sexta-feira, 30 de março de 2018

Os próceres do Romantismo: Norberto (Ensaio), de José Veríssimo


Extraído do Livro "História da Literatura Brasileira", publicado no ano de 1916. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)
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Joaquim Norberto de Souza Silva nasceu no Rio de Janeiro a 6 de junho de 1820 e faleceu em Niterói a 14 de maio de 1891. Nesta geração de laboriosos homens de letras, foi um dos mais laboriosos, e a alguns respeitos, um dos melhores e mais úteis deles. Ou porque a existência fosse então mais fácil ou porque o amor desinteressado das letras fosse então maior, é certo que nenhuma geração literária brasileira antes ou depois desta trabalhou e produziu tanto como esta. As bibliografias de Norberto enumeram-lhe cerca de 80 obras diversas, grandes e pequenas, desde 1841 publicadas em volume ou em jornais e revistas, afora prefácios, introduções crítico-literárias a obras que editou e outras. No acervo literário encontra-se-lhe de tudo, poesia de vários gêneros, teatro, romance, biografia, ensaios e estudos literários, administração pública, história política e literária e crítica. Como Norberto não tinha nem o talento, nem a cultura, pois era um fraco autodidata, que presume tamanha e tão variada produção, é ela na máxima parte medíocre ou insignificante. Deste enorme lavor apenas se salvam, para bem da sua reputação, os seus vários trabalhos sobre as nossas origens literárias, os seus excelentes estudos sobre os poetas mineiros, a sua grande e boa monografia da Conjuração Mineira e algumas memórias históricas publicadas na Revista do Instituto. Por aqueles trabalhos é Norberto, depois de Varnhagen, o mais prestimoso e capaz dos indagadores da história da nossa literatura, um dos instituidores desta. Como crítico, porém, sacrifica demais ao preconceito nacionalista de achar bom quanto era nosso, de encarecer o mérito de poetas e escritores somenos, no ingênuo pressuposto de servir à causa das nossas letras. Ele as serviu otimamente aliás, menos pelo que de original produziu, que é tudo secundário, ou por esse zelo indiscreto delas que fê-las suas conscienciosas investigações de alguns tipos e momentos da nossa história literária, e publicações escorreitas de algumas obras que andavam inéditas ou dispersas e desencontradiças dos nossos melhores poetas coloniais.
Concorreu mais para avultar grandemente a produção literária do seu tempo e geração. Na esteira de Magalhães fez também poesia americana, cantou os índios, pôs em verso cenas e episódios da nossa história ou das nossas tradições, e, até, com pouco engenho e nenhum sucesso, tentou a naturalização da balada, forma poética por sua singeleza absolutamente antipática à gente, como a portuguesa e a nossa, de alma pouco ingênua e que de raiz ama a eloquência da poesia. Em Norberto se exagera o espiritualismo sentimental de Magalhães, e o seu maneirismo poético. Além dos portugueses e brasileiros lê o pseudo-Ossian, Lamartine, George Sand (ainda então Mme. Du Devant, como a cita), A. de Vigny, Delavingne e Chateaubriand, Lope de Rueda, Victor Hugo, Parny, Ducis, Shakespeare. O alimento romântico não lhe tira toda a substância clássica, e, cedendo-lhe, escreve também uma tragédia em verso, em cinco atos, respeitando deliberadamente as regras aristotélicas: Clitemnestra. Das peças que escreveu Norberto, parece que a única representada, em 1846, e por João Caetano, foi Amador Bueno ou a fidelidade paulistana, em 5 atos. Também se representaram traduções suas do Tartufo, de Molière, e do Carlos VII, de Dumas pai, segundo a informação pouco segura de Sacramento Blake.
Noberto foi mais o criador, se não do romance brasileiro da ficção novelística em prosa aqui. A sua novela, aliás por ele mesmo chamada de romance, As duas órfãs, foi publicada em 1841 (8º, 35 págs.), dois anos portanto antes do Filho do pescador, de Teixeira e Sousa, que é de fato pelo desenvolvimento e volume o primeiro romance brasileiro. Em 1852 reuniu Norberto essa e mais três novelas sob o título, impróprio quanto ao primeiro termo, de Romances e novelas, num volume em oitavo de 224 páginas. São todas de assunto e inspiração nacional. A intuição que Norberto tinha do romance acha-se expressa na sua notícia sobre Teixeira e Sousa: "expandir-se pelas minuciosidades das descrições dos quadros da natureza, perder-se em reflexões filosóficas e demorar-se nas trivialidades de um enredo cheio de incidentes para retardar o desenlace da ação principal".
Certamente Teixeira e Sousa nos seus longos romances cumpriu mais à risca este programa, aliás da sua índole e gosto; Norberto, porém, ainda nas suas novelas o seguiu.
Norberto publicou várias coleções de poesias, quatro ou cinco pelo menos, além de numerosos poemas que em tempos diversos saíram em periódicos e não foram jamais reunidos. Embora muito apreciados no seu tempo, nenhum só desses poemas viveu na nossa memória ou sobreviveu ao poeta. A história literária é uma impertinente e implacável desconsoladora da vaidade literária, patenteando a do próprio trabalho das letras e o efêmero e precário da glória contemporânea. Mas no seu tempo, ao menos, não foi de todo vão esse ímprobo labor dos Norbertos, dos Teixeiras e Sousas e de outros companheiros seus na criação da nossa literatura. Eles trouxeram a pedra que por oculta e desconhecida nem por isso deixa de ter servido para levantar o edifício.
Não obstante haver compilado um volume de estudos alheios da língua portuguesa, o que faria supor-lhe particular estudo dela, Norberto não escreveu bem. Como os escritores seus confrades de escola e companheiros de geração, não teve mesmo a nossa preocupação de bem escrever, com acerto e elegância. É geralmente natural desataviado, mas não raro também incorreto. Quando se quer elevar a um estilo mais castigado, guinda-se e cai no empolado e no difuso. Perpetra menos galicismos do que hoje e do que o vulgo dos escritores portugueses seus contemporâneos. Aliás os da sua geração incorriam menos nesse defeito que os posteriores.
A sua obra capital em prosa é a História da Conjuração Mineira, nada obstante a opinião que dela possa fazer o nosso sentimentalismo político, uma das boas monografias da nossa literatura histórica. E mais bem ordenada e composta do que é comum em livros tais aqui escritos. Além disso, o que também não é aqui vulgar, uma obra original, feita principalmente com pesquisas próprias e de estudo pessoal. 

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