terça-feira, 28 de novembro de 2017

O poeta moribundo (Conto), de Almachio Diniz


O poeta moribundo
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Luxuoso salão de recepções: por entre cavaletes com quadros de fina pintura, em que aparecem, de par com estrangeiros, o gosto de Parreira e a vocação de Presciliano, vasos com flores, e, no meio das tapeçarias, dos “fauteils” e das luzes, um majestoso piano Ritter.
Heloísa acabou de executar, com todo o aplauso do maestro Christovam Detmer, a linda fantasia — “Le poète mourant” — de Gotschalk.
As últimas notas perderam-se artisticamente: o maestro cheio de admiração e preso da infinita tristeza, dobrou-se e beijou os dedos que obedeciam à grande inspiração de Heloísa.
Esta olhou-o e transfigurou-se como uma alma reflexamente combalida pela dor de uma alma irmã...
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— Como esse poeta, Heloísa, que o grande músico fez morrer nas notas bemolizadas do piano, finou-se hoje o nosso amor... Enquanto executavas e os teus dedos arrancavam da alma do instrumento piedoso os sons do passional poema lírico, me concentrei e te afirmo que a visão não desprezou a audição, pois vi e ouvi toda a cena, desenvolvida entre personagens vivas, que se moviam, se socorriam e testemunhavam o desfalecimento do artista moribundo. Durante minutos que serão inigualáveis na minha existência de músico, aqui estive ao teu lado, frio como uma estátua, hermético como uma esfinge, e não denunciei, pela ruga menor de meu semblante, a dor imperiosa que me enervava a existência. Vim do gabinete privado de tua mãe, que se transformou pacificamente no Satã de nossa felicidade. Falei-lhe ardoroso, como se lhe dissesse uma ária de Beethoven, contei-lhe minucioso e preciso a longa história de nosso amor. Vejo, agora, que, por vezes, fui minudente demais, rememorando o platonismo inédito com que te amei a alma de artista e não o corpo de mulher. Ao depois de ouvi-la, vim inspirar-me para o sacrifício no teu talento. E saio de tua presença iluminado como o prescrito que recebeu o bálsamo do conselho cristão para subir em seguida ao patíbulo. Dá-me, pois, o conforto de tua confidência última: amaste-me alguma vez?
— Que pergunta, Christovam.
— Indiscreta?
— Não; ao contrário. Amesquinhante...
— Estranho-te.
— Não há razão. Porventura pensarás que te amei e não te amo agora? Acaso a minha mão de mulher para te ser dada dependerá de alguma coisa irredutível diante de minha vontade altiva?
— Sinto-me lisonjeado, de fato, com a tua Constância, Heloísa. A cor dourada dos teus cabelos que te faz distinta entre as cabeças belas de todas as mulheres, neste instante, afigura-se-me a grinalda de luz com que se enfeitam as santas nos seus altares. Mas, um maestro, um homem que sabe música simplesmente, que é apenas um artista, é pequenino demais para ter uma pretensão de amor. Eu me pareço com esta figura lendária de Kadjira que destruía as rosas por prazer. No reinado das fantasias de ouro e de fidalguia com que se entontecem os teus pais em sonhos egoístas, cheguei, como a perversa princesa turca que despetalava rosas, derrocando castelos, para me conter na ilusão em que me deleitava somente com a audiência da negativa inclemente de tua mãe. Confessou-me que maldava de todo o nosso amor, desde princípio. E por que, se assim era, protegia a ampliação de um sentimento que deveria ser, como os filhos defeituosos das ciganas que são atirados às piranhas, destruído no nascedouro? Antes que eu lhe comunicasse, falou-me em que se correspondias aos meus cálculos de matrimônio, era porque, doidivana como toda criança, jogavas a pela na orla do precipício, esperando o aviso amigo para te retirares gloriosamente... Negarás, Heloísa, que tinhas consciência de minha pretensão? Sofismarás, em favor da excomunhão que me lançou a tua mãe, e contra a clareza da ordem que me deste a fim de se oficializarem as relações do afeto, que nos encaminhava de um ilusório paraíso? Responde com o talento imensurável com que sempre me amaste...
— Falas desatinadamente, Christovam, numa contingência em que deverias possuir o maior tino dos homens.
— Tens o dom solar de iluminar o mundo pelos flancos, se uma nuvem pesada se antepõe à sua esfera...
— Sinto-me transfigurada. Amo-te ainda, e não te hei de amar fora do regozijo deles...
— Dos teus pais?
— Sim. Acharias estranho se te dissessem que duas sementes postas em tuas mãos estariam vegetais só ao sopro de um faquir indiano. Por que admitirias que a minha vontade fosse forte bastante para romper a marcha das intenções dos meus pais sobre a minha razão de ser mulher? Porventura sem o sopro do faquir as sementes germinariam e atingiriam as formas de seres definitivos? Não suporás que, sem aquele sopro, algo se realizasse. Como supores que sem a vontade dos meus maiores a nossa união se perpetraria ao teu sabor?
— Desconheço-te já...
— Mas, porque...
— O sofisma substitui a tua lógica: o amor cedeu o posto à quizília dos outros...
— Esperarias o meu consórcio sem o consenso dos que me deram a existência de mulher?
— Nem sei de mim mesmo que te responda...
— Não poderias esperar. Se eu fosse livre, se a lagarta para ser papílio não carecesse de passar por ser crisálida, nem eu te mandaria impetrar a sanção que nos faltou, nem os que nô-la negaram teriam razões para tal fazer. Aborrece-te o trovão? amedronta-te o corisco? Queres ver-te livre deles? Crê num Deus e pede-lhe a extinção... Infelizmente, Christovam, nem o trovão se extinguiria, nem o teu querer triunfaria... De um lado, Deus seria impotente para te dar o que pedisses porque não terias o direito de pedir... Só pede quem pode pedir; se se pede é porque de quem dá depende o pedido; e se o pedido não é dado, procura a causa na insuficiência e na sem-razão de quem pediu...
— Mas...
— Nada adianta, Christovam. Corresponde ao meu inquérito e nega-me, se conservares a razão, que tenho o bom senso desejável às criaturas perfeitas. Queres responder-me?
— Nada significará o que te responda.
— É preciso que sejas categórico.
— Pois sim: responder-te-ei.
— Poderias tomar-me como tua esposa sem, obteres a minha vontade?
— Por certo que não.
— De minha parte a questão é outra: teria eu o direito de responder por mim num caso expresso de matrimônio? poderia ser único o meu querer?
— Se quisesses, sim.
— Não é assim, não. Por que não me tomarias por mulher sem o meu assentimento? Por impoderoso diante de minha definição adversa. Porque não me daria eu por esposa sem o consentimento dos meus pais? Por impoderosa diante da pronuncia deles. Se tu pudesses alcançar de mim o amor sem vontade, desnecessário seria impetrares-ma; se eu dispusesse de meu corpo sem a intervenção dos que mo formaram do nada em matéria e em alma, nem cogitaria de enviar-te a eles...
— É um dilema sofístico.
— Por que princípio, não sei.
— Um dia, quando eu te disse que me abrasava na sede do teu amor, Heloísa, como correspondeste a esse lapso do meu instinto?
— Do modo mais franco.
— Sim... Dando-me apaixonadamente os teus lábios para neles, como eu quisesse, matar a sede que alegava...
— Dependia de mim. Dei-te.
— De outra vez pedi-te um testemunho da correspondência de tua paixão. Negaste-mo?
— Não poderia negar.
— Exatamente. Levaste-me, com todo o carinho, a destra ao colo, e, na grandeza das iteradas pulsações cordiais, afirmaste que eu reconheceria a intensidade do teu sentimento...
— Dependia de mim. Pratiquei.
— Por fim, quando te acenei com o plano de nossa união...
— Como te respondi, Christovam?
— Com a primeira negaça.
— Adúlteras a minha intenção: cumpri o meu dever, enviando-te à mamã, como o caminho propício para vencer o papá.
— Realmente, Heloísa. Sou um vencido.
— Garanto-te, porém, Christovam, que te amo, ainda, como te amei...
— Irresistível tormento para mim: serei eternamente o artista obrigado a consumar uma grande obra musical sem a inspiração para a realidade do dever...
— Desistes, então, do teu amor?
— Razões me sobejam...
— Que te disse, afinal, a mamã?
— Isso mesmo. Falou-me em que queria um marido para a sua filha e lembrou-me que um musicista não compõe sem ter inspiração...
— Nada demais, Christovam!
— Talvez não queiras compreendê-la... Mas é tudo que se pode alegar contra um homem...
***
 E, louco pela música, inconsciente quase, Christovam Detmer assentou-se ao piano e executou, irreproduzivelmente, a esquisita criação de Gotschalk, ao depois do que, cerimoniosamente, se despediu de Heloísa...

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