sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Pavores de enfermo (Conto), de Humberto de Campos


Pavores de enfermo

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Não obstante a sua aparência de homem grave, circunspecto, ponderado, que lhe assegurara aquele emprego de confiança, o coronel Bonifácio Coutinho, diretor do Asilo de Senhoras Arrependidas, era, intimamente, um dos temperamentos menos compatíveis com as responsabilidades daquelas funções. Lutando, disputando-se o domínio da sua vontade, defrontavam-se, nele, o desejo e o interesse. E não era sem custo, sem violência, que este se superpunha à brutalidade dos seus nervos, tornando-lhe possível a manutenção daquela sinecura amável, que lhe amenizava as infinitas asperezas da vida. Assim constituído, o coronel resolveu, um dia, quebrar a sua couraça e, chamando em particular o médico do estabelecimento, pediu-lhe um conselho:

— Diga-me cá, doutor, diga-me, com reserva: o senhor acha que me fica mal conquistar uma ou outra das nossas asiladas?

— Absolutamente, não! — acudiu o facultativo. — Desde que elas queiram, não há, mal nenhum. Eu próprio tenho me prevalecido dessa faculdade, procurando, apenas, não investir contra aquelas que, de antemão, parecem rigidamente sérias.

— E que faz o doutor para diferençar umas das outras? — objetou o velho. — Como que o senhor as distingue?

O galeno tomou-o pelo braço, arrastou-o para o silêncio de uma janela deitando sobre jardim, e revelou-lhe o seu segredo:

— Olhe: o senhor, quando se quiser aventurar a uma destas conquistas, faça o seguinte: chegue perto da asilada que houver escolhido, pergunte-lhe a idade; se ela lhe disser uma idade visivelmente inferior àquela que tem, faça-lhe a sua declaração, que será, por força, bem sucedido.

E apertando-lhe a mão

— Experimente.

Um mês depois foi o médico chamado para ver o diretor do Asilo, cujas condições de saúde preocupavam seriamente os seus subordinados. O estado de depressão era visível. O pulso, irregular, incerto, descompassado, denunciava um profundo abalo orgânico, que os seus cinquenta e cinco anos haviam tornado perigoso. À vista do enfermo, o médico compreendeu a sua missão, e, pedindo que os enfermeiros se retirassem, começou:

— Meu caro coronel, é preciso que o senhor mude de vida.

— Eu?

— Sim, senhor. O senhor abusou do meu conselho, e deve lembrar-se que não é mais uma criança, um moço, um rapaz no vigor dos anos.

E interrompendo-se:

— Que idade o senhor tem?

— Como? — atalhou o doente, alarmado.

— Eu estou perguntando que idade tem o senhor.

A essa confirmação da consulta, passou pelo cérebro do enfermo um pensamento sinistro. Com que ideia lhe fazia o médico aquela pergunta? E foi com o pavor nos olhos que se sentou, de repente, no leito, bradando, horrorizado, com os olhos fora das órbitas:

— Cento e cinquenta anos doutor! Duzentos! Duzentos e cinquenta anos, doutor!

E disparou, escada abaixo.

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