terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

História de um pardal (Conto), de Leon Tolstoi


História de um pardal

Em nossa casa, atrás das venezianas, um pardal fez seu ninho, e pôs cinco ovos. Eu e minha mãe observávamos o pardal trazer o suprimento necessário para a construção do ninho. Nós nos alegramos muito quando vimos que tinha ovos.

O pardal não trazia mais nem penas nem palhas, mas deitava-se sobre os ovos.

Um outro pássaro, que nos disseram ser o marido, trazia à sua mulher insetos para a alimentar.

Alguns dias depois, ouvimos piar, e olhamos o que se passava no ninho.

Havia cinco passarinhos, todos despidos, sem asas e sem penas; os seus biquinhos estavam moles, e as cabeças eram muito grandes.

Nós os achamos muito feios e não nos alegrava vê-los mais; no entanto prestávamos sempre atenção ao que eles faziam.

A mãezinha ia sempre buscar comida para eles, e quando voltava, os pardaizinhos davam gritinhos e abriam o bico, então a mãe distribuía-lhes pedaços de insetos.

Oito dias depois, os passarinhos mais crescidos cobriam-se de plumas e se embelezavam rapidamente, o que fazia com que os olhássemos com mais frequência.

Uma manhã, perto da janela, achamos o velho pardal morto debaixo da veneziana; imaginamos que tivesse aí pousado, e que ao fecharem a veneziana o tivessem esmagado.

Jogamos o velho pardal sobre a grama; os pequeninos gritavam e picavam abrindo muito os bicos, mas já não havia ninguém para lhes dar de comer.

Nossa irmã mais velha disse:

— Aí está, agora já não têm quem lhes dê de comer, tomemos, pois, conta deles...

E pegamos, alegres, uma caixinha que enchemos de algodão para colocar o ninho e os cinco passarinhos que levamos para o quarto. Foi preciso procurar insetos e molhar pão em leite para alimentar nossos pequeninos famintos.

Comiam bem, sacudindo as cabecinhas pequenas e limpando os biquinhos nas beiradas da caixa. Estavam tão felizes!

Comiam assim todo o dia e ficávamos satisfeitos vendo-os.

No dia seguinte indo olhar a caixa achamos o menorzinho morto, as patas emaranhadas no algodão.

Retiramos logo o algodão para evitar que este risco ocorresse com os outros, e o substituímos por musgo. Mas à noite dois outros pardais abriram o bico e morreram também.

Dois dias depois o quarto morreu: não nos restava senão um. Acreditávamos que tínhamos dado comida demais.

Minha irmã chorava, e encarregou-se de criar sozinha o último pardalzinho. E nós só tínhamos permissão de olhá-lo.

O último pardal estava esperto e alegre, vivinho, mesmo; demos-lhe o nome de Jiwtchik, que quer dizer “vivente”. Vivia tanto que já começava a voar, e a atender pelo nome.

Quando minha irmã o chamava: Jiwtchik, Jiwtchik! vinha e pousava no seu ombro, na cabeça ou na mão, e ela dava-lhe de comer.

Enfim fez-se forte e pôde comer sozinho. Vivia no nosso quarto e às vezes saía pela janela, mas sempre voltava para a sua caixa, à noite, para dormir.

Uma manhã ficou na caixa; suas penas molharam-se e eriçaram-se como as dos irmãos quando estavam para morrer.

Minha irmã não deixava mais Jiwtchik e cuidava dele com muito carinho; mas o pássaro não comia nem bebia mais.

Esteve assim doente três dias e ao quarto morreu.

Quando o vimos morto, de costas, suas patinhas encolhidas, choramos tanto que a nossa mãe veio ver qual a causa da nossa dor. Vendo o pássaro morto, compreendeu a nossa tristeza.

Durante muitos dias minha irmã mais velha não conseguia brincar nem comer pois chorava sem cessar.

Embrulhamos Jiwtchik no que tínhamos de mais lindo em retalhos, e o pusemos em uma caixinha de madeira que enterramos no jardim. Sobre o seu túmulo pusemos uma pedra e plantamos um salgueiro.


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Almanach Tico-Tico, 1922.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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