domingo, 30 de junho de 2019

O mau rei e o bom súdito (Conto Histórico)



O mau rei e o bom súdito
El-Rei D. Sancho 2º, denominado o Capelo, ou por causa da sua maneira de vestir (mais monástica que militar), ou em razão de seu natural tímido e fraco, parecia antes mais próprio para viver retirado em um mosteiro, que para governar um Estado. Quando seu pai morreu, tinha ele 26 anos, e como era descuidado dos negócios do reino, e completamente inábil para o cargo que herdara, cada um vivia em Portugal muito à sua vontade, tanto por causa da brandura do monarca, e da sua simplicidade, como em razão da maldade de seus conselheiros, e validos; porque estes, vendo-o tão bem disposto para lhes deixar executar os maus desejos, se serviam de suas faltas para satisfazer sua avidez.
Ora, havia neste tempo em Castela uma viúva muito moça, bela, e de grande ascendência; era D. Mécia de Haro, filha de D. Lopo Dias de Haro, senhor de Biscaia, e de D. Urraca Afonso, filha natural de Afonso 9º Rei de Leão. Esta dama tinha sido casada com D. Álvaro Perez de Castro, filho de D. Pedro Fernandez de Castro, o Castelhano, e de D. Ximena Gomez, sua mulher, com quem havia tido longos amores. E era este o mesmo que se mostrava tão louco com a sua paixão, e tão contente de si próprio, que um dia tendo o Rei de Castela vindo por o cerco diante de uma de suas cidades, tinha mandado armar as muralhas de pano de seda, dizendo que não queria outra defesa entre ele e os que o vinham atacar. Enfim, tendo-se casado com D. Mécia, e tendo vivido alguns tempos com ela, havia morrido sem deixar filhos.
Foi então que achando-se D. Mécia no mais subido auge de seus encantos, os validos Del-Rei D. Sancho, que conheciam suas inclinações, exageram de tal modo a beleza desta dama, que o persuadiram a tomá-la por mulher. Sendo eles, pois, os autores da sua união, D. Mécia reconheceu sempre a obrigação em que lhes estava; e foi para com eles tão excessiva a sua gratidão, que por causa dela esteve o reino a ponto de se destruir. D. Mécia, com seus validos e os conselheiros Del-Rei D. Sancho, dispunha de tudo a seu bel-prazer, dando os empregos e os benefícios, fazendo o bem e o mal conforme lhe agradava.
Então os nobres e os prelados fizeram advertências a El-Rei D. Sancho, representando-lhe que D. Mécia era sua parenta por sua tia Berengoela: e que, se, conforme a lei de Deus, ele a não podia desposar, segundo a lei da honra, ainda menos o devia fazer, sendo D. Mécia estéril. Numa palavra, diziam que devia largar esta mulher; mas o Rei lhe estava tão afeiçoado, que, ou fosse por arte de magia, ou por causa da sua beleza, não podia separar-se dela. Indo as coisas assim, e continuando ela a favorecer os conselheiros do Rei, mil extorsões, e mil rapinas se cometiam, sem que nenhum cuidado dessem a El-Rei, e sem que ele escutasse as queixas de seus súditos.
Os prelados do reino se queixaram, enfim, ao Papa Gregório 9º. D. Sancho fingiu arrepender-se, mas depois voltou a seus primeiros excessos de fraqueza, que permitiam toda a qualidade de dilapidações e violências. A excomunhão foi lançada, mas só no pontificado do Papa Inocêncio 4º. D. Sancho, perdido em seus amores, resistiu ainda. Contudo, eis que um dia, estando em Coimbra com a Rainha, um certo Raimundo Viegas de Porto Carreiro, acompanhado de outras pessoas das fronteiras da Galiza, chegaram a esta cidade. Estes guerreiros se apoderaram de D. Mécia, que transportaram ao castelo de Ourém. Então El-Rei, seguido de muita gente, partiu armado a requerer que se lhe entregasse sua mulher. Nada conseguiu; eles a conduziram à Galiza, e dali passou a Castela, de onde não voltou mais a Portugal.
Mas como El-Rei se não emendou de nenhum modo, nem os malfeitores receberam castigo algum, os prelados tornaram a queixar-se ao Papa Inocêncio 4º. D. Sancho foi advertido ainda outra vez, mas o seu fraco triunfou; decidiu-se que um regente seria escolhido para governar o reino. Ora, os prelados escolheram, diante do Papa, que lhes pedira fizessem eleição de um Monarca, o Infante D. Afonso, Conde de Bolonha, irmão do Rei, a quem de direito tocava o poder.
El-Rei estava em Coimbra, quando viu as cartas do Papa, e as do Conde de Bolonha, seu irmão, que queria entrar no reino. As penas de excomunhão de que ele usava, a força que impunha aos rebeldes, o faziam obedecer. D. Sancho ficou perturbado, e muito mais o ficou ainda, quando seus maus conselheiros lhe disseram que não devia esperar que fizessem a menor resistência ao Conde, e que lhe era mister partir para Castela a pedir socorro a El-Rei D. Fernando.
Pondo em execução este projeto, El-Rei foi a Toledo contar a causa da sua ida ao Soberano de Castela, e dizer como o Conde de Bolonha pretendia usurpar-lhe o reino.
Com efeito El-Rei D. Fernando se ofereceu de moto próprio a mandar-lhe socorro, e no mesmo instante ordenou que o Infante D. Alonso de Molina se dirigisse para Portugal, e que D. Diogo Lopes de Haro, senhor de Biscaia, o acompanhasse. Era este o próprio irmão de D. Mécia Lopes, mulher Del-Rei D. Sancho. Muitos outros fidalgos partiram com eles, mas já uma parte do reino pertencia ao Conde.
Todavia, quando o Conde de Bolonha soube da vinda Del-Rei D. Sancho, reuniu certos prelados, que escreveram aos frades de São Francisco da Covilhã, executores das penas fulminadas nas cartas do Santo Padre, afim de cumprirem o seu ofício. Estes foram imediatamente ter com El-Rei e com o Infante de Molina, e lhes advertiram, que, debaixo de pena de excomunhão, houvessem de respeitar as ordens do Papa. Desta sorte eles não ousaram avançar além da vila de Abiul; e, muito melhor ainda, tornaram a tomar o caminho que primeiramente haviam seguido.
Então o Infante, e os fidalgos que vinham com ele, aconselharam El-Rei que ficasse em seu reino como lhe fora determinado, ou que fosse com eles para Castela. El-Rei escolheu não ficar em Portugal.
Depois desta vergonhosa fugida, quase nenhuns fidalgos ficaram neste reino que não seguissem o partido do Conde de Bolonha; porque, enfim, era português, filho de seu Rei natural, homem prudente e de bom governo. Mas quanto às praças fortes, os Alcaides estavam tão constantes em sua lealdade que quase não havia quem o recebesse de bom grado, por causa do juramento. Só Fernando de Taíde, Alcaide mor de Leiria, foi quem recebeu no seu castelo o Conde de Bolonha, e por causa deste único fato, ficou reputado por infame entre os homens daquele tempo. O autor do Nobiliário ou livro das linhagens de Portugal, o Conde de Barcelos, o próprio neto do Conde de Bolonha, nota de traidores e cobardes a Sueiro Bezerra e seus filhos, porque, esquecendo-se de sua homenagem a El-Rei D. Sancho, entregaram certas fortalezas que comandavam na província da Beira, e isto sem serem cercados.
Mas nem todos os Alcaides fizeram o mesmo e eis-aqui como se portaram com o Conde de Bolonha os que comandavam em Celorico, e se conservavam pelo antigo Rei na cidade de Coimbra.
Fernando Roiz Pacheco era Alcaide comandante da primeira destas fortalezas na Beira, mas tinha-se sempre recusado a entregar as chaves dela ao Regente, de sorte que o Conde, nada podendo concluir, nem com afabilidade, nem com promessas, lhe veio por cerco diante do castelo. Muitos ataques foram renovados, mas, graças à fortaleza do lugar, e à bravura da gente que Pacheco tinha consigo, as forças do Conde estacaram, e o cerco durou tanto tempo, que os víveres vieram a faltar aos de dentro. Viram-se então estes bem depressa reduzidos a uma tal extremidade pela fome, que, para não morrerem de uma morte desesperada, se achavam prontos a entregar a fortaleza.
Estando a ponto de sofrer esta vergonha, conta-se que Fernando Roiz se levantara um dia muito de madrugada, e que entrara a andar pelas trincheiras. Submergido em diversos pensamentos, não sabendo já, numa tal situação, a que se resolvesse, pedira a Deus, que, por sua misericórdia, o socorresse num tal trabalho, e que sobre tudo lhe poupasse a vergonha, impedindo-o de entregar o castelo a quem o não devia fazer.
Em quanto ele estava nestas imaginações, viu levantar-se das praias do Mondego, que corre mui perto dali, uma águia que levava nas garras uma truta mui grande. Como o pássaro tomasse o voo por cima do castelo, eis que a truta caiu sobre as trincheiras. Fernando Roiz ficou um pouco alegre com este acontecimento. Depois uma ideia lhe ocorreu de repente: vendo aquela truta tão bela, e tão fresca, mandou-a preparar, e meter numa empada, e depois enviou-a de presente ao Conde de Bolonha; mandando-lhe dizer que bem podia sustentar o cerco, quanto tempo fosse da sua vontade; mas que se era por fome que esperava que ele se rendesse, houvesse de considerar o que deviam fazer pessoas daquela maneira providas, e com tais iguarias, acrescentando que era pouco provável que o vissem entregar o castelo contra a sua honra. O Conde, e os que estavam presentes, ficaram extremamente maravilhados, não sabendo como isto tinha podido acontecer. Vendo, pois, que de prolongar o cerco nada de bom lhe resultaria, o Regente se retirou com o seu exército.
Eis-aqui o feito do bom súdito.
Não restava em Portugal, da parte de D. Sancho, senão o castelo de Coimbra: mas era a fortaleza mais honrosa do reino, porque esta cidade tinha o titulo de capital, e servia de residência aos Reis. Quem ali governava era D. Martim de Freitas, Cavaleiro muito famoso, e de ilustre ascendência. Tendo o Conde feito todas as diligências possíveis com ele para que lhe entregasse a praça, antes de recorrer às armas, Freitas o desenganou de tais esperanças, e lhe disse: que em quanto vivesse El-Rei D. Sancho, nada lhe seria entregue sem sua ordem; e que para ele, D. Martim, a morte ou os maus tratamentos eram coisa menos de temer que a deslealdade. Que portanto podia dispensar-se de lhe meter medo com a morte, ou com outros perigos, porque estava decidido a sofrer tudo; e que, finalmente, ele não estava no mundo para fazer estado da vida, mas sim para ganhar honra, e para a conservar. O Conde pôs o cerco, e fez atacar muitas vezes o castelo.
Tanto valor se mostrou de ambas as partes, que de ambas igualmente houve ali grande número de mortos e feridos; e ainda que os combates se renovassem, o alentado esforço do Alcaide e de seus companheiros era tal, que bem pouco serviu o trabalho dos sitiantes. O Conde, indignado, fez solene juramento de não levantar o cerco em quanto não obtivesse o castelo por assalto ou por fome. Tanto ele perseverou, que as provisões e a água começaram a faltar aos de dentro; chegaram até a comer as bestas de carga, os cães, e os gatos, e outras coisas desusadas, a que repugna o natural do homem. O Conde, sabendo em que miséria estavam, e sentindo-se pesaroso de que homens tão corajosos sofressem tanto, lhes mandou pedir que se rendessem, dizendo-lhes, que, sem causa, se não matassem a si próprios; que não tinham razão de crer que aquilo fosse proeza, que antes era loucura, porque nada poderiam conseguir. D. Martim de Freitas respondeu, que, pela sua honra, não desistiria do desígnio em que estava.
Achando-se estes Cavaleiros, pois, em grande tristeza, eis que do alto do castelo viram passar um Cavaleiro que a vau atravessava o Mondego, e cujo cavalo, saciado, de nenhuma maneira lhe importava beber. Magoados de se verem em tal estado, que até inveja tinham de uma besta, começaram a lamentar-se, a dizer mal da sua sorte; e entre os que assim falavam, havia parentes e amigos do Alcaide. Considerando o trabalho que sofriam, e a necessidade em que se achavam, sem esperança de ajuda ou socorro, e meditando, além disso em que D. Martim era o único que perseverava naquela obstinação, lhe disseram, que para terem vida, ele e os seus, era preciso entregar o castelo. D. Martim lhes respondeu: "Deus não permita que eu obedeça a um tal conselho, e que haja uma semelhante nodoa na minha honra!" Ele acrescentou que não consentiria jamais numa traição igual à que lhe seria preciso cometer, se entregasse o castelo a outro que não fosse aquele de quem o recebera em fé e homenagem; que um tal dever se não quebraria, pelo menos em quanto ele vivesse; que bem via a tribulação em que estavam com ele, e que a sua era maior, porque sentia o mal geral e o seu; mas que, se queriam lembrar-se dos males, ainda maiores, que alguns cercados tinham padecido para manter a sua lealdade, eles sofreriam com mais paciência. Deus queira, pela sua misericórdia, continuou ele, socorrer-vos, e fazer-vos sair prontamente deste trabalho. Algum dia vos alegrareis de ter para contar a vossos filhos os males que tendes suportado, e isto não será para eles uma fraca honra, nem uma fraca instrução para a vossa descendência. Ia-lhes também recordando, que, se obtendo alguma coisa de beber e de comer, eles salvavam sua vida, esta vida devia ser curta, mas que a infâmia de não ter acabado com glória coisa tão bem começada, duraria sempre. Demais, que tudo o que lhes pedia, era que, como homens que mais amavam o espírito do que a carne, o ajudassem, e não o deixassem à revelia, ao menos em quanto isto estivesse em seu poder. Finalizou com estas palavras: "O trabalho e a paciência tem sido comuns, a glória seja também igual para todos." D. Martim de Freitas, para mais abonar a firme resolução em que estava, disse ainda "que a honra de sua filha lhe era mui chara, mas que mais depressa cederia de sua virgindade, que entregaria a fortaleza de Coimbra." Depois que D. Martim proferira estas palavras, ficaram como assombrados do seu zelo, louvaram sua bondade, tomaram eles mesmos novo ânimo, e prometeram-lhe de satisfazer o seu desejo, tivesse ou não razão; acrescentando que em nenhuma circunstância o abandonariam, e que antes sucumbiriam todos que faltarem a esta promessa.
O Cavaleiro e os seus continuavam a estar nesta posição difícil, havendo já contudo perto de um ano que El-Rei D. Sancho tinha ido para Castela. Mas naquela época o Conde de Bolonha recebeu notícia certa da morte de seu irmão, e sentindo-se magoado da perda de tantos homens de bem, e admirado de tão grande lealdade, lhes enviou munições de boca, assim como refrescos. Mandou também juntamente uma mensagem para o Alcaide, em que lhe participava que El-Rei era morto, e que se ele queria pessoalmente informar-se disso, lhe permitia a ele, Martim de Freitas, a ida a Castela, e a volta à fortaleza, sem que, durante a jornada, tivesse receio de algum ataque da sua parte.
D. Martim foi a Toledo, e bem que soubesse de todos que El-Rei D. Sancho era morto, bem que lhe mostrassem onde estava enterrado, ainda isto o não satisfez. Para adquirir mais certeza fez levantar a pedra que o cobria, e quando conheceu bem que era ele, diz-se, que, diante de numerosas testemunhas, quis satisfazer todas as promessas de homenagem: pôs as próprias chaves da fortaleza no braço direito Del-Rei D. Sancho, e autenticando esse fato com notários públicos, de quem requerera a presença, fez fechar o túmulo.
De volta para Coimbra, entrou de noite, e em segredo, no castelo: foi dali que no dia seguinte, de manhã, enviou a dizer ao Conde, já reconhecido Rei, que fosse tomar posse da praça, que ele D. Martim de Freitas podia entregar-lhe. El-Rei se dirigiu à fortaleza, e foi o mesmo Alcaide quem lha abriu. Então, pegando pela mão de sua mulher e filhos, os pôs fora, dizendo-lhes:
— Deixemos este castelo a quem pertence. Depois, pondo um joelho em terra diante do Rei, e pegando nas chaves da praça, lhas ofertou, pronunciando estas palavras:
— Senhor, pois que aprouve a Deus que D. Sancho, vosso irmão, morresse, tomai as vossas chaves e o vosso castelo. Dora em diante vos terei por meu Rei e Senhor; e ao mesmo tempo mostrou a Afonso as escrituras que mandara fazer em Toledo, para sua honra e descargo.
Um Cavaleiro que estava presente o interrogou, dizendo: Porque não pedia perdão a El-Rei de todos os desgostos que lhe havia causado, e do agravo que lhe fizera, deixando matar e ferir tanta gente, e negando por tanto tempo ao seu Soberano a entrada de uma praça que era sua.
Como D. Martim de Freitas quisesse desculpar-se, e mostrar que semelhante coisa se não devia esperar dele, El-Rei acudiu prontamente em seu socorro, dizendo que D. Martim não tinha de que pedir perdão; que não cometera falta alguma; que antes, bem ao contrario, a sua ação valorosa era de louvar, digna de um bom Cavaleiro, e de um fidalgo leal; e que em memória deste feito lhe entregava o castelo, para que ele e seus descendentes o guardassem, sem que ele nem seus sucessores fossem obrigados ao juramento de fidelidade.
D. Martim respondeu a El-Rei que olhava esta oferta como uma grande mercê, mas que de nenhum modo a aceitava; e que amaldiçoava seus filhos, seus netos, e todos os seus descendentes, se por um castelo chegassem a prestar homenagem ao Rei, ou a qualquer outro indivíduo.
Eis-aqui o que era a lealdade portuguesa.



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Autor desconhecido (1851)
Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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