quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Jardineiro (Trovas, 1922)


Jardineiro
(1922)

Sou jardineiro imperfeito:
Pois no jardim da amizade,
Quando planto um amor-perfeito
Nasce sempre uma "saudade”...

Se amor é uma balança
De dois corações pesar,
O equilíbrio só se alcança
De maneira singular.

Não pesam nunca igualmente
Dois corações por iguais,
E o equilíbrio é justamente
Ter um menos... Ter um mais...

Zangadinha, zangadinha,
Quem foi que assim te zangou?
— Foi alguém que me adivinha
E sabe por que é que estou...

Sonhei que íamos seguindo
Por uma dessas estradas:
Um caminho branco e lindo,
Como nos contos de fadas.

E a tua voz me dizia:
“Amo-te”! E eu ria, e chorava,
Porque em sonho pressentia
Que era um sonho que eu sonhava.

Ora, a Vida! Deixe-a andar!
Não queiras da Vida ter
O que ela não possa dar
Nem tu possas merecer!

Voluvelzinha, tem calma!
Borboleta bandoleira,
Vais de uma alma para outra alma,
De uma para outra roseira.

Mas quando acabar a festa
Buscarás, desiludida,
Uma haste! Nada te resta.
Para o teu resto de vida...

De amor. Amor é infinito.
Do encanto do seu poder
Tanta coisa se tem dito!...
E há tanta coisa a dizer...

ADELMAR TAVARES

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...