sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O prêmio (Conto), de Humberto de Campos


O prêmio

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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A palestra, naquela mesa tão seleta, versava um assunto delicadíssimo: o direito, que tem o esposo, de exigir da mulher a mais acentuada obediência, e a prerrogativa, que esta pode ter, de usar, ou de abusar, da liberdade que lhe seja concedida.

— Ninguém — afirmava D. Consuelo Mendes, com o sangue no rosto, — ninguém, no Rio, é mais exigente consigo mesma, do que eu. Ninguém me vê em bailes, em festas, em piqueniques, em divertimentos mais ou menos comprometedores. Vivo para minha casa, para meu marido, para os meus filhos. Acho, porém, que a mulher que assim procede, tem o direito de, uma vez por outra, desforrar-se, lançando mão da sua liberdade, distraindo-se, divertindo-se, procurando, por suas mãos, o prêmio do seu cativeiro.

E como percebesse a estranheza causada pelas suas palavras, retificou, esclarecendo:

— Eu, por exemplo. Eu vivo para o meu lar. Não saio, não faço visitas, não veraneio em Petrópolis, não faço estação em Poços de Caldas. No Carnaval, porém, pago-me de tudo isso: danço, folgo, divirto-me a valer!

Foi por essa altura, mais ou menos, que o desembargador Abelardo de Barros interveio, abrindo, com elegância, a sua cigarreira de ouro, polvilhada de brilhantes:

— Vossa excelência faz, então, D. Consuelo, como aquele honesto beberrão, de que me falava, ontem, o Alfredo Pinto, na casa de Saúde do Poggi.

A moça franziu a testa, desconfiada, e o magistrado contou:

— Certo boêmio, habituado a entrar em casa depois de uma peregrinação sistemática por todas as casas de bebidas, resolveu, um dia, corrigir-se. Era preciso energia para não regressar aos tombos, e ele havia de tê-la, dali em diante. Tomada essa resolução, saiu para a rua, e passou, sem entrar, pela frente do primeiro botequim. Satisfeito com a vitória, passou pelo segundo, pelo terceiro, pelo quarto, pelo quinto, e, assim por vários outros, resistindo à tentação. À noite, à hora de recolher, tomou o caminho do lar, quando se pôs a pensar, de si para si: "Sim, senhor! Nunca pensei, seu Fernandes, nunca pensei que você tivesse tamanha força de vontade!" Deu mais alguns passos, e insistiu: "Você merece um prêmio. Vou lhe pagar um whisky!" E entrou no botequim, chegando em casa, nessa noite, tão bêbado como na véspera!

As senhoras entreolharam-se e Dona Consuelo interpelou-o, vermelha.

— Isso não tem nada com o meu caso; tem?

— Absolutamente, nada, D. Consuelo! acudiu o desembargador, vascolejando a cabeça: — absolutamente nada.

E mergulhou o nariz no chá.

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