quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Maria ou Vinte Anos Depois (Conto), de Joaquim Norberto de Sousa


Maria ou Vinte Anos Depois
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Hélas! tel est ton sort, tel est ma destine
Lamartine

CAPÍTULO 1: O RAPTO
Where art thou, son of my love?

Ossian
Aprazíveis são as montanhas da Gávea. É de sobre suas pedras elevadas, esses rochedos enormes que sobejam às suas encostas, e de em torno às suas florestas, que se descobre a imensidade do Oceano Atlântico, que perde-se no infinito, lá onde assenta-se a base azulada da abóboda do céu e rara vela branqueja como o atiati que esvoaça, asas imóveis que nem trepidam, de sobre a superfície as águas; lá onde se perde o pensamento cansado de divagar...
O sol doura com seus raios animadores o fastígio das montanhas que fumegam aqui e ali, com as covas dos carvoeiros, coroadas de penedos e restos de florestas, de matos e de capoeiras.
A brisa matutina abana levemente a ramagem dos bosques engrinaldados, agita os verdejantes leques das palmeiras, desce pelas encostas das montanhas, sussurra nos vales profundos, e encrespando brandamente a lisura das águas marítimas, vai levar ao nauta, cansado de respirar a viração impregnada de sabor marinho, os perfumes das flores agrestes que convidam à vida.
Os pássaros, com suas plumas variadas em cores, adejam pelos ares como nuvem de flores que as auras arrancam às grinaldas das florestas e levam balouçando sobre suas asas.
O sabiá gorjeia placidamente, a paca percorre o abaulado do monte e o escamoso tatu vaga pela margem desses veios de cristalinas águas que tão mesquinhos por aí serpejam em tempos deverão, enquanto que o carvoeiro entoa suas endechas de amor e de esperança.
 De enquando a enquando ouve-se o trovão do arcabuz que os ecos das montanhas repetem de maneira assombrosa, precedidos dos latidos dos cães; as aves espantam-se, há uma pausa como se parasse a criação; — é o silêncio na natureza!
Pouco depois tudo entrou em sua ordem. O sabiá prossegue em seus sonoros gorjeios. O carvoeiro entoa seus cantares. Ouvem-se de momento em momento sons compassados. E o ruído dos golpes do machado do lenhador que derriba o tronco das árvores anosas.
Aí no meio das florestas elevava-se, como outras muitas, uma tosca choupana da varas tecidas e barreadas, e coberta de palhas; era a choupana de Maria, a filha do carvoeiro, que não tinha mais que três repartimentos, uma sala acanhada, o aposento onde dormia e a cozinha; algumas gaiolas com pássaros do local, alguns registros de santos da sua maior devoção, e rosários pendiam das paredes esbroadas; toscos trastes formavam toda a mobília. No solar dessa choupana era que ela uma manhã, de olhos fitos na terra, pranteava, ao lado de uma menina que distraidamente olhava para as árvores.
Aí, sentada, com os cabelos esparsos pelos ombros, os olhos em lágrimas que serpejavam— Ihe pelas faces amorenadas, mas coradas como a tez delicada do jambo, um braço cruzado sobre o peito e a mão sustentando o outro em que apoiava a cabeça, ela sofria, que sua dor era grande, e de entre-vezes um suspiro, que se desenlaçava do coração, desprendia-se-lhe dos lábios envolto em soluços; era um suspiro de saudade que perdia-se nos ares e que talvez só fosse respondido pelo vagido débil e fraco de um menino.
Um homem, cujo aspecto representava ter mais de sessenta anos de idade, trazendo uma vara na mão, na qual se apoiava quando tinha de vingar o escabroso da montanha, aproximou-se. Amenina correu para ele com um suspiro nos lábios, pegou-lhe na destra, levou a mão à boca e lhe imprimiu um beijo. Maria ergueu-se, foi ao seu encontro, tomou essa mesma mão, beijou-a, inundando-a de fios de lágrimas que desprenderam-se-lhe dos olhos.
— Minha filha! exclamou ele como que admirado.
— Ah! meu pai, roubaram-mo, roubaram-mo! disse ela na maior desesperação.
— O quê, minha filha?
— Ah vós nem vedes que ele aqui não vos espera para beijar a vossa mão, sorrindo-se pendente de meus braços?
— É possível!
— Roubaram-mo, roubaram-mo.
— Quando?
— Esta noite passada.
— E como?
— Senti um ruído, e eram as portas da choupana que abatiam-se aos golpes dos machados! Vi vultos que aproximavam-se de junto de meu leito, e eram os roubadores que mo vinham buscar! Ouvi vagidos que me cortavam a alma, e era ele que chorava levado por eles! Desatinada, louca, furiosa, ergui-me, saltei, corri a ele. Eis que lançam-se dois vultos sobre mim e me retêm em seus braços de ferro, contra os quais lutei embalde.
— E por que não gritaste?
— Suas mãos sufocaram-me as vozes na garganta.
— E depois?
— Fugiram, desapareceram, levando meu filho consigo e deixando-me a sós com Clara, desconsolada, aflita e sem saber de mim.
 O velho entrou para a choupana, sentou-se e conservou-se pensativo por algum tempo; depois, sacudindo a cabeça, ergueu os olhos para Maria que, em pé, imóvel, se conservava a seu lado.
— Não é hoje, perguntou ele, que deve chegar o teu marido?
— Hoje? balbuciou ela, olhando para a parede, onde havia traçado com carvão um risco horizontalmente, e cortado por outros perpendiculares e de diferentes tamanhos; ah! ajuntou, eu perdi a conta!
— É hoje; não há dúvida, e aqui não houve senão prevenção; José Feliciano bem to havia pedido, não lho entregaste, e ele pois lançou mão da violência para havê-lo; lembrou-se que hoje devia chegar o teu marido e não quis que ele viesse achar-te com um menino que, segundo todas as probabilidades, não lhe podias apresentar como seu filho.
 Um leve enrubrecimento coloriu as faces de Maria, que levou o lenço aos olhos, mais para ocultar seu rosto que para limpar as lágrimas, e cujo disfarce todavia procurou; o velho se calara, e por grande espaço reinou na choupana o silêncio da solidão, onde tudo se ouve, exceto a voz humana, até que entrou um escravo, estendeu sobre a mesa um pano de algodão rusticamente trançado, porém alvo como o dia, e perfumado com o delicioso aroma da erva de São João, e sobre ele espalhou alguma louça grosseira:
...........................pobre mesa
Onde não tine a rica porçolana,
Nem cansa aos olhos trêmulo reflexo
De burnida colher, de refulgente
Britânico saleiro................
Mas onde fumegava o café, cujo aroma suave se expandia agradavelmente, enquanto que alguns beijus branqueavam sobre a toalha. O velho e a menina assentaram-se em torno, e Maria conservou-se de pé.
 Tocavam o fim do almoço quando sentiram o tropel de um cavalo, que mais se aproximava.
— Alguém se avizinha, disse Pedro Rodrigues.
— É um cavaleiro.
— E vem direito a nossa choupana.
— É Gaetano, ajuntou o velho levantando-se e dirigindo-se para a porta.
— É ele mesmo, murmurou ela.
— Quem, minha mãe?
— Teu pai, minha filha.
 Gaetano apeou-se, beijou a mão ao velho, beijou sua filhinha, apertou sua esposa em seus braços e entrou para a choupana.
— Descansemos por um pouco, disse ele se atirando sobre um tosco assento.
— E enquanto descansas, ajuntou Pedro Rodrigues, eu me vou por aí a lançar uma vista de olhos às minhas carvoeiras.
— E não voltareis?
— Depois, depois, para conversarmos.
 Cobriu-se Pedro Rodrigues com o desabado chapéu e se foi arrimado ao seu bordão.
— Não vos quereis despir? perguntou Maria a Gaetano.
— Não, respondeu ele, que tenho ainda que ir dar contas a José Feliciano, de seus negócios e para nunca mais meter-me em outros.
— E então pelo quê?
— Por motivos que depois saberás.
— Pois bem, contar-me-eis e eu vos escutarei quando quiserdes, no entanto podeis almoçar.
— Tomarei café, pouco, e comerei então na volta até mais fartar; mas tens um não sei quê de triste em teu semblante, um não sei quê de pesado em tuas palavras, que muito estranho.
— E eu sempre não fui assim?
— Não, Maria, não, disse ele sorrindo, sem dúvida saudades minhas...
 E ela suspirou; serviu-o de café, e um momento depois Gaetano seguia caminho da Tijuca, montado em seu cavalo. Triste, aflita e silenciosa conservara-se Maria; apenas lá de vez em quando soltava um gemido, um gemido terrível que se desprendia do peito; — era a lembrança cruel de seu filho que lho arrancava —, a lembrança cruel de seu filho que tanto a atormentava.
 À tarde veio o velho jantar com ela; depois caminharam pelo abaulado do monte e foram sentar-se na relva, sob a copa de uma laranjeira; o ar estava embalsamado de suas flores. Bela trepadeira se apoiando sobre seus galhos cingia-a de seus brandos liames, misturando sobre rubros jasmins com as flores simbólicas da virgindade. Aí num raminho, entre o enlace de verduras floridas, tinha o beija-flor fabricado o seu ninho de fofas painas, e guarnecido-o exteriormente com a casca da árvore, como que para não ser facilmente conhecido, e aí mesmo, do casulo que tecera a lagarta, se desprendia a borboleta como envolta em pintadas e longas roupas, de que pouco e pouco se foi desembaraçando; depois ergueu-se, como duas pétalas de flores agrestes, agitou-as, e, levada pelo vento, parecia uma flor aérea. Lá em cima de um galho que se debruçava de sobre a água, se embalançava o guará revestido de negras penas, contempla sua imagem no cristal da água estanque, como se recordando das belas cores que já tivera. Outra avezinha, não menos interessante, se acolhe à sua pousada de barro, semelhante a esses edifícios árabes, de abóbodas, e com formas circulares; entra a porta, e vai branda e suavemente pousar no seu colchão de moles palhinhas, e enquanto preside à incubação da nova prole, estende a garganta pela janela de sua pousada para escutar o amante, que empoleirado no raminho enche os ares de trinados. E ela contemplava em silêncio, lembrando-se que cedo desumana mão roubar-lhe-ia essa tão querida prole; lembrava-se e suspirava.
— Ah sempre a suspirar, disse Pedro Rodrigues, desde que o sol se eleva até que a noite cai, desde que a noite cai até que o sol se eleva!
— É que meu peito, lhe voltou ela, é como essas carvoeiras, que aí fumegam dia e noite, que pelo fumo dão a conhecer o fogo intenso que as devora.
— Sim, mas tu deves procurar a distração.
— A distração? É o pesar, o pesar que como o fel da morte se me derramou no mais profundo do coração.
— Sim, que teus desgostos passados, e agora o roubo de teu filho, te devem motivar grande pesar, o que aproveita porém chorá-lo assim tão continuadamente? E não tens aí no âmago do coração, de envolta com esse fel, que te azeda os dias da existência, pressentimento que te diz que ele é feliz? Que alma haverá por mais maligna que seja, que ouse de fazer mal a uma criancinha? E quem rouba uma criança aos cuidados maternais senão para entregá-la a outros cuidados?
— A uma madrasta, não é assim?
— Embora, antes mil vezes uma madrasta, quando a mãe não pode dizer sinceramente: “Este é meu filho! “ Mais alardeada vai a honra nas aparências, que mesmo na própria honra; é dissimulação, mas de que se compõe a vida? E quantas madrastas não há que dão boa educação?
— Se ao menos eu tivesse exemplo...
— Tu o tens em ti mesmo; essa que cuidou de tua infância, essa que mil vezes verteu lágrimas por ti, não era tua mãe, mas sim uma moça desses arrabaldes; era por uma manhã; senti chorar, e eras tu, minha filha, que jazias à minha porta.
— Coitada! não era minha mãe, e morreu desgraçadamente por mim!
— O desgosto!
— Sim, o desgosto, ocasionado por mim! E minha mãe?
— Silêncio! Seu nome e sua existência são um segredo.
— E meu pai?
— Tu és minha filha.
— Pobre de mim, que desde o berço que a desgraça me persegue!
— E a mim? Porventura nasci para consumir meus anos nos rústicos trabalhos e tosco trato de carvoeiro? A demanda!... Maldita hora da vida em que meti-me em tal!
— São pecados próprios ou herdados que nós pagamos com a existência de miseráveis pobrezas.
— Enfim, minha filha, roguemos a Deus, já que a sua misericórdia é infinita, a sua proteção para Henrique.
Levantaram ambos os olhos para o céu, e pareciam que imploravam a proteção divina, no entanto a noite adiantava-se envolta em véus de trevas, e o céu se obscurecia com a aglomeração de negras nuvens; a tempestade bramando, lá se erguia do infinito das águas, medonha e ameaçadora; apressaram-se pois em deixar esses lugares, chamaram por Clarita, que andava a formar ramalhetes de flores agrestes, que soem crescer por essas montanhas enchendo os ares de seus perfumes esquisitos, e tomando-a pela mão caminharam; seguiu Pedro Rodrigues via da sua choupana, e sua filha entrou com a sua neta na sua pobre e velha choça, silenciosa, atormentada, não já por um pensamento, mas por dois: — seu filho e sua mãe!
E a tempestade era terrível! Distinguia-se distintamente uma linha que dividia o oceano; era a chuva que caía em catadupas, que se despenhava da Ponta Grossa com murmúrio, e através de seus véus de cristais se descortinava a outra parte imensa das águas marítimas límpidas e refletindo o sereno azul da abóboda celeste, e uma vela branqueava nesse azul, como o alcião pousado e imóvel sobre as ondas. De momento em momento um clarão rápido refrangia-se nos chuveiros; fitas de fogo avermelhadas, como cordões de sangue, desprendiam-se das nuvens, cruzavam-se nos ares, emaranhavam-se nos bosques e desapareciam; então troava o trovão, com seu som de voz horrendo, então rugia o mar funebremente em seus arquejos; as árvores, trêmulas de horror, com suas frontes desgrenhadas, pareciam gigantes que dançavam ao som do furacão que sibilava horrivelmente; os ecos repetiam uns após outros, em cadência infernal, o cântico da destruição! Só o gigante da Gávea, imóvel no meio de suas montanhas, com seu dístico misterioso, parecia zombar da tempestade. Estreitada Maria com sua Clarita, orava, prostrada ante uma imagem de sua devoção; palavras místicas, cheias de unção, se desprendiam de sua boca, e a filhinha abraçada com o ramo de flores, repetia palavra por palavra as suas orações.
Era noite e a tempestade ainda durava. Cansada de esperar por seu esposo, recolheu-se ela a seu leito, com sua filha, que já dormia com o ramo de flores apertado ao peito. E aí sobre o leito, em joelhos, mãos postas e olhos erguidos para o céu, encomendou a alma ao Senhor e pediu a sua proteção para seu filho, o seu inocentinho Henrique, e depois caiu sobre as palhas de seu leito e adormeceu.
Dormia pesado sono; pesado como de um pesadelo; pesado, que mais fadiga é que repousar o dormi-lo, quando a despertaram repetidas pancadas na porta e latidos de cães, que depois se aquietaram; e a chuva caía ainda saltitando sonoramente no sapé da palhoça.
— Quem bate aí?
E o murmúrio da chuva que se despenhava, e o sibilo do vento que passava.
— É o vento, disse ela consigo, voltando-se para o outro lado, como que para dormir de novo, mas as pancadas na porta se renovaram.
— Quem bate aí? interrogou ela pela segunda vez.
— Gaetano; abre, Maria.
Levantou-se, feriu fogo, acendeu a torcida da candeia, abriu a porta, e Gaetano entrou se desenvolvendo do ponche umedecido da chuva, e o arremessou sobre uma tripeça, sacou a faca das botas e lançou-a sobre a mesa.
— Pensava que não vínheis hoje.
— E entretanto aqui estou.
— Apanhastes muita chuva?
— O ponche está ensopado.
— Recolhestes o cavalo à estrebaria?
— Sim, mas não o desarreei, que talvez ainda saia.
— Hoje?
— E por que não? Por agora estou fatigado, quero descansar algum tanto; tenho fome, quero comer alguma coisa.
— Temos um resto do jantar, disse ela estendendo um pano sobre a mesa; é um quarto de paca, alguma farinha e um pouco de vinho.
Sentou-se Gaetano à mesa e se pôs a comer como um faminto, a mais fartar, e a beber como um sequioso, a mais não poder, e sua consorte a seu lado, pouco distante, olhava para ele tristemente.
— Aproxima-te disse ele, que tenho que dizer-te.
— Eis-me junta de ti, respondeu ela, arrastando uma banca e sentando-se.
— É uma história que te quero contar.
— Ouvi-la-ei com prazer.
— Sim, bom é que te distraias da melancolia que te pesa sobre as faces e do silêncio que te prende os lábios.
— Começai.

CAPÍTULO 2: UM CONTO
In vain, alas, in vain!
Campbell
“— Havia na Gávea, disse Gaetano, certo homem casado, a quem a esterilidade de sua mulher assegurava que não teria filho algum, de sorte que estavam isentos desses incômodos que tantagente aprecia; ao menos sendo pobres, de tão ricos que eram, criam-se felizes, se bem que a mulher desejasse, lá um dia por outro, ter um filhinho com quem prodigalizasse os seus carinhos, como se o marido não pudesse servir algumas vezes de criança e diverti-la por alguns momentos; mas enfim, vamos ao que serve. Indo ele à caça com alguns companheiros, desencaminhou-se e perdeu-se lá por capoeiras da vizinhança da cascata da Tijuca, e por aí divagou horas inteiras em procura de alguma picada que o conduzisse a descampado ou habitação; havia caminho andado dos trilhos embaraçados, quando descobriu um claro, por onde o sol vinha enfiando seus dourados raios, e saindo e descobrindo campo, viu ao longe uma como choupana e mais perto um regato que escoava-se tão agradavelmente, que em suas águas espelhavam-se as flores, as árvores e penedos de suas margens, e lá num remanso ensombrado por mangueiras com suas frondosas copas, como zimbório, de verdura, junto de uma pedra que atravessava a torrente, descortinou que alguém se banhava e aproximou-se; distinguiu os cabelos espalhados e longos que debruçavam-se-lhe pelo colo que era de um amorenado gracioso; não havia dúvida, era uma moça, uma moça que ao vê-lo soltou um grito de surpresa, saltou sobre a pedra, tomou as roupas que aí deixara, envolveu-se rapidamente nelas e procurou ocultar-se por detrás de um dos troncos das mangueiras, ao pé do qual se elevavam algumas tiriricas que mais e mais a favoreceram.
“O caçador não hesitou nas tentações que sugeriu-lhe o inesperado encontro, e não respeitando tanta timidez nascida do pundonor, dirigiu-se direito para ela como a seta disparada do arco; dir-se-ia que ele corria atrás de uma paca, e quanto mais ele se aproximava, tanto mais a moça tiritava, como tabocas balançadas pela viração da tarde. Depois retumbou nas selvas um gemido doloroso! Oh a desgraçada estava perdida para todos os dias de sua vida, para todos!... Passados nove meses, já quando esse homem se não lembrava dessa moça, que o acaso tornou vítima de um amor gerado num momento e noutro momento extinto e talvez para sempre, e a quem ele havia arremessado e com desdém um simples anel, como que para lembrança da desgraça que ele motivara, eis que ouviu ao abrir certa manhã a sua porta, descompassados vagidos, e descobriu há pouca distância, sob uns cafezeiros, uma criancinha envolvida em baetas.
— É teu filho, bradou-lhe a mulher.
— Não, não, disse ele, querendo afetar tranquilidade, e eu o juro por...
— Não jures, atalhou ela; desde os pés até a cabeça que é todo teu retrato!
— Não jures, que há outras provas que o demonstram.
— E que provas?
— Olha, disse ela, o que pende desta fita que ele traz atada ao pescoço; — o anel, que tu perdeste na caçada!”
Maria corou olhando para o anel que ela tinha num de seus dedos; não desconheceu Gaetano a perturbação, disfarçou porém, e lançando vinho ao copo, virou-o de golpe.
— Ou este ou o de Chipre!
— E depois? interrogou Maria.
— Ouve-me e deixa-te de interrupção. — Continuai, disse ela suspirando. Gaetano prosseguiu.
— Esse anel, voltou-lhe o marido, poderia ter sido achado por alguém.
— E depositaram-na aqui e com ele! Quê de coincidências!... Pois bem, bradou ela com arrogância, pois bem, uma faca! Tu me negas a verdade e tua consciência vai ser em breve dilacerada pelo remorso do homicídio; mas se mo confessas que é teu filho, cuidarei eu dele, pois estimava mesmo ter uma criança com que me entretece, uma só, sem mais exemplo... porém, se não é teu filho, já a faca na garganta, que o degolo.
— Perdão, disse ele, perdão, que te fui infiel uma hora! Numa hora, em que sacrifiquei uma donzela ao meu desvario; e o acaso, o encontro, deu-me este filho...
— Desgraçada! Como chamava-se ela? — Catarina.
— A filha de Joaquim Antônio?! Desgraçado, desgraçada, desgraçados vós ambos! Por um momento de loucura, por uma alienação de amor! E entretanto as suspeitas recaíram na inocência, em quem a destra do pai presumiu, mas em vão, vingar a honra da filha! Três dias e três noites, sem comer, velando a sós, à espera de sua vítima, que não era culpada, e uma noite o raio que parte de um punhado de árvores, o grito que ressoa nos ares, o vulto que foge, e lá mais distante, o cadáver que cai...
— Perdão, perdão, clamava ele em joelhos, e silêncio! O mal não tem remédio, e eu farei penitência, ouvirei três capelas de missas pela alma do morto, assassinado por minha culpa, e pedirei remissão a Deus de meus pecados.
— Pois bem, silêncio!... Vê, porém, e acautela-te que não somos só nós que ignoramos essa fatalidade; quem lançou essa criança à nossa porta, sabe muito bem o que tu és dela.
E ao curarem da criança, conheceram que era menina e batizaram-na como o nome de Maria.
Suspirou Maria e Gaetano prosseguiu.
A uma escrava, que criava seu filho, deram-na para amamentá-la, e enquanto ela crescia e desenvolvia-se, o triste do pai passava os dias em orações, as noites em penitências, e ia à missa todas as segundas-feiras pela alma do finado.
Os anos eram idos, que rápido vai o tempo sem o sentirmos, contados um a um os segundos e marcados pela mão da morte, e em noite de Natal, em que toda a choupana do carvoeiro retinia com os sacros hinos entoados por diversas pessoas que ali concorriam para ver um presépio toscamente levantado no canto da sala, um malvado procurava todos os meios de sedução para iludir uma menina morena, tão bela e tão simples, como essas flores sem nome de sua pátria, que desabrocham recendentes de perfumes. Conseguiu atraí-la ao caramanchão, onde pendiam os roxos martírios e os pomos verdes e amarelos, e que ficava há pouca distância, mas seus esforços foram baldios, que essa menina em cujos olhos brilhava a vivacidade da mocidade, se bem que inexperiente, era ainda muito casta e cândida para deixar-se levar de suas promessas e ver-se depois desamparada e infeliz sobre a terra, sem arrimo, e selada com o ferrete da desonra, que a envergonhasse aos olhos do mundo.
Rico e poderoso, temido entre os pequenos, como todos esses tiranos e ambiciosos senhores que por aí avultam, era ele muito altivo e sagaz para recuar ante a impossibilidade de levar com seus intentos por diante, por mais torpes que fossem, e pois jurou para logo sobre esse peito que palpitava de inocência e singeleza, que dia viria em que teria por seu o triunfo.
Ele o jurou, e assim havia de ser. Tinha ele por administrador de suas terras a um estrangeiro, natural de Acerenza, na Calábria, a quem prometeu a sua proteção, terras e dinheiro se quisesse fazer a felicidade de uma menina, que era filha de um carvoeiro, que ele estimava por sua honradez, pois era homem que já tinha tido muito de seu, e que depois ficara em miséria, e cuja mulher era muito da afeição de sua consorte. Nascido em país de indigência, viu o pobre calabrês pela primeira vez a felicidade sorrir-se-lhe benigna na terra estrangeira, lembrou-se de seu pai, de sua mãe e irmãozinhos que deixava lá tão longes, remotos, nas maiores pobrezas, e chorou; chorou, porque o calabrês com a sua alma de bronze tem também seus sentimentos de homem; aceitou pois a sua proteção, recebeu uma velha choupana para a sua morada, algumas braças de terra para lavrar e a mão dessa menina que se lhe prometera por sua companheira.
Por algum tempo viveu ele feliz, no seio de sua família, vendo-se retratado nas feições da filhinha que lhe deu Deus, dez meses depois do seu consórcio; cultivando suas terras, derrubando capoeiras e formando covas de carvão; vivia assim, quando uma manhã recebeu um recado daquele de cujas terras fora administrador e a quem era tão obrigado, que o chamava à sua presença para lhe comunicar notícias de maior interesse.
le o jurou e assim havia de ser, embora tivessem-se passado tantos meses! Coração danado, dormia e despertava com a ideia de encher um juramento tão torpe em suas consequências! Na boa fé dos homens de bem, ei-lo que deixa a choupana, as terras, as carvoeiras, a esposa e a filhinha, e lá se vai a longes terras a empregar-se no tráfico de africanos boçais.
E durante a sua ausência, essa depois que era sua companheira, essa que era mãe de sua filha, e que havia resistido aos intentos do malvado que pretendeu seduzi-la, deixava-se levar de suas persuasões, esquecia-se de seu esposo, como se ele já tivesse baixado à vala dos mortos ou não tivesse de voltar para pedir-lhe conta de seu procedimento, e tinha um ano depois um filho. Espalhou-se o boato por toda a parte, como o clarão da tempestade; aquela que a educara como sua filha, tamanha paixão concebeu que veio a sucumbir dentro em três dias à violenta febre; mas não a perseguiu o remorso do crime, o pai de seu filho continuou a ter entrada em casa, e um dia, ei-lo que cessa de vir, porque os dias estavam contados, e uma manhã eis que essa mulher pérfida acorda despertada pelo ruído de suas portas, que caem aos golpes do machado e pelos gritos de seu filho que lhe roubam.
E esse homem que sabia de tudo quanto se passava em sua choupana durante a demora por longínquas paragens da costa, pedia nas suas orações a maldição do céu para José Feliciano, e jurava morte a sua esposa.
— E esse homem sou eu, Maria! disse ele concluindo a sua fatal história, erguendo-se, precipitando-se sobre a sua faca e arrastando pelo braço a mísera esposa.
— E esse homem sou eu!
— Perdão, exclamou ela.
— E essa mulher és tu!
— Perdão, em nome de Deus, perdão! Em vão, em vão, ah, em vão lutei eu, mas fui vencida; gritei, mas a quem me socorrer? Achei-me a sós com homem tão terrível!... Tua vingança para ele que não para mim, Gaetano!
— Para ele a maldição do céu, a minha praga no furor de minha paixão; Deus vingar-me-á! Para ti a minha desafronta! — a desafronta é — a morte!
— Perdão! perdão! bradou ela levantando os olhos para o céu e querendo ajoelhar-se, mas de repente, por um movimento rápido lançou-se, desembaraçando-se de seu assassino, no aposento, sobre a cama da filhinha. Gaetano tomou a candeia, seguiu-a, ah, ela abraçava-se com Clarita, banhando-a de suas lágrimas; mas o implacável calabrês tinha alçado o seu punhal e deixado cair sobre o colo de sua esposa...
Um grito de horror que foi longe, um ai de morte que faleceu ao desprender-se dos lábios, retumbaram por toda a choupana. Gaetano sacava o ferro tinto de sangue ainda fumante, quando a filha despertando, abriu os olhinhos, e um sorriso lhe roçou as faces; e estendeu o braço para ele como lhe ofertando o ramalhete de flores. Eriçaram-se-lhe os cabelos, gelou-se todo, e a candeia escapou-se-lhe da mão e apagou-se.
Ouviu-se pouco depois o trotar de um cavalo, o latido de cães e depois um trovão.
Era ele que se havia perdido entre as trevas da noite, como o relâmpago; era a tempestade que tinha soltado o último bramido.

CAPÍTULO 3: VINTE ANOS DEPOIS
........................E para longe,
E bem longe de Clara, como um sonho,
Sumiu-se................
A louca.

Vinte anos!... Que longo espaço para rápidas e sucessivas mudanças de tempo! Como a esses guerreiros que moços e robustos partiam para a Palestina e quando voltavam vinham cansados e cobertos de cãs, que perguntavam: — Onde está meu pai? — E lhe mostravam o túmulo. Que perguntavam: — Onde está minha mãe? — E lhes mostravam outro túmulo. Que perguntavam: —Onde está minha casa? — E lhes mostravam uma árvore. Assim, a quantos se não poderia responder da mesma forma, se iguais interrogações se dirigissem aos habitantes da Gávea?
Vinte anos eram idos, vinte anos tinham se sepultado na eternidade do passado, e já nem vestígios existiam da choupana dessa infeliz Maria, a filha do carvoeiro; se alguém, que tinha ouvido pronunciar seu nome, narrar suas desgraças e derramado uma lágrima por ela, perguntava pela sua choupana, uma mão apontava para uma capoeira.
Subsistia todavia a choupana do velho Pedro Rodrigues, vinte vezes deteriorada pela mão do tempo, outras tantas reparada pela mão do homem, até que se aniquilasse de toda, e, ou outra se alevantasse em seu lugar, ou uma capoeira. Aí, sobre o solar do albergue, foi que vinte anos depois da catástrofe de Maria, viu Clarita rebentar sobre a costa o medonho furacão, cujo sopro submergiu diversas embarcações e desarvorou outras: foi aí que viu um navio impelido pelo furacão, varar-se pela terra e fazer-se em pedaços que os vagalhões arrebataram como presas que lhes pertenciam; caindo em joelhos, seus olhos se ergueram para o céu e ela subiu sua alma a Deus pedindo pelos náufragos; breve, porém, a noite inundou os ares de trevas, e nada mais pôde ver; consolou-se com orar, ao lado de seu velho avô e Catarina sua esposa. O dia seguinte ainda não bruxuleava no horizonte e já os habitantes da Gávea corriam à praia, lá onde esse ribeiro que se revolve em seu leito de lodo entra no mar, em que se perde, para ver um moço que dava sinais de vida e que fora pelas ondas rejeitado; leme... mastro... cabos... tábuas... juncavam a praia... Dizia-se que toda a tripulação e passageiros, de que esse moço fazia parte, haviam perecido.
Três dias, quatro dias, cinco dias se passaram e ainda o naufrágio era o assunto das conversações entre todos os habitantes e em todas as choupanas. Cada qual apressava-se em contar aos hóspedes as promiscuidades de tão deplorável acontecimento, e ao viandante se perguntava:
— Já sabeis do naufrágio?
Era a novidade do tempo que corria de boca em boca adornada dos atavios das imaginações por que passava.
Havia o moço tornado à vida e se restabelecia, quando uma tarde, Pedro Rodrigues encostado a seu bastão, conduzido por sua esposa, e acompanhado por Clarita, que caminhava descalça, e cuja fisionomia tinha um não sei quê de beleza e de simplicidade que encantava, desceram os íngremes trilhos da montanha com o maior cuidado, e foram bater à porta da choupana a visitar o náufrago.
Ofereceram-lhe assento e ele assentou-se com a sua esposa e a sua neta ao lado do moço.
— Vinde visitar-me? perguntou ele.
— É verdade, meu filho, sou humano e compadeço-me dos náufragos: a todos fecharia a porta da minha palhoça, menos ao naufragado.
— E já naufragaste?
— Nunca saí do Rio de Janeiro.
— Feliz homem! Nunca entregou-se ao edifício errante, fabricado pelas mãos dos homens e arremessado às ondas, que rege o aceno de Deus e que em vão o espírito humano intenta encadeá-las ao jugo de seus domínios, dando leis à terra e pondo freio aos mares. É a tempestade o aceno de Deus, e contra ela o que aproveita opor barreiras?
— É assim, meu filho, disse o velho, e calou-se; vendo porém que o moço nada mais dizia, prosseguiu: E donde vindes?
— Da Bahia, donde partimos numa sexta-feira.
— Numa sexta-feira! Dia aziago para os marítimos.
— Bem aziago! Ainda não havíamos perdido a terra de vista, que já o sangue do homicida inundava o convés do bergantim.
— Alguma desordem?
— Dois marinheiros, que insultando-se mutuamente, puxaram das facas e atiraram-se um contra o outro; foi em vão que buscou-se apartá-los; luta renhida, não havia aí mais que a destruição de um para decidir dela; enfim, um deles caiu sem vida, ferido a toda a faca, perto da clavícula do lado direito, entre a primeira e a segunda costela verdadeira, e outro precipitou-se às ondas, que o subverteram. A essa cena de horror, bradou o mestre com som de voz terrível:
— Agouro! Agouro!
— Perdemos a Bahia de vista, e quando começamos a enxergar o Gigante que dorme, o tufão que rebenta e nos impele sobre a costa!
— E sois natural da Bahia?
— Não: que nasci nestas montanhas, a cujas faldas me rejeitaram as ondas como morto.
— E vosso pai?
— Ah! seu nome é um segredo! — E vossa mãe?
— Nunca mo souberam dizer quem era ou não quiseram.
— Tanto mistério envolve o vosso nascimento!
— Sei apenas que vi o dia nestas montanhas: ouvi dizer o nome de meu pai, mas jurei não divulgá-lo; nem eu mesmo nunca vi-o, e vê-lo ou não vê-lo, é o mesmo, que não o conhecerei; sei que é rico, pois que dele recebi uma educação que não é lá das piores, e ainda continuo a perceber mesadas por sua conta; e quanto a minha mãe... Há um mistério, um mistério profundo que em vão tenho sondado... Sem dúvida sou filho de alguma personagem ilustre pelo seu nascimento, mas não sei porque me desdenharam de maneira que não conheço meus ascendentes, pois que fui roubado em tenra idade a minha mãe.
— E como vos chamais?
— Henrique.
— Henriquê? repetiu o velho apoiando-se no bastão e querendo erguer-se. Henrique!
— Porventura me conheceis?
— Um momento, meu filho, um momento a sós convosco e sabereis tudo.
— De vós?
— Sim, de mim, que para estes lugares vim em minha mocidade, e há que tempos vai isso! Olhai: oitenta e cinco anos hão passado sobre a minha cabeça!
— Que longa idade!
— Vós sabeis o nome de vosso pai, pois bem, por ele sabereis que não vos direi senão verdades; mas antes de começarmos a nossa prática a sós, convém que me digais se tendes notícia de um cordãozinho de ouro com um signo de Salomão, com que fostes roubado.
— Basta! disse Henrique abrindo a camisa e deixando ver o cordão com o signo, que lhe pendia do pescoço: vós sabeis de tudo!
Abraçou Henrique o velho octogenário e pediu a todos quantos o rodeavam que lhe concedessem vagar para a conferência que desejava ter com ele; o que anuíram e retiraram-se todos para o terreiro, onde conversavam alguns roceiros assentados ou em pé.
— Ora, e esta? dizia um deles, quer este homem, minhas senhoras donas, fazer-nos acreditar coisas impossíveis e até hoje ainda não vistas.
— Não vistas? Dou-vos minha palavra que vi eu, e vos prometo trazer uma para destruir tanta incredulidade.
— Diz ele que a lagarta fabrica o casulo, que do casulo sai a borboleta, que é a própria lagarta que aí se desenvolve.
— Até aí não há novidade, acrescentou um dentre eles, cujas brancas lhe alvejavam a cabeça.
— Não há, exclamaram todos a um tempo.
— Pois sim, continuava o outro, não há, porém o que eu não creio é que essa borboleta torne-se dias depois em beija-flor!
— Quê! disse o velho, será possível que eu ainda não visse semelhante fenômeno! pois olhai que não é de ontem que datam as minhas caminhadas pelos matos; que me digais que vistes galhos de cafezeiros transformados em bichos, creio, que vi-o eu, mas borboletas em beija-flor, bofé que não, meu amigo. E pôs-se a rir.
— Aposto eu que também negareis que o camboatá anda em terra tão senhor de si como na água, não é assim?
— Acreditamos, voltou-lhe o outro, e por que não? Ora, depois da borboleta-beija-flor, que há mais que admirar...
Risadas estrondosas cobriram a voz do último que falava; o outro desconfiando pegou em seu chapéu e retirou-se.
— Vamos ao café! disse um.
— Ao café! bradaram todos correndo para a menina, que trazia algumas vasilhas com café, que se apressaram em tomar.
Enfim, havia o tempo corrido e já aproximava-se a noite, quando Pedro Rodrigues dando por finda a entrevista pediu às pessoas que se haviam retirado que entrassem.
Apertou Henrique a ingênua Clarita em seus braços imprimindo-lhe um beijo naquelas faces moreninhas.
— Teu irmão, minha filha, disse o velho.
— Ah, é este, meu avô, voltou ela apertando-o mais e mais em seus braços, aquele de quem tantas vezes me falastes? Oh, meu irmão! Quantas e quantas vezes não repeti teu nome com as lágrimas nos olhos e a dor no coração!
— E talvez esses instantes, ajuntou ele, fossem aqueles em que meu coração caía de súbito em abatimento de tristeza e soltava um suspiro involuntário; era um eco que repetia, era uma corda que ferida após outra dava o mesmo som!
Lançou o velho a sua bênção à Henrique, e retirou-se; um moleque caminhava ante Pedro Rodrigues, Catarina e Clarita, com uma vela acesa levando a mão com os dedos cerrados adiante para que não a apagasse o bafo da noite, e viu-se por algum tempo essa luz ora desaparecer, ora aparecer por entre a folhagem dos arvoredos, como a estrela que some-se, que surge entre o véu das nuvens, e que depois desaparece de toda. E assim iam todas as tardes a visitar o jovem Henrique, e assim voltavam todas as noites para a choupana, até que restabelecendo-se o moço, os veio visitar, protestando que todas as vezes que pudesse viria à Gávea para vê-los.
Abençoou-o o velho e montando ele num luzido cavalo seguiu caminho da corte; Clarita na janela, que descobria longe, com a cabeça apoiada no braço, alongava os olhos pelos trilhos e via de quando em quando, lá entre a ramagem das árvores que rumorejava o vento, o vulto que balançando ausentava-se mais e mais, e depois sumiu-se; seus olhos alçaram-se-lhe para o céu, e ela suspirou.
Era um suspiro de amor e de saudade!
— Se ele não fosse meu irmão! murmurou ela.
E o cavalo de Henrique caminhava, ora descendo esses trilhos arrepiados de soltos penedos, ora subindo, e em breve achou-se na Boa Vista.
Aí sobre esse alto, donde tudo é belo e grande, rico e majestoso, divisou a cidade do Rio de Janeiro, com suas torres, com seus edifícios de diferentes formas, mas mesquinha e pequena nomeio do grandioso espetáculo da natureza que se desdobra com tanta pompa; aqui o rochedo enorme, coroado de nuvens coloridas pelos últimos raios do astro do dia, lá uma cadeia prodigiosade montanhas de píncaros mais ou menos elevados que a órgãos se assemelham e que se estendem como uma falange de gigantes, sob esse pavilhão imenso, essa abóboda de safira, cujas nuvens se ensanefam e se tingem de rubro com a luz do sol do ocidente, tendo a seus pés essas ondas azuladas de um mar de ouro, que como uma campina se dilata, sorrindo-se ao beijar da brisa vespertina; divisou, mas seus olhos se voltaram para
...............o cimo da Gávea alcantilada,
Só de vento, de raios e de chuva
Habitado!..............................
Que ele ia perder de vista; se voltaram, e duas lágrimas de saudade e de amor lhe desceram pelas faces.
— Se ela não fosse minha irmã! murmurou ele. E perdeu a Gávea de vista.
Tinham decorrido alguns meses, havia-se Pedro Rodrigues separado de sua neta, que ele tanto estimava, e que entretanto era preciso resignar-se a ajuntar mais este desgosto aos que já sofrera, vivia pois na companhia dessa Catarina, cuja afronta reparara, e que era sua inseparável amiga; no acaso da vida, a fortuna lhe fez deparar com essa alma caritativa que o ajudava a suportar o peso de oitenta e cinco anos de existência tão cheia de desgostos e dissabores; alguns meses se haviam decorrido e ainda Henrique não havia voltado para vi-lo visitar que desde o dia de sua partida não houve saber mais dele; apenas Clarita o vinha ver quando lhe era dado, e distraí-lo de suas meditações que já não eram deste mundo, e interromper o fio de suas orações; e suas palavras eram de consolação para o octogenário, que lhe retribuía com conselhos cheios da experiência de longa vida, e das virtudes praticadas em emenda de erros que a idade fogosa da mocidade lhe originara.
Uma noite, a sós com a sua esposa e um velho negro que ainda o servia, ou, para melhor dizer, ambos se prestavam mútuos socorros, orava Pedro Rodrigues, todo compenetrado de ideias sublimes, que ainda rolavam na sua fria imaginação; sua alma divagando pelo infinito se infundia em místicas e melancólicas meditações, quando de repente ouviu fora da choupana e há pouca distância, vozes confusas que se trocavam, ruído de armas que no embate retiniam; trêmulo, chegou-se à porta, apoiando-se no bastão e distinguiu na diáfana escuridão da noite grupos cujos vultos se moviam como se lutassem renhidamente; depois sentiu trotar de cavalo e daí há pouco viu que um cavaleiro que metia o cavalo sobre eles, entrava na luta. Era em vão que ele os pretendia apaziguar apartando-os; um já estava por terra e quatro ainda sobre ele procuravam sufocá-lo.
— Quatro contra um? bradou o cavaleiro sacando uma pistola dos coldres e engatilhando-a ligeiramente; quatro contra um é a mais infame de todas as cobardias! Ou morrer pela bala ou separar-vos!
E o raio partiu sobre o grupo; ao estampido do trovão se ergue o cavalo, joga com o cavaleiro e desaparece; e um gemido se desprende do meio dos vultos que se dispersam ficando um prostrado.
Pedro Rodrigues, sua esposa e o velho negro, em pé na porta da choupana, tiritavam de medo, se persignavam e rezavam.
— Quem és tu? interrogou o cavaleiro se aproximando daquele que tinha salvado e que tão denodadamente lutava braço a braço contra quatro? nunca homem tão só entrou em luta tão desigual.
— Ah! respondeu ele com voz de quem agonizava, estou todo coberto de feridas, que me esfaquearam a fartar! Chegastes tarde, cavaleiro, para salvar-me a vida, chegastes cedo, porém, para salvar-me a alma e ouvir minha confissão, e comunicá-la depois a algum sacerdote que me absolva. Metei a mão na minha algibeira aqui do lado esquerdo e tirai alguns patacões para mandardes dizer missas para minha salvação.
Ajoelhou-se o cavaleiro junto do ferido, que começou a sua confissão:
— Eu sou, disse ele, Gaetano o calabrês...
— Gaetano! Gaetano o calabrês! exclamou o cavaleiro, que eu salvasse semelhante homem! Tu és Gaetano, ah, e eu sou aquele menino que fui roubado da tua choupana! Tu és Gaetano, o assassino da filha do carvoeiro, oh! minha pobre mãe!...
— Quê! vós sois deveras Henriquê?
— Sim, Henrique, Henrique Feliciano, que jurou vingança pela morte de sua mãe.
— Desgraçado, assassinastes a vosso próprio pai!
— A meu pai? interrogou ele aterrado.
— Sim, vede aquele cadáver prostrado pelo tiro de pistola que sobre eles disparastes, é José Feliciano!
— Meu pai! meu pai!
E Gaetano revolvia-se, voltando-se sobre si mesmo, rolando pela terra, agarrando-se às ervas, debatendo-se com as ânsias da morte.
— O crime puniu o criminoso! Estou vingado! bradou ele soltando o último arranco.
— Meu pai! meu pai! Assassinei meu pai! clamava o mísero filho sobraçando o cadáver de José Feliciano, inundado de sangue, e com tal acento de dor e de desespero que comovia.
— Sim, teu pai, gritou com voz trêmula e rouca um vulto que trazia uma candeia, cujo pálido clarão bruxuleava aumentando o horror dessas cenas de sangue; sim, teu pai, que se tinha casado há dois meses com a tua irmã!
— Justiça de Deus grande! exclamou Henrique, caindo desmaiado a seus pés.

CAPÍTULO:  CONCLUSÃO
No dia 2 de julho desse ano, certa senhora, acompanhando um velho que arrastava-se a cada passo que movia, e seguida de outra mais moça e coberta de dó, paravam ante um cubículo da Santa Casa de Misericórdia e contemplavam tristemente um jovem que aí estava encarcerado.
— Ah! exclamou ele, eu matei meu pai!
E terrível gargalhada desprendia-se-lhe dos lábios.
— Pobre Henrique, disse a moça enxugando os olhos, está doido!
— Doido! doido sem mais esperança de salvá-lo, ajuntava o velho com mágoa, e para sempre doido!...

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