domingo, 5 de novembro de 2017

Manias (Conto), de Humberto de Campos


Manias

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Em um trabalho recente na "Edinburgh Review", o crítico inglês John Browing denuncia, a título de curiosidade, um certo número de manias de escritores nacionais, procurando, ao que parece, demonstrar a feição patológica de todos eles. Por esse trabalho de pesquisa, foi que eu vim a saber, com espanto, que Walter Scott dormia com o chapéu na cabeça, que Wordsworth almoçava arrepiando o pelo de um gato, que Goldsmith só trabalhava assobiando, que James Macpherson gostava de estrangular passarinhos, e que Poppe, não obstante as aparências de saúde perfeita não conciliava o sono senão quando o criado fazia barulho no quarto contíguo, batendo desesperadamente numa bacia.

Para o crítico de Edimburgo, essas originalidades constituem anomalias, aberrações, moléstias mentais interessantíssimas, patenteadas, segundo diz na obra literária que as suas vítimas produziram. Eu me permito, entretanto, o direito de contestar semelhante tese, baseando-me no exemplo de um homem perfeitamente sadio, como é, no caso, o coronel Evaristo de Souza Portela.

O coronel Evaristo Portela, grande fazendeiro em Minas, era um dos homens mais virtuosos produzidos, até hoje, pelo município de Uberaba. Chefe de família exemplaríssimo, não havia passado, jamais, uma noite fora de casa. Viagem que ele fizesse, ou realizava-a em companhia da sua digna esposa, a veneranda D. Geralda, mãe dos seus únicos quatorze filhos, ou fazia-a tão curta que estava de volta, à noite, para dormir na fazenda.

A posse do Sr. Raul Soares no cargo do ministro da Marinha determinou, entretanto, uma profunda modificação na vida do conceituado fazendeiro. Compadre do ilustre político e correligionário que lhe levara à pia dois filhos, o coronel não podia, absolutamente, faltar à grave cerimônia do cais dos Mineiros; como cumprir, porém, esse dever de amizade, de cortesia, e de solidariedade política, se D. Geralda, sua companheira inseparável de dezesseis anos de sono no mesmo leito, não se podia abalar para uma viagem tão tentadora, mas, ao mesmo tempo, tão rica de incômodos e inconvenientes?

— O que não tem remédio, remediado está! — exclamou, afinal, uma tarde, o coronel, depois de profundas cogitações.

E mandando arrumar duas malas de mão, tomou o trem, no dia seguinte, com destino ao Rio de janeiro.

A primeira noite de capital foi para o honrado fazendeiro um suplício, um martírio, um tormento. Habituado à vida rigorosamente doméstica, não lhe foi possível, em absoluto, conciliar o sono. E de tal modo lhe nasceu a saudade da casa dos filhos, e, principalmente, da esposa, que o criado do Grande Hotel, onde ele se hospedara, ainda o encontrou com os olhos da véspera quando lhe foi, de manhã, levar o café.

O dia, passou-o o coronel mais ou menos distraído, fazendo compras, visitando amigos, palestrando com os conhecidos. À noite, porém, voltou, com a saudade, a tortura da insônia. Debalde fechava os olhos, apertando as pálpebras: à simples lembrança de que se achava tão longe, tão distante de casa, fugia-lhe o sono, deixando-o a remexer-se, aflito, no leito largo, a amassar nervosamente os lençóis.

À meia noite, após duas horas de martírio na cama, o coronel não pôde mais: ergueu-se do leito, em pijama, pondo-se a andar, nervoso, de um lado para outro do quarto. E estava já, há meia hora, nesse exercício, quando teve, de repente, uma ideia: tocou a campainha, chamou o criado, e pediu:

— O senhor não tem, por aí, uma escova, dessas para cabelo?

— Tem, sim, senhor.

— Traga-a.

O criado trouxe a escova, o coronel agarrou-a pelo meio, do lado do pelo, com a mão aberta, e, apagando a luz, atirou-se no leito.

E dormiu, sereno, até de manhã...

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