terça-feira, 28 de novembro de 2017

O pescador Urashima (Conto), de Wenceslau de Moraes


O pescador Urashima
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Viveu em remotos tempos, num lugarejo da costa do Japão, Urashima, um moço pescador. Deste simples, pouco ia tagarelando a vizinhança: — que tinha um coração propenso ao bem, e que em destreza ninguém o igualava, tratando-se de artes de linhas e de anzóis; — nada mais, mas já não era pequeno o elogio.
Ora, um belo dia, saiu ele a pescar, sozinho no seu barco. E que pescou Urashima dessa feita? Oh! a sorte sorria-lhe em tal hora... pescou uma enorme tartaruga, com a casca espessa e dura, a cabecita rugosa, denunciando assim a grande vetustez; é notório que as tartarugas vivem muito; vivem mil anos, no Japão.
Era um opíparo jantar que o acaso oferecia ao pobre pescador, pouco mimoso de acepipes; jantar, ceia e almoço, e mais ainda, fora os lucros que a casca lhe trouxesse; mas o moço pôs-se a cismar na crueldade que ia cometer, roubando assim talvez longos séculos de vida àquele bruto, fadado pela sorte ao gozo da existência, durante gerações e gerações da tribo humana; e lembrou-se da mãe, da santa velha que tantas vezes lhe ensinava a ser caritativo com os brutos indefesos... É certo que as mãos abandonaram a presa, num largo gesto de bondade; e a tartaruga, volvendo à água sem se fazer rogada, lépida mergulhou no azul e se safou das vistas.
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Fazia então tanto calor!... Era um desses dias abrasadores de Agosto, embebidos de paz, de luz, de tórpidos eflúvios. Além, a aldeia quedava-se na sesta, amodorrava, jazia em aniquilamento absoluto; apenas, sobre as árvores, cantavam as cigarras, doidas de cio, estonteadas... Interrompera-se nos campos a faina da lavoura; nas choças escancaradas, patenteavam-se os corpos nus, estendidos em repouso, adormecidos, banhados em suor. E Urashima, no seu barco, vencido também pelos ardores daquela hora, largou das mãos os remos e as linhas, encostou-se à bancada e adormeceu.
No entretanto, eis que surge das águas um vulto feminino, encantador. O episódio, que a tradição do povo foi retendo até aos nossos dias, pode agora reconstituir-se em pensamento. Sobre o convés do esquife, pousa esse vulto, essa fada adorável de feitiços, envolta em roupas carmesins, solto o cabelo às brisas e coroada a fronte com o diadema de ouro, que é apanágio das princesas; estende o braço de neve para o adormecido, toca-lhe na fronte com as pontas dos dedos delicados, e diz-lhe de manso estas palavras: — “Acorda, Urashima, escuta-me; eu vou contar-te quem eu sou; sou a filha do deus do oceano imenso, habito com meu pai o palácio do dragão, no seio das ondas; a tartaruga, que ainda há pouco colheste e restituíste à liberdade, era eu própria; meu pai impôs-me um tal disfarce, para que assim pudesse estudar-te bem os sentimentos; por sua ordem e meu aprazimento pessoal, serei a tua esposa, se me queres; mil anos viveremos sempre juntos, sempre jovens, sempre felizes, no palácio do dragão, sob o azul das águas...”
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Lá seguem os dois pelo mar fora. Urashima empunha a esparrela da popa, maneja-a com denodo, dá-lhe — pudera não! — forças hercúleas a ânsia de chegar; a princesa pousa no outro remo as mãos franzinas, e vai sorrindo ao companheiro. E vão remando, e vão remando, sem que a fadiga os aquebrante, até que finalmente o barco alcança o porto desejado, e já de longe o palácio se desenha, em arcarias, em grimpas, em mirantes recortados.
Que encanto! que prodígio! nem mesmo a fantasia ousara imaginar tantos primores!... As paredes do palácio são de renda de coral; as árvores do jardim têm por folhas, esmeraldas, e frutificam em pérolas e rubis; as escamas dos peixes são de prata, os olhos de diamantes, as caudas dos dragões, de ouro lavrado...
Então, toda a bicharia do oceano acode à praia, vestindo kimonos de cerimônia, e vem saudar os noivos viajantes. Após os cumprimentos e os discursos laudatórios que prescreve a etiqueta em casos tais, a princesa, seguida do cortejo, entra em palácio; gorazes e toninhas seguram-lhe a cauda do vestido; pousa nas fofas esteiras, de uma meticulosa limpeza indescritível, as plantas alvas dos seus pezinhos deliciosos; descansa num salão que mais lhe apraz, pela delícia dos adornos e pela paisagem que se avista, e a seu lado oferece um lugar ao companheiro. As tartarugas, os peixes, as lagostas, os dragões, a turba enfim dos escravos jubilosos, corre a prostrar-se em frente da princesa; e de joelhos, barbatanas erguidas em ofertório, começa servindo em taças preciosas o branco arroz cozido, os licores, os frutos, os manjares.
Urashima extasia-se diante do que é seu, bem seu, pois que é de sua esposa. Durante três anos assim vivem, sempre juntos, sempre felizes, sem enfados, sem nuvens de tristeza no céu dos seus amores; ora na paz da esteira, no enlevo das mãos que se entrelaçam, dos olhos úmidos que se fitam, das palavras em segredo que se trocam, das almas enamoradas que se dão; ora perscrutando os mistérios do oceano, em excursões pachorrentas pelas florestas das algas viajantes, por onde a vida aquática, de plantas, de animais, se multiplica em maravilhas que a ninguém é dado conhecer; ora em longos passeios pelos jardins, onde as árvores não cessam de vestir-se de ramos de esmeraldas, vergando ao pendor das pérolas e rubis.
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Três anos decorridos. Um dia porém Urashima acerca-se da esposa e diz-lhe pouco mais ou menos o seguinte: — que a adora e se sente ditoso, mas cresce-lhe o desejo de ir ver a sua aldeia, o velho pai, a doce mãe, os irmãos, os antigos companheiros de trabalho; e promete voltar após curta visita. — Então, pela primeira vez sem dúvida, uma ligeira nuvem de tristeza, um vago pressentimento angustioso, turvaram o olhar sereno da princesa. — “Vai, diz-lhe; vai, Urashima, porque assim o desejas, embora bem me pese, pois imagino que vais expor-te a grandes riscos; leva contigo este pequeno cofre, que alguma coisa contém que te pertence; sirva-te ele de lembrança de quem muito te quer; mas nunca o abrirás, pois se o fizesses, estarias perdido, e nunca mais voltarias a esta mansão do nosso amor...”
E partiu, e abordou o solo pátrio...
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O que quer que era de bem estranho se passara durante a ausência de Urashima. Aonde estava a sua aldeia? aonde se erguia a cabana de seus pais? A mesma praia loira, os mesmos penedos carcomidos, os mesmos cerros sobrepondo-se, ali lhe apareciam, bem tais como os deixara, na fria impassibilidade das coisas imutáveis; mas os povoados ofereciam outro aspeto, os campos outro amanho; mas as árvores, que lhe haviam dado abrigo e sombra, e de que tão bem se recordava, erguiam apenas troncos secos, algumas, porque outras já nem mesmo existiam, e outras árvores medravam noutros sítios, projetando outras sombras, frutificando em outros frutos. Aonde fora a sua aldeia, surgia agora um pinheiral. Reconheceu o mesmo arroio, que serpeava junto ao lar; e ainda agora a água cristalina ia correndo, e sussurrante, como dantes; mas agora deserto, faltando o grupo galhofeiro das musumés que tinham por costume ir ali lavar a roupa, entre elas as suas três irmãs, kimonos arregaçados, pernas nuas, braços nus, lidando, palestrando e rindo umas com as outras.
Ao longo do areal iam então seguindo dois sujeitos. Urashima alcança-os e interpela-os: — “Bons dias; fazem favor de me dizer onde é agora a casa da família de Urashima?” — Pensaram, consultaram-se, coçaram a cabeça, buscando recordar-se. — “Urashima, Urashima... Urashima, o pescador? tem graça tal pergunta: há já quatrocentos anos pelo menos, como contam, se afogou ele quando pescava no seu barco, pois nunca mais apareceu; o seu pai, a sua mãe, os seus irmãos, os filhos dos seus irmãos, dormem todos além no cemitério, há muito tempo; a cabana que procura, apodreceu antes de nossos avós serem nascidos, nem o pó dela sequer existe por aqui...”
Então, como um relâmpago que acode subitamente pela noite, a iluminar a estrada, uma ideia acudiu de súbito ao pensamento de Urashima, a alumiar-lhe o espírito. Ele ali estava, volvido à pátria, pousando os pés descalços no areal da sua querida aldeia, relanceando as curvas da paisagem em que por tantos anos a vista se pousara, e a recordação lhe gravara para sempre na memória. O palácio do deus do mar, no abismo das ondas, com as suas paredes de renda de coral, com os seus pomares de folhas de esmeraldas e frutos de pérolas e rubis, e os seus peixes de escamas prateadas e olhos de brilhantes, e os seus dragões de caudas de ouro fino, não pertencia à terra, era do mundo dos prodígios, regia-se pelas leis do encantamento; um dia, dos seus dias, valia por muitos anos, dos nossos anos; e assim, sem que Urashima o supusesse, séculos sobre séculos haviam passado sobre a terra, matando, destruindo, transformando, arrastando as coisas e os indivíduos à fatalidade dos destinos, ao aniquilamento, ao pó, ao nada, surgindo das ruínas outros aspetos e outros seres...
***
O antigo pescador sentiu o calafrio da sua soledade; e o disparate anacrônico da situação em que se via, incutiu-lhe no ânimo não sei que horrível opressão de angústia e de pavor. Pátria? sim, a mesma areia inerte e os mesmos monstros de granito; mais nada. Aldeia, amigos, aspetos familiares da sua mocidade, nada havia; outras aldeias, outros aspetos, outra gente, e para esta o nome de Urashima entrava já na lenda. Em nada o cativava aquela terra. O anseio de fugir, de volver ao esplendor do seu palácio, acudiu-lhe então, dominador; e a imagem das mil graças da princesa multiplicava-lhe o desejo de abandonar para sempre o solo onde nascera. Lançou um olhar de adeus ao cemitério, esse no mesmo pouso ainda, mas mais vasto e mais povoado de fregueses; e ia partir, deixar em paz a aldeia morta...
Antes porém lembrou-se de abrir o cofre que recebera da princesa. Por quê? Talvez leviandade, talvez mofino sestro, que tantas vezes guia o homem a seguir pelo caminho proibido... Do cofre aberto, que continha nada menos do que a essência dos longos anos corridos, e ao mesmo tempo descontados na existência de Urashima, escapou-se e pairou no espaço uma ligeira nuvem esbranquiçada. Chamado à razão, ao sentimento da desobediência em que incorrera, e ao medo de um desastre, Urashima correu sobre essa nuvem, desvairado, e bradou-lhe que parasse. Era tarde. De pronto, as próprias forças lhe faltaram, e a voz se lhe extinguiu; a nuvem envolvia-o; a nuvem transportava-o ao seu justo lugar nas páginas do tempo, fazia-o galgar de um pulo a grande barreira que o afastava dos seus contemporâneos; as leis da terra tinham pressa em corrigir erro tamanho... Repentinamente, os cabelos, a barba, branquejaram como linho, sulcou-se o rosto em rugas, estalou a pele do corpo, os ossos romperam para fora, as costas dobraram-se num arco, viu-se como um macróbio não sei quantas vezes secular, como um esqueleto em férias, fugido do sepulcro, faltou-lhe o ar, faltou-lhe a luz, morreu, caiu, desfez-se em pó, desfez-se em nada...

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