terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Confirmação (Conto), de Gonzaga Duque


Confirmação
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Às oito da noite, sob um céu claro de lua cheia e num friozinho penetrante de inverno, Carlos Fragoso bateu à minha porta.
— Não temos tempo a perder — disse-me da soleira, negando-se a entrar por inconveniência de delongas. — São sete em ponto. Dentro de trinta e cinco minutos devemos estar com mestre Pôncio.
Desci pressuroso, abafado num mac-ferland e, postos em caminho, tomei o braço de Carlos.
— Não te abala essa experiência?
— Um pouco, pela curiosidade. E a ti?
— Com franqueza, temo mais pelo insucesso do que pelo sobrenatural.
Carlos, com o seu costumário tique de torcer o pescoço sobre o colarinho, à direita, objetou-me:
— É porque não conheces bem o Dr. Pôncio. Eu sou como tu és, um incrédulo; considero tudo isso uma bruxaria e por mais que monsieur Boraduc e mister William Crooks constatem a existência de uma força consciente extra-humana, estaciono precavidamente nalgumas experiências magnéticas do coronel de Rochas, ainda assim com esse enviesado sorriso voltairiano que nos sublinha a emancipação mental sob a dúvida condescendente... e tolerante... Mas, a justíssima reputação científica de mestre Pôncio, a sua propriedade profissional e, particularmente, esse razoável sigilo com que ele cultiva o ocultismo, me fazem crer que, realmente, há alguma coisa de verdade nas suas experiências...
Deixei Carlos Fragoso falar. A sua voz era quente e meiga, com um quase imperceptível tremor nervoso que, acentuando as sílabas, lapidava certas palavras com o esmero facetado de pedras preciosas. Ao demais, o seu intelectualismo cultivado, independente de ortodoxias limitadoras, tinha o encanto duma ardorosa imaginativa e, por isso, seus exageros teóricos, expostos numa cintilante linguagem de inéditos neologismos, lhe davam às imagens e às ideias o feitio bizantino duma arte meticulosa e requintada.
Estava, então, no período floral dos vinte e seis anos, possuía uma carta de médico, a inquietadora notícia de um avô que morrera escabujando na cela dum manicômio e a perigosa auréola donjuanesca dos amorosos irresistíveis.
Dizia-se que, havia uns três anos, uma formosa e ardente Flávia, num arremesso de paixão livre, desenastrando os lindos cabelos negros para ocultar na sua carinhosa treva perfumada a cabeça de Carlos, matara de dor e vergonha o seu próprio pai! Dizia-se mais que a formosa Flávia, não obstante esse devotamento, fora impiedosamente desprezada pela preferência de uma satânica beleza outoniça, que fazia o orgulho dos salões ricos com um título comprado ao Vaticano e o escândalo de seus vestidos de luxo... Uma legenda! Mas, ao certo, Carlos Fragoso devia impressionar as viageiras do Amor, não por beleza, que essa lhe faltava, sim por seus modos singulares, dos quais resultavam estouvamentos de impulsivo e melancolias românticas de cabeça desenhada em 1830; pela expressão apaixonada do seu moreno rosto viril, a que a firmeza dos traços substituía a escassez da barba: e mais do que por tanto, pela rápida celebridade do nome, vindo de uma família afortunada e engrandecida na publicidade louvaminheira das gazetas.
— Estamos chegados — disse Carlos, parando em frente da larga porta de um prédio vasto e vistoso.
Dentro, no saguão assoalhado de quadradinhos de mármore preto e branco, o porteiro fumava o seu cigarro, tranquilamente recostado numa cadeira de vimes e no claro muro do fundo, vivamente iluminado pelo farol pendente do teto branco, negrejavam as enormes letras do dístico em curva: Casa de Saúde do Dr. Pôncio de Almeida.
Subimos. Logo, à saleta de entrada, encontramos mestre Pôncio com o seu eterno sorriso apagado. Saía do quarto dos seus doentes. Brilhavam-lhe os olhos através das lentes dos seus óculos de ouro. As suas faces escanhoadas e amarelas tinham uma expressão de cansaço, em que a tristeza do seu sorriso apagado deixava uma vago de resignação. Um longo bigode grisalho pendia-lhe sobre a boca, e o cabelo falho, devastado pela calvície, que lhe alongava a testa, era negro e reluzente.
Estendeu-nos os dedos macios, com moleza, e nos foi empurrando, delicadamente, para o seu gabinete, guarnecido de altas estantes de livros. O seu olhar percorreu-me de alto a baixo, mas Carlos explicou-lhe:
— É o meu amigo Lúcio, de quem tenho falado...
Pôncio inclinou a cabeça, atencioso:
— Sim. Tinha-me dito que o traria. — E para mim: — As nossas emoções são idênticas nas suas causas. Sou um dos seus leitores...
Ia corresponder à sua gentileza, mas ele fez-nos sentar junto da sua vasta mesa de canela escura, onde os utensílios de escrita e as brochuras de leitura conservavam a ordem e o asseio dos interiores ingleses.
— Confio nos senhores — disse-nos —, por isso admito-os numa das experiências que vou fazer. Em outras tenho colhido resultados extraordinários!... Mas, sobre ela nem uma palavra!... Se transpirar o que vamos assistir, a minha reputação estará perdida...
— Guardaremos o segredo — respondeu Carlos —, não obstante ser um fato científico.
— Sim, é um fato científico. O que lhe falta é assentimento à experiência que contraria a educação sentimental dos homens. A prova, de hoje, devemo-la unicamente ao acaso, porque se trata de moribunda sem amizade ou parentes aqui. É uma rapariga que me foi entregue, já agonizante, por proteção oculta... São raras, são raríssimas, essas provas. Ah! os senhores não avaliam as dificuldades com que luto! Depende tudo de um feliz acaso, como este, e é sempre em segredo que trabalho. Nem os meus internos nem os meus empregados sabem do que se passa. Bem. Vamos.
Ergueu-se, encaminhando-nos por um corredor monotonamente branco. A fria e intensa claridade dos aparelhos de gás fazia-o mais frio e mais longo. Respirava-se um ambiente acre de desinfetantes, que acordavam imagens incômodas de trabalhos cirúrgicos, avivadas pela sucessão de portas equidistantes e numeradas, rasgando escuros quadros oblongos n’alvura envernizada dos muros. Os nossos passos abafavam-se no capacho corrido do soalho cerado.
Dobramos por outro corredor, vaziamente branco como o primeiro, descemos uma escada. Este silêncio, estas paredes brancas, este caminhar não me aterrorizavam, deixavam-me o cérebro frouxo, sem uma comoção que me predispusesse para o que ia assistir.
Carlos caminhava em minha frente, também mudo. De repente o cenário mudou. Do patamar da escada passamos a um escuro terraço. Tive um pressentimento, o arrepio do mistério. Mestre Pôncio, que nos precedia, desenganchou os ferrolhos do pesado portão, fez-nos penetrar as estreitas ruazitas de um jardim poeticamente sossegado ao luar.
Na friagem da noite clara, toda aveludada de luz nas alturas, toda segredo de frondes na terra, o aroma das violetas derramava-se como a tentação suspirada das serenatas sevilhanas, e, sem cuidados, antegozei a surpresa que me esperava, porque a bruxaria de mestre Pôncio ia-se transformando em delícias imprevistas... modernismos de higiene hospitalar, com os quais as dores fingem discretos sorrisos de coragem, portões de cenografias dramáticas, jardins amaciados pelo plenilúnio... e quando mestre Pôncio, aproximando-se de um solitário casinholo escondido entre arbustos, feriu com os dedos três pancadinhas cabalísticas na porta, apoderou-se de mim uma volúpia, prevendo surgirem dali teorias bailantes de criadas seminuas. Mas, a porta cedeu sem ruído.
Achamo-nos numa pequenina sala, desprovida de móveis e em face de uma mulher, a quem só se podia determinar o sexo pelas vestes. Era alta, magríssima, ruiva; tinha o rosto comprido e sardento e no seu olhar de gata havia o esfuziar estranho de uma alucinação.
Passamos logo a um quarto próximo. Mal transpus a sua porta recuei com um abalo no coração. As paredes forradas ou pintadas de negro, como as câmaras dos ocultistas, o teto negro, pareciam abalar a pequena chama do gás que ardia.
Num leito colegial, junto à parede, permanecia um corpozinho raquítico, estiraçado sob os lençóis, cuja brancura iluminada e em contraste com o negrume dos muros punha em relevo ceroso uma cabecita óssea, de um lindo perfil de mártir, envolta na mantilha desgrenhada de seus longos cabelos negros.
Aproximamo-nos do pequeno leito de ferro. A rapariga agonizava sem contrações. Os seus olhos, que, sem dúvida, deviam ter sido ardentemente negros, agora embutidos nas cavas cianosas das órbitas, transluziam um esverdeado sombrio; a boca fora-lhe pequena, armada em beijo e, meio descerrada, descobria uma orla de dentes certos. Arfava-lhe o peito sumido; ao longo do corpo, suas descarnadas mãos viscosas, dum branco laivado de roxo, jaziam imóveis, com os polegares dobrados para as palmas.
Carlos observou-a. Pareceu-me vê-lo inclinar-se ao leito numa pesquisa de minudências. Mas o Dr. Pôncio nos levou às nossas cadeiras d’espectadores, pouco distantes do leito; diminuiu a chama do gás.
— Vão assistir à materialização do espírito — segredou-nos como para não perturbar o lento trabalho da morte. — Tenho a prova contrária à teoria espírita, quando o astral se desprende o espírito segue, o corpo fica abandonado, é o casulo vazio...
E para a mulher que permanecia de pé à entrada d’alcova:
— Miss Edwiges, ao seu lugar!
A mulher obedeceu como um animal domesticado. Assentou-se defronte do leito. Mestre Pôncio arregaçou os punhos, ajustou os óculos.
Apesar do estado nervoso em que me sentia, tive um sorriso com a mímica do ilustre professor, desconfiei dele. Carlos, porém, o seguia sério e interessado. Pouco a pouco deixei-me dominar por seus gestos, que eram vagos, como simples esboços de sinais aos terríveis olhos da médium.
Miss Edwiges ganhara uma imobilidade de estátua. Ao princípio, o fosforear de seu olhar lembrava a pupila trágica dos felinos na treva, depois alquebrou-se-lhes a intensidade fixadora, viera-lhes um torpor sonâmbulo que os manteve paralisados e vazios.
Então mestre Pôncio tocou-me levemente no ombro, chamando-me a atenção para o leito. Agucei o olhar. Esperei. Os segundos corriam menos velozes que o meu coração. Ouvia, bem distintamente, o respirar opresso de Carlos. Súbito o corpo de miss Edwiges estremeceu, e eu também estremeci, quase sufocado. Doíam-me os olhos no esforço do atendimento. Em torno de nós a escuridão aumentava, víamo-nos, uns aos outros, como infinidades espectrais que a concentração atentiva deformava. Pôncio, de pé, apenas tocado pela cochilante luz do gás, parecia-me satânico e os reflexos de seus óculos me davam a impressão de órbitas vazias; o busto anguloso de miss Edwiges, a sua cabeça imóvel, os seus olhos vítreos e sem pestanejar, afiguravam-se-me um morto que ali o tivessem assentado...
Outra vez miss Edwiges estremeceu, percebi-lhe a mão direita, sobre o regaço, contrair-se. E vi, bem claramente vi, vi com estes olhos que tenho, vi com a consciência que possuo, um halo de cor azulada, incerto, estonteado, ondulante como a primeira chama de um punch a crescer no espaço. Não tinha forma, era unicamente um farrapo de névoa luminosa.
A mão crispada de Carlos agarrou-me o braço, ouvi a sua voz surdamente dizer-me: É assombroso! E vagueando o olhar desvairado de um para o outro lado, de pessoa em pessoa, notei que o rosto de miss Edwiges se alterara, seus cabelos ruivos erriçavam-se, as narinas inflavam-se-lhe num resfôlego esfalfante. Era, em verdade, assombroso! E continuei a olhar. A névoa luminosa adensava-se. Devagar, demoradamente, com a lentidão de uma chama que a aragem castiga, doidejava no ar, alguns momentos ameaçou extinguir-se, mas de novo se refez, de novo se recompôs. Já se lhe adivinhava o debuxo duma forma humana, a silhueta indicativa de um corpo desenhado a enxofre sobre a escuridão de um muro. A cabeça tomara contorno preciso. O sombrio dos cabelos acentuara-se, tal como se fosse conseguido com fumaça negra; e todo o oval do rosto afirmou-se num traço de luz. Dir-se-ia uma imagem de vitral pintada, em tons brandos, com uma tinta maravilhosa. Viam-se-lhe os olhos negros, o nariz direito e fino, a boca rubra tão delicada que lembraria um ninho minúsculo de coral para o sono de núpcias de uma abelha feita de neve...
E essa figura criada no vazio do espaço, viva da intangibilidade de suas formas, parou diante de nós, olhou-nos demoradamente e estranhamente té que, num lento volver de cabeça, fixou suas pupilas transparentes, mas ardentemente negras, no rosto transfigurado de Carlos.
O meu amigo ergueu-se num ímpeto de terror, e quis fugir, mas o braço luminoso do espectro o conteve e como Carlos, assombrado, voltasse o rosto para ela, vimo-la tomar-lhe a cabeça entre as mãos ambas e beijar-lhe na boca...
Um grito rompeu o terrível silêncio da alcova, um grito que navalhou os recessos dos que o ouviram e se resumia todo no pavor de um nome que fora amado — Flávia!... E Carlos Fragoso desabou no chão, com todo o peso do seu corpo para sempre inutilizado.

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