terça-feira, 26 de junho de 2018

Temas Poéticos: MITOLOGIA II


Vênus e Madona

LUÍS DELFINO
“Algas e Musgos” (1927)

Tens no teu corpo o azul, que esta hora explica,
Na brancura, que o artista ama e imagina,
Quando aos liriais quinze anos da menina
Na mulher, que ela encerra, os sóis salpica.

És a Virgem que Sanzio santifica,
— Ao colo o filho, — esplêndida e divina,
Cheia de graça, de modéstia rica,
Mas cópia fiel da amante, a Fornarina.

A luz, que a estrela mescla à noite escura
É como a luz da humana felicidade;
É na sombra que canta a luz mais pura.

E tu tens o que a vida ideal procura,
Tens da Madona a eterna castidade,
Tens da Vênus a eterna formosura.

★★★

A eterna Vênus

LUÍS DELFINO
“Algas e Musgos” (1927)

Quando, nos ricos panteões, procuras
Mármores vivos de mulher, ao vê-los,
Não sentes inda o susto de perdê-los,
Oh! mágoa! nas catástrofes futuras?

O que Atenas legou de ideais modelos,
Tipo de raça, em grandes formosuras,
Quando nos dava as suas criaturas,
Envoltas só no véu dos seus cabelos!...

O gênio grego límpido e quieto,
Como o céu e o seu mar, guarda no menos
Trabalhado pedaço o mais completo

Que a arte tem em pentélicos serenos;
E a flor nos deu das filhas de Japeto,
Perfeita, eterna, e imaculada em Vênus...

★★★

Dança de tritões

LUÍS DELFINO
"Algas e Musgos" (1927)

Vasquejava o oceano indômito defronte:
Como corola agreste, a choupana de pinho
Abria-se por sobre o dorso hirto do monte,
Entre o álacre esplendor do mato em flor, vizinho.

Como aranhol de festa, a lua no horizonte
Alumiava o areal e as curvas do caminho;
Na praia, negro, horrendo, a coma em desalinho,
Parecia o penedo aspérrimo Caronte.

Nele atada uma lancha: a lancha arfando inquieta...
E ele rijo, de pé, nessa inflexível reta;
Pela grama descia um carreirinho ao mar;

E mulheres enchendo-o, e um grupo de crianças
Riam, vendo na praia a cadência das danças
De espadaúdos Tritões, búzios soprando ao luar.

★★★

Os deuses

LUÍS DELFINO
"Imortalidades" (1941)

Aos grandes reis da lira a Orfeu herdada
Debalde, a furto, os passos teus conduzes.
Trai-te, e lhes abre a esplêndida morada
Vasto clarão de aromas e de luzes.

É tua amiga cada flor, e cada
Estrela busca em tudo que tu uses
Fazer o meigo olhar, com que é notada:
Mesmo o céu a beijar teus pés induzes.

Vêm do fundo das velhas teogonias
Deuses nus, como em seus primeiros dias,
Por mãos de rosas de manhã serena;

Vêm num vermelho furacão de vozes,
No rumor largo das apoteoses,
Só para te sagrarem deusa, Helena...

★★★

Ísis

LUÍS DELFINO
"Imortalidades" (1941)

Da existência és meu único alimento;
Eu ardo, como um círio, que cintila,
Que ao teu hálito só, Helena, oscila,
Que em teu hálito só encontra alento.

Tua alma é luz de límpida favila;
Em torno dela está meu pensamento,
E, como um vaso de ouro, o que distila
Guarda, como o céu guarda o firmamento.

Que nem manche o teu corpo a luz do dia:
Sê, minha Helena, a estátua de granito,
Que só vira ao meu fogo, ou chore, ou ria;

Quero em tudo seguir um velho rito,
Pois, sem morrer, ninguém descobriria
Ísis, a deusa esplêndida do Egito...

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