quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Saudade (Trovas, 1905)



Saudade
(1905)

Quando a aurora vem surgindo
Pela floresta acreana,
Brilha a estrela matutina
Na minha pobre cabana.

Por entre as réstias das palhas
Eu contemplo o belo céu,
A pobre estrela desmaia
Envolta num denso véu.

O galo que então desperta,
Canta alegre no poleiro,
Soluçam as saracuras
No copado castanheiro.

Soltando ternos queixumes
Geme na selva a cascata,
Sussurra o vento que passa
No longo seio da mata.

Além das águas do rio
Ouvindo longos bramidos
E nos leques das palmeiras
Ouço da brisa os gemidos.

Sozinho, triste, exilado,
Minh'alma sentida chora,
Levanto, venho ao terreiro
Contemplar do Acre à aurora.

São liso manto esmeraldo
As verdejantes campinas,
Onde pendidas nos galhos
Brilham flores cristalinas.

Nas pétalas das brancas rosas
A minha lira desperta,
Chorando, soluça, geme
A minha musa deserta.

Sentindo eternas saudades,
Choro a quadra que perdi,
E os beijos de minha mãe,
E as plagas onde nasci.

Assim no Acre cismando,
Passando as noites sofrendo,
Sinto saudades infindas
Quando a aurora vem rompendo.

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