sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O ladrão (Conto), de Humberto de Campos


O ladrão

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Quem lê os jornais desta capital, tem a impressão de que a arte que mais tem progredido, é, no Rio de janeiro, a arte de furtar. Os feitos da gatunagem são, realmente, aqui, tão numerosos e frequentes, que se fica supondo, ao examiná-los, que os nossos gatunos são homens inteligentíssimos, capazes de ludibriar o resto da população.

O caso não é, entretanto, este. Os gatunos não progrediram, não acrescentaram uma página, sequer, ao famoso compêndio do padre Antônio Vieira. O que sucede é coisa diferente: a população ingênua, ou incauta, foi que se tornou mais incauta ou mais ingênua tornando, assim, mais fácil do que outrora, a infração do sétimo mandamento. O caso do comissário Francisco Ambrósio é, mais ou menos, uma viva demonstração dessa verdade.

Funcionário policial de uma argúcia surpreendente, Francisco Ambrósio de Oliveira era apontado em toda a parte como um legítimo espantalho da gatunagem urbana. Não havia meliante, malandro ou desordeiro que ele não conhecesse. O seu faro de perdigueiro, auxiliado por uma perspicácia digna de Sherlock Holmes, constituía, pode-se dizer, o melhor elemento de repressão de que, até hoje, dispôs a polícia.

Certa noite, porém, ao entrar, de regresso da ronda, na sua própria casa, ouviu Francisco Ambrósio, de repente, movimentos de gente estranha no pavimento superior. Cauteloso, habituado a essas experiências da própria coragem, galgou, três a três, os degraus da escada, até que observou, espantado, que o visitante noturno se havia homiziado no seu quarto de dormir. Ao abrir o compartimento sofreu, no entanto, uma decepção: a única pessoa que ali se achava era D. Luisinha, a qual, ao escancarar-se a porta, pulou, assustada, da cama, sem saber do que se tratava.

O faro policial é, felizmente, uma virtude que se manifesta contragosto, mesmo, de quem a possui. E assim foi que, sem custo, Francisco Ambrósio descobriu, impondo silêncio com o dedo indicador estirado sobre os lábios, que havia um gatuno debaixo da cama.

— O gatuno está ali debaixo! — rosnou, convicto, ao ouvido da mulher.

E em voz alta, arrancando o revólver do bolso traseiro da calça:

— Quem está aí?

D. Luisinha tremeu, pela sorte do marido.

— Quem está aí? — gritou, de novo, o comissário.

E ia perguntar pela terceira vez, quando a moça, temendo que o ladrão lhe saltasse sobre o esposo, segurou a autoridade pela manga do paletó, puxando-a para fora do quarto, ao mesmo tempo que aconselhava, amorosa:

— Deixa disso, Francisco. Ele, que não responde, é com certeza, porque não é conhecido...

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