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6/04/2025

O moço velho (Conto), de Iba Mendes


O MOÇO VELHO 

Conta-se que certo moço, no esplendor de sua juventude e já enfastiado de sua mocidade, nutria de compulsiva inveja dos anciões de avançada idade. Seu grande sonho de felicidade não era amar e ser amado, nem ser rico e conhecido por todos. Acreditava sinceramente que sua grande fortuna consistia em alcançar a velhice, e se deliciava com essas fantasias.

Em consequência disso, nunca era visto entre os de sua idade ou fazendo aquilo que normalmente fazem os jovens. Ao contrário, gostava de frequentar os lugares próprios para os velhos e se divertir junto com eles nos salões de festas, nos bancos das praças e em outros ambientes próprios da ancianidade.

Com o decorrer dos anos, esse seu surpreendente apreço pelo senil, levou-o a adquirir hábitos que se tornaram bizarros aos olhos de quase toda a cidade, e inaceitáveis para os mais íntimos. Passou a vestir-se à maneira dos idosos, a andar de bengala e um tanto giboso como eles; deixou a barba crescer e começou a se interessar por filosofia e músicas antigas.

Alguns acreditavam que tinha perdido o juízo e que por isso deveria ser mandado ao manicômio.

— Já que gosta tanto de velho, que vá para o asilo — diziam os mais sarcásticos.

Quantos aos próprios velhos, as opiniões entre estes divergiam. Havia aqueles que viam os gestos do moço como um exemplo inspirador de veneração e respeito, e que, por seus próprios méritos, mereciam ser louvados e imitados por todos os outros de sua idade; a maioria, no entanto, seguia pelo mesmo bojo da multidão, que o tomava como estúpido e alienado.

O tempo, entretanto, mostrou que o excêntrico modo de agir do mancebo não indicava qualquer sinal de demência ou alienação. Em vez disso, tornavam-no cada vez mais gentil e benevolente, especialmente para os de mais idade, e de tal modo que conquistou a simpatia e o respeito de todos eles.

Mas esse mesmo tempo, como bem disse outro bom velho, é um rato roedor das coisas, que as diminui ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto. E foi assim que envelheceu o nosso jovem ancião.

Aos setenta anos, sentia-se cansado e saudoso dos velhos anos que não podiam voltar mais. A velhice o havia surpreendido e agora amava a juventude como nunca havia amado antes. Amava e desejava o que não podia ter.

Com o avançar da idade, ficou desgostoso e passou a imitar os moços, a querer ser novamente jovem; fez a barba e tentou, em vão, livrar-se da bengala. Esforçava-se para mostrar que podia fazer as mesmas proezas dos velhos tempos, e muitas vezes teve de ser amparado em praça pública ante os escárnios dos mancebos e das donzelas. Agora, alardeava aos quatro ventos que odiava a velhice e maldizia as cãs embranquecidas. Sofria assim o ridículo de sua própria decrepitude mental e física.

***

Em certo dia, quando o sol já descansava por trás das grandes árvores do ocaso, sozinho, a olhar para o ar, com a cabeça entre as mãos, ele ruminava seus remorsos de velho, a vida que poderia ter sido... De repente viu aproximar um moço. Este chegou-se a ele e sentou-se ao seu lado. Conversaram largamente. Ao despedirem-se, o idoso ergueu-se e o abraçou tão fortemente que parecia sentir nele a sua própria alma: eterna e jovem.

 

6/03/2025

O passageiro (Conto), de Iba Mendes


O PASSAGEIRO

Entrou no ônibus pensando na vida. Sentou-se no único banco vazio que encontrou, e ali permaneceu introspectivo e imergido em si mesmo, como se quisesse desvendar sua própria alma submersa em melancolia e desespero. Não reparou sequer nas curvas insinuantes de uma aprazível morena que estacionou bem à sua frente e que ria às golfadas ao celular.

Um sentimento de culpa dominava-lhe a mente. Queria voltar atrás para fazer tudo diferente... Se pudesse regredir no tempo, certamente não incorreria naquele mesmo erro.

Por que a vida era assim tão injusta para consigo? Tanta gente ruim e de má índole que vivia fartamente e sem grandes dificuldades na vida, algumas das quais até felizes e esbanjando uma saúde de ferro! E ele ali chafurdado na lama, sem sossego, sem paz de espírito, desenganado da vida e de tudo.

Por alguns instantes esforçou-se por não pensar em nada, ficando totalmente absorto. Fechou os olhos e tentou, em vão, toscanejar um cochilo leve. Logo, porém, sua mente despertou tomada por um turbilhão de pensamentos desconexos, e caiu em si que não podia fingir nem fugir à sua dura realidade.

De repente, começou outra vez a pensar na vida que poderia ter sido, e sentiu uma intensa vontade de lutar e vencer, uma força misteriosa que se imergia de dentro de si sem qualquer razão. Talvez ainda houvesse esperança, pensou. Não conseguia, porém, conceber mentalmente uma maneira que se lhe fizesse libertar daqueles terríveis grilhões. Tinha as chaves, mas não via porta alguma para abrir. Neste momento, quem o olhasse com algum interesse ou compaixão, talvez notasse um vestígio de lágrima a formar em suas retinas cintilantes.

Sentiu então uma inexplicável vontade de conversar sobre qualquer assunto e com qualquer pessoa. Queria ter alguém próximo, o pai, um irmão, amigos, enfim, uma pessoa que verdadeiramente o compreendesse e com quem pudesse desagasalhar o espírito e abrir todo o coração. Ali, porém, no vai-e-vem daquele veículo barulhento, era como se estivesse caminhando sozinho num ermo deserto, desamparado por Deus e por todos.

Enquanto isso, o ônibus percorre o itinerário que se lhe incumbe fazer, parando ali para descida de uns, detendo-se acolá para subida de outros, e assim prosseguindo para seu destino... Em seu interior vozes animadas mesclam-se com silêncios mórbidos e sufocados, como se no mesmo ambiente se dançasse uma valsa e se chorasse um defunto. E ele, alheio a tudo aquilo, voltava sua mente ao passado, e culpava-se; deslocava-a para o futuro, e se redimia numa ilusória esperança. E assim tão disperso da realidade externa e de todos, não se deu conta de onde estava. Foi quando percebeu que havia passado do ponto em que deveria desembarcar. Levantou-se num salto e acionou com toda ligeireza a campainha. Desceu apressadamente e seguiu a passos largos pela Rua da Consolação...

Além da Taprobana (Conto), de Iba Mendes

 


ALÉM DA TAPROBANA

“As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram...”

CAMÕES (Os Lusíadas). 

Estava eu lendo Camões quando o telefone tocou. Era uma voz feminina. Falava baixinho e dizia que tinha algo muito importante para dizer e me implorava para que apenas a escutasse. Acrescentou ainda rindo, que não queria conselhos nem dinheiro emprestado, nem qualquer outra coisa.

— Apenas me escute — repetia agora com audível apreensão, como se estivesse acabado de encontrar o gigante Adamastor.

Neste momento estava eu além da Taprobana, seguindo por mares nunca dantes navegados e já chegando ao Cabo das Tormentas. Um tanto confuso e surpreso, indaguei do seu nome, ao que ela disse que eu saberia mais adiante pelo próprio teor da conversa, e instava que contava muito com minha compreensão, suplicando para que não desligasse o telefone, pois se tratava de algo do meu interesse, e me pedia antecipadas desculpas pelo incômodo, repetindo que assim procedia apenas por se tratar de um assunto de excepcional relevância.

Tentei acalmá-la, dizendo que por mim estava tudo bem, e fiz-me envolver pela misteriosa voz desta musa secreta, prontificando-me a ser todo ouvidos. Ela me agradeceu a paciência, insistindo mais uma vez para que não fosse interrompida.

Dito isso, principiou a falar...

Há vinte anos que nos conhecemos, quando ainda éramos estudantes na Faculdade de Letras. Isso já faz mais de vinte anos. Lembro-me de você como se fosse hoje. Era magro, tinha um nariz fino, os cabelos lisos e longos e um par de olhos penetrantes como punhais. Ah, quanto tempo!

Lembra-se daquele dia em que nós dois, ambos eufóricos, declamávamos Os Lusíadas em voz alta lá na Praça? Você lia uma estrofe e eu outra, até nos cansarmos de tanto ler. Depois íamos para a lanchonete e nos esquecíamos das aulas. Ah, doces lembranças!

Você me chamava de Terpsícore, pois gostava de me ver dançar, e dançávamos juntos, e ríamos juntos e nos transbordávamos de louca paixão. Então você me beijava deliciosamente, e me abraçava cheio de ternura, e me recitava poemas, e me prometia eterno amor. Queria tanto que se lembrasse desses nossos momentos!...

Por fim, trago à memória o nosso último encontro. Lembra? Você estava ansioso e confuso, pois era seu último dia na faculdade. Notei ainda que se encontrava um tanto melancólico, embora nada dissesse sobre a razão daquela tristeza. De minha parte, estava transbordando de felicidade por sua causa. Ah, quanta expectativa nutria dentro de mim!...

Chorei muito quando me disse que iria visitar seus pais. Não obstante me afiançasse que voltaria com brevidade, ainda assim chorei... Sim, chorei, chorei muito... Alguma coisa dentro de mim parecia dizer que era o fim de tudo, que depois daquele dia não nos veríamos mais. E foi com esse pressentimento ruim que nos despedimos. Você lá se foi para nunca mais voltar, nem sequer me deu notícias. Nunca mais. Por quê? Isso eu jamais soube.

Há dois meses encontrei por acaso uma de nossas antigas amigas, que deu notícias suas e me concedeu o seu telefone. Queria que soubesse que, passados vinte longos anos, ainda o amo profundamente, e talvez até mais do que antes. Se isso é loucura, vá lá, que seja! O fato é que o amo. Sim, o amo como se o tempo não tivesse passado... Mas, qual a relevância dessa minha absurda confissão? Bem, estou desenganada pela Medicina. Tenho ainda alguns meses de vida, talvez uns dois ou três, foi o que me disseram. Quisera muito vê-lo antes de partir. Esse é meu anseio supremo. Sei que deve ter suas ocupações, mas...

Interrompi a conversa prometendo vê-la imediatamente ainda no dia seguinte. Ela me agradeceu chorando...

E no dia seguinte lá fui navegando na minha triste nau a ver minha antiga Terpsícore... Será que dançava ainda? Será que ainda lia o grande bardo de Portugal?

Estava tomado de estranhos sentimentos. O remorso corroia profundamente minha alma, e cheguei a sentir vergonha de mim mesmo. Nada podia justificar tão prolongado silêncio. Sentia-me como se estivesse navegando em rota oposta aos dos lusíadas, indo de Melinde à Mombaça. O Velho do Restelo parecia me interpelar, tentando convencer-me a não prosseguir viagem, e me acusava de vil infâmia. Por um breve instante pensei em desistir daquele louco intento, em abster-me de vê-la... No entanto, após ferrenha luta comigo mesmo, triunfei sobre o vil tentador e seguir avante com o socorro das musas.

Ela me esperava à porta. Estava linda, apesar dos seus quarenta e poucos anos de idade. Trajava um vestido longo e todo azul. Não se mostrava triste. Ao contrário, estava radiante e parecia espargir luz pelos olhos, e sorria como uma noiva que ansiosa aguarda o amado no altar.

Entrei. Havia flores por toda a casa, flores de vários tipos e matizes. Súbito passei a escutar uma deliciosa melodia. Era o Danúbio Azul. Então de repente ela veio até mim dançando freneticamente, e girava de um a outro lado, e erguia as mãos para o alto, e suspirava, e murmurava expressões de amor... Sem dizer nada, sem lembrar o passado, sem pedir desculpas, tomei-a pela cintura, beijai-a escandalosamente, e dançamos como dois jovens bailarinos, e nos amamos pela noite adentro...

Pela manhã acordei como se estivesse na Ilha dos Amores. Ela, porém, já não estava mais ali: tinha ido ao Concílio dos Deuses...

3/01/2025

A herança (Fabulário), por Iba Mendes

 


A HERANÇA

Conta-se que o homem tinha três filhos e que sua riqueza se resumia apenas numa casa herdada de seus antepassados. Como já estava no fim de seus dias, o velho deliberou que era chegado o momento de repartir seu patrimônio entre os rebentos. Esses, porém, não queriam que a herança fosse dividida igualmente entre si, mas que apenas um fosse o herdeiro. O pai então resolveu submetê-los a um desafio, ao fim do qual decidiria sobre qual deles mereceria o valioso quinhão.

— Ide correr mundo e aprendei uma profissão. A casa será daquele que ao fim de dois anos de aprendizado melhor executar o seu ofício ante meus olhos.

A proposta do pai agradou a todos, e cada um partiu sozinho para seu destino, ficando combinado de voltarem no mesmo dia para cumprirem o desafio final.

O primeiro resolveu ser ferrador; o segundo, barbeiro; e o terceiro optou pela esgrima.

Como conseguiram bons mestres, os três rapazes aprenderam rapidamente seus respectivos ofícios. O ferrador por sua exímia habilidade tornou-se logo empregado do rei, passando a cuidar de seus cavalos; o barbeiro, que executava com maestria sua função, passou a cuidar dos maiorais do reino. Quando ao esgrimador, este era tão excelente na sua arte que conquistou o respeito e a admiração de todos, sendo campeão em vários torneios.

Chegado o tempo de retornarem, os três compareceram à casa paterna e se dispuseram, quando possível, a demonstrar cada um os seus talentos.

Certo dia, quando conversam embaixo de uma árvore, aconteceu de passar em disparada uma lebre. O barbeiro então apanhou rapidamente seus instrumentos de trabalho e, num lapso de tempo, atirou-se ao pequeno animal, que, embora em fuga, ficou sem a barba e o bigode, não sofrendo o menor arranhão na pele.

— Isso é incrível! — disse o pai admirado. Se teus irmãos não te suplantarem, a casa será tua.

Em outra ocasião, estavam eles conversando em frente da casa, quando viram passar em alta velocidade uma carruagem puxada por dois cavalos. O ferrador tomou rapidamente de oito ferraduras, e mais que depressa alcançou os veículos, conseguindo num curto intervalo de tempo mudar todas as ferraduras dos animais.

— Isso é admirável! — exclamou o velho. És tão habilidoso quanto teu irmão. E ficou confuso acerca de qual dos dois merecia o grande prêmio.

Certa tarde, quando eles tomavam chá na cozinha, o mais novo notou que chovia lá fora, e disse:

— Meu pai, agora é a minha vez de demonstrar o que aprendi.

Dizendo isso tomou de sua espada e saiu. Lá fora segurou firme seu instrumento e passou a cortar os ares em todos os sentidos, de modo que até o fim da chuvarada nem um pingo d’água o tocou, retornando a casa do mesmo jeito que entrou.

— Isso é incrível, admirável, extraordinário! — disse o genitor com espanto, acrescentando: — És o vencedor. A casa é tua.

Os irmãos, também cheios de admiração, aprovaram a decisão paterna. Como, porém, eram muito unidos, todos continuaram morando na mesma casa, até o fim de seus dias.

 

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Por: Iba Mendes (fevereiro, 2025)

8/27/2023

Uma nova doutrina (Conto), de Iba Mendes

 

UMA NOVA DOUTRINA 

Era meia-noite quando um anjo, humildemente trajado de mendigo, apareceu-lhe de súbito, dizendo: 

– Não temas, e não te espantes. Sou Aniel, anjo santo do Senhor, e venho trazer boas novas para tua igreja. 

Valdemiro Soares Macedo (era este o seu nome) tinha então cinquenta e dois anos de idade, com muito dinheiro, farta saúde e disposição de sobra para fazer crescer ainda mais o seu já imenso rebanho. 

Convertera-se à religião evangélica aos vinte e sete anos de idade, conforme ele mesmo dizia: “após ter chegado ao fundo do poço”. Alcoólatra desde os dezesseis anos, estava decidido a acabar com a própria vida, quando fora milagrosamente tocado pela divina Providência, que o libertou dos grilhões do vício e o conduziu ao caminho da salvação. Onze anos depois de convertido, fundou uma igreja a qual denominou de Igreja Planetária da Bênção de Deus, que se expandiu rapidamente, conquistando milhares de fiéis em várias partes do mundo. 

Eram três os principais pilares de fé de sua denominação, que podiam ser sintetizados nas seguintes fórmulas doutrinárias: Deus cura, Deus liberta e Deus prospera. Um princípio ligava-se ao outro, de modo que, para ser curado, o indivíduo devia estar liberto e, para ser liberto, ele devia assumir um compromisso com Deus, doando um terço de todos os seus rendimentos, preceito este a que denominou de trízimo, e justificava: dez por cento para o Pai, dez por cento para o Filho e dez por cento para o Espírito Santo. 

A repentina chegada do anjo fez Valdemiro estremecer de assombro. Pálido e tomado de pavor ele soltou um grito e desfaleceu no chão frio, ficando ali como um morto. O mensageiro de Deus aproximou-se então dele, tomou-lhe as mãos, assoprou brandamente no seu ouvido e fê-lo saracotear como um cavalo quando ouvia soar o clarim da guerra. Disse-lhe então o anjo: 

– Levanta-te e põe-te em pé, pois trago uma nova doutrina para tua igreja. Escreverás as palavras da minha boca e as transmitirás a teus fiéis nos quadrantes da terra. Assim te ordena o Senhor. 

Valdemiro já não duvidava que estivesse diante de um ente espiritual, contudo, não podia concebê-lo como um enviado de Deus, pois estes deviam usar roupas brancas que resplandeciam como o sol, vestes ornadas de ouro e safira. Julgou então tratar-se de um anjo caído, pois se trajava com andrajos, semelhante aos pedintes que costumava ver nas portas das igrejas a suplicar uma esmola pelo amor de Deus. 

O anjo, porém, sondando a incredulidade do seu coração, agitou impetuosamente suas asas e, saltando para frente, bradou com voz de trovão: 

– Por que vacilas o teu espírito, e por que te voltas contra o enviado de Deus? Porventura encheu Satanás o teu coração, para que não compreendas os desígnios dos céus? 

Trêmulo e compungido, Valdemiro cai de joelhos aos pés do ser divino, e exclama com os olhos cobertos de lágrimas: 

– Eis-me aqui, envia-me a mim. 

O anjo então abrandou sua ira, recolheu as asas e sentou-se numa cadeira que achou encostada à parede, explicando logo em seguida qual seria a nova doutrina. 

Anunciava-lhe que segundo as novas ordens celestiais, ficava terminantemente proibido fazer qualquer menção ao dinheiro, quer durante o culto, quer em qualquer outra circunstância. A doutrina da prosperidade deveria, pois, ser substituída pelo preceito da caridade entre os homens, e citou uma passagem do Livro de Atos, em que se diz que os cristãos prósperos da igreja primitiva vendiam o que tinham e repartiam entre os mais pobres. Valdemiro mostrou-se insatisfeito com tal doutrina, afinal, tentou argumentar, como a igreja haveria de se expandir e se sustentar sem arrecadar dinheiro? O anjo então respondeu que o Senhor o proverá, assim como fizera a Abraão, a Jacó, a Isaque e aos profetas. E acrescentou ainda estas palavras de Jesus: “Pois onde se acham dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” Valdemiro entendeu a mensagem do anjo, mas via o texto bíblico como fora de contexto. Contudo nada disse acerca disso. 

Em seguida o anjo alertou-lhe que, de acordo com esta mesma determinação divina, ele deveria ab-rogar dentre os regulamentos doutrinários da igreja, aquele que versava sobre curas e milagres. Para isso, falava o anjo, há a Medicina e os médicos, os quais deverão receber os verdadeiros louros pelo restabelecimento da saúde dos homens. Valdemiro mostrou-se visivelmente perturbado, e ressaltou que as curas e os milagres constavam na Bíblia, destacando que o próprio Jesus utilizou do seu poder para curar enfermos e até ressuscitar mortos, ao que o anjo respondeu que sim, que de fato há muitos relatos de prodígios nas Escrituras, todavia, foram eles realizados na dispensação da plenitude dos tempos, acrescentando com um sorriso que os milagres não cessaram, eles apenas não acontecem no varejo. Valdemiro então resignou-se e se prontificou a obedecê-lo. 

Dito isto, o anjo agitou as asas e, como um raio, ascendeu aos céus entre as nuvens. 

Já no dia seguinte, Valdemiro procurou colocar em prática as novas exigências celestiais. Fez questão de realçar que a nova doutrina lhe fora revelada diretamente por um anjo que lhe aparecera todo maltrapilho, o qual lhe exigiu o fiel cumprimento às ordens divinas. 

A mudança deu-se de maneira drástica e num curto espaço de tempo. Logo os templos tornaram-se vazios, alguns fecharam as portas, outros foram vendidos e transformados em cinemas, casas noturnas e lojas de conveniências. Alguns membros, no entanto, persistiram nesta fé e aceitaram a nova doutrina como vinda do próprio Deus. 

Quanto ao Valdemiro, este ficou pobre e fundou uma nova e humilde denominação, sem qualquer doutrina, a que deu o singelo nome de “Testemunhas de um Bar”, cujo único “templo” ele fundara na garagem da própria casa, onde fiéis assíduos frequentam e onde dão os seus dízimos em troca de diversão e destilados.

8/13/2023

Caminho de luzes (Poema), de Iba Mendes

 


CAMINHO DE LUZES

Tudo seria tão diferente se ele não tivesse seguido por aquele caminho de luzes! Agora já é tarde demais. Cada passo para frente é uma pedra deixada para trás. O fim do túnel é o começo do regresso. Mas, como regressar se a montanha que se formou parece instransponível? Terá forças para transpor os pedregulhos de sua culpa? Conseguirá chegar ao início onde começou seu fim?

Ah, como quisera ter só mais uma chance para não fazer nada, para continuar trilhando pelo mesmo e velho caminho da própria mediocridade! Agora já é tarde demais. Cada culpa para frente, é uma pedra deixada para trás. Não há caminho de luzes. Só a realidade é o que lhe resta. Mas como encarar a luz do sol se a noite não se apaga? Como voltar atrás se não consegue remover as pedras?

Como um andarilho que caminha no deserto, faz-se mister ignorar as agruras do tempo. Não há caminho de luzes. Precisa de sua quimera a todo custo. Precisa de sua utopia a todo o transe.  A dor será seu galardão quando ultrapassar o fim do túnel. Quantas pedras terá deixado para trás e quantas luzes terá ainda pela frente?  Como escapar da realidade se o remorso ainda lhe corrói por dentro? Como seguir adiante se os caminhos de luzes se transformaram em trevas?


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São Paulo, agosto de 2023.

O nada absoluto (Poema), de Iba Mendes

 


O NADA ABSOLUTO

Sentado sobre aquele tronco de árvore envelhecido, ele volta à mente ao ventre do passado, buscando nele os despojos de sua existência intranquila. Por que, meu Deus, se preocupara tanto com tantas coisas inúteis e desnecessárias? Por que desperdiçara seu precioso tempo em querer desvendar o impenetrável? Por que se deixara perturbar noites inteiras com as opiniões alheias, com o sopro do vento, com a brisa da noite ou com o voo da borboleta? Por que, enfim, consumira parte de sua vida em busca de um prêmio que nunca existira?

Erguendo-se, ele mira agora o topo do além, buscando na lonjura do tempo o posfácio de um livro que nunca leu. Pensa na vida que poderia ter sido e que não foi. Rumina coisas que estavam tão ao seu alcance, mas que se evaporaram na linha tênue dos anos. Tão pouco tempo pra tão longa culpa! Que preço pagou por tantas rugas? Qual o soldo de tão grande sacrifício?

Agora ele segue, deixando para trás uma trilha de lágrimas. Em sua mente, pretérito e futuro mesclam-se como uma nuvem que a neblina da manhã logo desfará. O presente é para ele uma sombra fronteiriça do que se foi o do que há de vir. Sim, não obstante tudo, alguma coisa há de vir, mesmo que seja o nada absoluto.


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São Paulo, agosto de 2023. 

8/12/2023

Silêncio absoluto (Poema), de Iba Mendes

 

SILÊNCIO ABSOLUTO

Desde que começou a trabalhar na antiga fábrica de tijolos, a estrada do velho cemitério era sua passagem obrigatória. Passava ali como se estivesse caminhando por uma rua qualquer da cidade, indiferente a tudo, como se lá dentro não estivessem enterradas pessoas que amaram e que foram amadas, pessoas de importância elevada e de significância parca, pessoas que receberam aplausos e que foram invejadas...

Mesmo à noite, quando fatigado voltava de sua extra jornada, ao beirar o grande muro do prisco sepulcrário, não sentia nada, não ouvia nada... Mesmo os pios agourentos de uma coruja invisível lhe eram tão inexpressivos quanto os próprios cadáveres, seus espectadores. Seguia por ali como se fosse a provecta estátua de um jazigo, uma estátua que agora assobiava ou cantarolava.

Porém, numa tarde de um glorioso verão, quando o sol vermelho já se escondia na fronteira do infinito azul, ao passar rente ao portão da anosa necrópole, o homem, enfim, estremeceu apavorado. Um frio dolorido percorreu toda a extensão de sua espinha dorsal, atingindo seu cérebro como se fosse a descarga de um raio fulminante.  A morte então apareceu na figura de um palhaço, de revólver em punho. Um tiro certeiro no crânio, um grito fino e agudo, o tombo fatal, o pio de uma coruja, a sombra da noite, o silêncio absoluto... 


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São Paulo, agosto de 2023.

3/07/2023

Poetas esquecidos (Antologia), de Iba Mendes


POETAS ESQUECIDOS



FATALIDADE!
(Diocleciano Davi César Pinto, 1856)

Vinde, vinde, oh feiticeira,
Que de amor me fascinaste
Corre lança-te em meus braços
Que de amor tu me mataste!

Ai! não tardes linda fada!
Vem dar-me um abraço teu
E depois um doce beijo
Vinde, vinde anjinho meu!...

É somente o que te peço
Um abraço... um casto beijo!...
Mas tu coras, fugir queres...
Tu não falas! é de pejo?!

Vai-te ingrata que fugiste.
E disseste “não dou não”
Vai-te ingrata, que contigo.
Tão bem vai meu coração!

 

O SOLITÁRIO
(Diocleciano Davi César Pinto, 1856)

Que fazes aí, mancebo,
Tão tristonho a suspirar?...
Perdão se a tanto me atrevo
De teus males indagar.

Meus males?!... são bem funestos
São funestos de matar;
Os meus dias assaz mestos
Passo constante a penar!

Noutro tempo poderoso,
Agora! não mais que um pobre...
O meu pranto caudaloso
Rega o fato que me cobre!

Oh! sim, já fui poderoso,
Imperei em peito amante,
Tive — um sólio majestoso
Sob um coração constante. 
A fada mais bela amava,
Feliz era a minha estrela,
Porque um anjo me adorava,
Não tinha que dizer dela.

Perdi esse império mago,
Que fascinava minh'álma,
Libo agora amargo trago
Da saudade, já sem calma.

Guerra atroz lhe declarou
A parca até que venceu,
Aos seus golpes expirou
E na terra a escondeu!...

Vês ali aquela vargem?
Aos mortos é dedicada;
É onde repousa a virgem
Pela parca derrubada.

Seu túmulo hei de guardar
Constante, de noite e dia,
E por ela hei de rogar
Ao toque da Ave-Maria.

Par mim sua lousa ornada
Foi de boninas agrestes,
E de saudades cercada,
Com numerosos ciprestes.

Quando à noite a suspirar
Em sua campa recostado,
Com tristeza a recordar
 — O meu aurífero passado;

Até que o som revoar
Sinto com meiga brandura
Da meia noite a orar
Gorro pela virgem pura.

Então mil larvas deviso
De suas campas surgir,
Que com estrondoso riso
Vejo-as no ar se sumir!...

Ouço então tristes gemidos
Pelo recinto a vagar,
Vejo um anjo! Seus vestidos
Traz magamente alvejar!... 
Sua fronte mui singela
E meiga, volve pra mim,
Reconheço!... é sombra dela
Que vejo, aquela hora assim!

Seu rosto resplandecente
Cobre então com negro véu.
E com pranto concernente
As mãos ergue para o céu!

Abrem-se os astros brilhantes,
Áureas nuvens aparecem,
E cercando-a fulgurantes
Com ela desaparecem!

Após vem sono pesado,
Que as minhas pálpebras cerra,
Trêmulo, caio prostrado
E sem forças sobre a terra!

Acordo, já doura o sol
Altos cumes elevados,
Entre o mágico arrebol
Reinam arbustos dourados.

Jurei-lhe de ser constante,
Até suas cinzas guardar,
Sobre a campa a cada instante
Ao Deus por ela rogar!

Até que me feneça a vida
Nesta lida levarei;
Foi ali naquela Ermida
Que este juramento dei!

Adeus bom homem honrado,
O toque da Ave-maria
Já lá soa, compassado,
E meu dever anuncia!

 

O PROSCRITO
(Diocleciano Davi César Pinto, 1856)

Quem és tu proscrito que triste vagueias
Em plagas estranhas sem ter um jazigo?
Com feras só vives no seio dos montes
Só antros escuros te servem de abrigo?!

Por serras e vales ecoara teus gritos
|São cheios de raiva, tão cheios de dor!
Sorrir-se não sabem teus lábios mirrados
No peito só sentes cruel amargor!...

Maldito!... maldito!... bradando lá grita
O povo na aldeia de ti a fugir!
Os velhos tremendo se benzem ligeiros...
Até que te vejam nos bosques sumir!...

Quem sou? que te importa?! dizê-lo não posso?
Não posso do peito os segredos contar!
Segredos amargos constante ele guarda...
Que ao túmulo somente pretende levar!...

Que importa da turba ufanosa o desprezo?!
Que importa do mundo a falaz ilusão?...
Aqui nestas plagas, sou livre, sou rei,
O mundo só paga com dura traição!

 

UM BEIJO
(F. Gonsalves Braga, século XIX)

Um beijo... nada mais.

Espronceda

A vez primeira que avistei-te, oh virgem,
Tu foste a origem de um amor sem fim:
Teu lindo rosto, para o céu voltaste,
Depois me olhaste para sorrir pra mim.

Falei-te, e as horas que passamos juntos
Deram assuntos para amorosas falas:
Era de noite, — refletia a lua
Na face tua, as refulgentes galas!

Então me olhavas com teus olhos belos,
Por teus cabelos raramente ocultos:
Ergui meus olhos, fascinei-me ao ver-te,
Jurei render-te meus amantes cultos.

Tu me apertas-te nos teus níveos braços,
Seguros laços de um amor sem fim;
Eu disse-te: “Amas-me meu anjo lindo?”
Inda sorrindo me disseste “sim”?...

Senti no peito tal prazer, ouvindo,
Meu anjo lindo, a confissão de amor,
Que arrebato, tentei dar-te um beijo,
Mas logo o pejo produziu temor.

Tu que sentiste o meu desejo ardente,
Que de repente a timidez matou,
Deste-me a face, desprezando o pejo,
E o meu desejo, se cumpriu... soou!...

Soou com ele o campanário ao longe,
Por mão de um monge, mau sinal nos deu: — 
“Adeus” disseste, “Meia noite é dada.”
Fugiste oh fada, e meu amor, — sofreu!

Inda a seguir-te me atrevi: — meu peito
A amar afeito estremeceu — cai — 
Para lembrar-me o coração batia,
Pois me esquecia que para amar nasci! 



AMORES
(M. Leite Machado, século XIX)

É noite tão linda
Tão linda de encantos,
Que inspira meus cantos
Com doce primor,
A brisa que passa
Faltando de amores.

Diz ela segredos,
Segredos fagueiros,
Que vem prazenteiros
Eulina lembrar,
Fazendo por ela
Suspiros soltar!

Quisera pensando.
Pensando só nela,
Tão linda tão bela,
Tão bela sem par,
Trabalhos da vida
No mundo olvidar.

Feliz eu seria
Nos ternos amores,
Qual belas flores
Em seu despontar,
Mui castas e puras
Sem nunca murchar.

 

DESPREZO-TE
(Antônio Xavier Rodrigues Pinto, 1856)

Não intentes, mulher ardilosa,
Teu despeito no riso encobrir;
Não intentes com falsa modéstia
Os que te veem talvez repelir.

Não intentes, mulher ardilosa,
Com teus risos em mim imperar,
Não intentes fazer-me esquecer
Que teus risos sei bem desprezar.

Não intentes, mulher ardilosa,
A virtude mostrar que não tens;
Não intentes calcar teus preceitos
Com teus frios — soberbos desdéns.

Não intentes mulher, tão vaidosa,
Com a vaidade somente reinar;
Teus encantos são falsos — mentidos,
Teus encantos sei bem desprezar.

 

O ÁLBUM
(Antônio Xavier Rodrigues Pinto, 1856)

Sé nesta folha perdida
Alguém meu nome encontrar,
Se esta flor tão ressequida
Alguém quiser apanhar,
Temo muito que depressa
Desta folha se despeça.

Pediram-me um Canto subido
A mim, que não sei cantar,
A mim, que vago descrido
Entre às turbas a chorar,
A chorar, porque perdi
Há muito quanto queri.

Entre estas viçosas plantas
Que vai a minha fazer?
Entre as flores... ai são tantas
Que vai a minha dizer?!
A minha, que participa
Dessa dor que mortifica

Pobre, e triste, mas nascida
Do coração, ei-la aí;
Se é para mim tão querida
Sê-lo-á também para ti,
E a sós dirás contigo
Ela me vem dum amigo.

 

DESENGANO
(Antônio Xavier Rodrigues Pinto, 1856)

Pedes-me, mulher, um canto
Que te exprima o amor santo
Que eu outrora alimentei;
Pedes um canto subido,
Um canto todo sentido;
Mas cantar não saberei.

Tu matastes a poesia.
Que na mente refletia
Quando a sós pensei em ti;
Quando eu via a minha estrela
A brilhar no céu mui bela,
Essa estrela que segui.

Ah! Incauto!... horas inteiras
Doces esperanças, fagueiras
A formar então passei,
Quando entregue a doces sonhos
Se desusavam risonhos
Os dias que então gozei!

Eu devia essa esperança fagueira
Para sempre no olvido lançar;
Eu devia, mulher traiçoeira,
Vis manejos, cruel, exprobrar.

Eu devia jamais doces cantos
Por tua causa na lira tanger;
Eu devia só cantos pungentes
De ironia, cantar, oh! mulher!

Mas a lira obedecia
À doce melancolia,
Melancolia sem dor;
Pois que esse sentimento
Me levava doce intento
Embalado em meu amor.

Inda vens com teus sorrisos
O passado, me lembrar
Inda vens dizer-me como
Poderei, mulher, te amar?

Mas teus sorrisos são falsos,
Nada podem sobre mim,
E depois dum desengano
Imperar não vens assim.

Vai-te pois, teus juramentos
Esquecê-los saberei
As promessas que fizeste
Já de todo as olvidei.

Foi um triste desengano,
Mas em mim rigor insano
Doravante encontrarás;
Hei de o ser teu juiz,
Pois que a sorte assim o quis...
Ai! mulher... perdida estás!...

 

ÚLTIMO CANTO
(Antônio Xavier Rodrigues Pinto, 1855)

Ainda quero um triste canto
Entre suspiros e pranto
Neste dia te ofertar,
Inda quero esse passado
Tão depressa desusado
Mais uma vez recordar.

Seja a última, esqueçamos
O que outrora ambos juramos,
E que algum de nós cumpriu;
Não por mim, tostes amada
Se é possível — idolatrada,
Até que a ilusão se esvaio.

Mas não é com a lembrança
Deste dia, que a esperança
Pôde de novo voltar;
Não te iludas, dele após
Não há mais os santos nós
Que impediam perjurar.

Nada mais há que um vestígio
Desse soberbo prestígio
Que a teu nome anda ligado;
Em memória deste dia
Cedo-te o resto, Maria,
Perdoe-me Deus o pecado.

 

A BORBOLETA
(M. Leite machado, 1856)

Borboleta feiticeira,
Por que vens aqui pousar,
Tens a caso algum segredo.
Que me queiras vir contar?

Vem dizer-me se brincaste
Com Eulina em seu jardim;
Me falai toda a verdade,
Dizei não, ou dizei sim.

Se de leve nos seus dedos
Tão mimosos te apertou,
E depois mui meigamente
Livremente te soltou.

E a vaidosa borboleta
Escutou o rogo meu,
E depois erguendo o voo
Mal apenas respondeu:

Iludido sois, mancebo,
Buscai Eulina esquecer,
Que tereis um desengano
E vos pode enlouquecer.

Ela é falsa, muito falsa,
Não vos pode pertencer;
Fugi, pois ao precipício
Se não quereis lá morrer.

Foi este o fatal segredo
Que sem medo revelou;
E depois abrindo as asas
Velozmente se ocultou.

Vai-te, vai-te, borboleta,
Para bem longe, vai sim;
Que teu segredo maldito
Não o quero para mim.

Fiquei triste, ai bem triste,
Na borboleta a pensar,
E em segredo tão nefando
Sem poder acreditar.

Desde então nunca segredos
De ninguém eu quis ouvir;
Por temer que me quisessem
Qual borboleta mentir.

 

PORTUGAL
(J. Augusto Da Silva Guimarães, 1856)

Minha terra é a imagem
Do celeste Paraíso;
É de Deus Onipotente
O mais brilhante sorriso.

É um solo abençoado,
A Pátria aonde nasci,
As belezas que ela encerra
Noutra parte inda não vi.

Tem cidades mui formosas,
Tem campinas deleitosas,
As frutas são saborosas
Como mais não podem ser;
Produz plantas para tela,
Tem o vinho e a canela,
Lá se escuta a Filomela
Pelos bosques a gemer.

Tem um céu onde as estrelas
Fulguram sempre mui belas,
Tem a lua que como elas
Brilha mais que em outra parte
Tem seus campos plantados
De trigos bem semeados
Por pastores amestrados
Nesse fértil ramo de arte.

Tem Coimbra, que tem dado
Ao mundo povo ilustrado,
Tem esse Porto abastado
Pelo comércio que faz;
Tem Lisboa a graciosa,
Cidade rica e formosa,
Cuja barra deleitosa
Ao mundo franqueia em paz.

Tem os seus templos sagrados
Que já dos antepassados
A nossos avós legados
Atestam sua grandeza;
Tem um nome engrandecido,
Respeitado e mui temido
Para aquele que atrevido
A quer forçar à baixeza.

No comércio, nação forte,
Espalha do sul ao norte
Navios de grande porte
Com produtos sem igual.
A minha Pátria é sagrada,
Pelos céus abençoada
Em todo o mundo é cantada
Minha Pátria — Portugal. 
Quero muito à minha Pátria,
Bela Pátria onde eu nasci,
Por que as belezas que encerra
Noutra parte inda não vi.
Deus permitia que inda veja
Minha Pátria um só momento,
E tranquilo no seu solo
Tarde chegue o passamento.

 

MEUS SUSPIROS
(A. C. da C., século XIX)

Nem suspirar eu sábia
Antes de te conhecer, — 
Depois que vi teus encantos.
Sei suspirar, sei morrer. — 

(C. P.)

Quando te ouvia cantar
Doce emoção eu sentia,
Era então mais venturoso,
Nem suspirar eu sabia.

Logo que vi teus encantos
Senti minh'alma sofrer,
Já não era como outrora
Antes de te conhecer.

Desejando sempre ver-te
Eu vivia sempre em prantos,
Lamentei a minha sorte
Depois que vi teus encantos.

Desde já, oh! quanto sinto
Meu coração padecer,
Agora sou infeliz,
Sei suspirar, sei morrer

 

MEDITAÇÃO
(Joaquim Félix F. E Souza, 1856)

Tudo perdi no mundo... e agora triste
Só libo amarguras
São sonhos mentidos de outrora
Que diziam venturas.

Quanto é grato oh meu Deus, pelo silêncio,
De uma noite sombria o meditar,
Fugir aos vãos prazeres que nos cercam
As turbas das cidades aonde fervem
As orgias, o orgulho, a pompa e tudo
Que há devasso na vida entre fulgores.
Acompanha-me assim, querida musa
Deixemos a cidade, e ao bosque umbroso
Iremos meditar; oh! quanto é doce
Recordar dos amores as saudades
Que inda outrora anelava quando forte
As vigorava em tua ausência cheio
De esperanças ternas; quanto e belo
Da lua contemplar o argênteo globo
Por instantes oculto em outros limpo
Mil cristalinos raios refletindo
Aqui, ali além, no manso lago.

Amo ver surgindo a aurora
Risonha, bela e graciosa,
Amo ver a estrela d'alva
Anunciando a manhã.

Amo a lua sobre o leito
De ondas de prata a fulgir,
Cercada de mil estrelas
Placidamente a luzir.

Amo esses sonhos que anela
Pudica virgem qual flor,
Amo os doces pensamentos
Que me vem falar de amor.

Amo os astros tão luzentes
A sorrir-me com afã;
Amo as flores que se dobram
Aos encantos da manhã.

Eu vibrarei a lira ao som dos ecos
Nas auras soltarei com as vozes d'alma
Das saudades que tenho ternas queixas,
Os ternos cantos que a saudade inspira,
Baixa oh, anjo dos céus, por ti anelo,
Confidente ouvirás as minhas mágoas
Destes gratos suspiros, e os lamentos
Ao pé desta palmeira muda e triste
Despida dos verdores naturais,
Assentados leremos negras páginas
Dessa vida passada em amarguras
Do fel da submergida existência.

Amo as águas que contentes se desprendem
Na cascata ao cair,
Amo as vagas gementes que se arrojam
Com profundo sentir.

Amo a virgem dos bosques tão airosa
Destoucada e graciosa,
Amo as roupas nevadas que lhe ondeiam
À aragem da manhã.

Amo-lhe as faces tão níveas qual cisne,
E seus longos cabelos
Se para mim se inclina um só reflexo
Desses olhos tão belos.

Amo-lhe a lira de ouro em que tangia
Sua canção divinal,
Amo-lhe os lindos seios tremulantes
Alvos lírios do vai.

Amo longe o bem longe das cidades
Dar paz ao coração,
Eu amo respirar livre e sozinho
Na vasta solidão.

Amo o céu, as estrelas e mais quanto
Está no firmamento,
Amo à tarde comigo meditando
Um doce pensamento. 
Eu desprezo o egoísmo desses homens
Que habitam cá na terra,
Amo Deus, universo e tudo quanto
A minha crença encerra

 



GEMIDOS
(João Dantas de Souza)

Secai-vos, minhas, lágrimas, secai-vos,
Que prantos de homem, não os vale nunca
No mundo uma mulher... que os paga em risos!

João de Lemos

Mulher! para que vens ante meus olhos,
De alvos cetins, qual fada, revestida
Risonha aparecer, singela e casta,
Qual outrora feliz me aparecias?...
Para que vens oh mulher, inda em mil sonhos
Ante mim retratar-te, qual no tempo. 
Ai! nesse tempo oh! dor! em que pudeste,
Com falsos ademans, com falsos risos
Mentidas expressões, juras fictícias,
Por esses doces mimos ajudada
Com que Vênus e Hebe te brindavam
Trazer-me tantas horas iludido?!

Oh! como nesse tempo em que três lustros
E pouco mais contando, me enlevava,
Nessas horas que amor nos concedia,
Contigo ir divagar à sós do bosque
Pela densa espessura, ou mesmo ainda
Por essas avenidas florescentes,
De amor falando as falas que em minh’alma
De tua voz o eco repetia!
Que mago enleio não achava, eu mesmo,
No só frouxo roçar de teus vestidos
Pelo matiz da relva ao me seguires! 
Quanto me inebriei nessa ternura
Com que nos meigos braços um do outro
Tanta vez enfiados magamente 
Teu doce trovador tu me chamavas!
Só para hoje desfeito o véu mentido
De tão grata ilusão, com as fibras todas
De minh'alma cortadas uma a uma
Assim perdida ver-te para sempre...
Perdida para mim amando a outrem!...
Ai! quanto te eu amei, mulher ingrata!
Como era puro, casto e sem limites,
Esse amor que eu em horas de sol posto,
Sentados sobre as ribas pitorescas.
Dum manso arroto, ouvindo a voz maviosa
Do pintassilgo, e lá no espaço imenso
Surgir vendo da lua o brilho a furto
Eu te jurei mulher eternamente!
Para agora gemer na soledade
As torturas cruéis de teu desprezo!... 
Amei-te, mulher, qual pode
Amar-se um anjo do céu!
Amei-te mais do que eu amo
A vida que Deus me deu.

Amei-te, qual amo ainda,
Essa plaga onde nasci;
Amei-te, qual os carinhos
Que em minha infância colhi!

Amei-te, qual amei sempre
Os folguedos de criança;
Amei-te, qual doutro tempo
Minha estrela de esperança!

Amei-te, qual amo agora
O desabrochar duma rosa;
Amei-te, qual aos sorrisos
De minha mãe carinhosa.

Amei-te, qual amo aos raios
Da lua no firmamento;
Amei-te, qual amo aos entes
Que viram meu nascimento!

Amei-te, qual pode amar-se
No mundo a doce existência;
Amei-te, enfim, qual eu amo
Quanto de Deus tem a essência!...

Eras tu só minha esperança,
Eras tu só meu condão,
Eras minha luz nas trevas,
Eras tu meu coração!... 
Mas antes não te amara, oh! antes nunca
Eu vira teus encantos sedutores
Cora que fada cruel me fascinas-te!
Antes nunca, esse fogo de teus olhos
Incendido tivera a chama ardente
Com que tu me roubaste a paz desta alma!
Ou! antes a provar-me nunca deras
A taça da ventura, e te mostraras
Qual eras insensível aos extremos
De meu sincero amor, que assim não foram
Tão acres as torturas que hei sofrido!
Pois se choro e lamento, hoje os meus carmes
Nem num eco dos ecos voz encontram!...

 

OUTONO
(Xavier Pinto, traduzido do Espanhol)

Do bosque, e do jardim o sopro estéril
Do outono, lhe roubou a verde pompa,
E a arrasta sem vigor, impetuoso
Por de sobre o árido solo.

As árvores, os arbustos eriçados,
Sem cor, estendem os semissecos ramos,
E tomam o aspecto pavoroso
De gélidos esqueletos.

Fogem deles as aves espantadas
Que em torno lhe giravam buliçosas,
E entre as frescas folhas escondidas
Cantavam Seus amores

E depois... as mesmas plantas que há pouco
Do sol resguardavam o ardor intenso,
E entre aprazíveis auras balouçavam
Formosas e louças...

Passou a juventude fugaz, breve
Passou sua juventude... envelhecidas
Não podem ostentar as ricas galas
Que lhes deu a primavera

E após em seu lugar o frio inverno
Lhes dá rígida neve como ornato,
E o jugo, que é o sangue de suas veias
Geladas serão da morte.

 

SAUDADES
(Francisco Coelho Martins da Costa, 1856)

Á MINHA MÃE

Atra saudade o coração me oprime
Com a dor intensa de meus tristes carmes.
Sentidos ais
Há já dois lustros que proscrito, errantes,
Incerto os passos nesta senda trilho
Sem ver meus Pais
Se a lira tomo, mais o pranto excita
Quede meus olhos incessante corre
Por minhas faces;
Já não encontra bonançosas brisas
Que noutros tempos a beijar-me vinham
Ledas fugaces

O quanto é doce minha mãe querida,
Após da lida que suporto atroz.
Nas curtas horas em que o céu me inspira
Pegar na lira, me lembrar de vós.

Então me sinto transportado a um mundo
Novo, fecundo de feliz magia,
E nele vejo radiante e pura,
Maga ventura, que gozar queria.

Dentre mil flores dum odor fragrante
Vejo brilhante, deslizar-se um véu,
A pouco a pouco remontar-se às nuvens
Das mãos de Rubens, o retrato teu.

Nesse momento de ilusão tão casta
Ele se afasta, que mais vejo! — Deus — 
Que lá do Empíreo, rodeado de anjos;
A par de arcanjos o conduz aos céus!

O quanto é doce minha mãe querida
Após da lida que suporto atroz,
Nas curtas horas em que o céu me inspira,
Pegar na lira me lembrar de voz.

Aos dois lustros e dois anos
Minha mãe, que te deixei,
Não sabia,
Prezar teus doces carinhos
Que tão cruel desprezei
Num só dia. 
Nem as lágrimas piedosas,
Que de teus olhos brotavam
Só de amor.
Nem os suspiros magoados
Que de teu peito manavam
Pela dor.

Nem os queridos abraços
Que a teu colo me cingiam
Com ternura
Nem as frases maternais
Que teus lábios desprendiam
De candura.

Nem teus amorosos beijos
Que com transporte me davas
De mãe triste
Nem o teu último — Adeus — 
Quando de mim te apartavas
E fugiste.

Aos dois lustros e dois anos
Minha mãe, que te deixei,
Não sabia.
Prezar teus doces carinhos
Que tão cruel desprezei
Num só dia.

Parti: e deixei-te sofrendo mil dores,
Deixei os frescores das brisas sem par:
O seu ciciar: E por quê? por tremendos
Bramidos horrendos das ondas domar.

O tempo mudou-se da minha ventura,
A voz da natura em meu peito ecoou,
Mas tarde chegou... e mui longe senti
O bem que perdi, o meu pranto o mostrou.

Cresceu a saudade no meu coração
A luz da razão me animou a sofrer,
Para um dia te ver, uma vez abraçar-te.
Mais nunca deixar-te, contigo viver.

E então a teu lado
Libando as delícias
De tuas carícias
Minha mãe, sem par:
Eu quero cantar
No meu alaúde
Um hino que mude
Teu agro penar.

Quero ver teus olhos
De chorar pisados
Pela dor magoados
De tanto sofrer;
Ah! sim, queremos ver
De novo brilhar
Seu júbilo mostrar
Fulgir de prazer.

Depois que me importa!
Que a Parca sedenta
De meu sangue, intenta
Meus dias torcer,
Me vinha dizer
 — Teu fim já chegou
Agora aqui estou... — 
 — Já posso morrer — 
 

A VOZ DE UM ANJO
 (Reinaldo Carlo, 1856)

CANTO DA TARDE

Sobre o teu peito reclinada a fronte,
Suave fogo pelo meu se infiltra,
Como no espelho plácido dó lago
Crescente agitação os euros erguem.

Sentir teu hálito, e sem amor olhar-te!
Jamais o néctar inebriar não pôde,
Como os teus olhos, que lânguidos se notam
Por entre o véu de acetinados cílios.

Ah! vem Malvina, que o teu leve braço;
Cingido apenas de vaporosa gaze,
Sobre os meus ombros carinhoso penda
E a mão mimosa o coração me oprima;

E que os teus lábios de carmim tingidos
Doces acentos para mim murmurem;
Fala-me do céu, que habitaste outrora,
Anjo nos carmes de Sião cantado.

Do crepúsculo nos últimos momentos,
Quando me sento do regato à margem,
Assim escuto o gorjear sonoro
De ave saudosa pranteando amores.

E a noite desce; lutuosas sombras
Pelo vai se estendem, ocultando os bosques?
Em que do canto a derradeira nota
Ainda nos ramos sonorosa ecoa.

 

NOSSO AMOR
(M. Leite Machado, 1856)

Esta chama tão ardente
Já devora lentamente
O meu triste coração;
Ah! Eulina, vem dizer-me
Que não buscas esquecer-me
Que inda me tens afeição!...

Sabes bem que me inspiraste
E que poeta me tornaste
Da juventude na flor!
Sim, vem dizer-me, que me amas,
E a pagar as vivas chamas
Corre, corre, meu amor... 
Surja embora a desventura
Nessa lei amarga e impura
A ventura nos roubar?!...
Que à face dos céus eu juro
E por nosso amor tão puro
Poder dela triunfar!

Depressa voa a meus braços
E verás em doces laços
Um futuro mui feliz;
Corre, corre, essa ventura
Gozar; pois é santa e pura
Nosso amor é quem o diz!... 
Eu procurava esquecer-te
Sem julgar que era ofender-te
Tão inocente!!... perdão...
Tão me percas da lembrança
Tem fé, e tem esperança
Anjo do meu coração!... 
Todo esse tempo passado
Quero que seja lembrado
Quando faltarmos de amor;
Vem, que esta lira contente
Já te chama alegremente
Para a teus pés se depor!...

Tu serás senhora minha
Serás mais do que rainha
Mais feliz inda hás de ser;
Pois terás um peito amante
Sempre amando-te constante
Inda depois de morrer!...

Depressa voa a meus braços
Entre ternos e doces laços
Ver um futuro feliz;
Corre, corre, essa ventura
Gozar; pois é santa e pura
Nosso amor é quem o diz.

 

UMA ESTRELA
(Manoel José de Oliveira Silva, 1855)

Vê no vasto firmamento
Um portento;
Uma estrela a cintilar,
Derramando viva luz
Que seduz;
Que me fez extasiar. 
Tinha raios, tão brilhantes
Fulminantes;
Que os olhos lhe fez cegar,
Ela vivia serena
Mui amena;
Na água a se retratar. 
Eu vi outras estrelas
Mui singelas;
Mui singela aljôfar,
Nem uma tinha a beleza
A pureza;
Da que me fez encantar.

Eu te saúdo, ó estrela!
Como a rosa, ao astro rei
Como o pai saúda a grei,
Há tempos ausente dela;
Derramaste em minh’alma,
Uma esperança, uma calma
Que não posso explicar,
Assim recebe as provas
Destas tão singelas trovas,
Neste singelo trovar.

 

JÁ TE NÃO AMO
(J. J. Barbosa de Castro, 1855)

Que fim tiveram as juras
Ardentes e tão seguras
Que me fizeste de amar?
Esqueceram! É verdade
Não ser já mais novidade
Mulher mentir, e jurar. 
Foram vãs inspirações
Dum momento, sem tenções
De chegarem a ter fim,
Foram brinquedos da vida,
Distração e divertida,
Que passaste junto a mim.

Louca, ai não, louco fui eu
Que te amei, e que me deu
Para crerem teu jurar!...
Mas se tu me parecias
Anjo assim, o que farias
Tu também em meu lugar? 
Havias de amar-me, diz?
Pois foi o que louco eu fiz,
Que nos enganos não cria;
Devias porém piedade
Teres de mim, Anilade...
Não quiseste... quem diria?!

Esforcei-me precisava
Esquecer-te, triste andava
A pensar como o faria;
Mas desgraçado de mira
Avivava mais assim
O nosso amor dalgum dia...

Tinha ele já se filtrado
No coração, e ficado
Como um nato sentimento
Oh! não te condoí ingrata
Veres como amor me trata
De contínuo num tormento??

Não! não imploro de ti
Nada ao que sofro e sofri,
Porque te cri e amei-te;
Deixa-me, não presumes
Que me matam os ciúmes
De ver-te hoje doutro aceite? 
Mata-me só o pecado
De assim ter-te tanto amado...
Não lembrar como esquecer-te
Como pude fielmente
Eu amar-te sempre e sempre
E não chegar a entender-te...

Ai que nesta vida minha
A condição mais azinha
Foi o destino em te amar!
O que já mais me há custado
Pretérito que me há ligado
Pena, remorso e cismar. 
Não o remorso dum mal
Que te fizesse, que tal
Nunca por mim se intentou:
É o remorso nascido
De haver eu gasto e perdida
Esse amor que já passou.

Ai que pena, que malfado,
Haver veemente amado
A linda sem ler beleza...
Com teus rigores me matas,
Iludes, finges, retratas,
Impostora a natureza!... 



MILCÍADES
(José Antônio de Lira, 1855)

I
Avante fiéis companheiros
Não podemos recuar,
Avante que o inimigo
Nossos lares quer tomar,
E se chega a conseguir
Nós não podemos fugir
Vamo-nos escravizar!!...

Assim dizia Milcíades
Á sua tropa luzida,
Que à vista do inimigo
Estava esmorecido,
Mas o chefe com brandura,
Com palavras de ternura
Lembrava Atenas querido. 
Vedes a Pérsia em peso
Seus males aqui trazer?
Estão certos na vitória
Tudo isso faz crer!!
Avante amigos fiéis,
Tocai os vossos corcéis,
Vamos cumprir um dever. 
A tropa ateniense
De repente se alegrou!!...
E numa marcha picada
Aos persas caminhou,
A peleja era forte
A muitos causou a morte;
Muita lança se quebrou.


II
Na cidade de Atenas
Tudo estava em confusão,
E com olhos no horizonte,
Grande dor e aflição,
De repente um murmurinho,
Vinha dizer de mansinho
Alegrai o coração.

Ao longe lá — na campina
Ligeiro pó se avistou!!...
Todo o povo de Atenas
Seus olhos ali voltou!!...
Uns diziam, que horror
Outro com muito ardor
Atenas vitoriou!!... 
Era um pobre cavaleiro
De cicatrizes coberto,
E nos traços de seu rosto
A morte linha mais certo,
Já não podia falar
Só se ouvia o arquejar,
Da morte que estava perto. 
Chegou à porta de Atenas
O povo todo tremeu!!...
E por fim a muito custo
Seu peito fortaleceu
Alegra-te ateniense,
A Vitória nos pertence
E no momento morreu!!! 



RECORDAÇÕES
(M. T. C., 1856)

Lá das selvas e dos campos,
Onde a infância passei,
Com tristeza e saudade.
Sempre me recordarei 
Sem cuidados no futuro
Mui contente ali passava
Em mil brincos inocentes
Era só no que eu pensava. 
Despontava a linda aurora
Eu pelos campos corria,
As flores, as aves, as selvas,
Tudo para mim sorria! 
Mas tanto bem já perdi!
Da mãe e do pai saudoso,
Vivo longe a suspirar
Como um filho extremoso. 
Praza ao Céu que possa um dia
Eu gozar tanta ventura,
Que de afetos maternas
Torne a gozar a doçura.

 

A FLOR SEM CULTO
(José Ernesto da Cruz Ferreira, 1855)

Todo o universo reflete
na tua imagem.

Lamartine

Minha rosa gentil, minha flor,
Como agora serás no jardim
Requeimada talvez do calor,
Que no peito aguardas por mim! 
Não?! quem dera poder eu voar
E ir à terra onde estás plantada,
Escavá-la, e então te mudar,
E trazer-te no peito encerrada.

Que os ardentes calores do estio,
Nem rajada de forte aquilão
Se achegasse imprudente, e sem brio
A trocar-te o mimoso botão. 
Praza a Deus que algum verme não roa
Teu pé tenro, viçoso, engraçado,
Que serás melhor flor da que soa
Terem aí nesse chão vegetado.

Hás de ter um cultor que sou eu,
Que d'aurora ao romper se há ver-te,
Estar com ligo, não ser senão teu,
Sobre a noite velar, defender-te. 
Se eu gozasse a fragrância que exalas,
Onde os males me oprimem constantes,
Minha rosa! bem longo dos galas
Desfrutara felizes instantes. 
Percebera da vida o viver,
E nas velas o sangue girar;
Porém quase me sinto morrer
Sem ao menos poder-te saudar.

Mas espero, confio na sorte,
Queira de um dia raiar mais brilhante,
E que cheio de amor num transporte
Possa ver-te, beijar-te incessante. 
Adeus, casta, misteriosa planta,
Minha rosa gentil, por quem gomo;
Fade o céu o fulgor que me encanta
Gloria sua e do Ente Supremo...



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Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2023.