sábado, 31 de março de 2018

Literatura Brasileira: O Modernismo (Ensaio), de José Veríssimo

O Modernismo 
Extraído do Livro "História da Literatura Brasileira", publicado no ano de 1916. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)
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O movimento de ideias que antes de acabada a primeira metade do século XIX se começara a operar na Europa com o positivismo comtista, o transformismo darwinista, o evolucionismo spenceriano, o intelectualismo de Taine e Renan e quejandas correntes de pensamento, que, influindo na literatura, deviam pôr termo ao domínio exclusivo do Romantismo, só se entrou a sentir no Brasil, pelo menos, vinte anos depois de verificada a sua influência ali. Sucessos de ordem política e social, e ainda de ordem geral, determinaram-lhe ou facilitaram-lhe a manifestação aqui. Foram, entre outros, ou os principais: a guerra do Paraguai, acordando o sentimento nacional, meio adormecido desde o fim das agitações revolucionárias consequentes à Independência, e das nossas lutas o Prata; a questão do elemento servil, comovendo toda a nação, e lhe despertando os brios contra a aviltante instituição consuetudinária; a impropriamente chamada questão religiosa, resultante de conflito entre as pretensões de autonomia do catolicismo oficial e as exigências do tradicional regalismo do Estado, a qual alvoroçou o espírito liberal contra as veleidades do ultramontanismo e abriu a discussão da crença avoenga, provocando emancipações de consciências e abalos da fé costumeira; e, finalmente, a guerra franco-alemã com as suas consequências, despertando a nossa atenção para uma outra civilização e cultura que a francesa, estimulando novas curiosidades intelectuais. Certos efeitos inesperados da guerra do Paraguai, como o surdo conflito que, apenas acabada, surgiu entre a tropa demasiado presumida do seu papel e importância e os profundos instintos civilistas da monarquia, não foram sem efeito neste momento da mentalidade nacional. Também a Revolução Espanhola de 1868 e consequente advento da República em Espanha, a queda do segundo império napoleônico e imediata proclamação da república em França, em 1870, fizeram ressurgir aqui com maior vigor do que nunca a ideia republicana, que desde justamente este ano de 70 se consubstanciara num partido com órgão na imprensa da capital do império. Esta propaganda republicana teve um pronunciado caráter intelectual e interessou grandemente os intelectuais, pode dizer-se que toda a sua parte moça, ao menos. Outro caráter da agitação republicana foi o seu livre-pensamento, se não o seu anticatolicismo, por oposição à monarquia, oficialmente católica.


Atuando simultaneamente sobre o nosso entendimento e a nossa consciência, pela comoção causada nos espíritos aptos para lhes sofrer o abalo, estes diferentes sucessos produziram um salutar alvoroço, do qual evidentemente se ressentiu o nosso pensamento e a nossa expressão literária. Às ideias, nem sempre coerentes, às vezes mesmo desencontradas daquele movimento, fautoras também nos acontecimentos sociais e políticos apontados, chamamos aqui de modernas; expressamente de "pensamento moderno". A novidade que tinham, ou que lhe enxergávamos, foi principalíssima parte no alvoroço com que as abraçávamos. Na ordem mental e, particularmente literária, os seus efeitos se fizeram sentir numa maior liberdade espiritual e num mais vivo espírito crítico.
Foi um dos seus principais agentes, mormente no norte do país, onde então a vida intelectual, com o seu centro em Pernambuco, tinha certa atividade, Tobias Barreto, já atrás estudado como poeta. Eis como o porventura mais inteligente dos seus alunos, o Sr. Graça Aranha, no estilo com que a nossa gente se escusa a clarificar as próprias ideias e se embriaga de palavras, lhe diz o feito insigne: "Em 1882, Tobias Barreto, que os seus condiscípulos não compreenderam e de cuja intensa reputação ainda se espantam e sorriem, abalava como um ciclone a sonolenta Academia do Recife. Ele invade a sociedade espiritual do seu tempo como um verdadeiro homem da sua raça. E o segredo da sua força está na absoluta e constante fidelidade a esse temperamento, em cuja formidável composição entram doses gigantescas de calor, de luz e de todas aquelas ondas de vida, que o sol transfunde regiamente ao sangue mestiço... Tinha a exuberância, a seiva, a negligência que o fazia estranho a todo o cálculo, mesmo o da sua reputação de além-túmulo, o prodigioso dom de fantasiar, o fabuliren dos criadores, e mais a impaciência e a temível explosão da revolta que permanecerá como o traço vivaz do seu caráter. Não houve vaso que o amoldasse; não conheceu senão os limites inabordáveis da liberdade e os de extrema irresponsabilidade. Pôde como um sertanejo viver com o povo, foi descuidado, miserável e infeliz. Cresceu músico e poeta. E mais tarde, quando lhe chegar a cultura, ela virá na barca fantástica da poesia. E foi pelo impulso dessa volátil essência do seu temperamento, que Tobias Barreto passou da arte para a filosofia. O pensador nele é uma modelação do vate. Transportará para a metafísica, para as ciências biológicas, para o direito, a magia da adivinhação, o improviso milagroso, a necessidade de idealizar e de imaginar, que é a poesia. Quase toda a sua ciência, quando não vem da legislação ou da língua, é feita principalmente da intuição, e os seus vastos descortinamentos, os clarões que abre, a vida que dá às ideias apenas entrevistas no prisma da sua visão, é mais a criação do poeta que a lógica do sábio. E nisto foi um homem do seu tempo e da nossa raça. "É preciso que o sangue corra longamente, durante séculos, numa infinita descendência, para que o precipitado das forças originais do nosso espírito seja a idealização científica. O máximo, o que por enquanto podemos atingir, foi o que nos deu Tobias Barreto, a filosofia através das cores solares da poesia".
Esta página, aliás bela, é por mais de um título preciosa. Primeira como documento do nosso gosto do verbo pelo verbo, quanto mais pomposo e rutilante mais amado, "imensa reputação", "abalava como um ciclone", "formidável composição de um temperamento", "doses gigantescas", "prodigioso dom de fantasiar", "a magia da adivinhação", "o improviso milagroso", "os vastos descortinamentos", e tudo mais assim magnificado e exorbitante.
Nunca os máximos pensadores dos grandes países de alta cultura, um Kant, um Spencer, um Comte lograram ser assim tão grandiloquamente celebrados pelos seus compatriotas.
Mas é sobretudo precioso este discurso, porque o próprio vago e ambíguo desta representação de Tobias Barreto e sua obra revê o incerto e equívoco dessa figura e dessa obra, ainda hoje ambas mal definidas, graças principalmente aos seus indiscretos panegiristas. Já vimos em que verdadeiramente lhe consistiu a ação, que, ainda reduzida a essas proporções, foi todavia considerável, como estímulo e impulso. As nossas academias ou faculdades superiores foram desde o meio do século passado os principais focos da nossa atividade literária. Dessa origem lhe virá a fraqueza dos resultados, a sua imperfeição e inconsistência. A nossa literatura desde o Romantismo foi principalmente feita por estudantes ou moços apenas saídos das faculdades, com pouca lição dos livros e nenhuma da vida. Nelas se geraram quase todos os nossos movimentos, e todas as novidades de ordem mental, como era natural, acharam nelas terreno adequado, tanto para o joio como para o trigo. Foi sobretudo mediante os seus alunos do Recife, literariamente deslumbrados pela facúndia do professor, deslumbramento aumentado da simpatia que lhes inspiravam os seus hábitos boêmios e alguns dos seus mesmos defeitos, tudo levado à conta de poesia ou filosofia, que Tobias Barreto influiu na mente brasileira. Sem outra originalidade, talvez, que a do seu verbo, como ele desordenado e exuberante, sem nenhum saber científico realmente sólido, agitou, entretanto, uma porção de ideias novas, pregou ou doutrinou concepções desconhecidas da maioria, citou, com enfáticos encômios, nomes alemães e russos de quase todos ignorados, e cujo valor raríssimos podiam verificar, e firme e desassombradamente proclamou a necessidade de refazermos completamente a nossa cultura em outras fontes que aquelas onde até aí principalmente bebiam as portuguesas e francesas. A estas não conseguiu aliás que de todo as deixássemos, pois nela é que principalmente bebemos ainda. Não foi, porém, inteiramente perdido o seu reclamo. Concorreu muito para entrar conosco a dúvida salutar de que as nascentes tradicionais da nossa cultura não seriam as únicas benéficas, e a curiosidade do nosso espírito se alargou consoantemente. Basta isso para lhe assegurar um posto proeminente na nossa evolução literária, ou antes cultural, sem necessidade de lhe exagerarmos o valor da obra.
Esta é a fragmentária e dispersiva, e não guarda outra unidade que a da inspiração acaso mais lírica que filosófica do seu gênio e da sua fé, na superioridade da cultura alemã e na legitimidade da sua hegemonia. Em estilo descomposto como lhe era a vida, numa forma muito pessoal, e por isso mesmo viva e interessante, com propositada ou congenial carência daquela urbanidade de que os latinos faziam uma virtude literária, escreveu dezenas de opúsculos, artigos e ensaios. Teoria literária, crítica, filosofia, sociologia, religião, direito, psicologia, literatura comparada, filosofia científica, biologia, história, em suma de omni re scibili, tudo versou neles. Esta afetação de saber universal, sempre suspeito num puro autodidata, realçado em verdade por um grande e sincero calor de exposição, em que superabundavam provas de talento, abalou a mocidade da escola onde professava e por ela boa parte da mentalidade moça do país. Livro, não publicou em vida mais que os Estudos alemães, coleção de artigos diversos, e Menores e loucos, monografia de direito criminal. A maior parte da sua obra saiu póstuma. A sua ação foi sobretudo oral, a do seu ensino, dos seus discursos, das suas palestras, e reflexa, operada por intermédio dos seus discípulos. E de fato se não exerceu e tornou sensível com prioridade que lhe assegure a primazia de precursor do movimento modernista aqui. Sem falar dos seus anos de estudante no Recife (1862-1871), em que "cultivou preponderantemente  a poesia", a sua ação útil só verdadeiramente começou com o seu professorado ali em 1882. Os dez anos anteriores (1871-1881) passara-os ele na pequena cidade pernambucana da Escada, obscuro e desconhecido. Nesse lugarejo, que não era nenhuma Weimar, publicou opúsculos em português e alemão. Destes últimos seria ele próprio um dos raríssimos leitores, porque, segundo nos exprobrava como de uma infâmia, não havia então aqui mais que umas escassas dezenas de pessoas que lessem essa língua. Esta excêntrica atividade literária da Escada não teve nenhuma publicidade e menos repercussão. Só foi lembrada quanto Tobias Barreto se tinha feito conhecido como professor no Recife e começava a criar prosélitos. Ninguém que de todo não ignore as condições da nossa vida intelectual, admitirá a influência de um escritor, por mais genial que o suponhamos, cuja atividade se exerça esporádica e fragmentariamente em magros folhetos e efêmeros periódicos, numa cidade sertaneja. Somente em 1882 começou, pois, a ação de Tobias Barreto a se fazer sentir, e de primeiro exclusivamente no Recife.
Antes disso, porém, desde os primeiros anos do decênio de 70, e sob as influências notadas, manifestava-se no Rio de Janeiro o movimento modernista. Foi nos próprios livros franceses de Litré, de Quinet, de Taine ou de Renan, influenciados pelo pensamento alemão e também pelo inglês, que começamos desde aquele momento a instruir-nos das novas ideias. Influindo também em Portugal, criara ali a cultura alemã uma plêiade de escritores pelo menos ruidosos, como Teófilo Braga, Adolfo Coelho, Joaquim de Vasconcelos, Antero de Quental, Luciano Cordeiro, amotinados contra a situação mental do Reino. Além destes, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão vulgarizavam nas Farpas, com mais petulância e espírito do que saber, as novas ideias. Todos estes, aqui muito mais lidos do que nunca o foi Tobias Barreto, atuaram poderosamente a nossa mentalidade. E o movimento coimbrão, como se chamou à briga literária do "Bom senso e bom gosto", pelos anos de 65, teve certamente muito maior repercussão na mentalidade literária brasileira do tempo, do que a pseudo-escola do Recife. Muito mais daquele movimento do que da influência de Tobias Barreto, derivou a Literatura brasileira e a Crítica moderna (1880) do Sr. Sílvio Romero, e bem assim os seus principais estudos da história da literatura brasileira. O positivismo comtista inaugurava aqui e em São Paulo a sua propaganda, primeiro somente do aspecto científico da doutrina. Essa pregação convencida, tenaz, teve desde logo a seu lado, a prestigiá-la, alguns bons sabedores das ciências positivas, particularmente das matemáticas. E em 1875, estranho a qualquer influência do excêntrico filósofo da Escada, um velho diplomata, Araújo Ribeiro (visconde do Rio Grande), publicava no Rio de Janeiro o seu volumoso livro O fim da criação, o primeiro de doutrina darwinista, se não materialista, escrito no Brasil.
Na mesma década entrou a instrução pública a ocupar mais seriamente a atenção dos governos e do público. A Tipografia Nacional tirava em volume as traduções dos livros de Hippeau sobre o ensino público nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Prússia. Reformava-se, procurando-se desenvolvê-lo, o Colégio de D. Pedro II, único foco de estudos clássicos que possuíamos, hoje quase extinto. Criavam-se conferências e cursos públicos, onde se começaram a agitar as novas ideias filosóficas, científicas e literárias. Remodelava-se o antigo curso da Escola Central, organizando-se a Escola Politécnica, acrescentando-se-lhe aos cursos profissionais as duas importantes seções de ciências físicas e naturais e ciências físicas e matemáticas. Para reger as novas cadeiras vieram da Europa professores especiais, como o físico Guignet, o fisiologista Couty, o mineralogista e geólogo Gorceix, logo depois incumbido da fundação e direção da Escola de Minas de Ouro Preto, nesse tempo criada. Também o ensino médico foi reformado, acrescido de matérias e cadeiras novas. A reforma que igualmente sofreram o Museu e a Biblioteca Nacional determinou maior atividade e mais útil efeito destas velhas e paradas instituições. O Museu começou a publicar os seus interessantes Arquivos em cujos três primeiros volumes (1876-1878) se encontram trabalhos originais de antropologia, fisiologia, arqueologia e etnografia e história natural de sabedores brasileiros, Lacerda, Rodrigues Peixoto, Ladislau Neto, Ferreira Pena, e estrangeiros ao serviço do Brasil, Hartt, Orville Derby, Fritz Muller e outros. Simultaneamente com os Arquivos do Museu vêm a lume os Anais da Biblioteca Nacional, ricos de informações bibliográficas, de eruditas memórias e monografias interessantes para a nossa história literária e geral. Nos Ensaios de Ciência (1873), Batista Caetano de Almeida Nogueira funda o estudo das línguas indígenas brasileiras segundo os novos métodos da ciência da linguagem, recriada pelos alemães, tirando-o do fantasioso empirismo em que até então andou. Os Estudos da história do Brasil no século XVI (1880), não obstante o seu exíguo tomo, revelavam no Sr. Capistrano de Abreu raras capacidades, posteriormente confirmadas por outros trabalhos, para essa ordem de estudos, aqui também depois da morte de Varnhagen quase que entregues à pura improvisação. Pelo fim do mesmo decênio, Araripe Júnior, um dos melhores espíritos deste momento, começara a publicar o seu perfil literário de José de Alencar, uma das obras capitais da crítica brasileira, e no prefácio da primeira edição, em 1882, declarava que a reconstituição das suas ideias datava de 1873. No Ceará, donde era e onde residia Araripe Júnior, formara-se por aquele tempo um grupo literário composto dele, de Capistrano de Abreu, do malogrado Rocha Lima, de Domingos Olímpio, de Tomás Pompeu e doutros nomes menos conhecidos, grupo ledor de Spencer, Buckle, Taine e Comte e entusiasta das suas novas ideias. Esse grupo ficou estranho à influência da Escada e precedeu de dez anos a do Recife. O José de Alencar, de Araripe Júnior, inspirava-o manifestamente o critério crítico de Taine, como o Descobrimento do Brasil e seu desenvolvimento no século XVI (1883), de Capistrano de Abreu, o evolucionismo spenceriano. Em 1874, um médico de São Paulo, o Dr. Luís Pereira Barreto, publicava, sob o título de Três filosofias, a exposição e discussão, que ficou aliás incompleta, dos três estados do espírito humano, conforme a doutrina de Augusto Comte. E as questões históricas, filosóficas, jurídicas, políticas e ainda culturais que se prendem ao grave tema do poder e autoridade do papa e das suas relações com o século eram, em 1877, larga e eruditamente discutidas pelo Sr. Rui Barbosa numa copiosíssima introdução à sua versão para o português da obra alemã do Cônego Doellinger, O Papa e o Concílio. Nessa prefação, o Sr. Rui Barbosa revelava, acaso excessivamente, a vastidão da sua literatura não só francesa ou alemã, mas universal.
Destes fatos não é lícito senão concluir que a ação de Tobias Barreto, conquanto considerável, não foi tal qual se tem presumido, e que efetivamente só entrou a exercer-se pelo ano de 1882. Então já no Ceará e em São Paulo pelo menos, e no Rio de Janeiro, desde o princípio do século passado o nosso mais considerável centro intelectual, manifestamente se desenhava o movimento a que tenho chamado de modernismo. Principalmente reflexa, a ação de Tobias Barreto nesse movimento operou-se mediante os seus discípulos imediatos, dos quais um ao menos, o Sr. Sílvio Romero (São Paulo de quem Tobias é o Cristo), teve considerável influência na juventude literária dos últimos vinte anos do século passado. No empenho, aliás simpático na sua inspiração, de o exaltarem, inventaram uma "escola do Recife", da qual o fizeram instituidor. Não viram, como atiladamente nota o mesmo Sr. Graça Aranha, que "a força singular desse homem estava na genialidade poética por onde lhe veio a intuição científica e filosófica" e que "essa genialidade, essa imaginação faltaria aos seus discípulos porque ela era uma expressão puramente individual e que se não repete... Extrairiam dos livros e das frases do mestre apenas as fórmulas audazes, confundiriam a sátira com a seriedade do pensamento, tomariam os vagos delineamentos por conclusões definitivas e espalhariam numa língua bárbara a dogmática doutrina para as quais não teriam nem a ciência, nem adivinhação profética". A "escola do Recife" não tem de fato existência real. O que assim abusivamente chamaram é apenas um grupo constituído pelos discípulos diretos de Tobias Barreto, professor diserto e, sobretudo, ultrabenévolo, eloquente orador literário e poeta facundo, mais do que Tobias pensador e escritor. Cumpre, aliás, repetir que esse grupo, salvo imigrações individuais posteriores, restringiu-se ao Norte, donde era a máxima parte de seus alunos, e mais exatamente a Pernambuco.
Mas ainda reduzida a estas proporções, que me parecem as verdadeiras, a figura de Tobias Barreto e o seu papel na nossa literatura, ou mais exatamente na nossa mentalidade, é relevante. Ele atuou duplamente, primeiro, e acaso principalmente, como demolidor dos nossos valores mentais que pela sua própria imobilidade se tornavam um impedimento ao nosso progresso espiritual, depois como uma força de estímulo e reforma para essa mentalidade. Apontou, se não abriu, caminhos novos e novas direções à nossa inteligência, criou discípulos em que se lhe frutificaram os ensinamentos e cuja ação foi considerável, suscitou discussões e polêmicas com que agitou o nosso meio intelectual, em suma, deu um forte e útil abalo ao nosso pensamento, como quer que seja no momento inerte. Não foi, porém, nem um sábio, nem um pensador original ou profundo. O seu darwinismo não podia ser senão de mera predileção sentimental. Carecendo da instrução científica, e especialmente biológica, para apreciar idoneamente as doutrinas de Darwin e seus discípulos ou êmulos, não podia, sem impertinência, pronunciar-se sobre elas e menos professá-las. Aliás quase todos os nossos pseudofilósofos evolucionistas, transformistas ou darwinistas o foram, como ele, de palpite. Um princípio, um conceito, uma ideia sua, não se lhe conhece naqueles domínios. Não fez de fato senão expor, ao que parece com grande eloquência professoral, em todo caso, mesmo escrevendo, com grande calor comunicativo, a arrogância própria para impor, o que em filosofia, em crítica, em literatura, em direito, faziam os alemães, por cuja cultura se enrabichou com exclusivismo pouco abonatório do seu espírito crítico. Como a sua pregação, endereçava-se a um público para quem a Alemanha, sob o aspecto da cultura, era Terra incógnita, e mais um público principalmente constituído de rapazes tão ignorantes como facilmente impressionáveis, nada mais fácil do que alcançar foros de oráculo.
O modernismo de que, em todo caso, foi ele aqui um dos principais fautores, produto de forças heterogêneas, teve também desencontrados efeitos na ordem literária: na ficção em prosa, deu o naturalismo, ou melhor favoreceu o advento do naturalismo francês; na poesia simultaneamente o parnasianismo e a extravagância da chamada poesia científica. Em outras ordens de atividade, na filosofia, na crítica, em sociologia, em história, influiu com outros métodos e porventura mais esclarecido entendimento. Mas também, e em maior número talvez, produziu repetições, descorados ou desajeitados arremedos do que nesses ramos de conhecimento se fazia lá fora. Desvairando, porém, a nossa fraca ciência deu lugar ao que Herculano chamou com propriedade de "gongorismo científico". Acaso o seu mais útil e notável efeito foi, apesar destas máculas, o desenvolvimento do espírito crítico. Efetivamente nesta fase da nossa literatura, mais que em qualquer das que a precederam, se nos depara esse espírito e às vezes da boa qualidade. Fora, porém, da poesia e do romance, ou da oratória parlamentar, justamente em plena e brilhante florescência nos últimos anos do Império, não produziu um conjunto de obras que se possam agrupar sob uma qualificação particular ou a que una qualquer pensamento ou ideia geral comum. A mais considerável saída desse movimento, menos aliás por virtudes intrínsecas, que pelos seus efeitos, e essa produto direto do estilo criado em Pernambuco por Tobias Barreto, mas concebida e realizada no Rio de Janeiro, é talvez a já citada História da literatura brasileira do Sr. Sílvio Romero (1888).
O romance romanesco e nimiamente sentimental de Alencar, Macedo ou Bernardo Guimarães, quando já o naturalismo francês não era uma novidade, acabara por, ainda em antes deste movimento, ceder o passo ao de Taunay, Machado de Assis e Franklin Távora, únicos dos romancistas sucessores daqueles que fizeram uma obra equivalente à sua. Esta, porém, salvo no segundo, era ainda, como a dos românticos, intencionalmente nacionalista, e em Franklin Távora até propositadamente regionalista. Somente continuando com o nacionalismo literário, estes e outros que os acompanharam, o fizeram com atenuação da fórmula romântica dominante. Eles pertencem antes à última fase do Romantismo. Os verdadeiros naturalistas segundo as receitas francesas já aviadas em Portugal por Eça de Queirós e seus discípulos vieram depois, quando esses últimos românticos iam em meio da sua literária, e até quando o naturalismo entrava já a declinar em França.

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Imagens:
Acervo da Biblioteca Nacional Digital

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