sábado, 25 de novembro de 2017

Os Negros (Conto), de Lima Barreto


Os Negros
(Esboço de uma peça)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Segundo, ou antes, trilhando
Maurice Maeterlinck.

.................. a dor poreja,
Quando o chicote do simum dardeja
O teu braço eternal.
Castro Alves
  
PERSONAGENS:
Um velho negro
Primeiro negro
Segundo negro
Terceiro negro
Uma negra com um filho ao colo
Outra negra mais moça.

CENA NOS TEMPOS DA ESCRAVIDÃO
No recanto de um penhasco abrupto, aberto como uma concha de mão, para o mar infinito, acocorados e sentados, há um grupo de negros. Quase todos olham o augusto mar translúcido, cujas vagas alçam-se em curvas voluptuosas e quebram-se na praia, espadanando em espuma clara. A sucessão das ondas acaba por parecer uma única, enorme, contínua, a se transbordar da direita para a esquerda, beijando a areia e fazendo tilintar os seixos e as conchas. À esquerda e à direita, pontas de rocha negra, requeimada e nua de vegetação, avançam para o mar, caindo a prumo sobre as águas, interrompendo a praia durante muitos metros e fechando o caminho para os lados. Às costas, o forte declive do penhasco chapa-se repentinamente; e, embaixo, à flor do solo, na anfractuosidade do monolito, abre-se uma cavidade escura, vagamente perceptível por entre as frinchas das árvores que a tampam.

Ergue-se a penedia, alta, escarpada, balizada de coqueiros; e, como um traço de giz, ondula por ela acima, cheio de precipícios e perigos, um estreito caminho vigiado de um e outro lado pela Morte. Um NEGRO VELHO, barbado, de barbas brancas, tendo o lanhudo cabelo branco emaranhado como algodão em pasta, está sentado sobre um pedaço de rocha. De quando em quando, levanta o olhar para a linha distante onde o mar se confunde com o céu num esbatido de flocos de nuvens. Mal se lhe sente viver. Os olhos estão parados nas órbitas; não há neles nem amor, nem ódio, nem esperança, nem temor. Movendo-os, fica rígido; é como se fosse uma tosca escultura talhada na adusta rocha em que se senta.

Os negros estão ao seu lado, de um e outro, e, rasando com o olhar a praia, olham enigmaticamente o mar. Uma negra tem o filhinho ao colo, dormindo. Os traços grosseiros da criança, no sono, se adelgaçam, afinam-se e acabam por emanar a misteriosa beleza da ingenuidade, da inocência.

Ao mugir das vagas, ao tilintar dos seixos na praia, juntam-se o frêmito da floresta e o pio nostálgico das aves. No silêncio, tudo é ruído confuso, ininteligível; e, de longe em longe, um canto estrídulo rebenta como marcos naquela triste viagem pelo Sonho. Os anuns pintalgam de negro, esvoaçando, o costão verde da penedia. Já não se vê mais o sol; sumiu-se de há muito por detrás do alto penedo.

É boca da noite. Em breve ela cai seguida de segunda cúpula negra de tempestade, que se ergue vagamente dos cumes garfados do Norte.

PRIMEIRO NEGRO
Não há mais mariscos; a areia está vazia.

SEGUNDO NEGRO
A areia está vazia! E a rocha, não tem ostras?

PRIMEIRO NEGRO
A rocha não tem mais nada. (Silêncio) Eles virão?

TERCEIRO NEGRO
Virão, sim. Custarão; procurarão aqui, ali, e hão de nos achar.

NEGRA VELHA

’Stamos muito longe da fazenda?

SEGUNDO NEGRO
Muito, pois quase andamos quatro dias pelos matos.

(A brisa começa a soprar)

NEGRA MOÇA
Quantos espinhos há pelo mato! E os cipós? Não dávamos dez passos que não caíssemos. Andávamos como numa casa às escuras... A todo instante batíamos nas paredes... E as cobras! Pisei numa jararaca, parecia gelo... Era fria, macia... Foi Deus que me salvou. De noite, havia fogo, luzes, sombras no mato. Experimentávamos as árvores, descansávamos. Pássaros chamejantes passavam junto a nós...

NEGRO VELHO
As cobras são boas. Só mordem a quem as persegue. Sei falar com as cobras. E os pássaros acendem fogo para nos ensinar o caminho.

(Silêncio)

PRIMEIRO NEGRO
Se uma cobra aparecesse, tínhamos o que comer hoje.

NEGRA VELHA
Antes morrer de fome. Veneno de cobra mata a gente num abrir e fechar de olhos...

NEGRO VELHO
Veneno de cobra cura-se.

TERCEIRO NEGRO
Toda carne é boa de comer, desde que se tenha fome...

NEGRO VELHO
Toda carne é boa de comer... Toda carne é boa, é boa de comer...

(A brisa mais forte faz redemoinhar em torno deles folhas secas. As embaúbas inclinam-se e estalam. O céu começa a turvar-se. Grandes nuvens negras galopam, rolam e a lua, temerosa em aparecer, filtra-se através dos novelos negros com mágoa e raiva)

PRIMEIRO NEGRO
Passa um navio; lá, ao longe. Como corre! Parece uma porção de patos juntos, ligados, unidos um ao outro.

TERCEIRO NEGRO
Os navios, que não nos vejam eles... Quando vim, da minha terra, dentro deles... Que coisa! Era escuro, molhado... Estava solto e parecia que vinha amarrado pelo pescoço. Melhor vale a fazenda...

SEGUNDO NEGRO
É longe a tua terra? Lá só há negro?

TERCEIRO NEGRO
Não sei... Não sei... Era pequeno. Andei uma porção de dias. As pernas doíam-me, os braços, o corpo, e carregavam muito peso. Se queria descanso, lá vinham uns homens com chicotes. Vínhamos muitos, de vários lugares. Cada qual falava uma língua. Não nos entendíamos. Todo o dia, morriam dois, quatro; e os urubus acompanhavam-nos sempre. — Minha terra... Não sei... Era perto de um rio, muito largo, como o mar, mas roncava mais... Sim! Tudo era negro lá... Um dia, houve um grande estrépito, barulho, tiros e quando dei acordo de mim estava atado, amarrado e... marchei... Não sei... Não sei... 

(Tudo agora é escuro. As nuvens fecharam-se. O luar não as pôde mais atravessar).

NEGRA VELHA
E eu não sei nada mais donde vim. Foi dos ares ou do inferno? Não me lembro... Do que me lembro, foi do desembarque. Havia muito mar. Fomos para o barracão. Davam-nos uma gamela e nela comíamos todos, ao mesmo tempo. Depois, vieram homens. Escolheram dentre nós alguns. Experimentavam os dentes, os braços, faziam abrir as pernas, examinavam a nós, com cuidado; e, ao fim, andávamos por muitas terras. Eu fui comprada pelo coronel. 

(Silêncio)

SEGUNDO NEGRO
O coronel não é mau; mas o feitor... Que homem! Tem o coração de pedra. Um dia me pôs no tronco... Eu respondi-lhe mal... Ele me deu uma ordem, eu não cumpri... Fiquei dois dias no tronco, a pão e água. No fim, parecia que não tinha mais pernas. Elas estavam tão dormidas, esquecidas! Quando me levantei, cambaleei... Caí...

PRIMEIRO NEGRO
O tronco... O tronco...

NEGRO VELHO
O tronco faz a gente sonhar.

(As nuvens fecham-se cada vez mais. A atmosfera pesa. Está como que saturada pela fumaça de um milhão de forjas)

NEGRA MOÇA
O tempo muda... Se ao menos chovessem gafanhotos...

TERCEIRO NEGRO
Gafanhotos! Bolas! Vamos subir o morro. Deve haver caça.

NEGRA VELHA
Eles podem estar lá. Ontem, ouvi um cão latir daqueles lados. Esperemos. (As nuvens se acumulam em torno da cabeça do penhasco) Amanhã, depois...

PRIMEIRO NEGRO
Esperemos. (Levantando-se, olha o mar coberto de negrume. As ondas altas, negras, debruam-se de fosforescências, quebrando a praia. Volta-se; olha o penhasco. Pequenas línguas de fogo, a meia encosta, sobem e descem, ocultam-se e surgem de novo. Brilham com um brilho azulado, lívido; uma maior ergue-se. A escuridão povoa-se. Há cavalos enormes, de vinte pés, homens de decâmetros) Almas! Almas do outro mundo! (Senta-se)

TERCEIRO NEGRO
Lá... Lá... (Silêncio) Descem...

SEGUNDO NEGRO
São demônios... Perseguem-nos... Fujamos.

NEGRA MOÇA
Na fazenda havia desse fogo; e nunca fugimos.

NEGRA VELHA
O morro vai cair... (A escuridão envolve o penhasco, faz corpo com ele e agitação, que o vento, já forte, leva às nuvens e às árvores, parecendo abalar a imensa penedia) Vamos para a praia... Vamos... (Todos se levantam).

(O negro velho indiferente, vai ao centro do grupo. Marcha empurrado pelos outros. O vento agita-lhes as roupas esfrangalhadas. À borda do mar, quase roçando a marca das vagas, sentam-se na areia. O negro é intenso. Nada se vê).

CRIANÇA
Mamãe... Mamãe... As portas estão fechadas?

NEGRA VELHA
Sim, meu filho... Estão todas...

CRIANÇA
E as janelas também, mamãe?

NEGRA VELHA
Sim, meu filho... Estão todas...

CRIANÇA
Como é que o vento entra, mamãe?

NEGRO VELHO
Os ventos entram pelas portas e janelas fechadas...

SEGUNDO NEGRO
Um bote... Um barco...

TERCEIRO NEGRO
Um barco... Um bote...

PRIMEIRO NEGRO
Sinhô-moço contava que não sei que santo salvou-se engolido por uma baleia, que depois deixou-o numa praia.

NEGRA MOÇA
Era um, um só...

TERCEIRO NEGRO
É um peixe muito grande.

SEGUNDO NEGRO
A boca é do tamanho de uma casa.

PRIMEIRO NEGRO
Podia levar a todos nós pra longe.

NEGRA VELHA
Podia... Podia...

TERCEIRO NEGRO
Olhem! E vem!

(Pelo alto-mar, passam formas vagas. Grandes barcos, monstruosos peixes espadanam à tona)

PRIMEIRO NEGRO
Onde? Ali? E vem...

NEGRA VELHA
Ê vem... Ali... Ali... Ali...

SEGUNDO NEGRO
Caberá a todos nós...

NEGRA VELHA
Todos nós. (Olha) Nada... Nada... Foi-se...

(O mar começa a subir. A maré aos poucos vai fazendo caminhar pela praia acima. Já tocam a orla da vegetação e olham o mar em frente, cravando o olhar desesperadamente. De repente, abre-se um relâmpago. Um ronco fortíssimo segue-se)

TODOS (exceto o velho)
Santa Bárbara! São Jerônimo! (Persignam-se)

CRIANÇA (despertando)
Mamãe, por que não deixa a candeia acesa?

(Silêncio)

PRIMEIRO NEGRO
Já chove...

(Grossos bagos de chuva caem espaçados. Caem como se fossem pedrinhas atiradas pelos garotos).

CRIANÇA
O teto está furado, mamãe? Chove dentro de casa...

NEGRO VELHO
Na nossa casa, sempre chove.

(Silêncio)

PRIMEIRO NEGRO
Há passos, parece uma tropa em marcha... Espoucam tiros...

TERCEIRO NEGRO
Lá vem muita gente... Não ouvem como as folhas choram? Elas estão sendo esmagadas, coitadinhas!

NEGRA MOÇA
São tantos! Tantos! Que barulho! Mas vem longe!...

PRIMEIRO NEGRO
Não tardam... Não tardam...

TERCEIRO NEGRO
Não custarão... E vêm! E vêm!

SEGUNDO NEGRO
Por onde passará tanta gente? Não há caminho.

NEGRA VELHA
Descem. É como se fossem bagos de café, a cair numa lata de folha.

CRIANÇA
Mamãe, mamãe... Que barulho é esse?

NEGRA VELHA
Não sei... É a chuva...

PRIMEIRO NEGRO
Tio! Tio! Que é isso?

(O negro velho caiu. A criança chora, chora muito)

SEGUNDO NEGRO
Tio! Tio!

TERCEIRO NEGRO
Que é isso, tio, tio?

NEGRA MOÇA
Ele morre, ele morre... (Silêncio) Tio, tio...

(A criança chora cada vez mais).

NEGRA VELHA
Tragam água... Ele morre... Tio... Tio...

(A criança chora. E, durante uma pausa, ouve-se um tiro próximo)

Laus Deo!

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