sábado, 31 de março de 2018

Os últimos românticos: Poetas (Ensaio Biográfico), de José Veríssimo



Os últimos românticos: Poetas
Extraído do Livro "História da Literatura Brasileira", publicado no ano de 1916. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)
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Pela época em que se estrearam estes romancistas, as principais feições ou correntes da poesia brasileira, no que tinha esta de mais peculiar, eram ainda, se não o indianismo, o brasileirismo dos primeiros românticos, e o sentimentalismo doentio, de envolta com o ceticismo literário e a desilusão e desalento, dos segundos. Esgotavam-se essas duas correntes quando surgiram, com pouco intervalo, Machado de Assis (1839-1908), Tobias Barreto (1839-1889), Fagundes Varela (1841-1875), Luís Guimarães Júnior (1847-1898) e Castro Alves (1847-1871), que podemos considerar os últimos românticos da nossa poesia, que já não sejam anacrônicos.

Aliás nenhum traço comum saliente liga estes poetas. Quando muito, o teriam Tobias Barreto e Castro Alves na feição oratória do seu estro, a que se deu o nome de condoreirismo, porque os seus arroubos poéticos presumiam semelhar-se ao surto do condor. Denominação aliás, como tantas outras inventadas na nossa literatura, de pouca propriedade. Naquele grupo não caberia senão aos dois poetas nomeados ou a algum seu secundário imitador, indigno de menção particular. Demais não foram nem Tobias, nem Castro Alves os inventores desse falso gênero de poesia enfática e declamatória. Antes deles, Pedro Luís publicara os seus poemas Nunes Machado, A sombra de Tiradentes, Os voluntários da morte (1863), Terribilis Dea, justamente no diapasão que devia dar àqueles dois poetas o epíteto extravagante de condoreiros. E na procura das últimas fontes do mesmo veio, poderíamos acaso remontar ao Napoleão em Waterloo, de Magalhães, a certos poemas de José Bonifácio, o Moço, e a outras anteriores amostras da nossa facúndia poética. Está esta no nosso temperamento, e o condoreirismo não era uma novidade na nossa poesia, mas apenas o exagero, sob a influência do entusiasmo patriótico do momento e da retórica hugoana, desse defeito do nosso estro poético. O aparecimento simultâneo de Varela com o seu Pavilhão auviverde, e de Vitoriano Palhares com o seu A D. Pedro II, a propósito do conflito anglo-brasileiro de 1862, e de numerosos poemas tão patrióticos como bombásticos de José Bonifácio e Pedro Luís, coincidindo com os de Castro Alves e Tobias Barreto, da mesma entoação, estão atestando que não havia novidade essencial no chamado condoreirismo de 60 a 70.
O Romantismo byroniano, temperado por Álvares de Azevedo, de Musset e Spronceda e de outros condimentos de idêntico sabor literário, tinha certamente desviado da sua direção primeira, cristã, patriótica e moralizante, o movimento literário com que aqui se iniciara a nossa literatura nacional. Mas além da parcial impressão que fez nos três principais poetas da mesma geração, mal fizera escola com Aureliano Lessa, Bernardo Guimarães e menores poetas, desvairados sobretudo com as extravagâncias da Noite na taverna. Nos anos de 60, mesmo no atrasado Brasil, já não havia atmosfera para ele. A voz do desespero, da ironia, do ceticismo daqueles poetas europeus substituía-se como um clarim de guerra vibrante de cóleras, mas rica de esperanças, ora flauta bucólica, ora lira amorosa, tuba canora e belicosa ou doce avena da paz, mas em suma otimista, a voz de Victor Hugo. Esta ouviram e seguiram mais ou menos de perto da geração que entrou a cantar por esta época. Também os houve que escutaram de preferência a melodia lamartiniana impregnada do idealismo cristão. Mas não se sai imune de uma corrente literária para outra. Levam-se sempre ressaibos daquela. Estes poetas apresentam um misto de romantismo e das tendências estéticas que em nascendo para a vida literária encontraram no seu ambiente. Tem em dose quase igual o desalento sentimental, mesmo o ceticismo, apenas menos anunciado daquela geração e os ideais práticos, as emoções sociais, a preocupação humana, ainda política, com os instintos de propaganda da corrente hugoana. E apenas alguma leve nota de indianismo ou brasileirismo nela transformada num mais íntimo que ostensivo sentimento nacional. E como em Victor Hugo, além da feição social e humanitária, o que mais os impressiona são os aspectos verbais do seu estro, a sua altiloquência poderosa, caem no arremedo, geralmente infeliz, desse feitio da sua poética. Daí derivaria a alcunha, que cumpre não tomar a sério, que de hugoanos tiveram alguns.
A facúndia poética do grande vate francês, cujo prestígio se aumentava do seu papel político, achava no meio escolar onde se ia fazer este novo movimento literário, terreno propício. Às predisposições oratórias ou verbosas da raça, amiga da frase empolada e do vocábulo pomposo, juntava-se aquela venturosa idade em que nem a reflexão nem o estudo apuraram ainda o gosto e o discernimento. Em tal meio, as tiradas poéticas de Tobias Barreto e Castro Alves, que hoje nos parecem extravagantes despropósitos, eram achadas sublimes: 
A lei sustenta o popular direito,
Nós sustentamos o direito em pé!

Um pedaço de gládio no infinito,
Um trapo de bandeira na amplidão.

Ver o mistério eriçado,
Rodeando os mausoléus,

Morrer... subindo agarrado
No escarpamento dos Céus.

Pernambuco anelante
Suspende na mão possante
O peso do Paraguai!

Quejandos versos, estrofes, que digo?, poemas inteiros neste estilo alvoroçavam aquela mocidade, cujo indiscreto entusiasmo não serviria senão para mais perverter o estro desses poetas e desvairar o gosto público.
Dos chamados condoreiros apenas dois, os já nomeados Tobias Barreto e Castro Alves, lograram distinguir-se por outras partes que essa falaz poesia, entre os que, como eles, presumiam reproduzir aqui a Victor Hugo, quando não faziam senão contrafazer-lhe os mais patentes defeitos.
Tobias Barreto de Menezes nasceu em Sergipe em 7 de junho de 1839, e a 20 do mesmo mês de junho de 1889 faleceu no Recife, em cuja Faculdade de direito se formou e onde principalmente exerceu a sua atividade literária. Não obstante o dispersivo, o incoerente e até, de algum modo, o extravagante dessa atividade, que não lhe permitiu deixar em qualquer direção em que se exerceu, mais que uma obra fragmentária e incongruente, certo é ele uma das figuras singulares das nossas letras. Tinha grande talento, memória acaso ainda mais grande, rara aptidão para línguas como para música, e decidida vocação para o estudo, ora servida, ora prejudicada, pelos seus estímulos desencontrados de mestiço impulsivo e malcriado. Orador nativo, amava a pompa dos grandes gestos e das grandes frases. Apenas a sua educação roceira e rudimentar atenuava e amortecia esta sua predileção com a vulgaridade, que não raro chegava ao chulismo da expressão, em que o rústico transparecia sob o letrado. Fazendo filosofia, crítica, sociologia e ainda poesia, frequentemente se lhe revela este vício de origem ou temperamento. É justamente o contrário do honnête homme consoante La Rochefoucauld. A sua fama, um pouco factícia, a deveu mais às suas brigas e polêmicas, por via de regra descompostas, ou ao pregão temerário de discípulos, que propriamente à sua obra, de fato muito pouco lida. Como filósofo que presumiu ser ou pretenderam fazê-lo, como crítico, como sociólogo, foi sobretudo um negador dos valores existentes da nossa intelectualidade, um contentor sistemático da cultura francesa e portuguesa e um pregoeiro e vulgarizador da cultura alemã. Tinha ao menos a desculpa de que sabia perfeitamente o alemão, – e puerilmente se desvanecia de o haver aprendido consigo mesmo, – o que não aconteceu talvez a nenhum outro dos seus discípulos, presunçosos germanistas. Como jurista, nada mais fez que recomendar, com o descomedimento que é um dos traços do seu temperamento literário, as novas ideias jurídicas alemãs, contrapondo-as apaixonadamente às ideias clássicas aqui vigentes.
Se o pensador e o jurista em Tobias Barreto iam à cultura germânica, tratada embora por ele mais lírica que objetivamente, o seu temperamento estético, em música e em poesia, revê demais o mestiço luso-africano. Como poeta é simultaneamente um sentimental, um orador sem algo da profunda ingenuidade da poesia alemã. Em música, não obstante a sua, ao que parece, grande ciência desta arte, confessa ele próprio que não compreendia senão a italiana. Não é incontestável que fosse o introdutor do hugoísmo na nossa poesia. Tal invento, aliás, não bastaria para afamá-lo. De parte a sua inspiração política, social, objetiva em suma, a poesia de Hugo influiu aqui, ainda nos seus melhores discípulos, muito mais pelos seus aspectos exteriores e pelo defeito da sua feição oratória, que pelo profundo lirismo íntimo e alto sentimento poético que acaso a sobreleva entre toda a poesia do século.
Muito menor foi o renome e a influência de Tobias Barreto como poeta do que como pensador. Eclipsou-lhos Castro Alves, seu feliz êmulo no condoreirismo e seu triunfante rival em toda a poesia. O lirismo de Tobias Barreto, no que tem de melhor, é em suma da mesma espécie do comum lirismo brasileiro, amoroso ou antes namorado, sensual, dolente, abundante em voluptuosidades ardentes e queixumes melancólicos. Se alguma coisa o distingue é, de um lado, o tom oratório, ainda épico, em que oscila entre as extravagância dos Voluntários pernambucanos e quejandos poemas e os belos rasgos do Gênio da humanidade; de outro, a nota popular simples, vulgar, mesmo trivial, que às vezes lhe dá a cantiga um sainete particular e, ocasionalmente, encantador. Mas dessa nota abusa, bem como barateia e vulgariza o estro em glosar notas, à moda dos poetas seiscentistas e arcádicos, e em celebrar com inaudita facilidade de admiração e trivialidade de emoção a quanto cabotino ou cabotina acertava de passar pelo Recife. Quer como poeta, quer como prosador, uma das maiores falhas de Tobias Barreto foi a de gosto. A atividade poética de Tobias Barreto exerceu-se aliás, principalmente nos primeiros anos da sua vida literária (1862-1871), quando ainda estudante, o que lhe explica e desculpa as deficiências e senões. Que, apesar do seu incontestável estro, não era propriamente uma vocação de poeta, prova-o o haver quase abandonado a poesia pela filosofia, o direito, a crítica e outros estudos.
É a Antônio de Castro Alves que por consenso geral pertence a primazia entre os poetas desta geração. Nasceu ele na Bahia a 14 de março de 1847, e ali morreu em 6 de junho de 1871. Da sua terra natal, ainda não completos os estudos de preparatórios, passou-se a Pernambuco para os acabar, e estudar Direito. Foi lá que realmente estreou em 1862. Seis anos depois deixou Pernambuco por São Paulo, passando pelo Rio de Janeiro, onde lhe serviram de introdutores José de Alencar e Machado de Assis. Trazia na sua bagagem literária, com vários poemas soltos avulsamente publicados, o drama Gonzaga ou a Conjuração Mineira, já representado na Bahia. Em São Paulo, ao contato de uma juventude entusiasta de poesia e eloquência, ao estímulo de festas repetidas que lhe depararam ensejo de dar provas de ambas, acabou de se lhe desabrochar o engenho poético. No fim de 1869, dali recolheu enfermo à terra natal, onde pouco depois faleceu, tendo antes dado a lume os seus versos reunidos, sob o título de Espumas flutuantes (1870). Poucos livros brasileiros, e menos de versos, têm sido tão lidos.
Tem-se dito que os latinos não temos poesia, senão eloquência. Não discuto o asserto. Nós brasileiros, que apenas seremos por um terço latinos, sei que somos nimiamente sensíveis à retórica poética. Não nos impede isso aliás de comovermo-nos também, embora superficialmente talvez, ao sentimento da poesia quando ela canta as fáceis paixões sensuais do nosso ardor amoroso de mestiços ou chora os nossos fáceis desgostos de gente mole. São exemplos os casos de Gonçalves Dias, poeta do amor, e dos realmente deliciosos cantores da segunda geração romântica, e de Fagundes Varela, ainda hoje os poetas mais vivos na nossa memória e no nosso coração. A ingenuidade, porém, a virtude cardial dos maiores poetas anglo-germânicos, essa sim, é quase de todo estranha à nossa poesia, que assim carece de um dos mais sedutores elementos da arte, quando, após os últimos românticos, os nossos poetas se fizeram refinados e se puseram a apurar com a forma o sentimento à moda dos parnasianos franceses, deixaram de fato de comover o público, ou só continuaram a impressioná-lo pelo aspecto externo dos seus poemas perfeitos, pela sonoridade constante dos seus versos. Porque em suma o que preferimos é a forma, mormente a forma eloquente, oratória, a ênfase, ainda o "palavrão", as imagens vistosas, aquelas sobre todas, que por seu exagero, sua desconformidade, sua materialidade, mais impressionam o nosso espírito, de nenhum modo ático. É este no fundo o motivo do nosso antigo afeto ao épico e da nossa moderna predileção pelos poetas sobretudo eloquentes e brilhantes, como os condoreiros, Pedro Luís, José Bonifácio e o Sr. Bilac. É verdade que nenhum destes vale apenas por qualidades de brilho e facúndia poética. Essas tinha-as em alto grau, e da boa espécie, Castro Alves, mas tinha outras além delas.
Passada a sentimentalidade sincera, mas pouco variada, e que sob o aspecto da expressão acabara por se tornar monótona, das gerações precedentes, a inspiração de Castro Alves apareceu como uma novidade. Era, pois, bem-vindo o jovem poeta baiano, e não lhe custou a assumir no breve tempo que viveu e poetou o principado da poesia. É possível que Tobias Barreto o precedesse de dois ou três anos no arremedo de Hugo e na facúndia poética alcunhada de condoreirismo. Esta precedência meramente cronológica, não seguida de influência apreciável, por forma alguma prejudica o fato incontestável da preeminência poética de Castro Alves neste momento. Além de maior talento poético, de mais rica inspiração, de estro mais poderoso e da expressão ao cabo mais formosa e mais tocante, concorreram para o sobrelevar ao poeta sergipano a sua saída de Pernambuco e vinda ao Rio e S. Paulo, e que lhe dilatou a fama além do estreito círculo pernambucano, no qual se confinou a de Tobias Barreto, e, mais ainda, a publicação em 1870 dos seus versos, ao passo que os do seu rival só vieram à luz onze anos depois. E em tanto que as Espumas flutuantes, de Castro Alves, têm hoje oito ou dez edições, afora numerosas publicações avulsas de alguns dos seus poemas, os Dias e noites de Tobias Barreto não alcançaram mais de duas. Este fato marca suficientemente o grau de estima em que os dois poetas são tidos.
Havia em Castro Alves, como em Álvares de Azevedo, que ele grandemente admirava e imitou, o fogo sagrado, alguma coisa que à nossa observação superficial e pendor para o exagero de juízos, parecia gênio, um grande talento verbal, uma sincera eloquência comunicativa, um simpático entusiasmo juvenil. Tudo isto encobria as imperfeições evidentes da sua obra, e disfarçava-lhe as incorreções de pensamento e expressão. Não se viu então que à farragem daquela verbosidade de escola sobrelevava de muito a feição por onde se ele ligava ao nosso lirismo e o continuava dando-lhe – e este é o seu mérito e importância – com um verbo mais vivo, mais brilhante, mais sonoro, uma vida nova, formas mais variadas, cores mais rutilantes, sentimentos menos comuns, maior fundo de ideias, maior riqueza de sensações. Não é que naquele estilo pomposo não tenha Castro Alves dois ou três poemas verdadeiramente belos. Há, por exemplo, em Vozes d'África, e ainda no Navio negreiro, mais que a ênfase ou a retórica da escola, eloquência dos melhores quilates, profundo sentimento poético, emoção sincera e, sobretudo no primeiro, uma formosa idealização artística da situação do continente maldito e das reivindicações que o nosso ideal humano lhe atribui. E mais uma então ainda não vulgar perfeição de forma. Não a perfeição métrica simplesmente, porém, mérito mais alto e mais raro, a correlação da palavra com o pensamento, a sobriedade da expressão que se não desvia e derrama do seu curso, e por vezes uma concisão forte que realça singularmente toda a composição, além de imagens novas, verdadeiras, belas de fato, e uma representação que em certas estrofes atinge do perfeito senão ao sublime. São disso exemplo esses versos que têm o vigor de uma grande pintura: 
Lá no solo onde o cardo apenas medra,
Boceja a esfinge colossal de pedra
Fitando o morno céu.
De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas,
O horizonte sem fim
Onde branqueja a caravana errante
E o camelo monótono, arquejante,
Que desce de Efraim...

Com Castro Alves pode dizer-se que se alarga a nossa inspiração poética, objetiva-se o nosso estro e os poetas entram a perceber que o mundo visível existe. Poeta nacional, se não mais nacionalista, poeta social, humano e humanitário, o seu rico estro livrou-o de perder-se num objetivismo que, não temperado de lirismo, é a mesma negação da poesia. As coisas sociais e humanas as viu e entendeu e as cantou como poeta, às vezes com prevalência da eloquência sobre o sentimento, mas sempre com sentida emoção de poeta. A sua influência foi enorme, senão sempre estimável. Atuou vantajosamente em alguns dos seus melhores sucessores, o que desculpa a calamidade dos imitadores medíocres.
Foi contemporâneo destes poetas em Pernambuco, quiçá os emulou, Luís Nicolau Fagundes Varela, fluminense do Rio Claro, onde nasceu em 17 de agosto de 1841. Na sua mesma província, em Niterói, faleceu em 18 de fevereiro de 1875. Poetou entre os anos de 60 e 75. Cronológica e literariamente sucede aos primeiros poetas da segunda geração romântica, que admirou e imitou. Além da deles, sofreu visível e confessadamente como aliás aconteceu a todos os poetas posteriores a Gonçalves Dias, a influência do poeta maranhense. Estes diversos influxos foram decisivos na formação do estro e estilo poético de Varela. Foi menor o de Tobias Barreto e Castro Alves, não obstante ter Varela assistido em Pernambuco no tempo em que os dois emulavam ali pela supremacia poética. Varela era de essência um puro sentimental, e isso ficou apesar das suas medíocres tentativas de poesia patriótica. Mas a sua originalidade, se a tinha, ressentiu-se demasiado de todas essas influências. Lido após aqueles poetas, deixa-nos a impressão do já lido. No tom propriamente lírico dos seus poemas, nada se depara de novo, nem no fundo nem na forma. E como ambos não têm nele quaisquer virtudes notáveis ou sinais particulares de distinção, e haja em seus versos demasiadas reminiscências daqueles poetas, e repetições de seus próprios pensamentos e dizeres, à impressão de falta de originalidade junta-se a da banalidade. É que poeta espontâneo, de uma inspiração quase popular, é também poeta muito descuidado do seu estro e da sua arte, todo entregue à pura inspiração, que as reminiscências e o prestígio daqueles poetas queridos frequentemente comprometem. Havia, entretanto, nele um grande fundo de poesia, isto é, de sentimento poético. Se não tivera cedido com demasiada negligência do seu próprio engenho às influências que banalizaram parte considerável da sua obra, outro poderia ter sido o valor desta. Juvenília é um dos mais admiráveis trechos do nosso lirismo, como o é também o Cântico do calvário, uma das mais eloquentes, quero dizer uma das mais comoventes, uma das mais belas entre as elegias da nossa língua. Mas enfim a sinceridade que parece haver no seu sentimento, a simplicidade às vezes deliciosa do seu cantar, a melancólica voluptuosidade e o íntimo brasileirismo daquele sentimento, com a mesma ingenuidade da sua poética seduzem-nos irresistivelmente e justificam a estima que, apesar das restrições feitas, ele merece e teve dos seus contemporâneos. Dos poetas do seu tempo é o que mais tem a inspiração nacionalista então em declínio, talvez o único de inspiração americana, ainda indianista. Foi parte principal nesta a sua devoção por Gonçalves Dias, a quem evoca no Evangelho das selvas, como o "mestre da harmonia". Este poema seria a derradeira manifestação do indianismo. A de Machado de Assis tem feições próprias que a separam do indianismo tradicional. Com belíssimos versos brancos, há ainda neste poema de Varela formosos trechos, mas, em suma, revela o cansaço da escola e o seu esgotamento, se não a mesma insuficiência do poeta para o gênero. Os seus poemas patrióticos, inspirados de um momento crítico da vida nacional, e que dele e dos sentimentos que agitavam o país tiravam interesse, foram por isso mesmo parte grande na fama que em vida adquiriu Varela, acaso acima do seu valor real. Passado o motivo de sua inspiração, nos parecem agora apenas declamatórios, não tendo guardado nada que esteticamente nos comova. O que há de bom, às vezes mesmo de excelente, em Varela, é o seu lirismo sentimental, as suas manifestações de dor de pai ou de amante, os seus lamentos de poeta infeliz, ou que, por amor do romantismo, se fez infeliz, quando, o que desgraçadamente acontece com demasiada frequência, não lhe desmerecem o canto imitações ou reminiscências de outros poetas.
Machado de Assis e Luís Guimarães Júnior, cronologicamente desta geração, estrearam com ela. Machado de Assis, porém, mesmo como poeta, tem um lugar à parte e merece capítulo especial da história da nossa literatura. Luís Guimarães Júnior, a despeito da cronologia, pertence antes à geração parnasiana que a esta. Foi como parnasiano que ele teve na poesia brasileira um lugar, se não distinto, notável, que os seus Corimbos (Pernambuco, 1869), pelos quais pertence aos últimos românticos, não bastariam para dar-lhe.


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Imagens:
Acervo da Biblioteca Nacional Digital

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