sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Na roça (Conto), de Virgílio Várzea


Na roça

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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I
O Cosme, depois que a tia Sabina morrera, dera-se todo à bebida. Raramente trabalhava já; e a maior parte do tempo levava-a, de manhã à noite, na venda do André, a virar vinténs de aguardente. A sua fisionomia, outrora bela, rosada e límpida, com um riso amável e um resplandecimento juvenil e doce, achava-se agora quase completamente transformada: os olhos, castanhos e transparentes, muito rasgados, e que tinham uma expressão e uma luz tão forte que ascendiam logo nos virgens corações das raparigas afetos desordenados, arrastando-as, às vezes, às fúrias da rivalidade assanhada e dos ciúmes convulsos, que as levavam a descompor-se e a esgadanhar-se impudentemente nos terços — viviam agora sonolentos e cobertos da rubra e desfigurante bruma do álcool.

Sobre o rústico banco de madeira, que corria ao longo do curto balcão da casa, levava as horas a dormir, sentado, com uma das pernas dependurada e a outra erguida sobre a tábua — o pé direito espalhado, mostrando uns dedos nojentos, calosos e deformados, onde os dois braços e as mãos, fechando em círculo a perna em triângulo, desciam e vinham unir-se enclavinhados. A cara, congesta e túmida, apoiava-se a um dos joelhos, e a barba, sedosa e fina posto que maltratada, estava sulcada de grossos fios de baba. O cabelo, inculto e longo, todo emaranhado e ruço daquele triste vegetalizar pelo vício, daquela vida desviada totalmente do bem-estar e do trabalho, exausta já de vigor e brio, dava-lhe à cabeça revolta um ar disforme e velho. No entanto, bem reparadas, as feições guardavam ainda um certo clarão juvenil, um tom vago e fugidio da beleza e virilidade que possuíram outrora.

II 
A tia Sabina era mulher dos seus sessenta anos, alta, magra, com os cabelos brancos e um pescoço fino e comprido, cheio do forte sulcamento das veias. Falava pouco e baixinho; era devota, sabia ler e tinha bom coração. Todas as noites, depois de fiar o seu bocado de algodão, ceava e ficava por muito tempo defronte de uma velha cômoda, onde havia um registro colorido do Bom Jesus de Iguape, em pé, com uma palma verde na mão; ficava ali a orar, com o seu longo e encardido rosário entre os dedos, a passar as contas, com um movimento rápido dos lábios murchos que zumbiam levemente, e o olhar, ora vagando pelo teto, ora fixando a imagem pintada; depois ia meter-se na cama, mastigando ainda restos de rezas. Fora casada vinte anos. O marido, havia quatorze, morrera. Era embarcadiço, levava a vida por fora, em viagens, e a última que fizera matara-o, porque desembarcara doente, em braços, a bem dizer morto, com uma pneumonia.

Ela então, necessitada de uma companhia, tomou para si o Cosme, um rapazinho órfão, magro e amarelo, muito tímido e desajeitado, com uma carinha meiga e uns olhinhos grandes e mansos, e que vivia a favor em casa de uma pobre e numerosa família dos Zimbros. O rapazinho não era feio e a tia Sabina, desde que o tomara, que descobrira nele uma bondade — era obediente e calado, muito dócil, alheio a troças, e amigo de fazer as voltas da casa. Por essa razão, tratou logo de dar-lhe umas roupinhas e mandá-lo todos os dias à escola, acompanhado-o até a porteira, e recomendando: — “Sê bem ensinado e bom; e aprende, meu filho, aprende, que é para seres homem”. E ficava ainda depois a olhar de longe o pequeno, que ia caminhando sem se voltar, com o andar preso e atrapalhado, e os pés a doerem-lhe e a escorregarem dentro dos tamanquinhos novos. Tinha então seis anos. Quando ele voltava, ao meio-dia, e vinha tomar a bênção, ela, sentada na caixa grande da sala, com o cesto da costura ao lado, carinhosamente o estreitava ao seio e beijava, tirando-lhe com meiguice o casaquinho e o boné, a alisar-lhe para trás o cabelo com as mãos, perguntando-lhe:

— Então, soubeste hoje a lição?

E sorria, enternecida.

Depois levantava-se, ia tirar a comida: estendia no chão uma esteira, abria sobre ela uma toalhinha muito alva e, com a panela ao lado e uma grande colher de pão, enchia o alguidar do rapaz que, sentado, as pernas cruzadas, remexia e amassava o pirão, mastigando em silêncio.

À meia tarde, o Cosme voltava de novo à escola e ao entardecer regressava, só, afastado dos companheiros, que galhofavam dele, dos seus modos, e que, num alarido desenfreado, corriam, jogavam pedradas para as cercas, onde os cães se iam refugiar latindo e os passarinhos dobravam nas ramagens altas. Quando anoitecia, a velha botava-o adiante de si com o catuto na mão, e desciam ambos para a fonte, a buscar água, por entre o cantar metálico dos grilos e as inquietas brasinhas dos pirilampos.

Assim cresceu o pequeno.

Uma ocasião, já com dezoito anos, meteu-se-lhe em cabeça casar. Na casa vizinha, do lado do morro, havia uma rapariga galante e viva, filha de um pescador do lugar, que desde muito o andava tentando com uns olhos magníficos. A rapariga chamava-se Margarida: era um demônio; havia meses, vinha todos os dias ao caminho esperar o rapaz quando voltava da rede. Então fazia-o parar, começava a contar-lhe as “coisas”, a dizer que o amava, estalando-lhe nas bochechas risadas esplêndidas, jogando-lhe beijos com os dedos, entornando-lhe sobre a cabeça um turbilhão de pétalas!

O Cosme, muito acanhado, fitando-a com os seus grandes olhos castanhos, corava; ficava comovido e satisfeito com aquelas declarações e carícias, e ria-se, ria-se a valer, sem saber o que dizer, sentindo palavras que lhe passavam na imaginação como faíscas, mas que nunca lhe vinham aos lábios! Apenas podia dizer, aparvalhadamente: — “E eu!... E eu!...” Depois, despedia-se e seguia para casa, voltando-se de instante a instante, para ela, que ficava de pé, no terreiro, a acompanhá-lo com os olhos — impressionado, cheio de cismas, com uma doçura sobre o coração. E levava todo o tempo a pensar na rapariga, vendo-a, pela imaginação, airosa, alegre e resplendente, com as mãos nos quadris, sob o abundante ouro do sol. Havia noites que não dormia, porque necessitava pensar nela, tê-la ao pé de si. Achava as horas imensas, intermináveis; e parecia-lhe, tristemente, que não amanheceria mais, que não veria o sol depois. Era uma angústia, uma infinita angústia! Resolveu, então, dizer à tia Sabina que precisava casar-se, senão não poderia mais viver, morreria...

A tia Sabina ouviu-o silenciosa, e muito sensatamente, disse:

— Tu estás doido, Cosme! Não vês que isto é uma falta de juízo, e tu não tens idade nem meios?...

— Mas eu quero; quero, porque já não posso mais! retorquiu o rapaz.

E ela, melancolicamente, com os olhos no chão, pôs-se a refletir, abanando a cabeça; depois, fitando o Cosme, que estava em pé, no portal, acrescentou:

— O que se há de fazer! o que se há de fazer!...

Daí a meses o rapaz casava. A Margarida, a princípio, mostrara-se muito boa, muito trabalhadeira, e não deixava a tia Sabina fazer coisa algum, sem que ela a ajudasse. A tia Sabina vivia numa satisfação, queria-a muito e chamava-a sempre “santinha”. Mas, decorridos dois anos, levada pelo seu temperamento ardente, irrequieto, revolto, deu em “virar a cabeça” e não fazia mais do que preparar-se e ir todas as tardes, depois do jantar, dar a trela pela vizinhança. À tia Sabina não lhe agradava aquilo; mas, como sempre, permanecia calada, sem lhe dar a entender, mesmo de leve, o seu desgosto por aquelas visitas. Um domingo, porém, uma velha camarada de infância, e sua comadre, a Rita Basília, a da Coivara Grande, que já há tempos não via, e que viera à freguesia para ouvir a sua missa, ao passar-lhe na porteira, encontrou-a estendendo umas roupas molhadas, e falando: —“... É verdade, como vai o Cosme? E a Margarida? Olha, mulher: pois não está tudo cheio que ela é má bisca; que não para em casa, e vive todo o santo dia a curricar, enganando o pobre do marido, coitado! Ó Sabina, anda cá: põe-lhe um “cobro”, vê se a metes em caminho. Olha que é uma desgraça...” E como viesse gente, despediu-se apressada: — “Adeus, vou à missa, que já basta de perder tantas. Logo eu entro; agora não posso, ouviste?” E saiu à pressa, bamboleando as suas transbordantes ancas de mulher madura e pesadíssima, no meio do cadenciado estalar e ranger dos tamancos.

A tia Sabina, estendida a roupa, retirou-se, cabisbaixa, recolhida, com visíveis sinais de aflição no rosto. Quando entrou em casa, ia pensando: — “Vou dizer-lhe tudo, isto não fica bem, não pode ser. Também sair todas as tardes! Já estão surdindo os mexericos... Virgem Maria! Cai na boca do mundo, cai na boca do mundo!...”

E nisto esbarrou-se com a Margarida, que vinha saindo de casa, com uma radiação de alegria no semblante risonho e um grande molho de malmequeres, dálias e perpétuas, direita a ela: — “Tia! Olhe, eu vou até lá ao Amaro; vou levar flores para o terço. Passo lá o dia com a Leandra. Pois não sabe? Hoje é o dia da Conceição. Há terço logo à noite”.

A tia Sabina, com a sua imensa bondade, vendo-a muito alegre e rosada, de uma frescura infantil no seu vestido de chita clara, conteve-se e apenas disse: — “Vai; mas toma cuidado, filha. Não sejas leviana. Olha que já falam...”

E ia para concluir, quando a rapariga, com um modo estouvado e inquieto, pegando-lhe do braço e sacudindo-a, interrompeu-a: — “Você venha também, tia; deixe isso e venha. Eu lhe espero; aquilo vai ser bom. Há dança”.

E saiu correndo, com as longas tranças soltas e um fru-fru de saias engomadas, em direção ao caminho.

O marido não estava. Na véspera, levara a noite inteira na rede. Como o peixe “era mato”, carregara uma canoa, e sem voltar à casa, saíra para a cidade, pela madrugada, e até aquela hora não se sabia dele. À Margarida, porém, não lhe deu abalo isso; já pouco se importava com ele, e até estimava a sua ausência. Entretanto o pobre rapaz nunca fora tão dedicado e carinhoso como agora. Sempre que entrava de fora, ia logo para ela; abraçava-a num contentamento, intimamente envaidecido e orgulhoso por aquela “prenda chibante que ele quase não merecia”. Porém ela enxotava-o, como a um cão ruim, toda séria, empurrando-o para longe de si com os seus braços roliços e cor de rosa, rejeitando assim as francas e leais carícias do rapaz, em cujo peito floriam, esplêndidas, a nobreza e a ingenuidade dos afetos. E, obstinadamente, “secada” repetia sempre: — “Já vem o tolo! o desengraçado! Fosse antes dormir, se tinha sono; mas não a viesse inquietar, o tanso”. E assim vivia a maltratá-lo constantemente.

No terço do Amaro, à noite, depois do capelão engrolar a reza e apregoar o juiz e os mordomos que tinham de fazer a festa no outro ano, começou a dança. Achava-se aí, nessa ocasião, o José Italiano, mascate, que de vez em quando rebentava pelo lugar, onde a sua mercadoria voava, tendo uma fama e possuindo numerosos fregueses. O José Italiano era um calabrês simpático, de uma grande beleza viril, que impressionava e arrebatava as mulheres; mas, atrevido e corrupto, nas casas onde por acaso assistia e se lhe abriam os corações, ria generosa e santa ingenuidade roceira, deixava sempre a desgraça e a desonra.

Diversas famílias, ali, tinham sido arrastadas impiedosamente pelo miserável à corrupção e à miséria.

E a Margarida, já desde muito que andava algemada ao seu olhar elétrico e vencedor, onde bebia as tentações e graças todas as delícias satânicas dos amores ilícitos. Profundamente dominada pelas manifestações e arrastamentos do seu temperamento indomável, estuante de seiva e fartamente embebido em sol — abriu um escândalo desordenado e terrível no meio afetuoso e sereno de toda aquela festa, prendendo-se a noite inteira, nas danças, impudicamente e, sem interrupção, ao braço rijo daquele sujeito audaz, que fazia timbre em ostentar afrontosamente, em plena estupefação geral dos convivas, a paixão descabelada e cínica daquela rapariga doida. E, pelas duas horas da manhã, por entre o cantar álacre dos galos e o reboliço das despedidas, escapou-se com ele, de tal modo que ninguém os viu mais.

No outro dia, corria insistentemente pelo sítio que ela tinha fugido com o Zé Italiano, para as bandas da Caieira...

O Cosme, mal voltou à casa, soube tudo; ficou fulminado e prorrompeu aos soluços, a arranhar-se e a maldizer-se; e nas intermitências da sua, angústia, quando a realidade desmanteladora e brutal do caso se restabelecia com nitidez, jurava, em altos berros roucos, desfigurado e congesto, convulsamente brandindo a sua aguda faca de roceiro: “Ele há de pagar-me, o diabo!”

A tia Sabina, coitada, que o escutava e estava acabando uma camisola de baeta azul, teve um tremor e uma palidez, mas não disse nada; e, olhando-o docemente, com uma expressão de incomparável piedade e ternura, desatou a chorar; silenciosamente: grossas lágrimas, como punhos, sulcavam-lhe o rosto engelhado. Agora como que tinha perdido toda a antiga serenidade: um ligeiro estremecimento agitava-a, e o seu rosto, naquele instante, parecia mais abatido e cavado. Quem, melhor do que ela, conheceria a organização daquele rapaz tão ingênua, tolerante e passiva sempre, mas uma vez atacada, completamente outra vingativa, cruel, sanguinária. Ainda trazia bem de memória a história do mulato do Reis, que uma noite o fora esperar no caminho da praia para lhe meter medo, do que resultou perder o Cosme a cabeça e o mulato sair esfaqueado num braço, em risco de morrer. Ela conhecia bem o Cosme...

III 
Daí a tempos, dizia-se por toda a parte que o rapaz, tão bom e tão ajuizado dantes, profundamente apaixonado pelo abandono em que o lançara a mulher, dera em beber, e, algumas vezes, chegava a não se aguentar em pé.

IV 
Era por uma noite negra e troviscosa de inverno. O Cosme, como sempre, estava na venda do André, sentado num banco, numa modorra, bêbedo, completamente bêbedo. Alguns lavradores, que costumavam reunir-se ali, todas as noites, para a “seca”, algazarravam alegres e expansivos, felizes naquele santo descanso bem ganho aos rudes labores do dia, na cultura das terras, pelas baixadas e morros, sob a bárbara cáustica do sol; ou na pesca da enchova, no mar alto, sob as terríveis e açoitantes cordas dos ventos das tempestades, nos bravios costões do Arvoredo. Falava-se discretamente do Cosmo.

— Como vivia agora aquele pobre rapaz! Quase sempre, bêbedo! Que desgraça! Mas era aquele gosto! E antigamente tão bom que fora! E um bruto que tinha força que nem um touro, e que, de uma feita, ele só, plantara uma roça de mandioca que dera trezentos alqueires!... Nesse tempo, ainda a tia Sabina — Deus lhe dê o céu! — era viva, e a doida da mulher não dera para aquilo!... Também ela só não tinha culpa; pior era ele, aquele cachorro do Zé Italiano, que lá no terço do Amaro — não viram? — levara toda a noite a meter-lhe caraminholas no casco, não se despegando, um instante só, das saias da rapariga, até que “o raio da sem vergonha” deixou tudo por ele... A tia Sabina, que lá estava no bom lugar, é que lhe falou às direitas, quando ele disse que queria casar: — “Estás doido, Cosme; tu não tens juízo!”...

Nisso, o Cosme, acordando do seu entorpecimento, ouviu ainda algumas palavras, e com um fuzil de cólera nos olhos vermelhos, rosnou:

— Ó Mateus, que raio! Que diabo estás tu praí a dizer? Deixa lá isso, homem! O que foi, foi...

O Mateus calou-se, e ele tornou a encostar a cabeça aos joelhos.

Lá fora a chuva caía em bátegas; e fuzis contínuos, acompanhados de estrondos, abriam na escuridão súbitos clarões de fogo rubro-violáceo, que deixavam ver, pela porta entreaberta, paisagem fantástica e lúgubre de ópera mágica.

O Mateus então foi até à porta fincou os olhos na negrura espessa, como quem quer ver alguma coisa, olhou para o alto: completamente escuro! e exclamou:

— Temos água!

E, voltando-se para dentro, com os braços cruzados ao peito e os largos ombros encolhidos pelo arrepio da umidade:

— Quem é lá de cima? Na primeira estiada, pronto! Quem se vai, vai! Isto aguenta até dia...

E encostou-se de novo ao balcão, com os olhos pregados na molhadura nesgada que o sudoeste estendia pelo soalho, entrando de través.

Pelo morro do Zefira, que ficava logo adiante, sentiu-se um ruído de patas, que se aproximava. Todos puseram os olhos na porta.

 E logo um cavalo, pintado de largas manchas brancas que o lampião da venda fazia alvejar e luzir, estacou ao portal, com os olhos em brasa, as largas ventas resfolegantes da corrida. Então, um homem de botas, ataçado num grande ponche que escorria ensopado da chuva, alto o moreno, de barba cerrada, tilintando as esporas, desmontou-se; e, enquanto desapertava a cilha do animal para desencilhá-lo, gritou para dentro, em mau português:

Ó André! Quero-te hoje uma pousada e pasto para o cavalo. O tempo está dos diabos, homem!

 Todos exclamaram:

— Ah! É o sô Zé que anda por aí... Nossa Senhora! Era uma lástima aquele tempo!

O calabrês entrou, batendo os tacões, com os arreios de rastos, num tinir metálico de loros e estribos, indo colocar tudo a um canto, por detrás da porta, e, dando “boas noites”, desatacou o ponche e despiu-o, deitando-o sobre o balcão, onde encostou-se pedindo cachaça e dando um forte relhaço nas tábuas.

O André inquiriu:

— De onde vinha? Com aquele temporal d'água era uma loucura! Apanhara-o muito longe?

— Que não; pelo Justino. Mas estava fechado, senão ter-se-ia arranjado por lá. Fora ali por causa de umas terras...

 O Cosme despertara com o ruído brutal do relhaço, levantou a cabeça e, ao dar inesperadamente com aquele homem ao pé dele, de costas, roçando-o bruscamente, saltou. Os roceiros olhavam-no. Ele esfregou rapidamente as pálpebras pegajosas e, convulso, transfigurado, arremeteu de pronto contra o italiano, num ímpeto, numa ferocidade bravia, os punhos cerrados, os dentes de fora, os musculosos braços retesos, num medonho aspecto de fúria; depois cingindo-o fortemente e atirando-o ao chão, cavalgou-o, levando uma das mãos à cinta onde costumava trazer a faca.

Os circunstantes correram logo, procurando intervir:

— Chega! Chega! Não o mates! Não o mates!...

Mas o rapaz, subitaneamente, agitou o ferro no ar e, várias vezes, afogou-o no corpo do italiano. Por fim, ao reconhecer que este não fazia mais um movimento, ergue-se, e deitou a correr para a estrada, rosnando, entre alucinado e medroso, num tom indizível:

Matei-o!... Matei-o!... 

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