quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Obediência (Conto), de Humberto de Campos


Obediência

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Mal saída do colégio, para onde entrara ainda criança, isto é, desde que o pai, o Comendador Anacleto, enviuvara, foi a encantadora Maria Lúcia residir no palacete recentemente alugado pelo velho capitalista em uma das ruas menos movimentadas de Botafogo. Deslumbrada com a liberdade conquistada à força de estudo, de uma aplicação que lhe granjeara o primeiro lugar na sua turma, apenas uma coisa a desgostou: foi a recomendação que lhe fez o pai, severo e prudente:

— Olha, minha filha; esta casa é tua; governa-a como se fosses a dona. Uma coisa, apenas, eu te peço: vive isolada, sem relações de amizade, e nunca, em hipótese alguma, incomodes os vizinhos.

E beijando-lhe a testa clara, coroada por uns lindos cabelos castanhos:

— Muito juizinho; ouviu?

Duas semanas não se tinham passado sobre a libertação de Maria Lúcia, quando uma quadrilha de ladrões, vendo, uma tarde, sair as criadas, que a jovem patroa indultara naquele dia, resolveu assaltar, pulando o muro dos fundos, o palacete do Comendador. Descalços, em mangas de camisa, chapéu em cima dos olhos, os miseráveis penetraram na casa e, desrespeitando a fraqueza da moça, praticaram toda a sorte de depredações, esvaziando as gavetas, arrombando os cofres de joias, carregando, enfim, com todas as coisas de valor que havia na residência do honrado capitalista.

À noite, ao abrir a porta, de regresso ao lar, o Comendador teve um pressentimento triste, ao ver a casa às escuras. Abertas, porém, as lâmpadas, recuou, horrorizado, para, em seguida, precipitar-se, de compartimento em compartimento, chamando, aflito, pela menina:

— Maria Lúcia? Maria Lúcia? Onde estás, minha filha?

No último quarto da casa, esperava-o uma surpresa maior: sentada no leito, desgrenhada pálida, com as vestes em desalinho, Maria Lúcia chorava, com a cabeça nas mãos.

— Minha filha da minh'alma! — gemeu o velho, atirando-se para ela. — Que foi isso?

— Os ladrões!... — explicou a moça, num gemido.

E enxugando os olhos;

— Levaram tudo: as roupas, as joias, a louça, tudo, enfim. Depois...

— Depois?... — rugiu o velho, com os olhos esbugalhados.

— Desgraçaram-me!... — concluiu a moça, prorrompendo em soluços.

— Desgraçaram-te?... — gritou o velho, de dentes e punhos cerrados, com um rugido soturno, cavo, de fera atingida no coração.

E após um instante de silêncio desesperado:

— E como foi? Amarraram-te?

— Não, senhor.

— Subjugaram-te?

— Não, senhor.

— Taparam-te a boca?

— Não, senhor.

— E por que não gritaste? — berrou o ancião, parando, de súbito, no meio do quarto.

E a moça, levantando para ele, num soluço, os lindos olhos machucados de lágrimas:

— Papai não disse que eu não incomodasse os vizinhos?

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