quarta-feira, 27 de junho de 2018

Temas Poéticos: MORTE - II


O que diz a Morte

ANTERO DE QUENTAL
“Sonetos” (1861)

Deixai-os vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim, os que padecem;
E os que cheios de mágoa e tédio encaram
As próprias obras vãs, de que escarnecem...

Em mim, os sofrimentos que não saram,
Paixão, dúvida e mal, se desvanecem.
As torrentes da dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem.

Assim a morte diz. Verbo velado,
Silencioso intérprete sagrado
Das coisas invisíveis, muda e fria,

É, na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.

★★★

A uma caveira

MANOEL BOTELHO DE OLIVEIRA
"Lira Sacra" (Século XVII)

Esta, que vês Caveira pavorosa!
este, que vês assombro denegrido!
este que vês retrato carcomido!
esta que vês pintura dolorosa!

Esta que vês batalha temerosa!
este que vês triunfo repetido!
este que vês Castelo destruído!
esta que vês Tragédia lastimosa!

Esta enfim te apregoa a desventura
com o mudo pregão de teus enganos
para buscar a vida mais segura:

Se olhos não tem, nem língua em breves anos,
nesta cegueira vês tanta loucura,
ouves neste silêncio os desenganos.

★★★

Beleza e Morte

BULHÃO PATO
"Versos" (1862)

Quando Deus à terra envia
Um anjo dos seus, é breve
A vida que lhe confia.

...................

Como a flor branca de neve
Que ao primeiro alvor do dia
No prado desabrochou,
Assim ela veio ao mundo,
E tão rápida passou,
Que deste rumor profundo
Nem um som, nem um gemido
Por esse anjo foi ouvido!
Nasceu, e sorrindo amou!

Quem ao vê-la tão ditosa
Tão feliz por ser amada,
E tão feliz por amar,
Bela, fragrante, viçosa,
Cheia de vida no olhar,
De luz na face encantada;
Quem diria que esse amor
Seria a chama fatal,
Que a devia enfim matar!?

Pobre florinha do vale,
Da aurora ao primeiro alvor
Nasceu, e sorrindo, amou,
Mas com a tarde... expirou!

★★★

Cadáver de virgem

LUÍS DELFINO
“Algas e Musgos” (1927)

Estava no caixão como num leito,
Palidamente fria e adormecida;
As mãos cruzadas sobre o casto peito,
E em cada olhar sem luz um sol sem vida.

Pés atados com fita em nó perfeito,
De roupas alvas de cetim vestida,
O torso duro, rígido, direito,
A face calma, lânguida, abatida...

O diadema das virgens sobre a testa,
Níveo lírio entre as mãos, toda enfeitada,
Mas como noiva que cansou da festa...

Por seis cavalos brancos arrancada,
Onde vais tu dormir a longa sesta
Na mole cama em que te vi deitada?

★★★

Perante a Morte

CRUZ E SOUZA
“Últimos Sonetos” (1905)

Perante a morte empalidece e treme,
Treme perante a morte, empalidece.
Coroa-te de lágrimas, esquece
O mal cruel que nos abismos geme.

Ah! longe o Inferno que flameja e freme,
Longe a Paizão que só no horror floresce...
A alma precisa de silêncio e prece,
Pois na prece e silêncio nada teme.

Silêncio e prece no fatal segredo,
Perante o pasmo do sombrio medo
Da morte e os seus aspectos reverentes...

Silêncio para o desespero insano,
O furor gigantesco e sobre-humano,
A dor sinistra de ranger os dentes!

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