, cobre todo o horizonte, e o sol aponta, deslumbradoramente, como uma gema de ouro flamante. Vapores diáfanos diluem-se lentamente, em meio aos listrões vivos que purpureiam o nascente. Fundem-se no ar tons delicados de azul e rosa, e eleva-se da floresta uma orquestração triunfal. Despertam de súbito, ao alagamento tépido da luz, as culturas adormecidas. Abrem-se as casas.

Pelos terreiros, úmidos da serenada da noite, homens de cócoras, em camisa, de cangirão na mão, brancos de frio, ordenham as grossas tetas das pacientes e mugidoras vacas que criam, amarradas aos finos paus das parreiras, e que, expelindo fumaça no ar frígido, ruminam ainda restos de grama, numa mansidão ingênua de animal digno. Mulheres de xale pela cabeça chamam as galinhas, com um ruído seco de beiço, tremido, fazendo brurrr e sacudindo-lhes mãos cheias de milho e pirão esfarelado.

Um carro atopetado de raízes de mandioca, arrancadas de fresco, empoeiradas de areia, compridas, tortas, com o aspecto e a cor esquisita das plantas que se avolumam e vegetalizam enterradas, chia monotonamente, e aromatizado por florações vigorosas e germinativas, pelas emanações do gado e pelo cheiro acre das laranjas vermelhas, que caem de maturidade. Cantigas rústicas, amorosas, de uma sinceridade ingênua, com toadas prolongadas e vibrantes, misturam-se à alacridade do campo. E pela compridão majestosa e verde dos alagados e das pastagens, o colorido movimentoso e variado das rezes.

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