quarta-feira, 4 de julho de 2018

Temas Poéticos: CORAÇÃO - I


O Coração

LUÍS DELFINO
“Rosas Negras” (1938)

Tenho cá dentro em mim um pássaro que salta,
Que não repousa, que não dorme noite e dia:
Quem dentro do meu peito acaso o prenderia?
Por que não canta nunca? e o que quer? que lhe falta?

De que estranho tormento ele vive? o que exalta
Sua existência, que não me deixa, e porfia?
As asas, que ele estende em mim, estenderia
Ao mais profundo mar, à montanha mais alta.

Se o cárcere rompesse, em que abismo medonho
De rojo cairia, o céu todo inda estando
Muito aquém da ambição que o devora: suponho...

Nesse vórtice louco acabas, miserando...
Ó coração, tu és um hóspede enfadonho;
Quando, abutre, hás de em mim não mais fartar-te? Quando?

★★★

O Coração

CRUZ E SOUZA
“Últimos Sonetos” (1905)

O coração é a sagrada pira
Onde o mistério do sentir flameja.
A vida da emoção ele a deseja
como a harmonia as cordas de uma lira.

Um anjo meigo e cândido suspira
No coração e o purifica e beija...
E o que ele, o coração, aspira, almeja
É o sonho que de lágrimas delira.

É sempre sonho e também é piedade,
Doçura, compaixão e suavidade
E graça e bem, misericórdia pura.

Uma harmonia que dos anjos desce,
Que como estrela e flor e som floresce
Maravilhando toda criatura!

★★★

Coração
(Ao Alexandre Mendes)

ATAÍDE MARCONDES
"Amarantos: versos" (19..)

Que tens tu, coração que te feneces
Tu, que outrora viveste alegremente?
Que dor cruel, terrível e pungente
Dilacera-te tanto? — que padeces?

Porque horas e horas te entristeces
E palpitas e choras descontente?
— Não chores, coração, vive contente
Pois de amores e vida inda careces.

Ia não vive a mulher que idolatravas
Por quem de amor, sonhando, palpitavas,
Vê pois, ó penitente, o que preferes:

— Amas um túmulo, sonhas um altar!
Podes morrer e podes inda amar!
Diz-me tu, coração: — que mais tu queres?...

★★★

Ao Coração

NORBERTO DE SOUSA SILVA
"O livro dos meus amores" (1849)

Amor l'inspiri
In guisa, che sospiri
Si dolcemente, che mercé m'impetre.
F. Petrarca.

— E dize então maviosamente:
“ — Raro e leal foi o amor seu,
Meu foi, meu todo inteiramente,
E se inda existe ainda é meu”.
J. A. da Cunha.

Eu coração desgraçado,
É baldio o suspirar,
A ingrata se ama mostra
Não saber o que é amar!

Palpitas, porém debalde,
Abrasa-te, mas em vão;
Não mais te resta a esperança,
Resta só resignação.

Vê-la é ainda mais querê-la,
Amá-la, e sua isenção?
Adorá-la, é ser injusto
Dar cultos a ingratidão.

A ingrata tudo despreza;
Sem amor para teu amor,
Não tem um ai em seu peito,
Que corresponda a tua dor.

E entretanto suspiras,
Que é baldado o suspirar,
A ingrata se ama, mostra
Não saber o que é amar!

Vai-te pois, ó desditoso,
Cansado já de gemer,
Frio, gelado de morte,
Sob a lousa te esconder.

Mas inda a fé do que foste
Te hão de ver palpitar;
Inda em torno do sepulcro
Te hão de ouvir suspirar.

Então talvez que sensível
Um ai solte ela também,
Chore o mal a que deu causa,
Deplore o passado bem.

Possa esse pranto vertido
Repassar-te, ó coração,
Para que então conheças
Que amaste, mas não em vão!

★★★

Vácuo no Coração

NORBERTO DE SOUSA SILVA
"O livro dos meus amores" (1849)

Il laisse un vide affreux...
Et Ia place qu'il occupait
Ne peut étre jamais remplie.
Parny.

Aymons donc, aymons donc; de Pheure fugitive
Hâtons-nous, jouissons!
L’homme n'a point de port, le temps n'a point de rive,
Il coule et nous passons!
A. de Lamartine

Minha Armia querida,
Goza do tempo de amor,
Que depois só resta a vida
Para o pesar, para a dor.

Um vácuo existe profundo
Em teu meigo coração,
— Inocente, pudibundo,
Qual a rosa inda em botão.

A tua infância é passada,
Grato tempo encantador!
Chega a mocidade amada,
Grato tempo sedutor!

E o vácuo que ora existe
Em teu puro coração
Verás cheio, — alegre ou triste
Que eis aí de amor a estação!

Mas, passada a mocidade,
O vácuo aparecerá;
Como na primeira idade
Amor não existirá.

E pois, Armia querida,
Goza do tempo de amor,
Que depois só resta a vida
Para o pesar, para a dor.

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