sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O Madeireiro (Conto), de Aluísio Azevedo



O Madeireiro

Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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— Sua ama está em casa rapariga?

— Está, sim, senhor. Tenha a bondade de dizer quem é.

— Diga-lhe que é a pessoa que ela espera para jantar.

— Ah! Pode subir... Minha ama vem já.

Entrei e reconheci a saleta, onde eu dantes fora recebido tantas vezes pela viuvinha do general.

Quanta recordação! Vira-a uma noite no Club de Regatas; apresentou-ma um jornalista então em moda; dançamos e  conversamos muito. Ao despedir-nos, ela, com um sorriso prometedor, disse-me que costumava receber às terças-feiras os amigos em sua casa e que eu lhe aparecesse.

Fui, e um mês depois éramos mais do que amigos, éramos amantes.

Adorável criatura! simples, inteligente e meiga. No entanto, o meu amor por ela fora sempre um tanto frouxo e preguiçoso. Aceitava e desfrutava a sua ternura como quem aceita um obséquio de cortesia. Teria eu porventura o direito a recusá-la?...

Mas, assim gomo nasceram, acabaram os nossos amores; uma ocasião cheguei tarde demais à entrevista; de outra vez lá não fui; depois esperei-a e ela não se apresentou; até que um dia, quando dei por mim, reparei que já não era seu amante.

Seis meses já lá seriam depois disto, e eis que uma bela manhã, ao levantar-me da cama, entregaram-me uma carta.

— Era dela.

“Meu amigo.

Sei que conserva as minhas cartas e peço-lhe que mas restitua. Venha jantar comigo, mas não se apresente sem elas. E um caso sério, acredite.

São vinte. Não me falte e conte com a estima de quem espera merecer-lhe este último obséquio.

Afianço que será o último. — Sua amiga, Laura.

Para que diabo quereria ela as suas cartas?...

Teria receio de que as mostrasse a alguém?... Impossível!

Principiavam-me estas considerações, quando se rasgou a cortina da saleta e a viuvinha do general surgiu defronte de mim.

— Com efeito! disse ela. Só assim o tornaria a ter em minha casa! Bons olhos o vejam!

 Beijei-lhe a mão.

— Trouxe?... perguntou.

— Suas cartas? Pois não! Bem sabe que a mim as suas ordens são sagradas...

— Ainda bem. Sente-se.

Sentamo-nos ao lado um do outro. Ela rescindia uma combinação agradável de kananga do Japão e sabonete inglês; tinha um vestido de linho enfeitado de rendas; e na frescura aveludada do seu colo destacava-se um medalhão de ônix.

— Então; que fantasia foi essa?... Interroguei,  depois de um silêncio em que nos contemplamos com o mesmo sorriso.

E no íntimo já estava gostando de haver lá ido. Achava-a mais galante; quase que me parecia mais moça e mais bonita.

— Que fantasia?...

— A de exigir as suas cartas.

Ela fez do seu meio sorriso um sorriso inteiro.

— Tinha receio de que alguém as visse...  perguntei, tomando-lhe as mãos entre as minhas.

— Não! Suponho-o incapaz de tal baixeza...

— Então?...

— Mas para que deixá-las lá?... Está tudo acabado entre nós...

E retirou a mão. Eu cheguei-me mais para ela.

— Quem sabe?... disse.

Laura soltou uma risada.

— Você há de ser sempre o mesmo!... Não se lembraria de mim se não recebesse o meu bilhete, e agora... Tipo!

— Não digas tal, que é uma injustiça!

— Espere! Tira a mão da cinta! Tenha juízo!

— Já não te mereço nada?...

— Deixe em paz o passado e tratemos do futuro. Eu quero que você seja meu amigo...

Dizendo isto, erguera-se e fora abrir uma janela que despejava sobre o jardim.

— Está então tudo acabado?... Tudo? inqueri, erguendo-me também, e envolvendo-a no meu desejo, que ela fazia agora reviver, maior do que nunca.

É que incontestavelmente o demônio da viuvinha estava muito mais apetitosa. Nunca tivera aqueles ombros, aquele sorriso tão sanguíneo e aqueles dentes tão brancos! Seus olhos ganharam muito durante a minha ausência, estavam mais úmidos e misteriosos, quase brejeiros! o seu cabelo parecia-me mais preto e mais lustroso; a sua pele mais pálida, com uma cheirosa frescura de magnólia. Todos os seus movimentos adquiriram inesperada sedução; o seu quadril havia enrijado de um modo surpreendente; o seu colo tomara irresistíveis proeminências que meus olhos cobiçosos não se fartavam de beijar.

— Então, tudo acabado, hein?...

— Tudo!

— Tudo? tudo?...

— Absolutamente!

— Para sempre?

— Você assim o quis, meu amigo! Queixe-se de si!

Ia lançar-lhe as mãos e fechá-la num abraço; ela, porém desviou-se, ordenando-me comum gesto muito sério que me contivesse, puxou duas cadeiras para junto da janela e pediu-me que a ouvisse com toda a atenção.

— Sabe por que lhe exigi as minhas cartas?...

— Por quê?

— Porque vou casar...

— Como? A senhora disse que ia casar?!

— Dentro de dois meses.

— Com quem, Laura?

E fiquei também eu muito sério.

— Com um negociante de madeiras.

— Um madeireiro?

Ela meneou afirmativamente a cabeça; eu fiz um trejeito de bico com os lábios e pus-me a sacudir a perna.

— Está bom!

— Que quer você?... Uma senhora nas minhas condições precisa casar!...

— Ora esta! Um madeireiro!

— Que me ama muito mais do que você me amou, tanto assim que está disposto a fazer o que você nunca teve a coragem de imaginar sequer! E juro-lhe, meu amigo, que saberei merecer a confiança de meu marido! Serei em virtude o modelo das esposas!...

Olhei-a de certo modo.

— Não seja tolo! disse ela em resposta ao meu olhar.

E fugiu lá para dentro, sem consentir que eu a acompanhasse.

Só nos tornamos a ver meia hora depois, já à mesa do jantar.

— E às cartas? reclamou ela.

Tirei o maço do bolso, desatei-lhe a fitinha cor de rosa que o atava; contei as cartas, estavam todas as vinte metodicamente numeradas, com as competentes datas em cima escritas em letra boa.

Mas não tive ânimo de entregá-las.

— Olhe! disse, trago-as noutro dia... Se as restituir agora, que pretexto posso ter para voltar cá?...

— Hein? Como? Isso não é de cavalheiro!...

— Não sei! Quem lhe mandou ficar mais sedutora do que era?

— Está então disposto a não entregar as minhas cartas?...

— E até a servir-me delas como arma de vingança!

Laura franziu a sobrancelha e mordeu os beiços.

Tínhamos já cruzado o talher da sobremesa e bebíamos, calados ambos, a nossa taça de champanhe.

O silêncio durou ainda bastante tempo. Ela só o quebrou para perguntar, muito seca, se eu queria mais açúcar no café.

E continuamos mudos.

Afinal, acendi um charuto e arrastei minha cadeira para junto da sua.

— É melhor ser minha amiga... segredei passando-lhe o braço na cintura.

— Não desejo outra coisa, balbuciou ressentida e magoada. Peço-lhe juntamente que me proteja como amigo, em vez de por obstáculos ao meu futuro. Que diabo! eu preciso casar!...

— Eu lhe entrego as cartas... Descanse.

— Então dê-mas!

— Com a condição de prolongar a minha visita até mais tarde...

— Mas...

— E fazermos um pouco de música ao piano como dantes. Está dito?

— Jura que me entrega depois as cartas?...

— Dou-lhe a minha palavra de honra.

— Pois então fique.

As onze e meia, Laura apresentou-me o chapéu e a bengala.

Repeli-os e declarei positivamente que não lhe entregaria as cartas, se ela não me concedesse por aquela noite, aquela noite só, gozar ainda uma vez dos direitos que dantes o seu amor me conferia tão solicitamente.

Ela a princípio não quis, mostrou-se zangada; mas eu insisti, supliquei, jurei que seria a última vez, a última!

E não saí.

Pela manhã, depois do almoço, Laura exigiu de novo as suas cartas.

Tirei o pacotinho da algibeira, abri-o, contei dez.

— É a metade. Aí ficam!

— Como a metade?...

— Pois, Laura, você me acha tão tolo que te entregasse logo todas as tuas cartas?... E depois, em troca do, que te pediria que prologasses um outro jantar como o de ontem?...

— Isso é uma velhacada!

— Que seja!

— Estou quase não aceitando nenhuma!

— Daqui a urna semana ver-te-ei trazer as outras dez. Está dito?

— Tratante!

Daí a uma semana, com efeito, lá ia eu, com as dez cartinhas na algibeira, em caminho da casa de Laura. E nunca em minha vida esperei com tanta ânsia a hora de uma entrevista de amor. Os dias que a precederam afiguraram-se-me intermináveis e tristes. A viuvinha também se mostrava ansiosa, quando menos por apanhar as suas cartas.

Mas, coitada! não recebeu as dez, recebeu cinco.

Pois se a achei ainda mais arrebatadora nesta segunda concessão que na primeira!...

E na seguinte semana recebeu apenas duas cartas, e nas outras que se seguiram recebeu uma de cada vez.

Ah! mas também ninguém poderá imaginar a minha aflição ao desfazer-me da última! um jogador não estaria mais comovido ao jogar o derradeiro tento! Eu ia ficar completamente arruinado; ia ficar perdido; ia ficar sem Laura, o que agora se me afigurava a maior desgraça deste mundo!

Arrependi-me de lhe ter dado dez logo de uma vez e cinco da outra. Que grande estúpido fora eu! Esbanjara o meu belo capital, quando o podia ter feito render por muito tempo!...

Então o espectro do madeireiro surgiu-me à fantasia, como eu o imaginava: bruto, vermelho, gordo e suarento. E Laura, ao meu lado, no abandono tépido da sua alcova sorria triunfante, porque tinha resgatado o único laço que a prendia a outro homem. Estava livre!

Rasguei a carta ao meio.

— Aqui tem, disse passando-lhe metade da folha de papel. Ainda me fica direito a um almoço e metade de uma noite em sua companhia... Peço-lhe que me deixe voltar...

Ela riu-se, e só então reparei que meus olhos estavam cheios d'água.

— Queres que te passe de novo o baralho?... perguntou-me enternecida, cingindo-se ao meu peito.

— Se quero!... Isso nem se pergunta!

— Mas agora é a minha vez de pôr a condição...

— Qual é?

— Só tornaremos a jogá-lo depois de casados, serve-te?

— E o madeireiro? Ele não tem cartas tuas?

— Tranquiliza-te que, além de meu marido, eu só amei e escrevi a um homem, que és tu!

— Pois aceito com todos os diabos! E, como ainda tenho jus a um almoço, não preciso sair já!

Uma semana depois, Laura dizia-me à volta da igreja:

— Mas, meu querido, como queres tu que eu te mostre uma pessoa que não existe?...

— Como não existe?... Então o teu ex-noivo, o célebre madeireiro, cujo retrato trazias no medalhão de ônix...

— Qual noivo! Aquela fotografia de um jardineiro que tive há muitos anos e que morreu aqui em casa.

— Então tudo aquilo foi?...

— Foi o meio de arrastar-te para junto de mim, tolo! e reconquistar o teu amor, que era tudo o que ambicionava nesta vida!

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