quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O Palácio do Rei Luís (Conto), de Virgílio Várzea


O Palácio do Rei Luís

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Bela tarde de outubro, aquela em que eu, já há anos, transpunha, alegre e descuidado nas minhas habituais caminhadas, as pequenas colinas do Estreito em direção à Praia de Fora. Depois de cruzar várias trilhas e atalhos, por entre ervagens espessas e sebes de arbustos floridos, nessa península pitoresca em que assenta o Desterro pelo norte, descia lentamente a larga rua do Soeiro, correndo a cem metros do mar, sobre uma espalda curva de outeiro, e seguia, enlevado e saudoso, as velas brancas de um brigue fugindo airosas além, quando uma voz, acolhedora e amiga, inesperadamente rompeu, baixando do alto sobre mim, dentre um maciço de verdura que ficava à direita:

Olá! por aqui? Há que tempo o não vejo! Surpreendido, estaquei, procurando descobrir quem me falava numa voz não estranha, mas cuja identidade eu não podia bem conhecer ao momento. E, sem avistar ninguém, passeava embalde os olhos curiosos e ávidos pela folhagem densa, nessa parte agreste da rua em que a vegetação crescia à lei da Natureza e onde se erguia a prumo o corte áspero do terreno, à maneira de um velho muro todo coberto de musgo e lianas, entrelaçando-se em delicada urdidura verde.

A voz estalou de novo, forte e meiga:

Então, goza-se a vida e passeia-se?

E a figura esguia e alta do meu amigo Trompowsky apareceu, num talude ao lado, caminhando ao meu encontro, atacada num leve e claro costume de verão, o rosto fino e rosado, os lábios vagamente sorrindo, barbicha loura ao queixo e uma radiação carinhosa de afeto nos belos olhos glaucos.

Feito o costumado cumprimento e trocadas algumas palavras sobre o sítio que ele escolhera para passar a calma estival daqueles meses, fomos descendo vagarosamente para a Chácara Garcia, onde a Praia de Fora começa, alva e recortada, contornando a água azul com o seu crescente de areias. Palrávamos cordialmente, de tudo, parando, de momento a momento, para admirar a paisagem e o litoral esplêndido, quando, de uma vez, avistei, a pequena distância, para o lado de baixo, por sobre a cerca de espinheiros, recentemente roçada, uma espécie de alicerce em ruínas, num vasto terrapleno quadrado, aberto sobre um dorso alto de outeiro, que entrava mar a dentro como um pequeno promontório, cujo extremo findava num monte de rochas agrupadas em cabeços.

Interessado e curioso, perguntei ao meu amigo, se sabia a origem daquelas bases de construção, que tinham ficado apenas em início nesse viso de colina marítima, que era talvez o mais belo ponto paisagista da costa, revelando assim um fino gosto aristocrático de artista em quem o escolhera para nele levantar o seu ninho. E, atraído por aquilo, examinava com afã toda a sebe, em busca de uma passagem que me levasse até lá, enquanto o amável Trompowsky, fixando-me com um sorriso, ajuntava fleumaticamente a meu lado, procurando acalmar a minha curiosidade febril:

Espere, homem, eu lhe explico. Aquilo tem uma história interessante. Não é preciso romper assim tão loucamente os espinhos! Olhe, ali está um atalho que lá vai ter direitinho.

E mostrava-me, adiante, uma curva reentrante da cerca, onde havia uma porteira.

Era já no suave, verdejante pendor arborizado da Chácara Garcia. A rua perdia-se aí sob as frondes amplas e altas das nogueiras e dos camboins, estendendo-se sinuosamente para longe, mosqueada aqui e além pela alvura das casas, surgindo entre moitas tremulantes de bambuais verdíssimos.

Apressando o passo, transpusemos a cancela, e, em pouco, pela fita rubra da vereda que se torcia em meio a grama, chegamos ao terrapleno que se via do caminho. Este lugar aprazível, fechado do lado de fora pelo semicírculo de rochas erguendo-se em recorte cinzento, era totalmente descampado e coberto de ervas rasteiras, formando justamente a ponta sul do crescente em que se talhava a baía. Daí o panorama litoral se desenrolava aos meus olhos num relevo impressionista.

A essa hora, o sol ia caindo lentamente por trás da linha ondulosa dos cerros das Tijuquinhas. Toda a costa do continente e da ilha desenhava-se nitidamente, a uma e outra banda do golfo, nas rendas alvas das praias curvas, na tumidez verde dos outeiros viçosos e no declive majestoso de espaldas esmeraldinas. As casas da Praia de Fora, pousadas à beira d’água, a frontaria batida do sol, num côncavo de areias límpidas, fulguravam pela vidraçaria radiante num incêndio purpurino. À direita era a ponta do Recife, Cacupé, Santo Antônio, Sambaqui, o Rapa e o Arvoredo, com os seus topos solientes de ervagens, perdiam-se além pelo mar, sob um véu de ouro sutil. À esquerda a brancura dos arraiais e freguesias marítimas, espiando do alto dos cabos, ou sobre a encosta dos montes, as velas claras que singram. E no estofo infindo da vaga, malhado de frisos de espuma, a tumidez graciosa de pequenas ilhas, boiando, como cabazes floridos, sobre a planura infinita.

Depois de olharmos um instante o ocaso admirável, entrei a examinar detidamente o vasto terrapleno quadrado, onde se erguiam os alicerces de pedra, que mostravam, em certos pontos, fendas e desmoronamentos, cobertos já pelas ervas, dourando sempre as ruínas de uma eterna primavera. E calculava, admirado, as proporções ciclópicas que não viria a ter o edifício ali projetado, se fosse levado a efeito quando o meu amigo, convidando-me a sentar ao pé dele, sobre umas pedras altas, começou a narrar a história daquelas ruínas, que, segundo me disse, eram de construção recente, pois vira ele preparar-se o terreno para os primeiros trabalhos.

O rei da Baviera, Ludovico II, que era um verdadeiro doido (o Trompowsky, com o seu espírito equilibrado e terra a terra de homem prático, posto que inteligente, não admitia paixões artísticas, fantasias, idealidades), tivera a ideia, uma ocasião, de mandar à América, por sua conta, o seu secretário particular, com o fim único de escolher um sítio para a edificação de um palácio que ele viria habitar, um dia, quando cansasse de reinar (o Trompowsky acentuava este cansasse com um riso irônico e cáustico). O homem recebera para essa comissão instruções especiais, entre as quais figurava a condição principal da aprazibilidade e encanto do lugar, seguindo-se, na hipótese da escolha, a remessa para Munique de fotografias, plantas e quadros. O primeiro país onde aportara fora os Estados Unidos, seguindo-se a Nova Bretanha ou Canadá, o México, todas as Repúblicas da América Central e as Antilhas. Depois descera pela Colômbia, Venezuela, as Guianas até o Oiapoque, atravessando pelo interior para o Equador, o Peru, a Bolívia, o Chile, a Argentina, o Uruguai, o Paraguai e o Brasil, que correu desde o Rio Grande do Sul, cortando pelos Estados do centro, até ao Amazonas, tomando após o litoral e visitando tudo até Santa Catarina, onde parara alguns meses em contínuas excursões pelas colônias alemãs, desde Angelina a São Pedro de Alcântara, no sul, a Joinville, Brusque e Blumenau no norte. Por fim, chegara ao Desterro... E tinha sido aquele alto de colina, acabando pitorescamente num cabo sobre o mar azulado, no meio de uma paisagem deliciosa e das mais originais do mundo, o local escolhido pelo emissário do rei Ludovico para o seu novo palácio. Tiradas vastas e numerosas fotografias, arranjados mapas e planos minuciosos de toda a ordem, e remetidos para a Baviera — um ano depois voltavam, com a aprovação soberana, em cópias nítidas e exatas, às mãos do solícito mordomo imperial, ao mesmo tempo que chegava uma turma de arquitetos, pintores, decoradores, estofadores, carpinteiros e pedreiros bávaros para as obras do grande castelo ideal...

Eu ouvia tudo isto, que me parecia quase inverossímil e fantástico, numa arrebatação íntima, gozando mais fundamente então, na minha nevrose patológica de artista, a irresistível simpatia desde muito votada a esse rei encantador, estranho esteta coroado que o mundo já vira um dia. E as suas grandes coleções artísticas, de uma riqueza “feita para desorientar a gente”, como disse Oliveira Martins, composta do célebre lustre que a fábrica de Meissen levou quatro anos a fazer, de uma toalete de Saxe que jamais alguém possuíra igual, de um leito todo incrustado de ouro e de uma colcha da China que era uma maravilha, bailavam-me na ideia num torvelinho rutilante de pedrarias e coisas preciosas e raras. Pensava nos seus palácios da Baviera “que eram de fadas, nos recessos mais agrestes das montanhas, sobre píncaros inacessíveis, ou em ilhas banhadas pelas águas dos lagos alpestres”. Via, claramente via pela imaginação superexcitada, a sua figura loura e colossal, “de noite, ao luar, na sua barca, fazendo de Cisne — o cisne da lenda, o Lohengrin da fantasia germânica!” E encantava-me, sobretudo, a paixão extraordinária e mental que ele tivera por Wagner, dando-lhe especialmente um teatro para as óperas geniais e construindo-lhe outro em Beyruth, sob a única condição, como diz ainda o egrégio pensador português, de “ir ouvir, sozinho, às escuras, a Tetralogia épica em que os seus sonhos tomavam realidade, e em que o mundo lhe parecia um só, o da cena e o dos homens, o das visões e o dos fatos, interpretados em sinfonias de uma alucinação atroadora...

Mas o Trompowsky prosseguia:

Mal as obras começaram, o rei Ludovico, consumido pelas dívidas e dado por doido pelos médicos, deixara o trono da Baviera, sendo aclamado, em seu lugar um irmão — outro doido! O emissário, que dirigia os trabalhos, suspendeu tudo, e, reunindo toda a gente, partiu... Daí a meses chegava ao Brasil a notícia trágica de que o pobre Ludovico II, uma manhã do ano de 86, por um junho azul e suave, em Munique, andando a passear pelas margens floridas do Sternberg, atirara-se ao lago onde perecera afogado.

O Trompowsky calara-se um instante; depois, pousando os olhos no mar, que se ensombrava já lentamente à última claridade do ocaso, concluiu:

Aqui tem, meu amigo, a história verdadeira, mas que poucos conhecem, destes alicerces carcomidos que tanto o impressionaram.

E, levantando-se, desceu para o recorte de rochas onde o cabo findava.

Eu, sentado ainda sobre aquelas ruínas, embevecido com o que ele narrara, numa impressão extraordinária, olhando vagamente as primeiras estrelas que radiavam a leste com uma luz eteral, evocava intimamente, no espírito, o verdadeiro perfil desse bávaro inefável, que, rei e artista, só vivera para a Fantasia e para a Arte, figura impressionante e olímpica, que eu vira, uma vez, havia anos, num belo quadro alemão em Joinville, no grande palacete do príncipe deste nome: um rapaz de trinta anos, fronte ampla e expressiva, cabelos de ouro anelados e uns olhos rasgados e vagos, de um azul de faiança, voltados sonambulamente para o céu, como os de um místico ou de um iluminado.

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