segunda-feira, 13 de maio de 2019

Resenha do livro “São Bernardo”, de Graciliano Ramos

Resenha de "São Bernardo”, de Graciliano Ramos 


Por: Paulo Marçaioli
Blog: esperandopaulo

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“Ora, essas coisas não passam como antigamente. Mudou tudo. Gente nasceu, gente morreu, os afilhados do major cresceram e foram para o serviço militar, em estrada de ferro. O povoado transformou-se em vila, a vila transformou-se em cidade, com chefe político, juiz de direito, promotor e delegado de polícia. Trouxeram máquinas – e a bolandeira do major parou. Veio vigário, que fechou a capela e construiu uma igreja bonita. As histórias dos santos morreram na memória das crianças”.

“São Bernardo” foi publicado em 1936, pouco após Graciliano Ramos ter renunciado ao cargo de prefeito de Palmeiras dos Índios (1928). Foi o segundo livro escrito pelo autor e é de uma qualidade superior à sua primeira obra, Caetés. Há neste romance algo que vai ser reiterado nas obras posteriores, como Angústia e Vidas Secas – a desagregação do mundo rural e a modernização capitalista que informa o desenvolvimento histórico do país a partir da independência ou se quisermos 1808. Os engenhos de açúcar e os potentados rurais que têm seu domínio local sempre inconteste passam a conviver com aquelas mudanças de longa duração com a abolição do tráfico e do trabalho escravo; a expansão do café e do trabalho livre; as novas tecnologias de transporte e comunicação com as linhas de trens, os bondes, a luz a gás e as cidades. Esta tradição é mencionada à propósito quando o narrador deste São Bernardo, o fazendeiro Paulo Honório, conta a história de um de seus subordinados, o seu Ribeiro.

Seu Ribeiro antes fora coronel e era respeitado e acatado por todos de sua vila. Se uma moça dizia-se grávida, o coronel descobria o sedutor, impunha o casamento e ainda virava padrinho. Se havia queixas e conflitos, o coronel decidia como juiz e sua decisão era irrecorrível. Mas vieram os delegados de polícia e juízes e não precisaram do coronéis para dirimir as lides. A mulher de seu Ribeiro deixou de prescrever curas caseiras pois agora havia médico. Deixa de ser o indivíduo quem infunde o respeito e o temor mas o estado com suas autoridades e bacharéis.

Pois é bem este tipo de mundo, obviamente relacionado à herança colonial do Brasil, que parece desagregar-se. Quem se lembrará das gerações que precederam Luís de Angústia: seu avô, um opulento fazendeiro. Seu pai, totalmente desinteressado pelos destinos do empreendimento rural, rolava o dia todo à rede lendo romances enquanto pingos de chuva inundam o interior da casa. E o neto, Luís, muda-se para o subúrbio da capital onde trabalha como escrevinhador, sempre ganhando uma miséria.

São Bernardo é um livro que diz bastante sobre a chamada geração modernista de 1930 que tinha um compromisso bastante evidente em descrever a realidade social, caracterizar o Brasil e, particularmente, o problema regional. José Lins do Rego e Rachel de Queiroz serão outros representantes desta corrente literária regionalista, que acaba suscitando as contradições sociais sem um simples esquema de maniqueísmos, mas elaborando as complexidades das personagens. Uma literatura que chama a atenção para as injustiças sociais sem com isso ser meramente panfletária e superficial.

Paulo Honório começa descrevendo-se como um homem de 50 anos, pouco instruído e que começou a vida lá de baixo, fazendo bicos quando criança nas ruas da cidade. Foi acumulando capital por conta própria. Adquiriu a fazenda de São Bernardo através da manipulação de Padilha, um escrevinhador de jornais com ideias de esquerda além de proprietário da fazenda abandonada.  Paulo Honório fez-lhe empréstimos de dinheiro  enquanto cobiçava São Bernardo. Aguardou o momento de fraqueza do devedor e pressionou-o sob ameaças a ceder-lhe a Fazenda.

A partir de estão, o empreendimento passa a ser a maior preocupação do nosso narrador. Para diminuir a mortalidade dos matutos e aumentar a produção, Paulo Honório proíbe a aguardente em São Bernardo. O fazendeiro tem interesse em obter favores do governo para o seu maquinário e constrói uma escola: não como um ato de solidariedade mas como um investimento.

“A escola é um capital, os alicerces da igreja são um capital”.

A certa feita, Paulo Honório descobre o agora professor da escola Padilha supostamente injuriando-o aos matutos e difundindo ideias revolucionárias. O fazendeiro reage com pontapés e injúrias contra o empregado dizendo que São Bernardo não é a Rússia. Depois, humilha Padilha negando-lhe o pagamento do ordenado, requerendo que o Professor seja “camarada”.  

Este temperamento brutal, duro e insensível não deixa de ser posteriormente reconhecido pelo autor-narrador. A maior parte da vida ponderou suas escolhas por aquilo que lhe fosse mais lucrativo: mas o trágico desenvolvimento da sua vida, a partir do surgimento de Madalena, além da decadência econômica de São Bernardo, irão fazê-lo pensar se tudo aquilo que fora construído valera a pena: o açude, a igreja, a escola, a estrada, a luz e o telefone instalados na fazenda.

Não se sabe se Paulo ama efetivamente Madalena. Certamente Madalena jamais amou Paulo. O protagonista conclui a proposta do casamento como se propusesse um negócio: a princípio o fazendeiro desejava casar apenas para ter um herdeiro para guardar São Bernardo. O enlace foi aceito e Madalena, uma alma boa e generosa, logo passa a se preocupar com a sorte e a pobreza dos moradores de São Bernardo. A moça era professora e instruída, falava e escrevia palavras ininteligíveis para Paulo Honório. Este só lia no máximo manuais de escrituração mercantil e de agricultura. E os seus ciúmes nascem e parecem ser o principal efeito de seu suposto amor. A vida familiar desperta atenção do fazendeiro para as suas fraquezas: sua ignorância e grosseria, seus modos de homem do mato, sua barba mal feita e corpo sujo de quem trabalho o dia inteiro no campo. A experiência amorosa de Paulo Honório revela-se assim pelo ciúmes, pelo ódio e pela insegurança.       

A desagregação daquele mundo rural forjado em 3 séculos de regime colonial, agrário-exportador e escravista, com a marca da pessoalidade no mando e da centralização político-administrativa em torno de  poderes locais. A instância máxima do poder público e familiar dos coronéis, agora em crise. São estes o pano de fundo das tramas de Graciliano Ramos. Mudanças sociais, políticas e econômicas dos anos 1930, no Brasil com a revolução de Vargas e no Mundo com os impactos da I Guerra, da Revolução Russa de 1917 e da Crise de 1929.   

A modernização de longa duração que ganha maior dinâmica no Brasil a partir de meados do séc. XIX tem como origens uma multiplicidade de fatores que envolvem a abolição do tráfico, a Guerra do Paraguai, a cultura do café, a introdução das linhas de ferro, a urbanização, o desenvolvimento da imprensa, do ensino e das artes. Mas certamente ainda há muito daqueles aspectos do passado colonial que foram herdados e sobrevivem. Os chamados sentidos da colonização enunciados por Caio Prado Jr. ainda revelam algo de nossa paisagem tanto econômica como política, seja com a permanência da concentração fundiária brasileira[1] e seja com a perpetuação de velhas oligarquias dirigindo politicamente  o país.


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[1] Grandes propriedades somam apenas 0,91% do total dos estabelecimentos rurais brasileiros, mas concentram 45% de toda a área rural do país. Por outro lado, os estabelecimentos com área inferior a dez hectares representam mais de 47% do total de estabelecimentos do país, mas ocupam menos de 2,3% da área total. Dados 2006.

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