domingo, 26 de novembro de 2017

Maniápolis (Conto), de Lima Barreto


O restaurante e os galeões do México
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Era uma sala feia. Retangular, com uma larga porta aberta em um dos ângulos, com uma abertura de claraboia no centro do teto, a sala do restaurante tinha de improvisada, de inadequada. Quando entrei, quase todas as mesas estavam ocupadas, contudo Alfredo e eu logramos encontrar uma a um canto, em que, embora espremidos, como a cana entre rodas de moinho, nos pusemos a comer. Apesar de cheio, homens e mulheres continuavam a entrar, e os que andavam por entre as cadeiras e as mesas, a cortejar com um e a pilheriar com outro, traziam ao restaurante o movimento de uma rua. Era de ver aquela agitação de chapéus cheios de plumas vivas, brancos uns, vermelhos outros, verdoengos outros, à baça luz do gás, a faiscar como as caprichosas penas de um pavão. Depois, os corpetes das mulheres revestidos de sedas roçagantes, vermelhos, negros, claros, escuros; e quem baixasse o olhar dos chapéus para o chão correndo através daquela orgia de cores, impressionava o comer à contemplação de uma ágata lascada. Pelo ambiente quente — embora a noite fosse fria —, hastilhas de todos os perfumes revoavam, fortes, inebriantes, capitosos, tal como se nós, num jardim e numa mata fantásticos, sorvêssemos todas as essências e todos os odores de todas as flores da terra. O cheiro forte de álcool e o aroma das iguarias punham nesta atmosfera uma nota sórdida. As fisionomias brilhavam de concupiscência e lascívia. Os homens a custo se continham em face do público. Abraçavam a meio as mulheres, roçavam pernas, cruzavam-nas com elas; mas o que mais se admirava era o olhar, o olhar vítreo, de um só brilho fixo sobre os que as acompanhavam, devoradores, sequiosos, parecendo armados de dedos sôfregos que apalpassem, que pegassem. As mulheres, mais indiferentes, acostumadas aos espetáculos, não se emocionavam aos gestos e às falas dos espectadores. O grave deputado da hora do expediente, transfigurado, não encontrava na companheira auditório vibrátil para a sua eloquência; e o severo oficial diluía-se aquele reagente irresistível. Tudo palavra. Palavras desencontradas, algumas dando a perceber finos e altos pensamentos, outras em vil calão de espelunca repugnante. Timbres guturais, nasais, sílabas espanholas, acento francês, sotaque germânico, música de todas as línguas soavam por aquela sala. Estávamos num compartimento da Torre de Babel; mas aquela atmosfera de essências e de perfumes mais parecia uma floresta povoada de aves canoras a balbuciar coisas ininteligíveis mas agradáveis, doces, acariciadoras. Durante uma hora, embalado naquele ambiente de ternura, de gozo, de luxo, fui me sentindo acariciado, animado, era como se friccionassem a pele com veludo. O meu companheiro, até então calado, arriscou:

— Reparas, hein? Estás vendo os exercícios práticos da legislatura e do comércio.

Quando saímos, eu fiquei no centro da praça, perto do candelabro de iluminação, à espera de bonde. Um a um, aos pares, eu os fui vendo sair. Se passavam por mim, eu os via a falar, elas a dizer: Oh! Si me gusta! Mais soyons hereux, mon chéri! A la settimana...

Eram vozes em todas as línguas, em todos os dialetos que eu ouvia; e o português entre eles tinha a pureza, a inocência de uma virgem, vivia sem interesse nem cálculo e só a perversão dos outros arrastava-o por aquela sombria noite de crápula.

E de longe quase, nas rutilantes joias dos seus dedos, eu vi se esvair na sombra da rua em frente aquelas mulheres grandes, bojudas, enfunadas, empavesadas, como aqueles galeões de antanho, que por épocas certas do ano levavam para Palos, Vigo e Lisboa as refulgentes riquezas de Potosí, do México e do Tijuco. Eu os vi todos eles, arrastados pela brisa, cortando em noite escura a fosforescência dos mares dos trópicos, a deixar atrás de si uma esteira argêntea, brilhante, faiscante, de duração momentânea. E, pela manhã, ao alto do mastro, o sol vermelho beijava a bandeira das quinas de Fernando e Isabel. Só para eles a aragem da tarde soprava, só para eles o cruzeiro brilhava. E eu vi esses galeões passados escorregarem no azul fosforescente dos mares dos trópicos, naquelas bojudas mulheres que desfilavam. Nitidamente, perfeitamente, eu vi-lhes as velas, os aparelhos da mastreação, a vogar na sombra daquela noite. Hoje, ao contrário de antes, o sol rubro que se ergue e o merencório beijam várias bandeiras e escudos, a liberdade do comércio a isso impõe, mas como dantes, os mesmos perigos as ameaçam, os piratas, os escroques, aqueles cruéis souliers de la mer espreitam-nos e os seguem, são a febre amarela, o cáften. E naquela noite sombria, talvez com saudade, as mesmas estrelas assistiram à partida da caravela que levou para os gastos de Odivelas os primeiros diamantes do Tijuco.

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