sábado, 25 de novembro de 2017

Projeto de lei (Conto), de Lima Barreto


Projeto de lei
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Um belo dia, na Câmara dos Deputados de certo país, um dos seus augustos e digníssimos representantes, ergueu-se e pediu a palavra:

Meus senhores. A pátria está em perigo; o Tesouro está exausto; os recursos da nação estão esgotados. Urge que tomemos providências, a fim de evitar a bancarrota. O que mais pesa no nosso orçamento são os funcionários públicos. É preciso acabar com essa chaga que corrói o organismo do país. Eles podem muito bem ir plantar batatas. Se ainda não fiz o mesmo, como aquele general romano chamado Cincinato, é porque não arranjei algumas centenas de contos, para comprar uma fazenda rendosa, onde eu pegasse a uma enxada e fosse agricultor.

Mas não há funcionário público por aí que não o possa fazer.

É-lhes fácil obter isso, como me é difícil, porquanto eu tenho relações com os banqueiros e eles não têm. Devemos tirar da agricultura a base da nossa vida; é o que eu sempre aconselho aos outros, a todos, principalmente àqueles que me pedem empregos.

Dizem que árdua é a vida, mas isso é quando se trata de pequenos agricultores, para os quais não peço auxílio algum. Sou pelos grandes latifúndios, pelas vastas propriedades, que podem sustentar grandes famílias na opulência.

Sendo assim, tenho a honra de apresentar à consideração dos meus pares o seguinte projeto de lei:

Art. 1º — É o governo autorizado a emprestar aos bancos acreditados até à quantia de 200 mil contos, para auxiliar os cultivadores de tâmaras.

Art. 2º — Revogam-se as disposições em contrário.

O deputado sentou-se e foi muito cumprimentado.

O projeto passou, o dinheiro foi emprestado aos bancos, que, no prazo marcado, pagaram ao Estado em títulos do próprio Estado, comprados na praça com abatimento de vinte por cento.

Ainda hoje, o deputado se gaba de ter protegido o cultivo das tâmaras no país, que ele estima e venera.

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