quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Última lembrança (Conto), de Virgílio Várzea


Última lembrança
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Ia partir.

De pé, à popa, junto à amurada, num recanto isolado do tombadilho do steamer, o seu vestido de viagem atacado até o queixo, triste e soluçante, ela me disse, tirando da sua bolsa preta de couro da Rússia um pequenino envelope branco:

— Olha, toma esta lembrança... É uma porção de mim mesma que aí te fica, e que te acompanhará durante toda esta ausência... Nunca a abandones, pois, traze-a contigo sempre, sempre...

E tinha a voz presa, velada, sacudida pelos soluços, enquanto as lágrimas jorravam-lhe dos belos olhos glaucos, agora raiados de sangue, duas a duas, rolando-lhe pelas faces rosadas e caindo, ainda quentes, sobre as minhas mãos trêmulas que enlaçavam demoradamente as suas.

Guardei, comovido, a encantadora lembrança, que era uma pequena madeixa da sua amada cabeleira de ouro, que em noites venturosas tanta vez se desmanchara e rolara, em ondas, sobre as brunidas espáduas de alabastro, ao assalto dos meus dedos febris.

E nervosamente, em silêncio, beijei-lhe as mãos, que tremiam, estreitando-a longamente contra o meu coração...

Já o vapor soltava um longo silvo metálico, dando o sinal da partida.

Então, trocado o adeus derradeiro, afastei-me tristemente para o portaló, vendo-a amparar-se de repente, muito pálida e pendida de dor a radiosa cabeça sonhadora, sobre a balaustrada branca.

O steamer arrancou.

E eu, ainda sobre o cais, sozinho, alheado de tudo, seguia, de olhar fixo, obstinadamente, esse casco negro que a levava para outros destinos; e acenava sempre um adeus em direção ao seu vulto gracioso, destacando-se ainda à popa alta do vapor, que deslizava já numa esteira de espumas, cuja alvura ondulosa parecia-me a torrente virginal dos acenos do seu lenço tremulante, que procurava chegar até mim...

Permaneci assim por instantes, chumbado ao solo, numa nostalgia imensa.

Lentamente, porém, a poeira negra do crepúsculo alastrou-se no ar, apagando além o recorte azulado das montanhas, envolvendo-me na treva espessa, quando o brilho sanguíneo e vivo de uma queimada ao longe arrancou-me desse abatimento, abrindo-se, como uma chaga inflamada, no seio da noite densa.

Veio-me então uma superstição, uma fé mística e profunda, e, seguindo com o olhar a fogueira longínqua e saudosa, beijei doidamente, como numa consagração propiciatória, aquela adorada lembrança que ia ficar para sempre iluminando e guardando, como uma lâmpada sagrada, o santuário vazio do meu coração!...

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