quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Natal no mar (Conto), de Virgílio Várzea


Natal no mar

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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O capitão tinha dito na véspera que se o tempo se aguentasse e o vento fosse favorável, por aquela semana, e Nossa Senhora os não desamparasse, iriam passar o Natal na sua freguesia, no descanso da viagem. Os marinheiros, ocupados, ao momento, em remendar as velas, à proa, sobre o castelo abaulado, sorriram, por instantes, na doçura daquelas palavras, que lhes alegrava a alma, como um prenúncio suave.

E um rapaz moreno, de vinte anos mais ou menos, que estava sentado à gaiúta, as pernas cruzadas, a fronte pendida sob o boné de pala larga, afagado pelas densas madeixas escuras do seu cabelo anelado, tendo sobre os joelhos uma lousa, onde fazia o cálculo da última singradura andada, ergueu docemente os grandes olhos negros, cheios de um brilho nostálgico, fixou rápido o capitão, o timoneiro robusto, pousando-os longamente, em seguida, sobre o mar azulado. Depois, inclinando outra vez a cabeça, prosseguiu mudamente no cálculo, embranquecendo a pedra de números, que o lápis abria em bordados. Absorvido na tarefa, só se interrompia algumas vezes para folhear as tábuas náuticas. Suspirava então, de leve, como numa abafada saudade.

Levou assim muito tempo, até que o capitão, voltando da popa, onde estivera a deitar a barquinha, perguntou-lhe com a sua voz grossa e áspera:

— Então, quantas milhas andou o patacho?

— Noventa, fez ele de pronto, erguendo o rosto queimado, onde os olhos fulgiam, acesos ainda num clarão de saudade.

A face carregada do velho marujo iluminou-se então duma expansão de bondade, e sua boca alentada, de finos lábios enérgicos, descerrou-se num sorriso de júbilo, sobre os belos dentes alvos. Achegando-se da gaiúta, onde o rapaz, já de pé, pegava as Tábuas e a pedra para descer para a câmara, pousou-lhe a mão sobre o ombro, e, fitando-o muito com os seus olhos claros, raiados de sangue nos cantos pela idade e pela refração do sol no mar, disse-lhe, enternecido, num vago ar paternal:

— Assim, meu rapaz! É puxar pelo casco, é puxar pelo casco! E deixa-te lá de casórios, que tu não tens idade! A Luíza que espere. Faz-te homem, primeiro... A tua mãe, coitada, precisa de ti... Bota pra fora as tristezas! E alegra-te, que vais ainda passar com dia o Natal!...

Enleado de repente por aquelas palavras, a cabeça baixa, os olhos fisgados na tolda, o Venâncio, colhido assim no seu segredo íntimo, nem sabia o que dizer. Mas como o velho Soeiro, que ele tanto respeitava e temia pela sua severidade e rigor em viagem, lhe falasse desta vez com tanta bonomia, ousou responder vagamente, todo rubro, numa titubeação de palavras:

— Não, senhor... não, senhor... eu não penso em casar...

E desceu para a câmara, carregando os objetos, numa pressa de se libertar do aperto” em que o pusera o velho náutico. Entrou no camarote, e sob o júbilo que o tomava, naquela doce esperança de ir passar o Natal no seu arraial, abriu a caixa da roupa, sacou de dentro um pequeno registro colorido do Senhor do Bonfim, que era o padroeiro do lugar, e beijou-o longamente, pensando na mãe o na amada...

Mas um pampeiro do sul caiu inopinadamente, uma tarde, na antevéspera do dia almejado. E o navio, com o litoral já à vista, pela proa, foi obrigado a fazer-se ao mar. Desde essa hora até ao dia seguinte, ninguém a bordo parara, numa faina contínua, quando o vento começou a amainar e o patacho meteu de novo na bordada de terra. Até à tarde, porém, não se avistou a costa; e a tripulação, agastada com aquele demônio de tempo, praguejava rudemente, perdida agora a esperança de ir passar o Natal em seus lares.

O próprio capitão, de pé ao cata-vento, junto ao homem do leme, mostrava, nesse instante, o rosto carregado como numa contrariedade. No entanto, durante o vendaval, a sua larga fisionomia de leão do oceano se conservara plácida e animada, nessa serenidade incomparável de espírito e de alma, que é a superioridade do marujo ante esse temível adversário — o mar. É que o velho Soeiro tinha também esposa e filhos a quem idolatrava, e mais do que todos, a bordo, sentia o desejo insaciável de mergulhar o coração sequioso de afetos nas carícias e bênçãos do lar, onde todos os que vogam nas ondas encontram sempre um asilo remansoso e sagrado.

Num recanto da popa, entretanto, o Venâncio, a quem o velho afagara nas vésperas, junto à gaiúta alta, satisfeito e feliz por encontrar nele um discípulo digno e que não temia bater-se com as vagas, prometendo dar de si um marinheiro que o saberia honrar; num recanto da popa, o rapaz não cessava de olhar, um momento, o horizonte além, onde lhe parecia ainda ir surgir de repente, sob a névoa dourada do poente, a curva branca e saudosa do seu golfo natal. Ali ficou muito tempo, até que a sineta de bordo o despertou para o quarto.

Já então, para leste, uma cinza sutilíssima se alastrava nas águas. Descia a noite lentamente; na barra verde do ocaso, onde brilhos vagos morriam, na glória do sol que findava, um ponto fulvo pequenino, Vésper, a estrela da tarde, numa cintilação tremulante e faustosa, que convidava a amar, rolava no côncavo azul do firmamento, como uma camândula dourada.

Nas amuradas, à proa, e sobre o castelo arqueado, os marinheiros em grupo, esquecidos já do pampeiro, numa resignação invejável de almas sãs e amoráveis, que não dão nunca abrigo e guarida a ódios mas a amores e mágoas, cantavam saudosamente e em coro essas belas cantigas do sul, que sonorizam as estradas e praias alvas dos sítios pelo tempo do Natal.

Embaixo, na câmara, o capitão, vendo que não chegariam à barra senão ao outro dia, pela tarde, pois estavam ainda a mais de dois graus ao mar, abrira os mapas sobre a mesa para traçar os rumos andados e pôr o ponto na carta. Mas a saudade da família trabalhava-lhe a alma. E, às vezes, quando o canto da maruja estalava mais forte, à proa, sob o ranger surdo dos mastros, ele, subitamente enternecido, os olhos arrasados de lágrimas, erguia a cabeça leonina, branqueada pelos anos, e punha-se a olhar tristemente a luz amarela e saudosa do farolim, pendendo osciladoramente do teto, na sua manga de vidro cercada de um gradil de metal.

Em cima, ao pé do leme, sentado em frente à bússola, na gaiúta fechada, o Venâncio enlevava-se também longamente naquelas cantigas nostálgicas. Conhecia-as bem, pois a sua infância dourada havia deslizado entre elas, num embalamento de júbilo, na sua aldeia adorada. E quantas vezes as cantara, em menino, no bando alegre dos amigos, em noites assim de festa, seguindo, com a lua no céu, de presepe em presepe, os ranchos palreiros das raparigas amadas!

Assim cismava tristemente, quando o coro dos marinheiros, avante, cessou de súbito, num profundo stacato. Fez-se um momento de silêncio, em que só se ouvia o murmúrio saudoso das ondas batendo nas amuradas. Era meia noite, uma dessas meias noites soturnas e quase trágicas do mar.

Então, sob os quadrados alvos das velas nevando o espaço no alto, vozes roucas e másculas gritaram, à uma, do castelo:

— Tocar a Natal! Tocar a Natal!

E logo a sineta de bordo, em repiques vibrantíssimos, de uma consoladora alegria de alvorada de calma, cantou o nascimento divino do Menino Jesus, que docemente ecoou pelas águas, rolando ali, marchetadas de estrias de luz, sob a rede de ouro dos astros.

O capitão, num enlevo, subiu à pressa ao tombadilho, chamando os marujos à ré. E todos, num forte uníssono festivo, que arrebatava a alma, entoaram vigorosamente, na tolda, entre aquelas velas felizes dominando o oceano, este estribilho devoto de um velho hino cristão:

“Salve! ó divino Jesus!
Luz do nosso coração,
Que vieste hoje ao mundo
Para nossa salvação!

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