terça-feira, 28 de novembro de 2017

Pau-Man-Chen (Conto), de Wenceslau de Moraes


Pau-Man-Chen
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Cena doméstica. Lá está o meu cozinheiro a bater cabeça, como se diz neste Macau; lá está ele rezando aos seus deuses protetores. Que lhe preste! Acabou de me roubar nas contas, como bom chinês que é, serenamente agressivo em tudo ao europeu; e passou a entregar-se a esta outra ocupação não menos meritória.
Sendo seus os aposentos inferiores, é ali rei, ou pelo menos mandarim; faz o que quer. Os altares aos deuses anicham-se pelas paredes, aos cantos do sobrado, sobre as mesas; e até junto ao fogão, onde se guisa o meu jantar, se presta culto a supinas divindades. Misteriosos ritos. São papéis encarnados, contendo cabalísticos dizeres; são figuras de horríveis monstros, coloridas pelas tintas mais surpreendentes, nas disposições mais grotescas, despertando quase o riso, despertando quase o medo, a quem não vive em graça em tal Olimpo. Ali o cozinheiro, em humildes genuflexões de crente, vem depor suas ofertas, minhas ofertas, pois sou eu que pago a festa, — ofertas de laranjas, de doces, de chá, de porco assado e de outras iguarias. — Ali ardem lumes místicos; e frequentemente, pela noite, como agora, se queimam pivetes, círios rubros, resinas e papéis, de tudo emanando um fumo atroz, que invade em torvelino a casa toda, que chega sem respeito ao sítio onde me encontro, e me sufoca. Paciência! Paciência é o único código de conduta para o aventureiro que escolheu para exílio um canto exótico, longe, muito longe do torrão onde nasceu, e no qual a civilização disparatada, a feição própria das gentes com quem lida, hão de fatalmente apresentar-se, dominantes.
Os deuses, com quem por assim dizer vivo em contato, e a cuja sublime proteção, posto que indiretamente, me confio, são muitos, um enxame. É todo o Olimpo budista e o inteiro mito primitivo, amalgamados em crendices; legiões de espíritos. Naturalmente, há uns mais preferidos, que se invocam no lar com mais piedoso amor; neste número, segundo informações recentes que colhi, deve contar-se Pau-Man-Chen; e é a sua história maravilhosa que me proponho narrar, como puder.
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O deus Pau-Man-Chen, venerado em todo o imenso império, tem uma face branca e tem uma face preta. Na China não há efetivamente ninguém que não o adore, que não lhe preste no altar doméstico, o culto merecido; a ele, que tudo sabe e tudo pode, que possui a ciência do bem e a ciência do mal, que com um olho contempla os céus e as grandes coisas puras, e com o outro mira a terra profunda até aos antros lôbregos dos demônios, adivinha-lhes os maléficos desígnios. O deus Pau-Man-Chen tem uma face branca e tem outra face preta...
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Há não sei quantos mil anos, morreu não sei aonde, uma mulher casada. O marido, não resta dúvida, procedeu segundo o ritual do estilo, e mandou depositar o caixão num solitário templo. Mal imaginava ele que a defunta seguia grávida no esquife; e mal imaginava que o menino, que se ocultava no seu ventre, ia votado a altos destinos...
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Foi por aquela época, numa mercearia do sítio, que começou sendo notado, com justo sobressalto do dono da quitanda, o caso que vou expor. Fazia-se sem novidade a venda, dia a dia; mas, quando pela manhã se dava balanço às contas e ao dinheiro, encontrava-se sempre, de mistura com o monte das sapecas, dois desses papelitos amarelos, com a competente mancha prateada, que são nada menos do que a moeda corrente entre as almas do outro mundo, nas suas transações... Era prova claríssima de que andava por ali coisa sobrenatural, — bruxaria, visita de fantasmas, ou outro mistério parecido. — Estudou-se o caso atentamente e com bem justificáveis ânsias de terror; observaram-se os fregueses, um por um. Chegou-se por fim à conclusão de que, em tal enigma, andava por certo envolvido aquele vulto de mulher de maneiras suspeitosas, trazendo uma criança no regaço, e chegando-se todas as noites ao balcão para comprar um bolo, que oferecia ao pequerrucho. Aos cobres, que largava das mãos lívidas, cadavéricas, não havia nada que dizer-se; eram excelentes; mas quem ignora que de noite todos os bruxedos são possíveis, e é a luz fraca do dia que seguidamente os desmascara?... O patrão (os tendeiros do mundo inteiro, e desde séculos sem conto, são homens de raro engenho), o patrão, certa noite, conseguiu sem ser sentido, atar um longo fio à ponta da cabaia da freguesa; e quando ela se ausentou, pôs-se a largar o fio, à medida dos seus passos. No dia seguinte, facilmente o finório percorreu a linha de trajeto da misteriosa caminheira; e foi assim esbarrar, no termo do passeio, com o caixão da defunta, de que atrás se fez menção. Do caso, sem detenças, correu a dar parte ao viúvo, de quem era conhecido.
Acercam-se o viúvo e um bando de curiosos, do esquife, e abrem-no, ao pasmo de todos. Cena estranha! Sobre os farrapos descoloridos, úmidos, fétidos, pasto de vermes, — quem já, dos que me leem, pousou os olhos no espetáculo duma tumba escancarada? — lá está estendida a esposa, e lá está um menino. Vivo? sim. Viva? viva parece, duma existência sobrenatural embora; mas como ninguém dela cuidasse, ali ficou jazendo para sempre. As atenções, os carinhos, convergem para o menino; o pai estende-lhe os braços, arranca-o à desolação daquele leito, chama-o à vida, à sociedade, ao mundo.
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A lenda popular completa esta curiosa história pela maneira que vai ver-se. A defunta, ali amortalhada, ali estendida sobre as tábuas, foi mãe, não sei por que milagre — não se discutem milagres. — O resto explica-se melhor: o mistério psíquico da maternidade, isso que nas mães se patenteia como uma força imensa, sem limites no afeto, sem barreiras nos zelos, capaz de todos os arrojos, pode aninhar-se naquele corpo inerte, e imprimir vontade àquele feixe de ossos. Aos primeiros vagidos da criança, o cadáver pôs-se a contemplar os próprios seios murchos, pendentes, vazios de seiva, roídos pelos bichos. O cadáver moveu-se então, galvanizado pelo amor — qualquer cadáver de mãe, naquelas condições, faria o mesmo; — começou a dar pontapés no impossível; partiu a murros as paredes do seu cárcere; e apertando de encontro aos ossos o filhito, e embrulhando-se discretamente na mortalha, foi a correr comprar um bolo à venda próxima. A criança assim foi medrando, passando os dias naquele estranho berço. Foi por isso que ficou com uma face branca, a que voltava para a luz e para o céu, e com uma face preta, a que pousava na sombra, de encontro à terra negra. De então lhe veio o duplo condão de conhecer o bem e de conhecer o mal, de ver com um olho os deuses, e com um olho os demônios. Pelo correr dos anos, foi mandarim de modestos lugarejos, pois lhe sobrava asco pelas riquezas, pelo fausto e pelos altos cargos. Os nobres senhores, o próprio imperador que muito o honrava, tremiam do seu juízo. Lia nas consciências e lia nos destinos. Distinguia na turba os humildes, os bons, os oprimidos; e também os impostores, os verdugos, os infames. Premiava as virtudes, azorragava os vícios. Os desmandos da corte, a rapina dos ministros, os mexericos das concubinas, foram por ele desmascarados e punidos. Assim viveu por longos tempos este grotesco e sublime figurão; assim passou por todo o império, para glória da China e para consolação dos ofendidos. O povo punha de parte os labores e vinha prostrar-se em saudações à borda das estradas, ao vê-lo atravessar cidades e campinas, galgar os montes e descer os vales, sempre incansável, seguindo a largos passos, como se fosse um procurador atarefado com demandas. Flutuava-lhe ao vento a longa cabaia esfarrapada, suja de lama e de poeira dos caminhos; a mão adunca brandia um báculo nodoso; as pupilas chamejavam iracundas; o corpo ossudo definia-se, na majestade façanhuda dos gestos arrogantes, nos compridos bigodes de asiático, pendentes como franjas, na barba aberta em leque, chegando-lhe à barriga, e na disformidade do rosto pintado a duas cores, branca uma face e outra face preta. Um belo dia safou-se deste mundo; mas lá anda no outro, certamente, espreitando cá para baixo, e não largando de mão o seu fadário.

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